sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Cunha já caiu, Dilma não cairá agora, mas também não terminará o mandato

Como podem notar, não tenho tido tempo para escrever artigos de opinião política, apesar da efervescência do momento, mundial e brasileira. Contudo, dada a gravidade aparente das lutas palacianas em Brasília, sou obrigado a deixar clara minha opinião.

O governo Dilma está fraco, provavelmente não durará até 2018, pois mesmo a saúde da presidente é fraca, e em um tempo de crise o peso sobre ela é maior ainda, torando muito difícil que ela se sustente por mais três anos. Então, mesmo que por milagre ela consiga se sustentar politicamente, por exemplo favorecendo-se da estupidez dos adversários, diversos outros problemas tocaiam esse governo. Fato é que "adoecer" é para ela uma boa estratégia. Na suposição de que ela seja derrubada nesse momento (note-se que agora meses ou até semanas estão fazendo diferença) e contra a vontade, teremos uma crise política, forte divisão do país, tanto regional quanto social, com muitas consequências imprevisíveis, mas algumas óbvias, como forte agravamento da crise econômica (ninguém coloca o capital no mercado em uma sociedade tensa).

O processo de impeachment aberto por Cunha se fragilizou pelo fato de ter sido aberto por ele, e por, claramente, ser resposta ao prosseguimento das investigações sobre ele. Esse processo está comprometido, não tem legitimidade em canto nenhum do mundo, pois os colaboradores do golpe claramente não contam. Porém é provável que muitos dos mesmos argumentos sejam usados em um processo posterior e com legitimidade, depois que Cunha se for, e ele se vai.

Um presidente da Câmara que não pode viajar para o exterior por medo de ser preso pela Interpol é uma piada, insustentável, só ainda não caiu porque o regime está quase tão corrompido quanto ele. Com ele se desmoraliza mais um pouco a "bancada evangélica". Os evangélicos de verdade estão sendo desmoralizados e caluniados pela existência desses deputados ditos evangélicos, maioria de pastores que usaram o dinheiro ganho com serem pastores para se elegerem, campeões de processos por corrupção (as igrejas não são vigiadas e eles portanto não têm treino em fraudes comparável aos empresários, aos parasitas de sindicatos e de entidades estudantis, aos advogados de grandes empresas etc.) e protagonistas de episódios vergonhosos.

A saída de Cunha e de Dilma, provavelmente nessa ordem, não colocará fim na crise política, mesmo porque o discurso de Temer já indica é mais crise. Mesmo que não fosse Temer, e que o vice fosse o mais preparado dos brasileiros, não escaparíamos de mais e mais crise, porque é o regime de 1988 que se foi. No vácuo deixado por ele as forças sociais disputam, e isso é o que vemos como crise política. Não estamos errados, um período de crise é um período de transformações.

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