sábado, 17 de junho de 2017

TATUAGEM OU ESCRACHO?

Wlamir Silva, professor e historiador



Os imbróglios foram mais ou menos simultâneos. O ladrão pé-de-chinelo tatuado na testa e o "escracho" aéreo da jornalista. Escolhemos, então, nas redes sociais, não tratar da barbárie do mundo cão e, sim, comentar o caso da intolerância no, digamos assim, mundo das ideias[1]. Houve quem preferisse a pequena barbárie, porque lá é que estaria o retrato da nossa sociedade. E nele se plasmaria uma patologia aterradora. O caso da jornalista nem deixa marcas, e não tem a crueza, que dá, como na velha crônica policial, o tom dramático.


Escolhemos o caso do "mundo das ideias" porque ele se aproxima de uma realidade na qual atuamos. O mundo da universidade, o – hoje indiretamente – das escolas e da militância política com pretensões de intervenção racional no mundo real. Espaços que se perdem hoje sob um maniqueísmo constrangedor e empobrecedor. Muitos dos que escolheram a crueza da barbárie cotidiana, e desdenharam dos simples gritos em um avião, trataram os dois da mesma forma: demarcaram previamente os bons e maus e, a partir dali, traçaram rigidamente suas opiniões...

No episódio da tatuagem, logo o ladrão não era exatamente um ladrão, era um doente e, como é comum, se o fosse, o era pela pobreza. O tatuador e seu "comparsa", por sua vez, eram, a despeito da também evidente pobreza – e aí um deles ter, um dia, roubado, passa a ser um estigma –, uma estranha sombra do polo das classes dominantes. O ápice da narrativa maniqueísta foi o de que os "tatuadores" teriam alugado um quarto de pensão apenas com o objetivo de fazer aquilo. Uma pequena teoria da conspiração que teve, inclusive, transformada numa curiosa peça simbólica uma cadeira de plástico. Os que sofrem são bons, todo bons, e os que infligem sofrimento são maus, todo maus.


O mesmo método foi transferido para o episódio do avião. De um lado a terrível, golpista, toda poderosa, Globo. Do outro os guerreiros ungidos dos oprimidos. Não podia haver dúvidas. Surgem "depoimentos", contraditórios, suspeitos, mas, de fato, não importa. A linde entre os bons e maus é previamente dada, independe dos fatos e tons. Ali o ápice é que, num dos "depoimentos", se faz a tábula rasa do passado da jornalista insultada, da sua prisão, da tortura sofrida[2]. A adesão ao mal elimina a história pessoal. E o mal é óbvio, não um campo complexo de luta entre concepções de mundo. Mundo no qual o Liberalismo é poderoso, mas é tratado como se numa espécie de sessão de exorcismo.

O desprezo pela intolerância no campo das ideias e, sendo estas ideias estruturantes da sociedade, da política, é significativo. A política como campo de disputas de visões de mundo é desqualificada pela apriorística afirmação de certo "bem" e de seus evidentes arautos. O mal é o outro, sem problemas. Tal evidência foi recentemente posta em questão por uma pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo, que mostrou entre populações periféricas a predominância de percepções liberais e individualistas[3]. As eleições municipais de 2016 já haviam ensejado até mesmo violentas diatribes contra o povo incapaz e ignaro[4]. As análises sobre o Lulismo já apontaram, há muito, o conservadorismo das classes subalternas. Nenhuma novidade. Isso é visto “a olho nu” na sociedade.

O desprezo pela luta no campo das ideias, das concepções de mundo, e pelas condições de fazê-lo é permeada por várias deformações no que diz respeito à teoria política e suas reverberações. a do espontaneísmo, que espera que a massa subalterna mude de ideia quase por mágica. A do vanguardismo, que espera que ela siga os “bons” porque eles são os evidentes portadores da verdade,  numa mal compreendida e com uma, em muito, anacrônica perspectiva insurrecional. Mas, em especial, de uma farsa que se auto atribui um papel representativo e, até messiânico, quando adere aos interesses das classes dominantes e, mais grave, às práticas políticas mais deletérias.

Apenas sob tais deformações políticas pode fazer sentido combater ideias diversas por meio destes atos simbólicos toscos, por constrangimentos que apenas reforçam a fragilidade de ideias e projetos que se cacifem para enfrentar as concepções conservadoras que predominam na sociedade. Podem servir de catarse para alguns grupos, até para fins políticos menores, mas são contraproducentes. Pior que tais práticas se reproduzam em ambientes acadêmicos, nos quais somos testemunhos oculares, e nos ambientes que ensejam a organização e a formulação de projetos políticos de fato transformadores da sociedade.

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[1] Wlamir Silva. Getúlio, a Globo e os imbecis de sempre. https://www.facebook.com/wlamir.silva.9/posts/1424635554286614
[2] Wlamir Silva. A triste república do teria sido. https://www.facebook.com/wlamir.silva.9/posts/1426383010778535
[3] Polarização política é indefinida nas periferias da cidade de São Paulo, diz estudo. Instituto Humanitas Unisinos.
http://www.ihu.unisinos.br/566330-polarizacao-politica-e-indefinida-nas-periferias-da-cidade-de-sao-paulo-diz-estudo
A matéria na própria Perseu Abramo foi retirada da página...
[4] Pobre povo brasileiro. Carta Capital. https://www.cartacapital.com.br/revista/926