sexta-feira, 31 de julho de 2015

Está na hora de Dilma sair à francesa

Uma das coisas que distingue um estadista é saber a hora e jeito certo de se retirar do comando do Estado. Como um general que não sabe recuar é um desastre para o exército, uma presidente que não sabe renunciar pode ser uma desgraça não só para o Estado, mas para a sociedade como um todo. Grandes chefes de Estado já se destacaram pela forma como deixaram seus governos, assim felicitando seus povos, evitando grandes tragédias, como Jango alegou que fez, ou ao menos salvando a própria reputação, como Feijó. Alguns ganharam mais poderes ao renunciar, como César Augusto.

Para que ficar na presidência fazendo exatamente o contrário do que prometeu que faria? Para que ficar na presidência para fazer o oposto do que interessa à base social que a elegeu? Um sacrifício tem que ter motivos! Ficar na presidência, com o risco de ser enxotada, só valeria a pena para fazer uma política decente, popular, nacionalista, socialista. Não faz sentido para o Pt e para Dilma ficar na presidência para se desgastar.

Todo o mandato petista desde 2002 foi desmoralizador, mas os governos Dilma têm sido especialmente destruidores da reputação petista. A continuidade do mandato Dilma promete acabar de enxovalhar o nome dessa primeira mulher presidente do Brasil e do Pt. Pior que isso, estando o país fortemente polarizado, uma falsa polarização, diga-se de passagem, e sendo o Congresso atual o pior que já se teve nesse país, e de longe o mais irresponsável, há o risco de uma crise institucional, dado que a popularidade de Dilma está abaixo de 10%, por culpa dela mesma.

Agora é fácil perceber que o Brasil se livrou de um enorme perigo ao conseguir eleger Dilma e não Aécio. Se Aécio tivesse ganho estaria tomando medidas semelhantes às atuais, a economia estaria igualmente em queda, e pareceria ao povo que a culpa era dele e da saída do Pt. Os movimentos sociais, que poupam o governo petista, cresceriam contra Aécio, que também é marcado por denúncias de corrupção. Em resumo, o Pt ficaria como herói, os tempos petistas como tempos de bonança, e o Pt voltariam em 2018 com muito mais força, e o país estaria nas mãos de uma tremenda quadrilha por muitos anos.

Mas quem venceu as eleições foi o Pt, e assim ele perdeu. O Pt não consegue ganhar o apoio da parte da população que ele realmente beneficia, e está cuspindo na cara de seus próprios eleitores e de sua própria base social. A direita, cujo programa o Pt está cumprindo, continua cada dia mais histérica contra o Pt, que para ela representa o povo trabalhador. O capital criou o Pt, o nutriu, o sustentou e o mantém para isso. Os lucros das grandes empresas, dos bancos, e principalmente, dos acionistas da dívida pública, ou seja, do governo, estão na Lua. Os verdadeiros capitalistas (não os bobos anti-comunistas de internet) gostariam que a era petista se eternizasse. Mas os verdadeiros capitalistas são uma massa ínfima da população, que por vezes não consegue, ou não pode, dizer tudo o que sabe para a massa de burgueses e pequeno-burgueses, que se guiam pela ideologia liberal ou pela fascista. Sustentar o Pt, portanto, mesmo para o capital, se tornou impossível. Para a massa de burgueses e pequeno-burgueses o governo petista tem significa salários um pouco mais altos.

Já os trabalhadores estão vendo esses salários serem reduzidos pela inflação, e não há coisa que mais afete a popularidade de um governo. O povo trabalhador está aprendendo que o Pt é seu inimigo, daí o apoio baixíssimo da presidente, que vai tornando seu mandato insustentável.

Ela deve escolher – é preferível sair por conta própria por algum motivo de saúde ou cair? É preferível para ela e para o Pt que Michel Temer fique na presidência ou que ele caia junto e que aconteçam novas eleições em três meses? Imaginem então se a queda for depois de 2016 e o presidente ficar sendo Eduardo Cunha!?! Mesmo que Dilma não caia. É melhor enfrentar as eleições de 2018 depois de alguns anos de presidência peemedebista ou depois de quatro anos sangrando?

Uma saída à francesa de Dilma acabaria imediatamente com a crise política e com o risco de crise institucional. Colocaria o PMDb, que há 30 anos (des)governa esse país a partir das sombras, em evidência, para que vire o alvo e tome as pedradas das quais vem se esquivando. Acabaria com a falsa polarização Pt-PSDb e daí com a carreira de Aécio Neves, que depois de derrotado em Minas Gerais e no Rio de Janeiro só se sustenta como nome anti-Pt.

Os movimentos sociais, desde 2002 divididos e fracos, voltariam a se unir contra o governo PMDb. Por mais traidor e corrupto que o Pt seja, ainda existem nos movimentos sociais quem tenha esperanças ou mais exatamente, que tenha medo de que as coisas piorem com a volta das velhas quadrilhas. Mas com a renúncia de Dilma essa vacilação desapareceria imediatamente. Assim os trabalhadores teriam alguma chance de minimizar seus prejuízos, enquanto com Dilma eles estão divididos e daí sendo massacrados.

Um comentário:

AF Sturt Silva disse...

É, a renúncia seria diferente da ruptura do processo democrático mesmo. Aluns analistas já defendiam que o PT deveria ter recuado em 2014 e ter deixado o caldo entornar na mão da Marina. Mas a Dilma meio que prometeu aplicar medidas à esquerda do que está sendo aplicado no mundo em tempos de crise. Tá ai o resultado. Agora a esquerda pode fazer uma coisa, independente de governos: unificar em uma frente/projeto (algo desse tipo) e comunicar (pelo menos) com as massas trabalhadoras.

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