quarta-feira, 18 de março de 2015

A MISTIFICAÇÃO LULISTA DO GOLPE FASCISTA DOS "RICOS" NO IMAGINÁRIO DA CLASSE TRABALHADORA

Wlamir Silva
Professor
Historiador


Pronto... A Folha voltou a ser PIG, para a tranquilidade de alguns, o desespero de outros e a fleuma de quem, como nós, acha este negócio de PIG uma bobagem... Depois da pesquisa sobre os atos dos dias 13 e 15 de março, na qual firmou um corte de "classe" que os diferenciava[1], comemorado pelas hostes lulistas, o DATAFOLHA publicou a evolução da popularidade da presidente da República. Dilma despenca olimpicamente[2].

  

  
Recaída da Folha? Ou a corrupção genérica atestada pela pesquisa feita nas manifestações tinha nome? 60% de ruim/péssimo entre os de renda até dois salários mínimos, 66% de ruim/péssimo entre os de até cinco salários mínimos... Só aí vão 80% da população... Boa parte deles lidos como uma "classe média", alguns vistos como "ricos", reúnem, de fato, a massa da classe trabalhadora, em especial a que tem alguma qualificação e já teve alguma organização, antes de ser submetida ao cabresto do Ornitorrinco lulista[3], escondida pelo critério renda consumo.


  
E quando dizemos que nossa complexa estratificação social é reduzida a simplórias oposições de “ricos” versus “pobres” ou de “trabalhadores” versus “classes médias”, não restringimos esta desastrada avaliação à fria régua da renda. Constrói-se uma identidade no imaginário social na qual grande parte da classe trabalhadora é dada como ontologicamente reacionária ou "fascista" (por qualquer crítica ao "governo popular"). E construções no imaginário se fazem reais quando penetram no corpo social. Mas, é claro, considerar um imaginário social, sua realidade, sua manipulação e as formas de interferência das formulações políticas é bonito em textos acadêmicos. Fora deles é de bom tom estarmos toscamente alinhados em cruas mistificações marqueteiras.

Depois vem a "classe" dos de mais dez salários mínimos, onde posamos junto com a turma que tem jatinhos, apartamentos em Paris e contas nas Cayman... Por favor, não riam. Ou seja, os detentores de riquezas de bilhões [4]. Sim... orgulhemo-nos, produzimos cada vez mais bilionários. E lá, pasmem, o governo tem 1% a menos de rejeição que entre os "coxinhas" que nadam em dinheiro da faixa de dois a cinco mínimos... São dados impenetráveis... Quem ali rejeita menos o governo, o topo rico de fato, ou os assalariados da fronteira inferior?

A massa trabalhadora começa a perceber – em parte obnubilada, sim, pela chave de leitura parcial da “corrupção” – que a “revolução silenciosa” lulista era uma farsa. Que suas realizações são parcas e suas bases são frágeis. Que sua realidade salarial é incompatível com o discurso altissonante da 5ª economia do mundo. Que boa parte dos ganhos de consumo se devem ao barateamento de produtos pelo inercial crescimento do capitalismo no mundo e do “efeito China”. Que a saúde e a educação patinam, junto com a infraestrutura econômica, pela paralisia administrativa que tem na corrupção um índice. Que a propalada “distribuição de renda” foi apenas a minoração da miséria por políticas compensatórias, baratas ou sem custo, e que a riqueza se concentra cada vez mais. Que o que foi feito com o boom das commodities (aumento de 400% em uma década) foi ínfimo, e que ficamos dependentes delas num país que se desindustrializa e se financeiriza.

Mas a despolitização é um peso enorme a ser superado para que estas percepções difusas se tornem em razoável consciência política. Daí a importância de desmistificar as construções imaginárias do “ricos/classes médias versus pobres” e da transformação dos trabalhadores em “ricos” e “classes médias” de acordo com as conveniências. E, ao invés de correr atrás das miragens de ícones reais ou fabricados de “direita”, a ameaça “fascista” que justifica tudo e obriga à defesa de uma orientação política que apodrece, mirar e construir no campo crítico as reais e centrais contradições de classe. Pois por trás do discurso contra a “onda da direita”, privatistas e “fascistas” embaixo da cama, temos o Lulismo que alavancou o grande capital e é financiado por ele, inclusive por meios ilícitos, como se vê hoje, mesmo às custas da paradigmática Petrobrás.

É curioso que os que se abalaram a destacar as diferenças do “viés de classe” das manifestações não o tenham feito com o fato – também discutível pela superficialidade daquela pesquisa, é bom lembrar, assim como o canhestro perfil de “classe”, mas evidente no isolamento daqueles motes – de que não apareceram ali intenções “golpistas”, “fascistas” ou, mesmo “privatistas”... Já que o argumento do “golpe”, da ascensão dos “fascistas”, do retorno à ditadura e, mesmo, de um conluio privatista, é o argumento de nove entre dez lulistas para apoiar o governo a todo o custo. E assim fortalecermos a “hegemonia invertida”[5], pela qual se destrói o patrimônio crítico e organizativo das esquerdas em favor da lógica naturalizada do capital, em troca de migalhas que se vão com o vento.
   




[1] http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/03/1603885-maioria-foi-as-ruas-contra-corrupcao-diz-datafolha.shtml
[2] http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/03/1604420-no-3-mes-do-novo-mandato-62-ja-desaprovam-dilma.shtml
[3] OLIVEIRA, Francisco de. Crítica à Razão Dualista / O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003.
[4] http://top10mais.org/top-10-homens-mais-ricos-do-brasil/
[5] http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-4/tribuna-livre/hegemonia-as-avessas

terça-feira, 10 de março de 2015

UM ATO SEM NENHUM CARÁTER: A FARSA DO 13 DE MARÇO DE LULA E DILMA

Wlamir Silva
Professor e historiador

O Brasil vive uma crise econômica que não é passageira – como quer fazer crer a presidente da República –, mas um desdobramento de problemas estruturais de uma economia assentada na exportação de commodities, excessivamente financeirizada e que vem se desindustrializando. Agravada pela inércia governamental no que diz respeito às questões estruturais, em diversos níveis, pelo aparelhamento do Estado por uma máquina partidária e a adesão, e justificação “ideológica”, a práticas clientelistas e corrupção.

A massa da população, despolitizada, assiste atônita a um quadro que simplesmente não compreende. Com uma pequena maioria reelegeu a presidente da República com base em mal explicados argumentos da necessidade de deter certa “direita”. Agora vê, com ainda mais obscuros argumentos, a presidente tomar decisões contra uma crise que ouviu a candidata enfaticamente negar. Novamente se aponta para hordas de “fascistas” que justificariam o apoio a ela, independente do que ela vier a fazer...

A propósito de um burlesco conflito de rua entre meia dúzia governistas e oposicionistas, um personagem tragicômico alude a um “fascismo” de “burguesinhos” e põe na conta do partido no poder uma melhora “da vida de milhões de brasileiros”. A vitória parca nas eleições e os votos envergonhados de muitos – é uma merda, mas é o menos pior – mostra que tal relação de causa e efeito é cada vez menos reconhecida. Até porque a crise escancara os pés-de-barro de tais mudanças.

A exaltada “distribuição de renda” por políticas compensatórias e focalizadas já mostra o seu limite. A massa salarial de baixo poder aquisitivo sofre muito qualquer “marola” e isso é agravado pelas carências quase intocadas no que diz respeito ao saneamento, à saúde pública e à educação básica. Pouco a pouco os que se animaram com o aumento de consumo percebem que os fundamentos disso são frágeis e que boa parte se deve à inercial popularização de bens de consumo eletrônicos pelo capitalismo e pela China[1]. A carestia e o endividamento aumentam, o desemprego também.

O caso da Petrobrás soa, justamente, aos ouvidos da população como um exemplo desta inércia estatal. Exatamente pelo respeito que as pessoas têm pela empresa. Pelo papel dela no imaginário popular. O “petrolão” conspurca um patrimônio popular e aprofunda o sentimento já iniciado com o “mensalão”. Se fazem isso com a Petrobrás, do que mais são capazes? Pensa o povo... A estratégia do “eu não sabia de nada” é cada vez menos eficaz. A Petrobrás jamais será privatizada se depender do povo. A menos que se a vá destruindo por dentro, o que parece estar acontecendo.

Parte do drama advém da consciente despolitização alimentada pelo Lulismo há mais de década. Apostando na “compra” de apoios com migalhas compensatórias e mistificações. A cooptação de movimentos sociais com cargos e verbas públicas foi complementada pela criação midiática de uma “falsa direita”. Uma “direita fascista” descolada do grande capital, pois este – os banqueiros que nunca lucraram tanto, as sócias empreiteiras, a agroexportação e a mineração responsáveis pelo “paraíso” das commodities, inclusos os “heróis” usineiros – vai muito bem... A qualquer crítica se responde com um compungido "a direita vem aí", como na história do menino e do lobo...
    
O melancólico discurso de Lula apelando para o “exército de Stédile” é apenas um detalhe da ópera bufa da criação do fantasma do golpe. As associações com Getúlio Vargas em 1954 e Jango em 1964 são a própria “história que se repete como farsa” premeditada. Em obra clássica sobre 1964, o cientista politico René Dreifuss delineou uma complexa articulação entre militares, lideranças políticas civis, influência dos EUA e o capital, trazendo no fim uma caudalosa lista de empresas apoiadoras do golpe. No panfleto lulista se insinua uma lista de velhos roqueiros, humoristas, militares destemperados e políticos histriônicos.

Mas a pantomima continua. Sempre pela via da despolitização, de um estelionato de ideias e de arapucas para consciências distraídas. O Lulismo articula para o próximo dia 13 de março um ato (ou atos, em várias partes do país)... A escolha da data é óbvia: fazer de Dilma – ou de Lula? A títere ou o manipulador? – um Jango... Mas não param aí os enganos. As convocatórias do “Ato” são díspares. É tradição dos movimentos sociais a ideia de que tais convocatórias devem ser claras, e conhecidas as discussões sobre que palavras de ordem devem entrar e quais os termos e significado. Para alguns um “porre”... De fato mero respeito à consciência popular.

Não é o caso do “Ato” convocado por Lula e seus “braços” nos movimentos sociais e aliados perenes e ocasionais. A confusão é novamente premeditada. Parte é feita para um ato em defesa da Petrobrás. Afinal, quem não é a favor da Petrobrás? Associada à uma reforma política (ou constituinte) ou a defesa da democracia e direitos. Aqui e ali se busca costurar as generalidades num ato de desagravo a Dilma Rousseff. As generalidades públicas enganam, as costuras subterrâneas mostram o teor governista: “sindicalistas ,movimentos sociais, estudantis farão ato em defesa da Petrobrás, pelas reformas estruturais [e quais seriam?], política e contra o golpe do Impeachment [grifo nosso]”[2].

Convocações "neutras", para atrair "trouxas"
 Como se este governo tivesse legitimidade para defender a Petrobrás que loteou. Para defender reforma politica totalmente enredado nas práticas mais vexaminosas. Para criticar cortes em saúde e educação, imerso numa profunda inércia administrativa. Como se houvesse uma articulação golpista em curso no país.

A manipulação lulista
A “esperta” convocação para atos sem conteúdo definido e na construção de um golpe imaginário é apenas mais um capítulo na saga despolitizadora lulista. Na aposta na ignorância e na desmobilização popular, com a cooptação de setores organizados e a mistificação da massa popular. Na estudada falta de ideologia e debate sobre o país, encoberta por “marquetagens” de “ricos versus pobres”, demonização da “classe média” e outra bobagens sob medida para maquiar as profundas relações com o grande capital.

O Lulismo é uma péssima escola para a democracia. Muito pior o é para uma mudança radical na sociedade. É a escola da manipulação da consciência e do cultivo da dependência dos trabalhadores. Para os que creem, de fato, que a emancipação da classe trabalhadora só pode ser feita pela própria classe trabalhadora, a mistificação lulista é um câncer. 





[1] Como ocorreu, por exemplo, com a popularização das TVs no início dos anos 1970, sob os auspícios do insuspeito de ser “popular” Emílio Garrastazu Medici... E o "efeito China" é duplo: compram nossas commodities e vendem produtos baratos.
[2] Plantão Brasil. http://www.plantaobrasil.com.br/