sexta-feira, 22 de maio de 2015

COXINHAS NÃO SE COMEM COM FACAS.

Wlamir Silva
Professor
Historiador

Um médico é assassinado a facadas andando de bicicleta na Lagoa Rodrigo de Freitas. Testemunhas afirmam tê-lo sido por menores, mesmo sem uma reação da vítima, o que faz sentido pela ação de gangues no mesmo estilo na região[1]. Para uns é quase uma "justiça bíblica": ricaços numa das áreas mais caras do Rio, em bicicletas caríssimas só podiam mesmo serem "justiçados" pelos oprimidos... Aliás, não faz muito os médicos se tornaram símbolos de uma "elite branca" digna de todos os desagravos...


Um suspeito do assassinato do médico na Lagoa, apreendido, 16 anos,
15 crimes,vários com o uso de facas, como a usada no caso fatal.

A ex-mulher da vítima - santa instituição do divórcio - sai em defesa prévia dos agressores: "foi vítima de vítimas, que são vítimas de vítimas. Enquanto nosso país não priorizar saúde, educação e seguranças, vão ter cada vez mais médicos sendo mortos no cartão postal do país. E não só médicos, afinal, morrem cidadãos todos os dias em toda a cidade, não só na Zona Sul"[2]. Ou seja, enquanto não forem sanadas todas as injustiças sociais são justificadas as facadas nos ditos "coxinhas". O uso das facas, que se multiplica na região, mais do que um estágio pré-arma-de-fogo é uma estratégia: não é proibido portar facas. Mas ferir ou matar a facadas exige frieza e determinação, ao contrário do, por vezes, nervoso apertar de um gatilho.

A referência às injustiças sociais e à panaceia da educação como um "mantra" é, e cada vez mais, risível para amplos setores da sociedade. Para os agredidos e seus próximos é mesmo uma agressão e um "aperitivo" para o discurso violento do "bandido bom é bandido morto". Mas muitos não percebem o quão é trágico para os que vivem nas malhas da pobreza e são trabalhadores e "de bem", ou mesmo desesperador para os pais que tentam educar seus filhos em meio a grandes dificuldades e veem a criminalidade ser apresentada a eles como escolha justificável. Num depoimento um jornalista vítima de ataque semelhante, por quatro menores armados com facas, conta o que viu no tribunal:

"Vi a família de um dos 'anjinhos' que me assaltaram. Seu irmão, parecido com ele, bem vestido, falando baixo, com ótima aparência. São moradores de Manguinhos, lugar de onde veio o assassino de Jaime Gold. Não é Zona Sul, mas lá, como cá, também é lugar de pessoas dignas. Essa família me pareceu assim, digna. Os 'anjinhos' não! Esses 'anjinhos' tiveram, sim, educação. Não estudaram no São Bento, no Santo Agostinho ou na Escola Americana. Mas tiveram, sim, família e acesso à escola. Ouvi isso nesse tribunal. Mas optaram pelo crime”[3].

É discutível se os citados tiveram acesso à educação, mas é irônico que muitos dos seus “defensores” acreditem piamente nos avanços da educação básica no país, em especial na última década. O fato é que nas mesmas famílias há trabalhadores e criminosos, de diversas idades, e não há no crime e na violência um destino. O discurso de vitimização aqui representado pela “ex” do médico assassinado, mas corrente em meios educados e “de esquerda”, é um acinte àqueles pais que batalham diuturnamente para que seus filhos se tornem trabalhadores.

Parece ser “de esquerda”, “radical”, até “marxista” este salvo-conduto ao crime, numa cruzada contra os “coxinhas”, o substituto genérico e midiático da burguesia. Nada mais longe da realidade. O próprio Marx foi duro com o que chamou lumpen-proletariado, escória, refugo, massa indefinida e desintegrada, inconfiável, que se beneficiava “às expensas da nação laboriosa". Na tradição marxista os trabalhadores são a força a ser considerada. Mas há os que confundem marxismo com uma corruptela pós-moderna de matriz foucaultiana e que, negando a luta de classes e a perspectiva de emancipação humana, voltam os seus olhos para tudo que é marginal, “transgressor” ou “periférico”. A impotência diante do capital organizado, e por vezes sua naturalização, é "purgada" por um condescendente paternalismo...

A “ex” do médico assassinado apressou-se em seu manifesto vitimizador para evitar o uso do caso em favor da redução da maioridade penal. O jornalista vítima de assalto fecha seu depoimento clamando: “Precisam ser severamente punidos, tenham 8 ou 80 anos! Não importa!”. Como tudo tal discussão é sugada para um dos dois polos em evidência. Uma maioridade penal que é um tabu para alguns e se torna, vide pesquisas de opinião, panaceia para a maioria.

Mas o pior é o espectro de argumentos em voga. De um lado o “mantra” vitimizador, no limite justificador do ataque aos “coxinhas”, travestido de “esquerda” ou “marxista”, no fundo desesperançado de empreitadas políticas de maior fôlego e radicais. Do outro  a massa, inclusive de trabalhadores pobres – estes conscientes da simplificação vitimizadora –, condenada ao discurso “justiceiro” de reacionários porque cansados do discurso “religioso”[4] de “esquerdas de carochinha”...




[1] http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2015-05-21/medico-morto-esfaqueado-na-lagoa-sera-enterrado-nesta-quinta-feira.html
[2] http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2015-05-20/ex-mulher-de-jaime-gold-condena-reducao-da-maioridade-penal.html
[3] Depoimento reproduzido na coluna de Renato Maurício Prado no Globo de 22.5.2015.
[4] Elemento religioso que está presente na formação mesma de certas “esquerdas”, da “opção pelos pobres” e um “franciscanismo” filantrópico...

2 comentários:

Alex Lombello Amaral disse...

Concordo que bandidos são bandidos e que têm que ser presos ou impedidos de outra maneira... Concordo que existir menoridade penal definida em uma idade exata é absurdo... Defendo que o juiz decida se o réu tem capacidade de responder por seus atos ou não, com base em pareceres de psicólogos... Contudo, uma leitura apressada do artigo pode dar a entender que não há relações entre a situação social do país e a criminalidade... Ai eu discordo - é óbvio que a criminalidade brasileira é fruto não só da desigualdade mas da falência do regime e da sociedade em todos os aspectos... É também óbvio que a criminalidade vai aumentar e aumentar enquanto os problemas que estão na raiz não forem resolvidos... Não há, a curto prazo, expectativa de melhora, e não será com medidas judiciais que resolveremos nada, pois nem há mais lugar para se colocar presos... Exemplo: São João tinha uns 100 presos há uns 8 anos, e agora tem mais de 700, quase não tinha polícia e agora está cheia de policiais, e a criminalidade na cidade é a maior que já existiu.

Wlamir Silva disse...

Sem dúvida, Alex, as profundas desigualdades geram a criminalidade em níveis alarmantes. Já o faziam na época de Marx, quando nem havia escola pública ou políticas sociais, e nem por isso ele punha "fichas" no Lumpen ou "refrescava" os que viviam do esforço das classes laboriosas... E leituras apressadas não levam mesmo a lugar nenhum...

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