terça-feira, 29 de dezembro de 2015

As forças políticas de São João del Rei já estão em campo para 2016


Conforme artigo de meses atrás no São João del Pueblo, as eleições municipais de São João del Rei já começaram! Os dois principais candidatos, Rominho e Nivaldo, já estão praticamente em campanha. Agora é a fase de montagem das chapas, das coligações, da preparação logística, em resumo, é talvez o momento em que as eleições realmente se decidem.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

PÃO DOCE COM BOLACHA: RELATIVIZANDO O GOLPE NO PASSADO PARA FORJAR O FALSO GOLPE NO PRESENTE

A farsa histórica não agrega consciência

A comparação esdrúxula da crise atual com a conjuntura de 1964 alcançou o paroxismo. Para defendê-la, até mesmo edulcoram-se o golpe e a ditadura impostos em 64! Um “pão doce com bolacha”! O golpe que se desenharia no horizonte é pior! E se requenta uma velha e inusitada ameaça oligárquica! E ainda uma estranha e caricatural luta de classes... Com objetivos políticos menores, arrisca-se a uma farsesca comparação histórica que não contribui para a reflexão da sociedade e, em especial, a classe trabalhadora (1).

Um golpe sem militares, sem Guerra Fria e sem apoio estadunidense, sem IPES ou IBADE, sem articulações com setores empresariais e com os grandes proprietários de terra fincados no ministério da Agricultura... Uma ameaça oligárquica a ser barrada por Ciro Gomes, Renan Calheiros e afins! Uma guinada do capital contra o governo que enriqueceu os bancos, as mineradoras, os agroexportadores e as empreiteiras, tendo com eles não só excelentes relações políticas, mas também promíscuas relações financeiras... Relações cada vez mais evidentes para a população e a classe trabalhadora, e cuja defesa se resume, cada vez mais, ao "todo mundo faz".
De um capitalismo que vai, estruturalmente, muito bem obrigado. Que não tem contradições com políticas compensatórias, recomendadas pelo Banco Mundial, e adora créditos públicos, já teve atos e promessas de flexibilização trabalhista e, apenas, se ressente um pouco da incompetência em infraestrutura...
O delírio micro-coletivo vê até “milícias fascistas” em ação. Um ex-ministro neoliberal, antigo defensor de uma reforma típica do Estado mínimo, vê a democracia ameaçada pelos “liberais” e em risco “os direitos civis e o sufrágio universal”! Outro, defensor da tese embolorada de um liberalismo fora de lugar no Brasil, opõe um suposto “campo popular” aos “os interesses do dinheiro”. Um “filósofo” fala de uma etérea “energia sequestrada” da sociedade em defesa de “um sistema estruturalmente podre e corrupto”.

Delírio que abstrai o desconforto da sociedade para com o governo, em especial para com o estelionato eleitoral realizado por Dilma Rousseff e sua trupe. A rejeição popular para com um Estado incapaz de gestão e planejamento, inchado de assessores inúteis e imerso em esquemas de corrupção. Fatos visíveis a olho nu, até porque se multiplicam e refletem em administrações estaduais, municipais e órgãos públicos, tais como as universidades. Abstraem este incômodo refletido nos 70% de aceitação do impeachment nas pesquisas de opinião. Que esses intelectuais certamente atribuirão à manipulação da mídia, afinal, “campo popular” sem povo, faça-me o favor...

A senhora Marilena Chauí, autora da comparação do golpe de 64 com um “pão doce com bolacha”, diz que o impeachment é a “a ‘cereja no bolo’ da direita”, de uma pauta conservadora no Congresso. Citando a redução da maioridade penal e a lei antiterrorismo. A redução da maioridade penal, um ataque ao “campo popular” que tem apoio de quase 90% da população mais pobre, que não entende nada de si mesma, uma lástima... E uma lei antiterrorismo curiosamente proposta e defendida pelo governo a ser derrubado... Para a senhora Chauí trata-se da “vitória completa do capital na luta de classes”. Com o apoio de “uma classe média [a cômica obsessão da filósofa] ‘proto fascista’ para implantar um governo reacionário”. 
O que importa o delírio destas “esquerdas” alavancando o impeachment, ou não, de Dilma Rousseff a um fato transcendental? Certamente muito pouco para o desenrolar do imbróglio institucional. Isso porque eles têm alguma razão: são as oligarquias que o definem. Oligarquias no sentido posto por Robert Michels, ou seja, de grupos que controlam o jogo político em detrimento do seu caráter representativo, não exatamente no sentido dado pelos delirantes. Aliás, já o fazem, sempre o fizeram, e não o deixaram de fazer, "podre e corrupto", nos últimos treze anos. Menos ainda para a representação de interesses dominantes, obviamente bem equacionados no mesmo período.
Virtualmente inútil para o desatamento da crise, em qual sentido que se dê, o delírio, que alude a paranoicos fascismos de ocasião e a paralelos históricos descabidos, apenas contribui para a ridicularização de um patrimônio ideológico já bastante desgastado. Aliás, em boa parte pelos treze anos de Lulismo e seu amálgama de plena conformidade com a ordem do capital, e com suas formas políticas mais grosseiras, e mobilização de elementos simbólicos “de esquerda”. Apelar para “fascismos”, “oligarquias” e “capital” para isso apenas reforça este despolitizante divórcio com a realidade, promovido pelo Lulismo e muito bem recebido pelos setores dominantes e conservadores.
Enquanto isso, um embate de oligarquias políticas busca uma rearrumação de fôlego curto – e o que se esperaria do nível de anomia política ao qual chegamos? – que não mexe com a ordem instituída, para o bem e para o mal. No último movimento, as articulações governistas junto ao Supremo Tribunal Federal barram as ações do presidente da Câmara e dão força ao Senado, onde é mais forte o governo, ao mesmo tempo em que, sintomaticamente, indica o relaxamento de prisões oriundas da Operação Lava-Jato. Como isso repercutirá na opinião pública? Ora, isso não importa, não é mesmo? O “campo popular” somos "nós"...

Pode-se, legitimamente, defender o mandato de Dilma Rousseff. A mobilização delirante de certos argumentos, no entanto, é de fato preocupante. A busca de "fascistas" embaixo das camas, a elaboração de uma "oligarquia" que não existe ou está em todo lugar, e o ficcional embate com o "capital", são invenções despolitizantes. Despolitizantes porque se não são desde já evidentemente delirantes, o serão logo. E, pior, este delírio parece, e mais parecerá, uma jogada maquiavélica.

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1) http://www.viomundo.com.br/politica/para-chaui-golpe-agora-fara-64-parecer-pao-doce-critico-do-pt-arantes-relembra-milicias-fascistas-para-schwarcz-estrategia-da-oposicao-foi-tornar-pais-ingovernavel-nobre-diz-que-brasil-vie-eng.html


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Cunha já caiu, Dilma não cairá agora, mas também não terminará o mandato

Como podem notar, não tenho tido tempo para escrever artigos de opinião política, apesar da efervescência do momento, mundial e brasileira. Contudo, dada a gravidade aparente das lutas palacianas em Brasília, sou obrigado a deixar clara minha opinião.

O governo Dilma está fraco, provavelmente não durará até 2018, pois mesmo a saúde da presidente é fraca, e em um tempo de crise o peso sobre ela é maior ainda, torando muito difícil que ela se sustente por mais três anos. Então, mesmo que por milagre ela consiga se sustentar politicamente, por exemplo favorecendo-se da estupidez dos adversários, diversos outros problemas tocaiam esse governo. Fato é que "adoecer" é para ela uma boa estratégia. Na suposição de que ela seja derrubada nesse momento (note-se que agora meses ou até semanas estão fazendo diferença) e contra a vontade, teremos uma crise política, forte divisão do país, tanto regional quanto social, com muitas consequências imprevisíveis, mas algumas óbvias, como forte agravamento da crise econômica (ninguém coloca o capital no mercado em uma sociedade tensa).

O processo de impeachment aberto por Cunha se fragilizou pelo fato de ter sido aberto por ele, e por, claramente, ser resposta ao prosseguimento das investigações sobre ele. Esse processo está comprometido, não tem legitimidade em canto nenhum do mundo, pois os colaboradores do golpe claramente não contam. Porém é provável que muitos dos mesmos argumentos sejam usados em um processo posterior e com legitimidade, depois que Cunha se for, e ele se vai.

Um presidente da Câmara que não pode viajar para o exterior por medo de ser preso pela Interpol é uma piada, insustentável, só ainda não caiu porque o regime está quase tão corrompido quanto ele. Com ele se desmoraliza mais um pouco a "bancada evangélica". Os evangélicos de verdade estão sendo desmoralizados e caluniados pela existência desses deputados ditos evangélicos, maioria de pastores que usaram o dinheiro ganho com serem pastores para se elegerem, campeões de processos por corrupção (as igrejas não são vigiadas e eles portanto não têm treino em fraudes comparável aos empresários, aos parasitas de sindicatos e de entidades estudantis, aos advogados de grandes empresas etc.) e protagonistas de episódios vergonhosos.

A saída de Cunha e de Dilma, provavelmente nessa ordem, não colocará fim na crise política, mesmo porque o discurso de Temer já indica é mais crise. Mesmo que não fosse Temer, e que o vice fosse o mais preparado dos brasileiros, não escaparíamos de mais e mais crise, porque é o regime de 1988 que se foi. No vácuo deixado por ele as forças sociais disputam, e isso é o que vemos como crise política. Não estamos errados, um período de crise é um período de transformações.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O Brasil só avançará quando se livrar do Partido Português

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A história do Brasil, desde a independência, com pequenos períodos de exceção, é marcada pela formação de grandes coligações que acabam sendo inativas e corruptas, por precisarem ser muito grandes, para enfrentar um inimigo comum. Esse inimigo comum são forças anti-nacionais que existem desde antes da independência, quando receberam dos brasileiros o merecido apelido de – Partido Português! Elas nunca aceitaram esse nome, como até hoje usam várias outras siglas, mas é o nome que merecem.
O fato de não termos podido exterminar esse partido anti-nacional logo de início, caso raro entre os países que conquistaram a independência, tem nos custado caro até hoje. Acreditamos todos que, com a morte de Pedro I, o Partido Português estaria extinto como que por mágica. A estratégia recolonizadora era restaurar o trono do déspota luso, depois reunificar Brasil e Portugal. Morto Pedro I parecia natural que os recolonizadores desistissem por falta de possibilidades reais. Mas não foi assim!
Fato, hoje se nota, é que os recolonizadores nunca desistiram. Quando Lisboa se tornou claramente impossível como metrópole, eles se agarraram a London, e quando a Inglaterra também perdeu seu posto, adotaram Washington como nova metrópole de seus sonhos. Levantam em nossas ruas a repugnante bandeira imperial, símbolo de assassinatos, torturas e estupros em todo o mundo. Odeiam o Brasil, odeiam a Petrobrás, quando podem se mudam para Miami. Não são brasileiros de coração.
Se a recolonização do Brasil tem se mostrado uma tarefa para lá de difícil, e se décadas de esforços dos traidores são desfeitas com um movimento dos brasileiros, por outro lado a existência constante do Partido Português é um mal terrível, que tem atrapalhado o progresso brasileiro. Os brasileiros tem sido obrigados, quase o tempo todo, a se conformarem com o país não progredir. Para derrotar o Partido Português, que tem por trás de si o império (daí todas as TVs abertas, todas as revistas e jornais que vendem em bancas), formam-se coligações amplérrimas, com conservadores, com corruptos, com todo tipo de gente, e com tal pluralidade uma coligação não faz nada! Pior, ela acaba sendo recolonizadora, que é o que se faz cedendo à pressão do capital.
Ai está o fracasso petista dos últimos 13 anos como exemplo. Mas quem se lembra de diversos governos passados, e sobretudo quem estuda a história do país, nota que as coisas só estão se repetindo com o tempero da época. Mais um desgoverno corrupto e incapaz de medidas decentes. Nota que não estamos saindo do lugar. Não sairemos enquanto existir Partido Português com essa força de hoje. Até lá sempre assistiremos a população escolhendo o “menos ruim”.
A recolonização, desde o século XX, adotou a tática liberal, ou seja, entregar o domínio econômico do país ao estrangeiro para que daí os estrangeiros controlem a política. Em outras palavras, o imperialismo em seu formato atual, capitalista, para os recolonizadores é um sonho, um plano, um projeto. Fato é que têm executado esse projeto ao menos desde meados do século XX, e já somos meio colônia. Contudo, é muito difícil, como já se disse acima, realizar esse projeto, e os recolonizadores estão longe de estarem satisfeitos. Continuam e continuarão atuando, até serem completamente derrotados, ou até jogarem nossa bandeira nacional em museus.
Denunciar exaustivamente as forças traidoras da pátria, denunciar a estratégia econômica adotada para a recolonização, recuperar o sentimento nacional e latino-americanista, são tarefas indispensáveis para abrir caminho para o futuro. Destruir as forças anti-nacionais. Desmoralizá-las até o ridículo. Desmascarar seus chefes. Os melhores momentos da história do Brasil, os momentos de avanços, foram aqueles em que o Partido Português estava quase extinto. Quando essa força está muito abatida, por acabar de sofrer uma grande derrota ou por alguma outra característica do momento que a enfraqueça, acontecem avanços, reformas, regenerações, mas quando as forças anti-nacionais erguem outra vez a cabeça, é necessário buscar aliados entre os inimigos das reformas, dos avanços, das regenerações. Imagine-se então quando tivermos eliminado completamente essa força política, o quanto avançaremos!

Por exemplo, pensar em socialismo, quando no seio mesmo da pátria existe um grande e poderoso partido anti-nacional chega a ser cômico. Ou mesmo a luta contra o imperialismo, que sentido tem quando não se destrói as forças que dentro mesmo do país são mais que aliadas, amantes do imperialismo? Não se trata de uma questão de fase do capitalismo brasileiro, não se trata de fazer uma revolução nacional, visto que a nossa já vem sendo feita desde 1822, mas só e simplesmente de liquidar uma força política. Ou seja, é uma questão estratégica, um objetivo político que precisa ser cumprido antes dos outros para não os inviabilizar. Uma excrescência, que em quase todo lugar desaparece quando a independência é conquistada, aqui ainda precisa ser extirpada. No passado esses recolonizadores foram chamados de “pés-de-chumbo” ou “chumbeiros”. Nada mais apropriado quando o papel deles no Brasil é como o de uma âncora bem presa ao solo. O navio está pronto para zarpar, só falta “largar o ferro” no fundo do oceano.

domingo, 13 de setembro de 2015

O LULISMO VERSUS DILMA

Wlamir Silva
Professor e historiador



A cínica declaração de Lula sobre a perda do grau de investimento pela Standard & Poor’s (S & P), dizendo ser nada o que comemorava como grande conquista em 2008, é mais do que um mero “as uvas estão verdes”. O “momento mágico” de 2008, não obstante o falso descaso de hoje, dá margem à comparação desairosa com o momento atual. E Lula sabe disso. É mais um capítulo do sutil abandono de Dilma Rousseff à própria sorte. Implícita uma comparação entre o seu governo, no qual ele “fez o que quis”, e o de sua criatura, que buscaria agradar a todo custo a agências como a S & P. Não à toa, sublinha que as políticas sociais que realizou foram “responsabilidade do [seu] governo” (1)...

Busca-se o esquecimento de que já em suas primeiras ações de governo, sem falar no acordo prévio da Carta aos Brasileiros, Lula deu continuidade à ortodoxia “macroeconômica”, com Antônio Palocci e Henrique Meirelles.  Os quais deram azo a uma política baseada exatamente no respeito aos fundamentos financeiros que, hoje, Lula demoniza em Levy e Dilma. Fundamentos que não foram contrariados pelas suas políticas sociais compensatórias ou arroubos de investimentos, com as quais não tinham, ou têm, contradições de fundo. A questão é mesmo de conjuntura e, sim, de acúmulos de ineficiência e desestruturação da máquina estatal.

A relação umbilical da crise brasileira com o refreamento da economia chinesa põe em evidência o que já se sabia há muito. O “efeito China”, pelo boom de commodities e pelo consumo facilitado, tinha fundamental papel no “momento mágico” de Lula. Possibilitando políticas sociais, investimentos e consumo popular de bens. Com uma exportação que cresceu 400% em uma década, a “responsabilidade do governo” Lula esteve em não aproveitar a maré favorável para esboçar uma política industrial, em encher o aparelho estatal de uma miríade de “companheiros”, em desprezar o planejamento, ser incapaz de alavancar a infraestrutura, em aderir e justificar velhas práticas clientelistas e, por fim, em patrocinar um esquema de corrupção que assumiu e “organizou” as práticas tradicionais, em favor de uma máquina política e do enriquecimento pessoal.

Buscando se afastar de Dilma Rousseff, Lula alimenta a tese de que tudo ia bem... Até agora. Dilma é criatura de Lula, o seu projeto com ela era o de uma mediocridade que não o ofuscasse, e fosse capaz de um governo medíocre que propiciasse o seu retorno para alterações de rumo. O resultado catastrófico alterou os planos. É preciso afastar-se da criatura, uma tarefa difícil. É interessante considerar neste contexto o artigo publicado na Folha de São Paulo pelo cientista político André Singer. Singer, ao que parece, retoma ali, informalmente, o posto de porta-voz de Lula (2). Logo em seu primeiro parágrafo, Singer pontua o atual governo como “desesperadamente carente de orientação”, e já vaticina que o rebaixamento pela S & P "inaugura o que pode ser um dos últimos capítulos do segundo mandato de Dilma Rousseff(3).

Não é contraditório que pela voz mais sofisticada do porta-voz o rebaixamento da S & P volte a ter significado e que se questionam suas “reações tópicas”. Os arroubos “radicais” de Lula são o que são... Mas Singer e seus confrades devem saber o que significa iniciar um artigo em veículo de imprensa nacional com o vaticínio do impeachment grafado em seu primeiro parágrafo...  Frente a isso de pouco vale a menção, de passagem, a um “plano golpista”. À Lula, Singer insinua que Dilma cede a “pressões imediatas” no campo econômico, com “cortes urgentes e medidas administrativas de contenção”, pondo em risco “as conquistas sociais do período lulista”. À Lula, porque põe os impasses do governo sob o signo das escolhas pessoais de rumo... Como se vê, nem é tão sutil a secção entre a “Era Lula” e o governo de Dilma Rousseff, a serviço de um paulatino descolamento político visando 2018.

A Dilma Rousseff é atribuído um desnecessário e, portanto, escolhido, “ajuste fiscal draconiano e assassino” cujo resultado é a recessão. Uma recessão veio antes, e seus efeito já se faziam ver antes do fim das eleições presidenciais, mesmo antes do mero “anúncio” do ajuste fiscal, como se sabe. Mas vale tudo para descolar a crise da Era Lula, que passa a se opor ao caos escolhido e fabricado apenas pela senhora Rousseff. Mas Singer desloca a questão para o que ele chama de “vácuo político”. Um parágrafo é emblemático da tese a ser desfiada. Por ele, para fugir ao impeachment

“Dilma precisaria sair da encalacrada em que começou a se meter no dia seguinte à reeleição, quando, ao contrário de tudo o que prometera, foi buscar no mercado financeiro alguém para comandar o Ministério da Fazenda. Isolada do conjunto da burguesia, aconselhada por Lula desde 2012 a tirar Guido Mantega, com a Operação Lava Jato desmontando os partidos, na iminência de ter Eduardo Cunha no comando da Câmara dos Deputados, a recém-reeleita deu o passo fatal”

Parágrafo emblemático porque, também à Lula, junta alhos e bugalhos, meias-verdades e reticências para desenhar duas balizas: a primeira, de que com Lula não haveria a crise, a segunda de que Dilma já deu o “passo fatal”... Nele Dilma é responsável por buscar no mercado financeiro seu ministério da Fazenda, como se não fosse do mercado financeiro Henrique Meirelles, sugerido por Lula. Dilma se isola do conjunto da burguesia, da qual, imagina-se Lula é liderança. Lula já recomendara a saída de Mantega, como se fosse aquele um representante do mercado financeiro, não é mesmo? Ainda no parágrafo citado, e que merece destaque, afirma-se que “a Operação Lava Jato [estaria] desmontando os partidos”... Nada mais lulista que associar, pela negativa, o esquema de corrupção cevado como apanágio da vida partidária. A saudável vida partidária que não impedia os grandes e sólidos avanços sociais dos “anos Lula”, posto em risco apenas por convenientes espantalhos como o citado Eduardo Cunha...

Singer termina com um diagnóstico tão sombrio como enigmático. Sombrio, pois já adianta que Dilma Rousseff não terá “o tempo político” para encabeçar uma resistência ao Impeachment. Enigmático porque preconiza “Do ponto de vista de classe, um pacto de ruptura com esse círculo vicioso [que] seria possível e permitiria diminuir as perdas de todos”. Um pacto de classe que elide as classes envolvidas – “o conjunto da burguesia”? – e permitiria a felicidade de todos... Ora, o Lulismo que se construiu sobre a despolitização de classe, pela cooptação de setores pobres via políticas compensatórias e desmobilização de movimentos sindicais e sociais por verbas estatais e cargos no Estado, propõe um “pacto de classe” que atenderia a todos! Seria a reedição da “virtuosa” relação do governo Lula com o grande agronegócio, as mineradoras, o capital financeiro e as empreiteiras? Mas isso seria possível, sem “ajuste fiscal draconiano e assassino”, fora da maré montante do “efeito China” e com o acúmulo de pendências de uma administração incapaz e corrupta?

Lula mescla em público a defesa protocolar do governo com a evidente intenção de afastar-se de Dilma Rousseff. Privadamente ou a grupos específicos, se dissocia cada vez mais da “presidenta”. Critica-a por impor ajustes, quando fala a trabalhadores. Por não fazê-lo, quando se dirige a empresários. E por não impedir o que considera uma perseguição política das operações de investigação da corrupção, quando fala a certos empresários, políticos e “companheiros” mais próximos. Afasta-se também do PT, ao qual imputa os vícios de só querer empregos e de não ir às ruas como antes. Ante a evidência dos milhões, expostos, e não negados, pela Lava-Jato, conclama que os militantes vendam estrelinhas... Procura pôr-se acima do partido e mantê-lo como base anódina. Utiliza-se dele para, na prática, enfraquecer o governo, culpabilizando Dilma Rousseff por meio das críticas ao ajuste fiscal em supostas manifestações contra o impeachment.

O que dizer do artigo do (ex)Porta-Voz que se inicia e termina com Impeachment ? Que o entremeia com a escolha “fatal” da presidente? Que vaticina sua incapacidade e sua queda? O plano de Lula de: assistir ao impeachment e guardá-lo como fato político a ser útil daqui a três anos, esquecidos os 90% de rejeição de hoje; deixar o PMDB de Temer purgar o ônus da crise e, se possível, associá-la ao PSDB, sobretudo daqui a três anos, pelo referido uso do impeachment; afastar-se de Dilma Rousseff, sua criatura, e retornar como salvador da pátria, esquecido ou não percebido sua responsabilidade nas fragilidades da economia e na despolitização social.

Será Lula bem sucedido? É pouco provável, mas não impossível. Do ponto de vista das classes dominantes e dos setores políticos conservadores dependerá de sua capacidade de forjar quadros para um projeto político e de nação a seu talante. Se não o fizerem, talvez a “hegemonia invertida” propiciada por Lula ainda seja útil. À esquerda, dependerá de até quando e onde se tolerará o mito Lula, e qual a sua capacidade de investir em um projeto político baseado na organização social e política dos trabalhadores. Mas talvez o patrimônio de Lula já tenha se esgotado.


2 Foi porta-voz e secretário de Imprensa da Presidência no governo Lula.

3 André Singer. O tempo foge. Folha de São Paulo, 12 de setembro de 2015.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Minas Educadora?

Nas últimas eleições, assistimos a mudança do governo estadual e a classe dos professores imaginou mudança nos rumos da educação de Minas Gerais. No entanto, a mudança de governo não resultou numa alteração de princípio para uma mudança de fato.

domingo, 2 de agosto de 2015

NÃO HÁ ONDA CONSERVADORA, NÃO HÁ FASCISTAS EMBAIXO DA CAMA E NÃO HAVERÁ GOLPE...

Wlamir Silva
Professor
Historiador

Lemos numa crônica de Luís Fernando Veríssimo que Jair Bolsonaro ter-se-ia transformado de “direita folclórica” em “direita factível”[1]. Isso porque atingiu a prodigiosa marca de 5% de intenções de voto para presidente da República! Veríssimo é um dos arautos da “onda conservadora” – nenhum problema (e por que haveria?) escrever aquilo no Globo... -, e na crônica batizada de “Retrocesso”, não faz por menos: “Nesse ritmo, ainda restauraremos a escravatura”!


Bolsonaro e seus assessores devem estar exultantes, não porque almejem a presidência, mas porque com tal índice está garantida uma retumbante reeleição, com ou sem disputa pelo cargo máximo como aperitivo. E outros como ele ascenderão na trilha aberta...  Sua imaginária viabilidade eleitoral, açulada pelos paladinos do Lulismo e que auxilia ao seu crescimento político, substitui a cada vez mais ridícula denúncia da perspectiva de um golpe. Assim como o foi a ascensão de Eduardo Cunha, que não durou um mês...

A busca da direita mítica, que justifica a direitização do Lulismo no poder, não têm senso de ridículo ou escrúpulos.  Na campanha eleitoral de 2014 a candidata do PSB Marina Silva, saída das entranhas do PT, foi tachada de “extrema-direita” e bombardeada de forma antiética pelas hostes lulistas. Parte dos ataques, é claro, era chama-la de frágil e, de certa forma, muito de esquerda, dependendo do público... O objetivo era evitar que Marina fosse para o segundo turno, no qual seria adversária mais dura, menos suscetível ao maniqueísmo desejado[2].

A  liberalidade das imputações de “extrema-direita” ou “fascismo” é típica da estratégia catastrofista dos defensores do Lulismo. É fascista quem é contra as cotas raciais. São fascistas seu pai, tio ou tia que estranham que homens se beijem em público. É fascista quem é contra o aborto. São fascistas os que assoviam para moças nas ruas. É fascista que é a favor da redução da maioridade penal. A “fascistização” de tudo permite supor o risco iminente de um golpe, terríveis retrocessos, e sugere uma “união nacional” em torno do Lulismo...[3].

O que alavanca Bolsonaro e assemelhados? Parte de seu relativo sucesso advém de temas relativos aos costumes, sob a rubrica da defesa da família, como o aborto e, sobretudo a homossexualidade e gênero, concentradas no “casamento gay” e na proposta de uma dita legislação “anti-homofóbica”. Arriscamo-nos a dizer que, no entanto, a grande questão para eles é a da criminalidade e da segurança, até pela importância que isso tem para a população. Questão hoje cristalizada na questão da redução da maioridade penal. É ali que se concentram seus votos.

No momento da imaginária factibilidade de Bolsonaro uma pesquisa revela que 62% da população tem medo da Polícia Militar. Mais entre os que recebem até dois salários mínimos e têm entre 16 e 24 anos (68%) e pretos (71%)[4]. Alguns farão disso um libelo contra o “fascismo” policial, mas recente pesquisa do mesmo Instituto, apontou que 88% dos mais pobres apoiam a redução da maioridade penal...[5]. Como imputar pena, menores ou não, implica a prisão e prisão implica polícia, a população critica a violência policial, mas clama por segurança...

É que a população é muito mais sensata e sofisticada em pensar a questão da criminalidade que nossos governantes, que a nossa “direita”, que a reduz ao exercício da violência, e que a nossa “esquerda”, que a reduz à estigmatização da polícia. Por isso Bolsonaro e quejandos batem no teto dos 5%, por isso nossas “esquerdas” não passam do 1% ou, em sua versão oficial, "compra" seus votos com políticas compensatórias baratinhas e facilidades de consumo oriundas do efeito China... A população, em especial a trabalhadora, rejeita a insensibilidade da direita tacanha e, ainda mais – isso é algo a se pensar – o irrealismo da “esquerda” etérea... Querem Estado de Direito, que inclui a segurança, com o exercício do monopólio da violência por este Estado.

Outros temas que se tornaram definidores de uma “nova esquerda”, como as questões de gênero, homossexualidade, maconha, identidades “raciais”, ações afirmativas etc., alimentam a “direita”. Eles são para a massa da população secundários. Como reconhecem diversos analistas, a população é conservadora no âmbito dos costumes[6]. Isso é relativo, segundo pesquisas de opinião de 2012, 69% opinaram que o homossexualismo “deve ser aceito por toda a sociedade”, mas também 83% foram pela manutenção da proibição do uso de drogas...[7].

Tais questões dividem a população, por vezes surpreendendo, como os 68% pela proibição da posse de armas (vide o plebiscito de 2005), ou desnudando perigosas manipulações políticas, como a rejeição de 55% à pena de morte[8]. Assim, num esforço de trazer para o centro da discussão política a “maioridade penal”, e desviar da crise evidente, Lula mistificou: “Sei que é um tema que se for pra plebiscito ganha, como talvez ganhe a pena de morte”[9].

Ao identificar os 88% pró maioridade com 42% pró pena de morte, menos que a metade, Lula faz, num só movimento, três desserviços à vida política brasileira: 1) fortalece os defensores da pena de morte, e seu campo político, dando a eles uma excessiva popularidade e aproximando deles os que concordam com a redução da maioridade; 2) põe no centro do debate político algo que é periférico, ainda mais pelas condições de precariedade da estrutura de segurança, prisional e de socioeducativa; 3) decreta uma suposta ignorância popular a ser contornada.

Se há uma “ignorância popular”, ela deve ser enfrentada no campo das ideias, no espaço público. E isso implica em informação e nuances. Afinal, porque a tolerância com a aceitação dos homossexuais de 69% não se reflete no apoio ao “casamento gay”, em apenas 40%[10]? E o que é uma “Lei anti-homofóbica” ou uma "educação sexual", da qual não se conhece o texto, e cuja “discussão” se resume à troca de slogans ofensivos? Alguém se propõe a ir a uma fábrica explicar que onde os transexuais vão fazer xixi é uma grande questão nacional? Isso para ficar apenas num exemplo... Os envolvidos devem pensar suas estratégias no sentido de informar e convencer a sociedade[11].

Não haverá golpe, porque não há ameaças que o valham, ou articulações com base social que o sustente[12]. Não haverá grande retrocesso porque não houve grande avanço, e o que houve não feriu interesses poderosos. Quem deseja defender o Lulismo deve ter a honestidade de fazê-lo pelo que ele é, e não ficar gritando “o golpe vem aí!” ou “o Fascismo vem aí”, como o menino da fábula... Porque não é só a sua credibilidade que se se esvai copiosamente, mas o necessário cuidado da sociedade com tais temas se perde se “o lobo nunca vem...”.

Não será restaurada a escravatura, ou criada uma Ku Klux Klan que nunca tivemos, fato que parece incomodar alguns, que têm a nostalgia do mal que não houve por aqui, assim como dos estupros coletivos da Índia ou do Congo, ou de atentados contra meninas que teimam em ir à escola e burkas... Nosso "racismo - ou machismo, ou homofobia... - pior que o dos outros" é um patrimônio dos sem senso... Mas este estigmatizar um horizonte conservador de massas trabalhadoras, por alguns encastelados no aparelho estatal e em circuitos “bem-educados”, não fará avançar solidamente os costumes e, certamente atrasará a longa politização necessária para mudanças sociais de verdade.




[1] http://oglobo.globo.com/opiniao/retrocesso-17012097
[2] É claro, a candidata de “extrema-direita” seria convidada a apoiar a candidata de “esquerda” no segundo turno...
[3] O Fascismo, assim como o integralismo, no Brasil, foi um movimento de massas. Sua complexidade histórica é negada, em parte por ignorância, em parte por conveniência. Deixo claro que, para mim, AS COTAS RACIAIS SÃO CONSERVADORAS... Porque:
1) Não resolvem, antes escondem, os problemas do ensino básico.
2) São ineficazes, uma miragem, para uma massa que sequer termina o ensino médio ou o faz em condições calamitosas.
3) Promovem o conceito obsoleto de raça e o racismo, com a classificação "racial" e os supostos critérios objetivos dela.
4) Mistificam um processo histórico complexo no qual, por exemplo, negros (sobretudo nos padrões do IBGE) foram muitas vezes proprietários de escravos e, talvez, sejam estes os, hoje, beneficiados pelas cotas.
5) Fortalecem movimentos que separam a população e os trabalhadores pela cor e suposta identidade cultural, dividindo-os e afastando-os de uma perspectiva universalista de emancipação humana.
6) Alimentam uma "história" voltada para promoção de identidades definidas pela cor ou "cultura" que adensa a divisão supracitada.
[4] Oito em cada dez brasileiros temem ser vítimas de assassinatos, diz pesquisa. http://tnh1.ne10.uol.com.br/noticia/brasil/2015/07/31/328054/oito-em-cada-dez-brasileiros-temem-ser-vitimas-de-assassinatos-diz-pesquisa
[5] http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2015/04/1620652-87-dos-brasileiros-sao-a-favor-da-reducao-da-maioridade-penal.shtml. Veja http://saojoaodel-pueblo.blogspot.com.br/2015/04/tudo-farei-para-o-povo-nada-porem-pelo.html
[6] É curioso que isso não incomodasse no auge do Lulismo, como mostrou o trabalho de André Singer, no seu. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo, Cia. das Letras, 2012.[7] Tendência conservadora é forte no país, diz Datafolha.
 http://www1.folha.uol.com.br/poder/2012/12/1206138-tendencia-conservadora-e-forte-no-pais-diz-datafolha.shtml
[8] Idem.[9] Redução da maioridade joga nas costas do jovem o que Estado não fez, diz Lula
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/07/1651242-reducao-da-maioridade-joga-nas-costas-do-jovem-o-que-estado-nao-fez-diz-lula.shtml[10] Maioria é contra legalizar maconha, aborto e casamento gay, diz Ibope.
http://g1.globo.com/politica/eleicoes/2014/noticia/2014/09/maioria-e-contra-legalizar-maconha-aborto-e-casamento-gay-diz-ibope.html
[11] Recentemente a católica Irlanda aprovou o “casamento gay”, após debates e plebiscito, com 62% de apoio popular, sustentação semelhante aos EUA, também há pouco... O que isso significa em termos de solidez da mudança de costumes? Veja Irlanda aprova em referendo o casamento gay com 62% dos votos
http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/05/irlanda-aprova-em-referendo-o-casamento-gay-diz-tv-local.html.
[12] O golpe de 64 envolveu uma década de convencimento do empresariado e setores das forças armadas, a emergência de projetos reformistas de fazer corar o Lulismo, um contexto internacional de Guerra Fria e apoio dos EUA a tais procedimentos e, ainda, teve apoio de setores liberais relativamente amplos. Apoio ao golpe hoje, só se for com financiamento das empreiteiras para barrar a Lava-Jato, e nós sabemos os maiores interessados nisso no campo político...

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Está na hora de Dilma sair à francesa

Uma das coisas que distingue um estadista é saber a hora e jeito certo de se retirar do comando do Estado. Como um general que não sabe recuar é um desastre para o exército, uma presidente que não sabe renunciar pode ser uma desgraça não só para o Estado, mas para a sociedade como um todo. Grandes chefes de Estado já se destacaram pela forma como deixaram seus governos, assim felicitando seus povos, evitando grandes tragédias, como Jango alegou que fez, ou ao menos salvando a própria reputação, como Feijó. Alguns ganharam mais poderes ao renunciar, como César Augusto.

Para que ficar na presidência fazendo exatamente o contrário do que prometeu que faria? Para que ficar na presidência para fazer o oposto do que interessa à base social que a elegeu? Um sacrifício tem que ter motivos! Ficar na presidência, com o risco de ser enxotada, só valeria a pena para fazer uma política decente, popular, nacionalista, socialista. Não faz sentido para o Pt e para Dilma ficar na presidência para se desgastar.

Todo o mandato petista desde 2002 foi desmoralizador, mas os governos Dilma têm sido especialmente destruidores da reputação petista. A continuidade do mandato Dilma promete acabar de enxovalhar o nome dessa primeira mulher presidente do Brasil e do Pt. Pior que isso, estando o país fortemente polarizado, uma falsa polarização, diga-se de passagem, e sendo o Congresso atual o pior que já se teve nesse país, e de longe o mais irresponsável, há o risco de uma crise institucional, dado que a popularidade de Dilma está abaixo de 10%, por culpa dela mesma.

Agora é fácil perceber que o Brasil se livrou de um enorme perigo ao conseguir eleger Dilma e não Aécio. Se Aécio tivesse ganho estaria tomando medidas semelhantes às atuais, a economia estaria igualmente em queda, e pareceria ao povo que a culpa era dele e da saída do Pt. Os movimentos sociais, que poupam o governo petista, cresceriam contra Aécio, que também é marcado por denúncias de corrupção. Em resumo, o Pt ficaria como herói, os tempos petistas como tempos de bonança, e o Pt voltariam em 2018 com muito mais força, e o país estaria nas mãos de uma tremenda quadrilha por muitos anos.

Mas quem venceu as eleições foi o Pt, e assim ele perdeu. O Pt não consegue ganhar o apoio da parte da população que ele realmente beneficia, e está cuspindo na cara de seus próprios eleitores e de sua própria base social. A direita, cujo programa o Pt está cumprindo, continua cada dia mais histérica contra o Pt, que para ela representa o povo trabalhador. O capital criou o Pt, o nutriu, o sustentou e o mantém para isso. Os lucros das grandes empresas, dos bancos, e principalmente, dos acionistas da dívida pública, ou seja, do governo, estão na Lua. Os verdadeiros capitalistas (não os bobos anti-comunistas de internet) gostariam que a era petista se eternizasse. Mas os verdadeiros capitalistas são uma massa ínfima da população, que por vezes não consegue, ou não pode, dizer tudo o que sabe para a massa de burgueses e pequeno-burgueses, que se guiam pela ideologia liberal ou pela fascista. Sustentar o Pt, portanto, mesmo para o capital, se tornou impossível. Para a massa de burgueses e pequeno-burgueses o governo petista tem significa salários um pouco mais altos.

Já os trabalhadores estão vendo esses salários serem reduzidos pela inflação, e não há coisa que mais afete a popularidade de um governo. O povo trabalhador está aprendendo que o Pt é seu inimigo, daí o apoio baixíssimo da presidente, que vai tornando seu mandato insustentável.

Ela deve escolher – é preferível sair por conta própria por algum motivo de saúde ou cair? É preferível para ela e para o Pt que Michel Temer fique na presidência ou que ele caia junto e que aconteçam novas eleições em três meses? Imaginem então se a queda for depois de 2016 e o presidente ficar sendo Eduardo Cunha!?! Mesmo que Dilma não caia. É melhor enfrentar as eleições de 2018 depois de alguns anos de presidência peemedebista ou depois de quatro anos sangrando?

Uma saída à francesa de Dilma acabaria imediatamente com a crise política e com o risco de crise institucional. Colocaria o PMDb, que há 30 anos (des)governa esse país a partir das sombras, em evidência, para que vire o alvo e tome as pedradas das quais vem se esquivando. Acabaria com a falsa polarização Pt-PSDb e daí com a carreira de Aécio Neves, que depois de derrotado em Minas Gerais e no Rio de Janeiro só se sustenta como nome anti-Pt.

Os movimentos sociais, desde 2002 divididos e fracos, voltariam a se unir contra o governo PMDb. Por mais traidor e corrupto que o Pt seja, ainda existem nos movimentos sociais quem tenha esperanças ou mais exatamente, que tenha medo de que as coisas piorem com a volta das velhas quadrilhas. Mas com a renúncia de Dilma essa vacilação desapareceria imediatamente. Assim os trabalhadores teriam alguma chance de minimizar seus prejuízos, enquanto com Dilma eles estão divididos e daí sendo massacrados.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

O VETO DO DIREITO À APOSENTADORIA: O LULISMO FOCALIZADO CONTRA O TRABALHO




A presidente da República vetou a virtual extinção do fator previdenciário. O ministro da Previdência veio a público às vésperas da decisão de Dilma Rousseff com as já conhecidas previsões catastróficas, as mesmas repetidas pelos governos desde pelo menos meados dos anos 1980... Carlos Gabas, no entanto, se superou, arriscando previsões para daqui a 45 anos[1].

Em um debate no programa Entre aspas, do canal pago GloboNews[2], dois economistas de posições diferentes, Eduardo Fagnani (UNICAMP) e Eduardo Zylberstajn (USP), concordam com o fato de que a Previdência Social não é deficitária. O que causa déficit é a cobertura de aposentadorias sem contribuição estabelecidas a partir da Constituição de 1988.

No que discordam Fagnani e Zylberstajn? O segundo afirma que, de uma forma ou de outra a cobertura vem dos impostos, mesmo não sendo de responsabilidade dos trabalhadores que contribuem. O problema é evidente: é do trabalho, não do lucro que deve vir a cobertura de formas de exploração do trabalho incompatíveis com o estabelecido na Constituição, como observa Fagnani.

Mas queremos chamar a atenção para um aspecto peculiar da questão. O da relação entre o discurso oficial de que passamos por mais de uma década de grandes avanços econômicos e sociais e o catastrofismo da Cassandra da Previdência. Então daqui a 45 anos o impacto de aposentadorias não cobertas por contribuições se manterá inalterado?

Em especial chama a atenção que o enorme salto das commodities – de 400% na década passada – nada tenha servido para alterar o quadro previdenciário rural. E que as migrações para as cidades também não o tenham feito. Mais que isso, a Cassandra previdenciária trabalha com o dado de que o quadro não mudará nos próximos 45 anos...

Um detalhe no programa Entre aspas é o comentário de Zylberstajn, um defensor do veto, de que o gasto da Previdência é dez vezes maior que o do Bolsa Família. Para Zylberstajn o Bolsa Família é, como política focalizada, mais eficaz. De fato, ele opõe a “mania de exigir direitos” à única possibilidade de “justiça social”, ou seja, a minoração da miséria.

Os milhões, bilhões e trilhões – 400 bilhões em 2016, 3,2 trilhões em 2060 como gastos da Previdência – são um velho estratagema do discurso conservador. As previsões catastróficas do ministro, e repercutidas por “especialistas”, ameaçando com a falência da Previdência, se encaixam nesta “tradição”.

Mas, além da identidade da prática política, devemos destacar que não, para além da propaganda oficial e eleitoreira, houve desenvolvimento que tivesse alterado o quadro de desequilíbrio entre as aposentadorias com e sem contribuição nos últimos 13 anos. Pior, não há perspectiva no horizonte de que isso aconteça nos próximos 45 anos! Uma farsa "(neo)desenvolvimentista", na qual se perdeu a onda das commodities e do "efeito China" na inércia e na desastrada incompetência governamental...

O que salta aos olhos, afinal, é a identidade do governo e do Lulismo com a fórmula neoliberal das políticas focalizadas. Escolha fortemente ancorada na naturalização de uma economia baseada em commodities, desindustrializada, sem dinamismo tecnológico e financeirizada. Na qual vemos médias salariais baixíssimas e o trabalho não é o parâmetro de justiça social. 

Neste quadro, sem as edulcoradas propagandas oficiais, as aposentadorias minimamente justas – lembrando que não se tocara no teto de R$ 4.663,75 – não podem mesmo ser prioridade. Uma vez naturalizada a desigualdade inalterada (não confundir com a diminuição da miséria absoluta) não podem estar mesmo no horizonte.

Até porque a justa aposentadoria é vista direito devido, oriundo do trabalho, e não como benesse governamental, a ser trocada por votos ao sabor de ameaças de sua extinção, tão ao gosto do Lulismo... A Bolsa-família é barata, esconde o quadro de intensa desigualdade mantida e ampliada e amortece os incômodos trabalhadores: mania de direitos, não!




[1] http://g1 globo.com/economia/noticia/2015/06/dilma-nao-decidiu-se-veta-mudanca-no-fator-previdenciario-diz-ministro.html
[2] http://globotv globo.com globo-news/entre-aspas/v/entre-aspas-convidados-debatem-o-fim-do-fator-previdenciario-e-o-impasse-na-previdencia/4258029/ . A versão integras em http://globosatplay globo.com/globonews/v/4258080/

sexta-feira, 22 de maio de 2015

COXINHAS NÃO SE COMEM COM FACAS.

Wlamir Silva
Professor
Historiador

Um médico é assassinado a facadas andando de bicicleta na Lagoa Rodrigo de Freitas. Testemunhas afirmam tê-lo sido por menores, mesmo sem uma reação da vítima, o que faz sentido pela ação de gangues no mesmo estilo na região[1]. Para uns é quase uma "justiça bíblica": ricaços numa das áreas mais caras do Rio, em bicicletas caríssimas só podiam mesmo serem "justiçados" pelos oprimidos... Aliás, não faz muito os médicos se tornaram símbolos de uma "elite branca" digna de todos os desagravos...


Um suspeito do assassinato do médico na Lagoa, apreendido, 16 anos,
15 crimes,vários com o uso de facas, como a usada no caso fatal.

A ex-mulher da vítima - santa instituição do divórcio - sai em defesa prévia dos agressores: "foi vítima de vítimas, que são vítimas de vítimas. Enquanto nosso país não priorizar saúde, educação e seguranças, vão ter cada vez mais médicos sendo mortos no cartão postal do país. E não só médicos, afinal, morrem cidadãos todos os dias em toda a cidade, não só na Zona Sul"[2]. Ou seja, enquanto não forem sanadas todas as injustiças sociais são justificadas as facadas nos ditos "coxinhas". O uso das facas, que se multiplica na região, mais do que um estágio pré-arma-de-fogo é uma estratégia: não é proibido portar facas. Mas ferir ou matar a facadas exige frieza e determinação, ao contrário do, por vezes, nervoso apertar de um gatilho.

A referência às injustiças sociais e à panaceia da educação como um "mantra" é, e cada vez mais, risível para amplos setores da sociedade. Para os agredidos e seus próximos é mesmo uma agressão e um "aperitivo" para o discurso violento do "bandido bom é bandido morto". Mas muitos não percebem o quão é trágico para os que vivem nas malhas da pobreza e são trabalhadores e "de bem", ou mesmo desesperador para os pais que tentam educar seus filhos em meio a grandes dificuldades e veem a criminalidade ser apresentada a eles como escolha justificável. Num depoimento um jornalista vítima de ataque semelhante, por quatro menores armados com facas, conta o que viu no tribunal:

"Vi a família de um dos 'anjinhos' que me assaltaram. Seu irmão, parecido com ele, bem vestido, falando baixo, com ótima aparência. São moradores de Manguinhos, lugar de onde veio o assassino de Jaime Gold. Não é Zona Sul, mas lá, como cá, também é lugar de pessoas dignas. Essa família me pareceu assim, digna. Os 'anjinhos' não! Esses 'anjinhos' tiveram, sim, educação. Não estudaram no São Bento, no Santo Agostinho ou na Escola Americana. Mas tiveram, sim, família e acesso à escola. Ouvi isso nesse tribunal. Mas optaram pelo crime”[3].

É discutível se os citados tiveram acesso à educação, mas é irônico que muitos dos seus “defensores” acreditem piamente nos avanços da educação básica no país, em especial na última década. O fato é que nas mesmas famílias há trabalhadores e criminosos, de diversas idades, e não há no crime e na violência um destino. O discurso de vitimização aqui representado pela “ex” do médico assassinado, mas corrente em meios educados e “de esquerda”, é um acinte àqueles pais que batalham diuturnamente para que seus filhos se tornem trabalhadores.

Parece ser “de esquerda”, “radical”, até “marxista” este salvo-conduto ao crime, numa cruzada contra os “coxinhas”, o substituto genérico e midiático da burguesia. Nada mais longe da realidade. O próprio Marx foi duro com o que chamou lumpen-proletariado, escória, refugo, massa indefinida e desintegrada, inconfiável, que se beneficiava “às expensas da nação laboriosa". Na tradição marxista os trabalhadores são a força a ser considerada. Mas há os que confundem marxismo com uma corruptela pós-moderna de matriz foucaultiana e que, negando a luta de classes e a perspectiva de emancipação humana, voltam os seus olhos para tudo que é marginal, “transgressor” ou “periférico”. A impotência diante do capital organizado, e por vezes sua naturalização, é "purgada" por um condescendente paternalismo...

A “ex” do médico assassinado apressou-se em seu manifesto vitimizador para evitar o uso do caso em favor da redução da maioridade penal. O jornalista vítima de assalto fecha seu depoimento clamando: “Precisam ser severamente punidos, tenham 8 ou 80 anos! Não importa!”. Como tudo tal discussão é sugada para um dos dois polos em evidência. Uma maioridade penal que é um tabu para alguns e se torna, vide pesquisas de opinião, panaceia para a maioria.

Mas o pior é o espectro de argumentos em voga. De um lado o “mantra” vitimizador, no limite justificador do ataque aos “coxinhas”, travestido de “esquerda” ou “marxista”, no fundo desesperançado de empreitadas políticas de maior fôlego e radicais. Do outro  a massa, inclusive de trabalhadores pobres – estes conscientes da simplificação vitimizadora –, condenada ao discurso “justiceiro” de reacionários porque cansados do discurso “religioso”[4] de “esquerdas de carochinha”...




[1] http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2015-05-21/medico-morto-esfaqueado-na-lagoa-sera-enterrado-nesta-quinta-feira.html
[2] http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2015-05-20/ex-mulher-de-jaime-gold-condena-reducao-da-maioridade-penal.html
[3] Depoimento reproduzido na coluna de Renato Maurício Prado no Globo de 22.5.2015.
[4] Elemento religioso que está presente na formação mesma de certas “esquerdas”, da “opção pelos pobres” e um “franciscanismo” filantrópico...

quinta-feira, 21 de maio de 2015

O PROTO-RACISMO EM AÇÃO

Wlamir Silva
Professor
Historiador


Há dias um caso classificado de racismo ocupou a grande mídia nacional. Jovens atletas da seleção de ginástica brasileira fizeram uma infantil brincadeira com um de seus colegas de equipe: “- Seu celular quebrou: a tela quando funciona é branca... quando ele estraga é de que cor? (risos) ... O saquinho do supermercado é branco ... e o do lixo? É preto!" - dizem os demais atletas, em coro”[1].

A brincadeira foi filmada e postada numa rede social, causando uma reação e, ao que parece, a expulsão do atleta por ela responsável da referida rede. Os envolvidos se desculparam publicamente[2], mas aí setores raivosos do movimento negro já haviam descoberto um rico filão para fazer mídia e, quem sabe, obter ganhos para a sua incessante busca de espaços para políticas racialistas no aparelho de Estado.

As desculpas foram então consideradas muito pouco diante da então pintada como gravíssima injúria racial. Mesmo a participação do atleta ofendido foi então lida como um constrangimento com medo de ser isolado de um meio no qual seria um estranho. A sua atitude dúbia se prestou a tal interpretação, ao não fazer uma denúncia formal e deixar a critério da Confederação qualquer decisão.

Diante da recusa do ofendido de uma acusação maior, os abutres do racialismo se mobilizaram. A Educafro, do sr. Frei David deseja exigir dos três ginastas o pagamento de 50 bolsas de estudos para negros, pois no imaginário do Frei todos os brancos são ricaços e devem isso a todos os negros. O sr. Frei David apresentou queixa-crime contra os três jovens atletas junto à Polícia Federal e representações ao Ministério Público Federal e às comissões de Direitos Humanos da Câmara e do Senado. O sr. Humberto Adami, presidente da Comissão Nacional de Escravidão Negra do Conselho Federal da OAB[3], pressiona para que a CAIXA, patrocinadora da Confederação Brasileira de Ginástica se posicione.

Se o ofendido não pretende levar “a ferro e fogo” tamanha injúria, o sr. Frei David toma a si uma procuração do “povo negro” – “Não se brinca com a autoestima do povo negro” – e quer fazer do caso um exemplo e, claro, navegar na onda aberta na mídia. Mais insidioso, o sr. Humberto Adami, conhecido pela mobilização em torno da cruzada contra Monteiro Lobato, “apertou o botão certo”, ao tocar no patrocínio... Diante de tal plano não poderiam mesmo bastar desculpas públicas.

Pressionada, a Confederação Brasileira de Ginástica tomou uma decisão. Afastou preventivamente os jovens atletas de competições e suspendeu por trinta dias, ou até a “decisão final”, suas bolsas e auxílios financeiros. Ao que parece a pressão do movimento negro racialista em busca de mídia e repercussão política (inclusa a pressão de corte de patrocínio), e a reação da sociedade a este “circo”, vão balizar a solução definitiva do caso.

A brincadeira de mau gosto parece não ser mais do que isso, num ambiente de quase confinamento entre jovens[4]. Outras brincadeiras de bom ou mau gosto devem ser feitas, outras características devem ser injustamente estigmatizadas. Um ambiente privado e no qual, como sói acontecer, os sentidos são próprios. Resta de fato uma questão hoje complexa: redes sociais são hoje uma extensão do privado ou um espaço público? Mas tais abutres querem tiram dali todo o sangue possível, todo capital midiático e político de que forem capazes.

E tirarão. Conseguiram punições descabidas e o linchamento público de jovens que cometeram a grave injúria de uma piada de mau-gosto de alguns segundos. “Ensinarão” que todas as conversas devem ser cercadas de cuidados quase jurídicos, que talvez seja melhor evitar quem apresente vulnerabilidades perigosas (quem sabe, uma frase impensada...) e que os “vulneráveis” (intocáveis?) podem mostrar-se apenas levemente constrangidos, sem o ônus de sua luta por respeito, pois seus terríveis “guardiães” os protegerão...

Um pouco sutil Big Brother negro nas relações pessoais a dividir um povo que tem, comparativamente, graus elevados, e crescentes, de tolerância. A divisão em um "povo negro" e um "povo branco", trabalhadores negros e brancos, jovens negros e brancos... A divisão em "raças", conceito obsoleto que tanto amam... Este é o legado do racialismo hidrófobo, deste proto-racismo. Como agirão os jovens atletas a partir de sua execração pública por motivo fútil e exagerado ao paroxismo, com ele e outros negros, até inconscientemente? Multipliquem isso pela sociedade...






[1] http://oglobo.globo.com/esportes/video-postado-por-atleta-expoe-racismo-na-selecao-de-ginastica-artistica-16169015
[2] http://www1.folha.uol.com.br/esporte/2015/05/1629609-confederacao-diz-repudiar-racismo-e-vai-apurar-video-com-ofensa-a-ginasta.shtml
[3] É quase inacreditável que haja uma “Comissão de Escravidão” no país...
[4] É o que diz o veterano ginasta Diego Hipólito: “não existe intolerância de nenhuma forma”. http://esportes.ne10.uol.com.br/noticia/2015/05/17/diego-hypolito-defende-ginastas-e-diz-que-ato-racista-foi-uma-infeliz-atitude-547080.php