sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O retorno do esquecido Getúlio Vargas


É o último mês do último ano da gestão petista, e é a primeira vez que sou obrigado a publicar um artigo que a elogia. Por meio da Secretaria de Cultura, que passou quatro anos sob direção do PCdoB e ninguém nem notou, a estátua de Getúlio Vargas foi reinaugurada na Av. Leite de Castro. Ela está sem a carta testamento que tinha no pedestal original, no início da Av. Tancredo Neves, e precisou ser pintada, certamente por ter sofrido danos no período em que ficou abandonada, jogada em um canto. A estátua de Getúlio foi retirada de seu local original pela administração tucana-petista de 2004 a 2008.

A retirada da estátua de Getulio, substituída por (mais) um busto de Tancredo Neves, representou com exatidão o ódio que a direita brasileira tem por Vargas. Getúlio Vargas já reclamava disso em vida, e o atribuía à burrice das classes dominantes brasileiras, que seriam incapazes de compreender que ele as salvou do comunismo. De fato os exploradores mais xucros nunca o perdoaram por criar leis trabalhistas, e a direita ideológica liberal nunca o perdoou por ser nacionalista/estatista (no Brasil atual essas duas coisas são inseparáveis). Getúlio Vargas perseguiu os comunistas e outros oposicionistas, torturou e matou, e além de assassino foi ladrão, mas mesmo assim, por WO, foi até hoje o melhor presidente que tivemos! Os liberais tentam colocar JK na disputa, e os petistas são mais cômicos ainda tentando emplacar o Barba, mas não dão para saída. Os monarquistas, inábeis, tentam elevar a figura de Pedro II, quando se conhecessem melhor a monarquia tentariam com Pedro I, que em 9 anos fez muito mais que seu filho em 49. Fato é que Getúlio assumiu o comando de uma fazenda e a transformou em um país cheio de cidades e indústrias. Foi pouco, foi vacilante, foi corrupto, foi a custa de muito sangue, mas foi o melhor que tivemos até agora. Que a direita brasileira, ao invés de ser getulistas seja anti-getulista é um sintoma do maior problema que temos nesse país – a existência de grandes forças políticas anti-nacionais! Desde a independência somos obrigados a conviver com forças cujo projeto é o domínio estrangeiro.

Essa estátua de Getúlio, que hoje está em frente à mais antiga fábrica da cidade, foi feita com dinheiro de subscrição entre os trabalhadores, e os tucanos não tinham o direito de a retirarem do lugar para colocarem mais um busto do avô do patrão deles, e muito menos de a danificarem, sumindo com a carta testamento. Administração fracassada, depois de um governo de destruição nacional, que desindustrializou o país, multiplicou o desemprego, a violência e a corrupção, não tinham sequer moral para bulir com Getúlio Vargas. Eis a situação moral insustentável das classes dominantes brasileiras – estão abaixo de um ladrão sanguinário.

O retorno da estatua serviu para revelar o esquecimento em que caiu Getúlio Vargas. Quando Getúlio morreu, em 1954, os trabalhadores fizeram grandes manifestações, violentas, no país todo (São João inclusive), matando no ninho o golpe de direita que o levara ao suicídio. Até poucos anos atrás quase todo Sindicato ainda tinha uma foto de Getúlio, e mesmo muitas casas particulares. Atualmente Getúlio está esquecido! Em manifestações faz muito tempo que uma foto dele não aparece. Diante dessa estátua, as pessoas param e perguntam quem é! Uns chutam que é de Antonio Lombello, nome da praça, e cuja placa está perto da estátua, que por sua vez (incompetência até para reinaugurar uma estátua) está sem identificação. Outros chutam que é do construtor da fábrica! Tudo bem que a estátua não se parece tanto assim com o original, mas é impressionante.

Stálin morreu um ano antes, e até hoje na Rússia (que nem é sua pátria natal) e vários outros países as fotos de Stálin ainda aparecem aos montes nas manifestações. Não que Getúlio se compare, mas ao menos a nível nacional ainda devia ser lembrado. Contudo, em partes, foi a política getulista que gerou esse fenômeno. Na medida em que abafou o movimento sindical, enchendo-o de pelegos do Ministério do Trabalho, Getúlio estancou o desenvolvimento político do povo trabalhador, seu amadurecimento enquanto classe. Assim, tanto em 1945 quanto em 1954 ele não teve o apoio dos trabalhadores a não ser tarde demais, no segundo caso só depois de morto.

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Esse desserviço está em vigor até hoje! Embora sem a intervenção direta do Ministério, os Sindicatos estão quase todos mortos, parasitados, dominados por bandidos. Para os trabalhadores os Sindicatos não existem, são como escritórios do governo, como cartórios, e é comum entre eles o termo “dono do sindicato”, referindo-se ao bandido que o controla. O meio para controlar Sindicatos é o mesmo que o capital usa para controlar cidades, países etc. – eleições diretas.
As leis trabalhistas de Getúlio estão desaparecendo, e não se vê resistência, assim como não se viu platéia na reinauguração da estátua, que não foi aproveitada para protestar em defesa dos direitos trabalhistas. O que sustentava os direitos trabalhistas em todo o mundo era a existência da União Soviética. Com a queda da União Soviética os trabalhadores do mundo todo estão perdendo direitos. No Brasil soma-se a inexistência de um verdadeiro movimento sindical, morto por Vargas, e morto novamente pelo parasitismo petista, e uma “esquerda” que nem sequer pisa nas portas de fábricas. Os trabalhadores brasileiros estão órfãos! Há poucos anos, em uma assembléia operária de Barroso, ouvi trabalhadores perguntando se tinham direito a férias e décimo terceiro! Getúlio Vargas, pelo visto, não foi presidente em Barroso! Quem vai lutar para manter direitos que só têm no papel?


Sobre a administração que finda, basta dizer que o prefeito sequer tentou reeleição e que sua candidata ficou em quarto lugar. Na era da internet a única chance que essa administração sempre teve foi a transparência total, e o máximo de democracia direta online, mas como pedir isso do partido que ficou 14 anos no governo e sequer deixou sindicatos, associações comunitárias etc. terem rádios? Não tomou nem uma pequena medida democratizante (em 14 anos), mas criou, banalizando o terrorismo, leis para reprimir os movimentos sociais!?!? Ao invés de democratizar as empresas estatais as entregou para aliados políticos corruptos??? Aliás, partido esse que defende que democracia é esse regime fracassado e semimorto que temos no Brasil, inclusive com voto obrigatório. Bom será se ao fracasso administrativo ainda não se seguirem um monte de processos por corrupção, pois nesse item também o Pt revelou-se um partido de direita.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Reitoria Ocupada - A PEC 241 e a defensiva sem motivos

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Os estudantes ocuparam a Reitoria da UFSJ na manhã desse dia 24 de Outubro de 2016. Essa ocupação não tem motivos locais, mas é a contribuição dos universitários da UFSJ à onda de ocupações que atinge todo o país. A bandeira principal é contra a PEC 241, uma falsa polêmica, mas isso não diminui em nada a importância das ocupações.

Os comunistas devem apoiar de todas as maneiras possíveis esta e todas as ocupações que os estudantes têm feito! Ocupações são pedagógicas, politizam os estudantes que delas participam, e ensinam muito mais do que meses de algumas aulas. Ademais, embora em torno de uma falsa polêmica, as forças políticas estão em choque, com princípios opostos (polêmica essa bem real), e o resultado dessa luta será real, apesar da polêmica ser irreal. A humanidade sempre lutou em torno de fantasmas, falsas polêmicas, porque só muito recentemente, e só os que mais entendem o marxismo, conseguiram começar a entender racionalmente a história humana, mas essas lutas moveram a história humana mesmo assim! Pois apesar de lutarem em torno de quimeras, as bases sociais que lutam são bem concretas. Lembremo-nos de que desde 2013 a divisão social/ideológica se acentuou no Brasil.

Quem não quiser debater detalhes sobre a PEC pode pular para o item 2, onde vou debater a polêmica real, que é contra uma visão de economia do século XIX, o monetarismo. E quem não gosta de economia pode pular para o item 3, onde proponho o fim de 40 anos de defensiva por parte das “esquerdas” brasileiras.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Alguns significados dos resultados das eleições de 2016 em São João del Rei

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Os significados de uma eleição vão muito além de seus resultados, e na verdade são também resultados até mais importantes do que a eleição em si. Forças que venceram nos votos, as vezes perderam na realidade, apesar de se elegerem, e forças que perderam nos votos, as vezes venceram mais do que se tivessem eleito alguém. Política não é para iniciantes! Por exemplo, uma das grandes vencedoras desse pleito foi Jânia Costa, que ficou em terceiro lugar mas já é um das favoritas para 2020 ou para quando forem as eleições. Já um Aécio Neves (saindo um pouco de São João) nem estava disputando nada diretamente e é um dos maiores perdedores, pois Dória em São Paulo já lançou Alckmin à presidência logo na comemoração da vitória.

No fim das contas o vencedor em São João, Nivaldo, teve somente 22 mil votos, ou seja, só 2 mil a mais do que ele teve quando perdeu há 4 anos, e menos da metade do eleitorado válido. De fato, como 36% foram abstenções, brancos e nulos, Nivaldo não teve nem um terço do eleitorado.  Ele se elegeu somente com sua velha clientela, e com a divisão dos votos entre os demais candidatos. Se São João tivesse segundo turno, ele provavelmente perderia.

Rômulo Viegas teve mais chances do que todos imaginavam, e chegou a 35% dos votos. Se aqui tivesse segundo turno, venceria! De nossa análise no artigo anterior só erramos em imaginar que Jânia tirava votos de Nivaldo, enquanto ela também dividiu os votos anti-nivaldistas. De resto, estávamos certos, e seguindo o que dissemos Rominho teria alguma chance a mais, embora pouca.

O Pt podia ter reduzido a própria humilhação e posado de herói, se na última semana retirasse sua candidatura e apoiasse decididamente Rômulo Viegas. Não seria nada demais para o Pt de São João Del Rei, que em 2000 e 2004 foi linha auxiliar do PSDB, e com Sidinho do Ferrotaco. Porque quem apóia Sidinho não apoiou Rômulo? Devem ter muito ódio de São João Del Rei! Só os votos petistas não virariam o jogo, mas talvez a manobra petista gerasse uma empolgação que convencesse eleitores de Jânia e nulos a votarem contra Nivaldo, e gerasse uma virada. Deveria ser dado um recado claro – Retiramos nossa candidatura porque não temos chance nenhuma, e São João não tem segundo turno. O único que tem condições de vencer Nivaldo é Rômulo Viegas, portanto votaremos nele - Atitude tão nobre poderia ter revertido em mais votos para o legislativo e a derrota petista não teria sido tão absoluta. Mesmo se ainda assim Nivaldo vencesse, o Pt não sairia tão mal, e se conseguisse virar o jogo estaria comemorando apesar da própria derrota! Moralmente, teria superado a derrota. Mas diante da catástrofe óbvia, o que fizeram os “líderes” petistas? Nada! Imobilismo! Choro! Mesmo que os problemas burocráticos se resolvam e o Pt consiga ao menos uma vereadora, tinham 4, a derrota é total. Circula o boato de que o erro burocrático que está impedindo que os votos de Vera do Polivalente sejam contabilizados foi na verdade uma sabotagem interna. Se foi assim esse petista sabotou o partido todo! Típico. É só parar para escutar velhas histórias de antigos petistas para se descobrir que eles sempre se picaram, assim como sempre foram hostis às outras organizações de esquerda.

O PSTU teve somente metade dos votos que teve em 2012, e mesmo tendo a cabeça de chapa só conseguiu puxar para sua chapa de vereadores 80 votos de legenda, em comparação com os 118 da última eleição. A culpa não é dos militantes do PSTU daqui, que militam de Sol a Sol, estão inseridos nos movimentos sociais, têm histórico de luta e são bem quistos pela população em geral. A culpa é da política que vem de Paris, e que para nós é tão distante quanto se viesse de outro planeta. Tendo sofrido um racha recentemente, a direção do PSTU considerou que a melhor forma de sobreviver era se isolando ainda mais! Em todo canto só fecharam aliança com a condição de fazerem exclusivamente seu próprio discurso. Foi o que fizeram aqui, colocando de lado os programas desenvolvidos pela Frente de Esquerda em 2008 e 2012. O PCB, o PSOL e as Brigadas aceitaram como forma de manter a Frente unida, e por considerarem que não era prioritária para eles esse ano a campanha para o executivo. A campanha do PSTU simplesmente levantou mais slogans nacionais, tipo “Fora Temer” e “Fora Todos” do que assuntos municipais, dos quais quase nem falou. Foi o tipo de campanha cujo recado para o eleitor foi – essa campanha não é para valer, é só protesto. Não vote em mim! - Como lado positivo, exatamente ao contrário de 2012, quando os votos dobraram em relação a 2008, a Frente não saiu das eleições despedaçada, com as pessoas não podendo se ver. A eleição não gerou nenhum desgaste político interno. O desgaste de 2012 se deu exatamente debatendo o programa, e recusando as fórmulas enviadas de Paris via Belo Horizonte. Evitamos quase tudo o que parecia extra-terrestre, e isso dobrou a votação, mas os debates em torno de cada item foram duros, magoaram vários camaradas, e depois das eleições a Frente só existia oficialmente.

A eleição do legislativo teve ainda mais votos nulos que as passadas, apesar de ter 3 vezes mais candidatos. O poder financeiro, como sempre, imperou, desde a montagem das chapas até o final. As chapas ligadas aos três candidatos a prefeito mais votados foram também as mais votadas, como também é normal, até porque parte do eleitorado tem como hábito votar nos vereadores da base do prefeito. É curioso que foram eleitos como vereadores os filhos do prefeito e do vice-prefeito! Isso será assunto para quatro anos. Se essa tentativa de criar dinastias políticas resultar em bens para a cidade, ótimo! Dinastias mal conseguem se manter quando são nobres reinando sobre analfabetos, quanto mais essas dinastias eleitorais que as vezes se tenta formar. Não merecem nossa preocupação. Se errarem a mão correm o risco de queimarem os filhos junto com eles, e essa preocupação talvez também faça bem à cidade. O legislativo parece não ter esquerda, não tem representantes além disso de toda uma série de opiniões que são, contudo, fortes na sociedade. Não que ele já tenha representado a população de São João Del Rei em algum momento, mas o divórcio entre representantes e representados é cada vez mais escandaloso. Se Nivaldo só representa um terço do eleitorado, a Câmara representa menos ainda que isso.

O PSOL não pôde lançar candidatos, e o PSTU não fez nenhuma campanha para os seus candidatos, de forma que só podemos falar de uma candidatura da Frente de Esquerda, de Alexandre Marciano, do PCB. Marciano teve 50% mais votos que em 2012, apesar de estar concorrendo com três vezes mais candidatos. Foram 140 votos, que é pouco menos de um quinto do que teve a candidata mais votada do Pt. Deixou para trás mais de 200 concorrentes. Em termos percentuais, subiu de 0,18% para 0,32% do eleitorado válido. Teve um só material, dez mil exemplares de um panfleto A4. O PCB teve ainda 25 votos de legenda, 6 a mais que em 2012.


Agora temos um governo que já nasce com a maioria da população em oposição. O Pt está morto, desmoralizado. O resto da direita não sabe fazer oposição. Esse quadro abre espaço para o crescimento de uma nova esquerda.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

ERRATA: A era nivaldista não acabou !

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Em 2012, quando Nivaldo foi derrotado pelo fracasso que nos desadministra, publiquei aqui mesmo um artigo com o título “Frente Socialista dobra votação – Era nivaldista encerrada – Gestão de Helvécio se iniciará sobre a sombra de Daniel Dantas”. Há menos de uma semana das eleições de 2016 podemos afirmar que erramos. A era nivaldista não terminou! Como diz o povo nas ruas, “o trator voltou”. As chances dos demais candidatos sempre foram muito pequenas, e agora são quase nulas, quase.

Quem sempre teve alguma chance foi Rômulo Viegas (PSDB), que seria o provável vencedor se Nivaldo fosse barrado pela justiça. Mas para vencer Nivaldo Rômulo precisaria somar todos os votos anti-nivaldistas. Precisaria, portanto, que Cristina (PT) não tivesse quase voto algum, ou mesmo que retirasse sua candidatura, mas quanto o Pt cobraria por isso? Os votos da Frente de Esquerda não iriam mesmo para Rômulo Viegas, mas antes para os nulos. É mais fácil talvez que a Frente de Esquerda esteja tirando votos de Nivaldo.  Além disso seria necessário que a campanha de Jânia, que tira votos de Nilvado, crescesse. Mesmo assim, talvez Nivaldo tenha mais votos que todos os 4 adversários somados, e nesse caso toda essa matemática eleitoral não vale nada, porque Rômulo poderia conseguir apoio dos outros 3 candidatos e ainda assim perderia. Mas mesmo que por milagre Nivaldo seja derrotado, esse milagre se chamará Jânia, de forma que virá da própria base nivaldista, e não do anti-nivaldismo.

É realmente impressionante que em 4 anos a imagem de Nivaldo, que parecia aposentado, tenha melhorado tanto. O maior cabo eleitoral dele é o atual prefeito, como todos sabem. O fracasso foi total! Tinha a maioria da Câmara dos Vereadores, a qual manteve por quase todo o mandato. Seu partido estava no governo federal, e na metade de seu mandato ganhou o governo estadual. Tinha apoio jurado dos professores da UFSJ. Apesar disso tudo, que nenhum outro prefeito nunca teve antes, é voz pública que foi o pior prefeito que já tivemos, tendo tomado esse título de Sidinho, que de 2004 a 2008 também conseguiu ressuscitar Nivaldo. Basta dizer que o atual prefeito sequer está tentando a reeleição, e que sua vice, que é a candidata petista, está amargando o quarto lugar nas pesquisas.

É simples, os petistas dizem que não tinham dinheiro nem para tapar buracos, e realmente a cidade ficou 4 anos esburacada, mas ao mesmo tempo têm mais de 800 cargos sem concurso na Prefeitura, o que soma mais de 1% da população da cidade! O prefeito chegou a reclamar de falta de dinheiro para pintar faixas, mas todo ano gastam milhares de reais com medalhinhas com as quais se condecoram uns aos outros... Dizem que não têm dinheiro para aumentar salários dos professores e outros que realmente trabalham, mas o orçamento anual da Câmara de Vereadores subiu de 1 milhão e meio para quase 5 milhões!

Agora, no fim do mandato, fizeram algo de decente melhorando a iluminação em alguns pontos, mas as verbas para isso sempre existem, pois pagamos para isso na conta da Cemig. Ou seja, a Prefeitura sempre teve o dinheiro para fazer esse serviço, mas só agora o conseguiu. A escolha da iluminação de leds foi correta, e economizará energia apesar do maior número de postes! Além disso, os postes são corretos do ponto de vista da poluição visual, pois eles dirigem a luz para baixo, ao invés de desperdiçá-la para o céu, confundindo aves a atrapalhando as observações astronômicas.

Contudo, nem se São João virasse a Cidade Luz o fracasso da administração petista seria reversível. E se Nivaldo realmente vencer, ficará pior, porque ele logo no primeiro mês provará que a Prefeitura tem recursos, desmoralizando completamente os petistas. Contudo creio que qualquer um dos 4 opositores que ganhasse conseguiria o mesmo – no primeiro mês mostrar serviço e acabar com as mentiras petistas! E se fosse alguém honesto, como Jordano, da Frente de Esquerda, o Pt ainda sofreria uma auditoria dessa gestão suspeita. Sim, suspeita, porque se faz menos que Nivaldo e o dinheiro some, algo está muito errado.

A Frente de Esquerda passou por dificuldades para se manter unida dessa vez, mas por fim se manteve. A campanha está boa, com grande receptividade por parte dos candidatos comunistas. Os petistas estão escondendo o vermelho e a estrela, mas os comunistas não têm tido problema nenhum com a cor vermelha e a foice e o martelo. O único problema é quando alguém acha que são petistas, mas ai é só explicar. Que os petistas e pseudobistas abram mão dos símbolos soviéticos, achamos mais que justo e honesto, pois eles nunca os mereceram, nunca foram sequer dignos deles. Mais ainda, é mesmo uma condição de paz, dos verdadeiros comunistas para os petistas, que eles parem de sujar nossos símbolos com suas patas! Quem chamava a União Soviética de ditadura, porque usa sua estrela e suas cores? Aproveitem que já estão mesmo passando essa vergonha de esconderem os símbolos e os troquem por alguma coisa que os represente.  E repetimos – fiquem felizes por ser um Nivaldo e não um Jordano na frente nas pesquisas, porque se nós ganhássemos lascaríamos em vocês uma auditoria!

domingo, 4 de setembro de 2016

GOLPISMO, “FORA TEMER” E AS CONTRAPRODUCENTES AMARRAS AO LULISMO

Wlamir Silva
Professor e historiador

A insistência da tese do “golpe”, acompanhada das agressões por epítetos de “canalhas” e “golpistas” aos que dela discordam ou, mesmo, aos que negam a ela alguma centralidade, demonstra a pretensão de direção e hegemonia do Lulismo. De fato, trata-se, de viabilizar a sobrevivência e o retorno, sem nenhuma autocrítica, desta força política em processo falimentar.


Slogans substituem o debate e a divulgação de temas graves


Pensar a organização dos trabalhadores em seu conjunto, em perspectiva da resistência em curto prazo e, principalmente, em longo prazo, é ainda mais incompatível com a sombra do discurso do “golpe”. Afinal, o apoio popular ao impeachment esteve, em maio de 2016, em 66%, e a rejeição a ele em 27% (Datafolha). O que aponta para as restrições da associação ao referido discurso.

A rejeição “de todos”, ser percebida em pesquisas de opinião, e a olho nu, e o desejo difuso de eleições gerais (62%, Datafolha, maio de 2016), expõe uma descrença para com o sistema político, ou com a política, que extrapola uma rejeição ao atual governo. O mesmo quadro já se dava com o governo anterior e se mantem, com diferenças inexpressivas, para o atual.

Se a questão premente são os direitos trabalhistas e de aposentadoria em risco, a tese do “golpe” também é um estorvo. A preservação de tais direitos tem peso quase secular no imaginário popular, e é preciso mobilizar este patrimônio ideológico e simbólico. E esta população, em sua imensa maioria, em especial nos segmentos menos remunerados, não rejeita o impeachment.

Além do que, a preservação de direitos se deveu, desde os anos 1950, ao Parlamento,
sensível às pressões do voto popular, mesmo com maiorias conservadoras. Insistir com a pecha de “golpista” ao Congresso e associar tais demandas a um projeto político falido – e que reformou a previdência, foi conivente e tramou a flexibilização trabalhista – é contraproducente.

Eficaz será a construção de pautas unificadas com base nos direitos a serem defendidos, evitando a sua confusão com slogans e palavras de ordem de fins outros. Pressionar o Congresso com listas de votantes nas medidas que retirem direitos no calor da crise. Apelar para o patrimônio destes direitos fortemente assentados no imaginário popular.

A longo prazo, é ainda menos atraente, para uma perspectiva política que se pretenda transformadora, reforçar amarras ao Lulismo. Visto que tal projeto foi pífio no que tange ao desenvolvimento econômico e criação de novos direitos, promoveu a cooptação e a fragilização da organização dos trabalhadores e aderiu e reforçou a política tradicional conservadora.

Em perspectiva histórica, há um longo e pedregoso caminho a percorrer: o de retomar as bases de organização social e política autônomas e o de construir projetos políticos mais claros junto à população. E esta clareza não implica em unidade prévia ou forçada, ou a imposição de uma posição sobre as outras.

Um novo caminho à esquerda deve ser o da abertura de campos de discussão, possibilidades de unidade e alianças mais ou menos amplas. Desde que com base em programas e intenções publicamente estabelecidas, respeito aos militantes e em consonância com uma pedagogia política junto à população.

Afinal, o reconhecimento de sermos, hoje, ínfima minoria, é um ponto de partida necessário para voos maiores. Atalhos sedutores de tomada do poder, irreais pelo vazio de seu pragmatismo ou pela vacuidade de seu espontaneísmo, são apenas desvios que, como vemos, cobram, cedo ou tarde, o seu preço com juros.



terça-feira, 23 de agosto de 2016

O FETICHE DAS ESQUERDAS PELAS ELEIÇÕES DOS EXECUTIVOS

Wlamir Silva
Professor
Historiador


“[O] direito de voto universal [...] trouxe muito mais [...]. Durante a campanha eleitoral, ele nos forneceu um meio sem igual para entrar em contato com as massas populares [...] e obrigar todos os partidos a defender-se diante de todo o povo dos nossos ataques às suas opiniões e ações; e, além disso, ele colocou à disposição dos nossos representantes uma tribuna no Parlamento, do alto da qual podiam dirigir a palavra tanto a seus adversários no Parlamento como às massas do lado de fora com muito mais autoridade e liberdade”. F. Engels, 1895.[1]

A polêmica da exclusão de candidatos nos debates no Rio de Janeiro[2] traz uma questão transversal e, de fato, maior. Trata-se do fetiche da esquerda com as candidaturas aos executivos. Cujo desdobramento denunciador é o paradigma de, eventualmente no Poder Executivo, se atribuir os fracassos e as contradições programáticas às armadilhas das coalizões, dando à tragédia anunciada ares de acidente de percurso.

As eleições e o sistema representativo são alvos de diversas discussões num campo “de esquerda”. Desde a negação extrema da atuação parlamentar, em nome de um exclusivismo da política não institucional ou de uma mal explicada “democracia direta”, até uma pragmática e conveniente adesão ou conivência com os vícios da política tradicional clientelista. Ou seja, do ascetismo inócuo à promiscuidade desqualificadora.

Detalhe da bancada do PCB na Constituinte de 1946, 10%
dos votos, influência pela consistência de programa e argumentos.

A história do sistema representativo nega a tese da atuação parlamentar de todo inócua. Os parlamentos tiveram um papel importante na institucionalização de direitos da classe trabalhadora, do Estado do bem estar social e das liberdades políticas. Desde a social-democracia europeia no século XIX e, no Brasil, desde a atuação do PCB em 1946, ao PTB e passando pelo MDB, ambos, aliás, tendo sido espaços de atuação política legal dos comunistas.

A ânsia de saltar os óbices da conquista de espaços parlamentares, quando honesta, mostra a impaciência para com a pedagogia política de longo prazo, de fundamentos claros e exercício cotidiano da coerência política. Numa mal disfarçada descrença na capacidade do exercício da autonomia pelos trabalhadores e setores populares. Por meio da qual brotam esperanças em arroubos espontaneístas e vanguardismos tolos.

Já a ambição desonesta pelos apressados poderes do político tradicional, que prospera pelo acesso às “tetas” do Executivo, bem sabe da imersão na lógica vigente. Sabe também como utilizar-se de discursos fantasiosos de promoção de benesses à população mais desassistida e, até mesmo, de simbolismos revolucionários simplórios. Seus manipuladores conhecem e alimentam a inércia política que lhes interessa e sustenta, em especial a da anomia dos trabalhadores.

A luta aberta por espaços parlamentares não colide com as ações de organização da classe trabalhadora em outros níveis. Ao contrário, se for feita com clareza de princípios e práticas, pode ser um meio de politização. Tanto nas campanhas como nos eventuais exercícios de mandato. Afinal, como pretender ser uma alternativa de poder se não o puder exercê-lo de forma a prefigurar novas ideias e práticas?[3] Por isso é processo mais lento, porque mais substancial.

Não se trata de sectarismo ou purismo irreal. É possível fazer alianças e acordos. Desde os que alinhem setores à esquerda aos que estabeleçam meios de viabilizar políticas que atendam à população, ou minorem seus males. Desde que sejam expostos, programaticamente, em alianças, e com seus termos e motivos, nas questões pontuais. Seria o exercício de uma pedagogia política emancipadora, inclusive dos limites incontornáveis da ordem vigente.



[1] ENGELS, Friedrich. Prefácio (1895). In: MARX, Karl. As lutas de classes na França. São Paulo: Boitempo, 2012, pp. 21-22.
[2] Isso se dá pela nova Lei Eleitoral aprovada pelo Congresso e sancionada pela presidente afastada Dilma Rousseff em 2015, estabelecendo como exigência o número superior a nove parlamentares na Câmara dos Deputados ou, no primeiro turno, com a aprovação de pelo menos 2/3 (dois terços) dos pelo menos 2/3 (dois terços) dos candidatos aptos, no caso de eleição majoritária.
[3] Alguns dirão que sob o capitalismo não são possíveis tais prefigurações. Como se o advento do socialismo fosse uma panaceia imediata, como se a história do socialismo real justificasse tal pensamento mágico.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

O golpe de 1964 e o golpe de 2016

Raramente tenho deixado meus documentos oitocentistas para tratar de assuntos mais recentes, mas como historiador é para mim tão repugnante ver a distorção completa de um evento histórico da importância do golpe de 1964 e da ditadura que se seguiu, que sou obrigado a me dar a esse trabalho.

O Brasil já viveu montes de golpes vitoriosos e fracassados, e nenhum nunca foi igual ao outro. D. Pedro I deu o primeiro, quando fechou a Constituinte em 1823. Foi derrubado por um movimento que seus apoiadores chamaram de golpe. D. Pedro II tomou a coroa três anos mais cedo do que o previsto em um golpe e segundo os monarquistas caiu em outro. Durante seu longo reinado um partido golpeou o outro em seguidas eleições. Para os monarquistas a instalação da República foi um golpe, e para os paulistas a Revolução de 1930 foi outro. Em 1932 os cafeicultores tentaram retomar o poder com um golpe. Em 1837 Getúlio se tornou ditador com um golpe, e em 1945 ele caiu em outro. Ademais, golpes acontecem até em eleições sindicais e estudantis.

De todos os golpes do passado os petistas escolheram exatamente o menos parecido com o atual para fazer essa comparação mentirosa e até criminosa, pois contribuir para aumentar a ignorância do povo (coisa que aliás o Pt sempre fez) é sempre um crime terrível.

Primeiro porque assim se compara o governo petista com o governo de Jango, o que é ofensivo a esse último, que não era corrupto, não traiu a pátria (pelo contrário, limitou a remessa de lucros de empresas multinacionais para o estrangeiro), não traiu os trabalhadores, tentou fazer reforma agrária (o Pt em 14 anos não fez, nem tentou). Isso não fazia de Jango nenhum socialista, nenhum revolucionário, mas muito superior ao Pt, certamente. O Pt cortou direitos trabalhistas, privatizou, multiplicou os lucros dos capitalistas, se corrompeu por completo e durante seus 14 anos deixou centenas de sem terra serem assassinados. Dilma foi pior que Lula e fez menos reforma agrária do que FHC! Que os petistas queiram esconder suas sujeiras é normal, mas que para isso sujem a imagem do Presidente João Goulart é inaceitável.

Segundo, alguns idiotas concluíram que se tivemos um golpe então agora temos um regime de exceção e até uma ditadura! É por essas e outras que muitas vezes tenho afirmado que os petistas são de direita, dado que o nível intelectual deles é o mesmo das pessoas de direita, que há dois meses estavam vendo em algum lugar uma ditadura comunista! O nível do ridículo é o mesmo! Eu podia fazer comparações históricas e perguntar, depois do Golpe da Maioridade seguiu-se uma ditadura? E depois de 1945 etc? Mas essa gente nem sabe que isso foi no Brasil! É elementar que nem sob Dilma nem sob Temer vivemos sequer um regime de exceção, mas só o fracasso mesmo. São governos fracos, de um regime que não consegue canalizar esgoto em metade das ruas do país.
Terceiro, toda a história do golpe de 1964 é diferente. Comecemos pelas Forças Armadas. Elas tinham ajudado Vargas no golpe de 1937 e o derrubaram no golpe de 1945. Em 1954 forçaram Vargas ao suicídio com um golpe. Em 1955 alguns militares planejavam um golpe para não deixar JK tomar posse, e outros militares deram um golpe para garantir a posse! Em 1962 tentaram outro golpe e em 1964, treinados com se vê, conseguiram finalmente segurar o poder por 20 anos. Não é preciso ter boa memória para notar que as Forças Armadas atuais são outras, que não têm a mais mínima prática de golpes.

As Forças Armadas (FFAA) tinham um projeto para o país em 1964, elaborado na Escola Superior de Guerra e sustentado pelo Clube Militar, e atualmente isso não existe. As FFAA tinham um efetivo bem maior, mais disciplinado, e anti-comunista por doutrinação dos padres. Atualmente a tropa é menor e a indisciplina invadiu os quartéis tanto quanto as salas de aula. A fidelidade dos soldados é disputada pelo tráfico nas grandes cidades e mesmo pela consciência dos recrutas, que é outra muito diferente da de 1964. Em 1964 as FFAA tinham o respeito do povo, eram consideradas uma esperança de regeneração para o país. Atualmente, como em Junho, tomam pedradas nos desfiles de 7 de Setembro e sofrem denúncias de corrupção. Em 1964 as FFAA estavam bem mais unidas, e queriam o poder. Hoje os militares nem têm tanta unidade política, nem querem tomar o poder, porque nem têm planos para fazer algo com ele.

Outra enorme diferença são as esquerdas, que em 1964 só existiam nas grandes cidades, e hoje existem espalhadas pelo país inteiro. Se já aconteceu uma forte resistência quando o regime de 1964 se endureceu, a tentativa de instaurar uma forte repressão atualmente geraria uma resistência muitas vezes maior!

Em 1963, quando Brizola visitou BH, foi recebido por uma procissão, liderada por um padre, cuja intenção era tirar o demônio do corpo dele. Essa era a cultura política da época – Brizola, um latifundiário, seria comunista e portanto possuído pelo capeta!

Em 2016 tivemos um golpe, mas foi um daqueles de baixo calão, entre bandidos, como quando um chefão do crime toma o comando de outro chefão. Não é que não mudou nada, pelo contrário, várias coisas podem mudar quando uma quadrilha toma a favela de outra! A direita que estava crescendo na oposição agora está pagando politicamente pelo governo que ajudou a colocar no poder ao sustentar o golpe, e ainda ficou, inteira, com o título de golpista, em benefício exclusivo da ala suicida do PMDB. A direita teria um governo legítimo e ainda limpo de 4 anos, pois venceria em 2018, e trocou isso por um governo interino e sujo que talvez não dure dois anos e meio (e melhor, ajudou o país a se livrar da direita mais inteligente e perigosa, porque enrustida - o Pt e seus aliados). O governo Dilma tinha apoio de parte do povo, de militantes que a defendiam (só porque ela veste vermelho) por piores que fossem os crimes de traição que ela cometesse, enquanto Temer tem uma oposição popular quase absoluta. O resultado é que ela conseguia fazer maldades que ele só ameaça fazer. Se o governo dela foi marcado pelo estelionato, pois ela fez exatamente tudo ao contrário do que prometeu, e tudo o que acusou que os outros fariam, o dele está sendo marcado pelo recuo, pois sem apoio popular recua de cada uma de suas propostas idiotas, que aliás são as mesmas do Pt, e que aliás não foram aprovadas nas urnas, pois para os eleitores o Pt e Temer falaram outras coisas!

Por fim, o discurso petista comparando 2016 a 1964 confunde a defesa do Pt com a defesa da democracia. Vou relevar o mal caratismo, a desonestidade dessa tática. Está difícil defender o Pt, sujo por corrupção, traidor dos trabalhadores e do país, então se convoca as pessoas para defenderem a democracia! Que belos democratas, que assim emporcalham a democracia para defender ladrões! Mas o pior, o crime maior dessa conversa, é que assim além de se proteger uma quadrilha ainda se defende um regime fracassado, autoritário, assassino e que de democracia não tem nada!!! O Pt mesmo é a prova de que o povo não manda em nada por meio eleitoral, pois traiu completamente seus eleitores. Em seus estertores, o petismo é conservador! Quer conservar o regime dos ladrões. Precisamos construir uma democracia de verdade, e os petistas, para defenderem seus ladrões, dificultam esse trabalho blindando uma falsa democracia e confundindo o povo.


O governo Temer é ilegítimo, golpista, seu programa de governo não teve apoio das urnas, os deputados e senadores que o sustentam igualmente não representam nem suas famílias quanto mais o povo. Mas o Fora Temer não é um Volta Dilma. A volta de Dilma, se acontecer, é um preço a pagar pelo Fora Temer, e não seu objetivo. Teria, porém, um único lado bom esse retorno, visto que algumas pessoas não aprenderam o que é o Pt em 14 anos de traição, e precisam de um pouco mais de decepção. É que na vida não existe aprovação automática – quem não aprende tem que sofrer de novo e pronto.

terça-feira, 26 de julho de 2016

À TURCA?

Wlamir Silva
Professor
Historiador


A “presidenta” Dilma Rousseff traçou um paralelo da tentativa de golpe na Turquia com o impeachment em curso, ressalvando que lá ocorreu um “golpe verdadeiramente militar”[1], enquanto no Brasil ele seria um “golpe parlamentar”. Golpe porque estariam sendo desrespeitados os resultados eleitorais de Tayyip Erdogan, eleito em 2014, já primeiro turno com 51.79% dos votos, e de seu partido que confirmou em 2015 a maioria no Parlamento turco[2]. Um blog lulista chegou a sugerir um paralelo de resistência, à Erdogan, contra Temer[3].

Governar “à turca” é, há muito, sinônimo de governar de forma despótica e violenta.  Do uso de “meios tão violentos quanto os dos turcos”, disse Montesquieu. A tentativa de golpe na Turquia faz jus ao estereótipo eurocêntrico. Sem a pretensão ou, aqui, o interesse de compreender as nuances e as contradições turcas, parece-nos claro que a perspectiva do golpe militar não animou o povo turco e que a reação do governo se deu, no mínimo, no mesmo diapasão. Os golpes militares turcos não prenunciavam liberdades e a democracia turca tampouco, sob o signo da violência.

Os paralelos justificadores do “golpe” na conjuntura política brasileira, voltados para o passado, têm se caracterizado pela sua vacuidade. Este paralelo à turca não foge à regra. A abstração da violência, rompendo a ordem institucional no intento de derrubar Erdogan ou na reação do governo turco, é mesmo chocante. Não contradizem, no entanto, as comparações históricas endógenas, em especial com o golpe civil-militar de 1964, mas também, é bom lembrar, com alusões até ao nazismo.

O mote do “golpe” é a baliza para tratar o governo interino, estabelecido institucionalmente e sem violência militar ou assemelhada, como o promotor de enormes desgraças. Processos que já vinham sendo gestados no governo afastado, como a “Reforma da Previdência”, são alardeados como novidades absolutas do “usurpador”.  A crise que se arrastava e suas carências são denunciadas como maldades. Quaisquer fatos desagradáveis são “festejados” em tom de alarme como sinais do apocalipse trazido por Temer, o anticristo[4].

Nota-se certa nostalgia autoritária, banhada pela ficção que edulcora o “golpe”. Ainda ontem, alardeou-se a prisão do ex-senador Eduardo Suplicy na reintegração de posse na Zona Oeste de São Paulo[5]. O mesmo Blog lulista repercutiu o que, simbolicamente, mostraria um “país doente”: Eduardo Suplicy preso, Eduardo Cunha solto[6]. A prisão de Eduardo Suplicy surge então como símbolo da violência autoritária, atenuando o lamentado déficit de violência politica do “golpe parlamentar-midiático-judiciário etc.”.

Mas, Eduardo Suplicy foi tratado “à turca”? Vejamos. O respeitável petista deitou-se à frente da tropa de choque e foi carregado, sem violência, até uma viatura e, de lá, conduzido à delegacia onde foi liberado. E o que foi a reintegração de posse? Foi de propriedade da Prefeitura de São Paulo – da qual Suplicy foi secretário – e porque em áreas de risco... Houve resistência e o uso da força pela Polícia Militar. Houve abusos? Aparentemente não. A Prefeitura petista achava que se podia fazer a omelete sem quebrar os ovos?

Fatos comparáveis?
Algo comparável às ações turcas, com suas centenas de mortos e milhares de feridos?[7] É claro que isso não quer dizer que sejamos um paraíso. Pelo contrário. Nossa violência é endêmica. Conflitos rurais e indígenas, criminalidade, milícias etc. Além da pobreza e da miséria, das carências de saneamento, saúde e educação básica etc. Mas nada disso chegou com um “golpe”, nada disso é criação de um “usurpador”. São mazelas que se arrastam, mais ou menos a céu aberto, e não ficam melhores quando maquiadas por polianas marqueteiras.

Como se arrastam as perversidades do nosso sistema político, marcado pelo clientelismo, o tráfico de influência e tendo como seu corolário a crescente mediocridade do sistema representativo. Mas este fenômeno tampouco pode ser atribuído ao governo interino. O governo afastado e o anterior não tiveram nenhuma contradição com ele enquanto dele usufruíram. De fato estabeleceram relações profundas com os vícios citados, a eles aderindo e até a eles emprestando maior organização.

Nada por aqui foi feito “à turca”. Nem o golpe, nem o contragolpe, fato com o qual devíamos nos regozijar. Mas todo paralelo serve à estratégia cega traçada por aqui. E nem se pretende mais barrar o impeachment, mas apontar embates políticos adiante[8]. Neste contexto, é especialmente irresponsável o paralelo com a Turquia. Com tantos escolhos sociais e políticos, devemos, ao menos, valorizar a erradicação do golpismo de fato – não institucional e violento – e pensar a participação popular paulatina, sólida e avessa a aventuras e quarteladas...





[4] A “Escola sem partido” ou um editorial do Globo pelo ensino pago nas universidades públicas. Quanto ao último, como se o mesmo não tivesse sido sugerido por Bresser Pereira, como ministro de FHC, hoje lulista convicto, e como se ideias conservadoras dependessem de golpismos, fossem de responsabilidade governamental ou, pior, devessem ser, de alguma forma, eliminadas do espaço público.
[7] Aliás, em sua maior parte pelo governo que reagiu ao golpe...
[8] Dilma Rousseff já foi politicamente descartada,  como disse ela mesma: carta fora do baralho.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

IMPEDIMENTO DARÁ SOBREVIDA AO PT

O impedimento foi a melhor estratégia para a saída de Dilma e dar sobrevida ao PT. Logicamente que os petistas não poderiam ter arquitetado esse plano brilhante sozinhos mas tal artimanha tinha que passar pela imbecilidade da oposição de sigla partidária.

terça-feira, 5 de abril de 2016

FLEXIBILIZAÇÃO DO TRABALHO E IMPEACHMENT: UM ENGODO PERIGOSO

Wlamir Silva
Professor e historiador


   “A CLT é o AI-5 dos trabalhadores brasileiros”
    Lula, ainda sindicalista, em discurso para  metalúrgicos do ABC paulista.

A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) é um conjunto de direitos firmemente fincado na consciência dos trabalhadores brasileiros. Nenhum Congresso de nossa história foi capaz de tocar na CLT. Um governo que se siga ao possível impeachment de Dilma Rousseff certamente não terá força para fazê-lo, sob o risco de morte política.

A resistência ao desmonte da CLT, de fato, é tanto maior quanto for clara e exposta publicamente. Se há riscos efetivos de flexibilização, eles são maiores quando travestidos de avanços para as classes trabalhadoras. Como foi o caso da proposta do Acordo Coletivo Especial (ACE), saído das entranhas lulistas do ABC e da Central Única dos Trabalhadores e do Programa Nacional de Proteção ao Emprego (PPE), aprovado em fins de 2015 [1].

O detalhe do ACE é que ele foi gestado em “céu de brigadeiro” econômico, como afirma o documento original, de setembro de 2011[2]:

“O velho espírito derrotista deu lugar a um sentimento de autoconfiança. O Brasil assume um novo lugar no mundo. Problemas como o desemprego crônico, a dívida externa ou a fome endêmica começam a ser enfrentados com mudanças positivas em todos os indicadores. Restam ainda desafios enormes para se comemorar a conquista de uma sociedade justa e equilibrada. Mas a rota foi encontrada. Retomada do crescimento, distribuição de renda, responsabilidade social, valorização do trabalho, soberania nacional, democracia, consolidação das instituições republicanas e respeito aos direitos de cidadania compõem a sinalização dessa estrada. Perde força o velho lamento de que tudo vai mal”.


Hoje, em plena crise, este discurso ufanista parece ridículo, mas ele é esclarecedor. A flexibilização trabalhista, com ênfase no acordo coletivo, não é, no Lulismo, uma reação a qualquer crise, pelo contrário, é um projeto de princípio, para eras de prosperidade. Isso está ancorado no DNA do lulismo, ligado ao sindicalismo estadunidense da Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais (AFL-CIO).

A proposta de reformar a CLT. ACE: Acordo Coletivo Especial. Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, 2011.


Se há e houve a reação contra medidas de flexibilização mais profundas, ela está no poder de rejeição da massa trabalhadora. E este poder pouco ou nada tem a ver com os governos lulistas. Pelo contrário, é a fragilidade do projeto lulista que não permite o aprofundamento de sua índole antigetulista. Os arroubos de defesa da CLT, assim como as comparações a Vargas, são, eles sim, frutos da crise que expõe aquela brutal fragilidade.


A referência imagética preferencial ao sindicalismo estadunidense, coincidência? 

Se não acuado pelas crises econômica e política, esta última, desde o mensalão, e com o crescente poder pessoal sobre o Partido dos trabalhadores (PT), Lula buscaria impor o ACE, como protótipo de mudanças na CLT, que ele já alcunhou de “AI-5 da classe trabalhadora”. Tendo que se defender, abriu margem de ação para setores de esquerda do PT e na defensiva contra o apego popular da Legislação Trabalhista.

As leis de proteção do trabalho imageticamente associadas à penúria dos trabalhadores. ACE: Acordo Coletivo Especial. Sindicato dos Metalúrgicos do ABC

Portanto, fazer da flexibilização trabalhista, e do desmonte da CLT, uma ameaça para justificar a defesa de Lula e de Dilma Rousseff é um engodo, consciente ou não. E um reforço perigoso ao “lobo em pele de cordeiro” lulista, que em nada ajuda à imprescindível elevação da consciência da classe trabalhadora brasileira.




[1] Entre o projeto e a Lei, proposta pelo governo Dilma, se houve retirada de medidas de flexibilização, ela se deveu ao “congresso conservador”...
http://www.esquerdadiario.com.br/CSP-Conlutas-se-pronuncia-contra-novo-plano-de-flexibilizacao-da-CLT
Já tratamos disso antes do risco de impeachment, continuaremos a tratar depois dele... http://saojoaodel-pueblo.blogspot.com.br/2014/05/o-lulismo-contra-o-trabalho.html
[2] ACE: Acordo Coletivo Especial. Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. 

segunda-feira, 21 de março de 2016

O POVO NÃO LIGA PARA O ESTADO DE DIREITO, OU VOCÊ NÃO LIGA PARA O POVO?



Segundo pesquisa de opinião do Data Folha[1], o apoio ao impeachment de Dilma Rousseff atingiu expressivos 68%, e os que que consideram o governo ruim ou péssimo atingiu a marca de 69%. Os mesmos 68% entendem que o motivo da nomeação de Lula para o ministério foi o de obter foro privilegiado contra as investigações da Operação Lava Jato. Fato que talvez explique porque o ex-presidente teria hoje uma rejeição de 57% [2]. Ainda mais importante é a opinião sobre a “condução coercitiva” do ex-presidente pelo juiz Sérgio Moro, com expressiva aceitação de 83% dos entrevistados, contra apenas 13% de contrários.


A ida de Lula para a Casa Civil, vista como estratégia de fuga.


Pode-se questionar qualquer pesquisa de opinião, mas pede-se o pudor de não fazê-lo apenas quando não agradam. Mas parece mais útil considerá-las, não de forma absoluta, do que apenas medir “à régua” metros e circunferências de manifestações. Fala-se de um país dividido, é bem duvidoso. O que há é uma divisão de setores da população que se animam de vir a público, nas ruas e mesmo, em redes sociais. Há, na massa da população, um desânimo de fazê-lo, pelo estrutural descrédito com a vida política institucional e, mesmo, com os termos binários e mal-educados dos embates em voga.

Não se pense, no entanto, que esta população não tem seus laivos de opinião[3]. O descarte desta percepção popular, ainda que com bravatas de “confiar no povo brasileiro” ou de “o gigante acordou”, tem e terá gravíssimas consequências. Em especial para os que se propõem ao resgate do interesse pela vida política. Os sinais são claros, pelo menos para os que não vivem em “bolhas” de pensamento único, estigmatizando e constrangendo, às vezes pelo uso de difusas relações de poder, quaisquer vestígios de questionamento ou discordância da epifania lulista. Esses personagens são vistos a olho nu, em círculos sociais vários.

O povo não crê nas potocas de Lula – alguém, de fato, crê? –, nem no governo Dilma Rousseff. Ou nas invenções da dupla, como na intenção respeitável de sua nomeação para a Casa Civil. Crê na operação Lava-Jato, como evidencia o apoio de 83% à ação mais dura da “condução coercitiva”[4]. Como perceberá a divulgação dos grampos por Sérgio Moro, imerso em sutis e divididas interpretações legais[5]? E mais, como perceberá a ação do novo ministro da Justiça que pretende uma razia contra a Lava-Jato[6]? Dará mesmo crédito à ideia de que há uma ameaça à democracia e ao Estado de direito? A ser combatida minando tais investigações?

Um dado menos bombástico da supracitada pesquisa é o de que apenas 37% dos entrevistados considera que a corrupção é principal problema do país. O que isso nos diz? Além da seletiva descrença em pesquisas de opinião, uma explicação lulo-governista é a de que a população é manipulada pela mídia e, assim, enredada pela ideia de que o problema do país é a corrupção. Quando o problema seria o da desigualdade... Não ver exatamente a corrupção como o maior problema do país nos põe, ao menos, uma dúvida. Será realmente tão ingênua a percepção popular? Até onde se percebe as relações entre os dois fenômenos, para não alongarmo-nos em outros?

O povo não compreende a Lava-Jato como um atentado à democracia e ao estado de direito, por não reconhecer a inocência dos “perseguidos”. E os alardeados avanços contra a desigualdade, mais ou menos significativos, para cada cidadão ou grupo, não justificam ou valem a pena dos “malfeitos”, no dialeto rousseffiano. E, se descrente na classe política em geral, este povo não está disposto a analisar “linhas sucessórias” e sopesar “males menores”. Quer alguma verdade e a exposição das entranhas do jogo político que abomina, talvez como um ponto de partida. Vamos ignorá-lo, ou buscá-lo com uma pedagogia política coerente?




[1] http://g1.globo.com/politica/noticia/2016/03/68-apoiam-impeachment-de-dilma-diz-pesquisa-datafolha.html
[2] É um sofisma tirar daí que Lula teria 43% de eleitores potenciais, as taxas de rejeição apontam para aqueles nos quais os entrevistados não votariam em nenhuma hipótese...
[3] E é conveniente poupar-nos das classificações de “classes médias”, “burguesia” ou da deprimente “coxinha”, em índices que variam de 68 a 83 % da população...
[4] Ainda não estavam em pauta os grampos e sua divulgação.
[5] Os “é evidente” dos defensores de Lula e do governo, pior ainda nos gritos histéricos da “presidenta”, não se sustentam, como, aliás, já apontou o próprio Procurador Geral da República Rodrigo Janot. Em parte, as chicanas jurídicas já foram rejeitadas no caso da “condução coercitiva”.
[6] http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/03/1751763-ministro-da-justica-diz-que-trocara-equipe-da-pf-em-caso-de-vazamento.shtml

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Por que o governo do Brasil criou a crise?

Existe uma crise mundial, desde 2008, e os dados indicam que ela está piorando. Porém, não foi essa crise que atingiu o Brasil. A crise brasileira foi criada, desde 2011, pelo governo brasileiro, como é fácil perceber. O Brasil está sob o guarda-chuva chinês, que só agora começou a furar, mas alegou a crise mundial para tomar medidas recessivas desde 2011. Por que um governo faz isso jogando contra os próprios votos?

A crise mundial é um fato. Trata-se de uma crise de superprodução mundial, causada pelo sucesso chinês. Quando a China inundou o mundo com seus produtos baratos, começou a levar a falência milhões de fábricas de todos os países do mundo. Desindustrializados, esses países perderam empregos, perderam poder de compra, e a própria China, hoje a fábrica do mundo, já não consegue vender tanto, e daí não compra tantas matérias primas, ou seja, a crise se agravou!

Até 2016, porém, o Brasil mal tinha sido afetado por essa crise. A crise que nos atingia era causada somente pelo nosso governo, que desde 2011 começou a tomar medidas recessivas, como aumentar taxas, impostos, cortar investimentos etc. Por exemplo, em 2015, o pior ano da última década do ponto de vista econômico, o auge dessa crise criada pelo governo, a inflação atingiu 11%, mas os maiores aumentos foram 50% na energia elétrica e 20% nos combustíveis. Ou seja, sendo que 11% é a média, a maioria dos produtos subiu menos que isso, e em seus custos tiveram que pagar 50% a mais de energia e 20% a mais de fretes, de forma que TUDO o que a maioria dos preços subiu é decorrente somente desses dois aumentos, ou seja, da vontade do governo petista.

Todos sabem que inflação causa perda de votos. Dilma sentiu isso em 2014, e em 2016 sentirá mais ainda nas eleições municipais. Por que então o governo gera inflação? Acontece que só existe uma maneira realmente eficiente de combater a inflação em uma economia de mercado – a produção não pode parar de crescer! Fim de papo. É a única saída verdadeira e saudável contra a inflação. A outra medida, tomada por FHC e que Dilma tentou imitar, é um remédio pior que a doença, é conter o consumo, é a recessão! O plano real não passou disso. FHC tirou o dinheiro do bolso dos brasileiros, e no dia mesmo da transição de moeda permitiu um salto enorme de todos os preços. Então, sem ninguém podendo comprar como os preços podiam subir mais?

Mas o problema atual é completamente diferente. Dilma não estava enfrentando uma inflação galopante quando começou a tomar medidas recessivas em 2011, nem quando as agravou em 2015 (com a mesma desculpa da crise mundial). Também não há um problema de endividamento. Metade do orçamento do governo é gasto com juros da dívida, ou seja, para manter os ricos ricos e vagabundos, mas isso não é um problema econômico, nem financeiro, mas político. Uma auditoria, que Dilma acabou de vetar, resolveria isso. Diversos tipos de lei podiam ser criadas para resolver isso. Contudo, são os caras que comem essa metade do orçamento que financiam as Dilmas, os Aécios, os Cunhas, os Bolsonaros, os Dirceus etc., e portanto nossos governantes governam para tirar mais dinheiro dos brasileiros para esses ladrões. Ou seja, não é um problema financeiro, é um programa de governo, de Estado, em vigor ao menos desde 1964. Como uma nova colônia, somos roubados por uma nova nobreza parasitária. Quando compramos uma cerveja de R$ 6,00, R$ 4,00 são impostos, e R$ 2,00 vão para esses parasitas, que usam parte desse nosso dinheiro para corromper os nossos políticos e continuarem nos roubando, e para facilitar o roubo mantêm o país funcionando porcamente.

Mas a dúvida continua. Para pagar seus patrões o governo não precisa perder popularidade, não precisa gerar inflação, até pelo contrário! O problema é mais concreto, não pode ser resolvido com prisões de bandidos e com canetadas. O problema é na economia real. A seca de 2013 ofuscou a crise energética, ao agravá-la e assim tomou a culpa por ela. Mas a verdade é que o Brasil já estava à beira de um apagão nos meses anteriores à seca. A política eleitoreira de Lula teve o mérito de soltar dinheiro na economia e fazê-la crescer, mas esse crescimento do mercado de miúdos não foi acompanhado pelo crescimento da infra-estrutura do país, que continua se arrastando e agora parou. Quando veio a seca a situação foi tão grave que o governo comprou cotas de energia de volta das empresas, ou seja, pagou para as empresas produzirem menos e demitirem, porque em caso contrário haveria apagão, em ano eleitoral.

O Brasil precisa de ferrovias, portos, muito mais energia etc. Tem tentado construir isso por via mercadológica, conforme a fé fanática de nossos governantes desde a extrema-direita até a “esquerda moderada” (Lula acaba de se confessar liberal. A “moderação” dos social-democratas é sempre capitulação). Contudo, é óbvio, o mercado só serve mesmo para os miúdos, pequenas lojas, botequins, salões etc., não para coisas importantes como desenvolver um grande país. Incapazes de romperem com seu fanatismo liberal (até porque são bem pagos para se manterem nessa igreja do fracasso) nossos carrascos se vêm obrigados a conter o crescimento do país, mesmo que gerando alguma inflação, pois temem uma catástrofe econômica muito maior.

O Brasil não passava de uma fazenda até a década de 1940, quando Getúlio, já há dez anos intervindo pesadamente na economia, sobretudo criando várias grandes estatais, conseguiu iniciar o processo de industrialização, e não somente surtos industriais como tínhamos tido até então. Desde então, quando o Estado continua intervindo e criando, o Brasil se desenvolve rapidamente, e quando os fanáticos liberais assumem o governo o país para e entra em crise. Ao esperarem do mercado que resolva os problemas nacionais, os liberais são ainda menos realistas que os religiosos esperando ajuda de um deus. Os religiosos podem alegar a infinitude do Universo em favor de sua ignorância, mas os liberais não podem alegar nada, são ignorantes só mesmo porque querem ser, uns porque são pagos para isso, outros porque são enganados pelos que são pagos para isso.

A vantagem das estatais, que nenhum liberal consegue entender, é exatamente não precisarem de lucro. É para isso que elas servem! Portanto, a Petrobrás, por exemplo, precisa ser reestatizada, porque na situação atual, com ações na bolsa, buscando lucro portanto, ela é tão ineficiente quanto qualquer empresa privada. Os liberais, tucanos, petistas e peemedebistas (são todos liberais), quando não privatizaram as estatais, abriram seu capital. Ou seja, jogaram fora seus próprios instrumentos de governo! Precisamos de uma Petrobrás realmente estatal, que possa ter prejuízos. Por exemplo, se for interessante que o combustível seja extremamente barato, que a Petrobrás tenha o prejuízo que for pelo tempo que precisar, mas o venda barato, e se for necessário, pelo contrário, não vender para estocar, que a Petrobrás fique sem vender até anos a fio. Para isso servem as estatais! Para atuar como robôs, ou como animais com tapa-olhos, já existem as empresas particulares, completamente amarradas por suas necessidades. Quando se abre o capital de uma empresa, além de se dar dinheiro para vagabundos, se esta amarrando essa empresa a obrigações que não nos interessa que as estatais tenham.


No momento, se tivéssemos governo, estaríamos confiscando todos os bens dos empresários e políticos envolvidos em corrupção, e criaríamos só com esses restos uma gigantesca construtora nacional, com a qual construiríamos toda a infraestrutura de que precisamos.