sábado, 14 de outubro de 2017

A CENSURA DOS NOVOS SUPER-HOMENS

Wlamir Silva
Professor e historiador

Está na moda o enquadramento da opinião pela autoridade de “especialistas”. Num discurso duro, e “a passo de ganso”, são desqualificados os que ousam opinar sobre a arte, gênero e política e afins, enfim, sobre o que ocorre ou deveria ocorrer na sociedade. A razia é contra o malfadado “senso comum”, ignaro e atrevido, que se insurge, impróprio, contra os que estudaram “em profundidade” por anos, décadas, quiçá milênios, e são de variados temas autoridades inquestionáveis e prescritores ferozes. Historiadores, sociólogos, juristas, médicos, geógrafos, críticos de arte, especialistas em gênero [?] e interminável etc. São os excêntricos oráculos pós-modernos.

Os temas são variados, o do momento é o da arte. Nele, contra a autoridade e sensibilidade educada de “especialistas” vários, teria vindo à tona o senso comum ignorante, preconceituoso, insensível, incauto e outros intermináveis adjetivos. Não se trata mais de determinados grupos, protestos e propostas... Não! É preciso cortar todas as cabeças da Hidra do vulgo, do vil populacho, que nada sabe de arte para além da conspurcada mídia. Mas que não se faça disso um drama... Os ignaros do senso comum podem sim balbuciar aqui e ali suas “opiniões”, desde que sob o aval de seus oráculos, para o que é conveniente atentar para os seus éditos, tão magnanimamente concedidos.



É curioso o papel desempenhado nesta cruzada santa da inteligência contra terrível ralé do senso comum a expressão conceitual “socialmente construído”[1]. Ela surge como uma palavra mágica para sugerir a desconstrução, e aí ela diz: é falso, podemos pôr o que quisermos no lugar. É o caso do gênero, por exemplo, onde se decreta a livríssima escolha. Já a raça, conceito obsoleto pelos especialistas (ops!), ganha materialidade exatamente por existir “socialmente” e, ao contrário, é afirmado como forma de resistência...[2] Agora fica claro como estas escolhas aparentemente contraditórias, e outras tantas, devem ser feitas: pelos nossos formidáveis e doutos especialistas!

Esqueça-se por necessário o arrasador e ubíquo arsenal nietzscho-foucaultiano-Kuhniano de relativização de saberes. Contra a ignorância ignara da plebe não cabem estas sutilezas. E ainda que os especialistas têm por hábito discordar muito entre si e, no mais, de evitar emitir opiniões mundanas sobre o real impreciso. Não! Contra o vulgo far-se-á uma guerra sem quartel! Não é hora de pruridos, a plebe não pode nem alcança saber tais aporias. E há aí uma dose de coerência. Os intelectuais sublimes da cruzada pós-moderna são os novos super-homens – e super-mulheres, na chata, digo, chave, politicamente correta –, a plasmação hegeliana do sonho nietzschiano.



Não é de todo ausente do pensamento sublime dos super-doutos e super-doutas a massa ignara. Lá eles são, como já era de se esperar no campo rebelde-aristocrático-nietzchiano, um bucólico rebanho de carneiros. Se seguem seus pastores até se lhes nota um quê de espontânea bondade e justiça. Se os renega, aaaahhh..., sobre eles desaba o martelo! Mas os novos super-homens – cansei da gramática politicamente correta –, e isso também é coerente, aprenderam com o (pós)moderno (neo)Liberalismo. Eles produzem migalhas que apascentam rebanhos. E aí cabem as compensações simbólicas e materiais: proteções de constrangimentos terríveis de cor, gênero, sexo...[3] até a sua heroica censura! Nem todos reconhecem a benevolência dos seres superiores. A estes: martelo!

Temos nós modesta expertise, ao menos em anos de estudos, graus acadêmicos, anos em salas de aula e até uns singelos papelinhos vindos a lume. Abrimos mão, no entanto, de prescrever juízos. Contentamo-nos em oferecer elementos, enfrentar discussões e considerar que a História é conhecimento para projetos humanos[4]. Não postulamos o superonato. Não somos nietzschianos, somos gramscianos, cremos que todos os homens são filósofos e que se faz mister dialogar com o senso comum, em busca do bom senso. Espanta-nos esta onda de elitismo doutoral – que irônico que ela se pretenda justificar pela existência de uma “onda conservadora” – e, mais, que o campo da arte, das expressões simbólicas, seja dela objeto.




[1] O que é “socialmente construído” não é irreal. A história da sociedade humana é a da crescente afirmação da cultura sobre a natureza, sem prejuízo de nossa realidade animal, e a sociedade em que vivemos é paradigmática desta realidade cultural.
[2] É curioso que o gênero, que parte, de toda forma, do dado natural das diferenças fisiológicas, mesmo que para negá-las, seja reduzido à “construção social”. Enquanto a “raça”, negada categoricamente por biólogos geneticistas, por absolutamente falta de elementos não culturais e construída, seja preservada em estufa...
[3] E a exclusão das sensibilidades que não contam, como relativas aos costumes e de pruridos de certas religiões.
[4] A História tem muitas interfaces, uma delas é com a arte, certas “genialidades” artísticas soam ridículas se as relacionamos com a sociedade no tempo. De toda forma, isto não autoriza à prescrição estética...

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Carta de Desfiliação de Alex Lombello Amaral ao PCB e Críticas às Resoluções do XV Congresso Nacional do PCB

Em conversa amigável com a direção estadual do PCB, resolvemos que o correto é minha desfiliação desse Partido, no qual tive o orgulho de militar por dez anos e onde deixo muitos amigos do peito. Eu estava preparando o documento “Críticas às Resoluções do XV Congresso Nacional do PCB”, então resolvi transformar esse trabalho em minha carta de desfiliação, que será, portanto, um tanto quanto diferente das cartas de desfiliação costumeiras. Óbvio que continuo sendo marxista. Ser marxista não é opção política, é conhecimento, como ser alfabetizado. No muito se pode fingir que se desaprendeu a ler.  Também continuo comunista, ou seja, concordo com Marx sobre a necessidade de colaborar para que o proletariado supere a burguesia como classe dominante, pois também acredito que esse é o caminho para o fim das classes sociais e do Estado.
Antes, é necessário informar que o motivo imediato que motivou a direção estadual a fazer o convite para minha desfiliação foi o artigo “Meu posicionamento pessoal a respeito de uma intervenção militar”, publicado neste blog e no Estudos Vermelhos, no qual demonstro que comunistas não devem temer uma intervenção militar nesse momento, mas até desejá-la, e certamente devem se preparar para ela, por exemplo, para salvar os militantes caso minha previsão esteja errada. Mas como constatamos conversando, essa foi somente a gota d’água, pois minhas posições são divergentes das posições atuais do PCB em quase todos os assuntos! Isso ficaria claro nas “Crítica às Resoluções do XV Congresso Nacional do PCB”, como se vê abaixo.
Nem cuidadosas são essas Resoluções. Por exemplo, dizem que “os meios necessários à vida não podem ser apropriados privadamente” (Resoluções, p.43). Não se pode ter um naco de pão??? Obviamente as Resoluções se referem aos meios de produção, o que não é nem semelhante aos “meios necessários à vida”. Esse tipo de descuido dá aos anti-comunistas combustível para alimentar suas caricaturas.
Por vezes parece que essas Resoluções foram escritas por um petista, e não por um comunista. Não é científico, portanto não é marxista, aprovar uma história oficial, mas pior é que as Resoluções afirmam que o Estado burguês se gestou no Brasil sem a participação dos setores proletários (p.32). Que desconsideração pela história do PCB! Então os direitos trabalhistas foram uma dádiva de Getúlio Vargas??? O partido que é citado como tendo tido algum papel histórico positivo é... o PT (p.33).

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Meu posicionamento pessoal a respeito de uma intervenção militar

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Há alguns meses tenho contido meu desejo de levantar a bandeira: “Constituinte sob proteção das Forças Armadas”, para evitar possíveis danos políticos ao meu Partido. Há alguns dias, contudo, divulguei a declaração do general Mourão, e manifestei meu apoio, de forma que se tornou necessário entrar de vez no assunto. Desde já fica claro que minha opinião é diametralmente oposta à de quase todos os militantes do Partido Comunista.

Para entender meu posicionamento é necessário entender minha análise da atual realidade, destacadamente para 5 pontos:

1 – a sexta República entrou em sua crise terminal desde 2013, e salvá-la, se não é impossível, é quase, e seria necessário reformá-la tanto que já não seria a sexta República.

2 – a sétima República não será socialista, porque o proletariado está completamente desorganizado, não manda nem nos próprios Sindicatos, portanto não tem como mandar no país.

3 – a crise da sexta República está custando muito caro ao país, e é bom que ela se acelere, mas a incapacidade dos poderes públicos para resolverem os problemas é manifesta.

4 – as Forças Armadas não têm condições, nem planos, de permanecerem no poder. Mas certamente são as únicas forças preparadas para manterem a unidade nacional durante a crise de transição de regimes políticos.

5 – “Os homens fazem a história, mas não a fazem segundo sua livre vontade”, e a sétima República não será o que um general quiser, mas o que quiser a opinião publica.

Desde 2013, como se nota em vários artigos do São João Del Pueblo e do Estudos Vermelhos, percebi que se iniciara a fase final da sexta República. De lá para cá vários analistas têm chegado à mesma conclusão, na medida em que os sintomas se tornam suficientes para a percepção deles. A completa incapacidade dos legisladores para fazerem qualquer reforma significativa, mesmo quando a direita tem mais de 70% do Congresso Nacional, e aprova até PECs absurdas, medidas impopulares e inúteis, prejudiciais mesmo ao país, é impressionante! Essa incapacidade agrava a crise política.

Infelizmente, não ganharemos o socialismo como pagamento por sofrer essa crise. Não é que o capitalismo no Brasil não esteja suficientemente desenvolvido, nem que existam reformas democráticas ou nacionalistas a serem feitas previamente. Até existem muitas reformas democráticas e nacionalistas a serem feitas, mas elas tendem a se confundir com a Revolução socialista, quando chegar a hora. O problema é menos glorioso – o proletariado está completamente desorganizado e despolitizado, por culpa, é claro, das “vanguardas”, que não o são, por incapacidade. Essas pretensas vanguardas culpam a conjuntura, a queda da URSS (que aconteceu no século passado), o desemprego etc., por sua incapacidade de lidar com esses problemas, ou mesmo por sua inatividade, por sua preguiça, por seu comodismo, e em casos piores, por terem se corrompido e serem mesmo a raiz da desorganização do proletariado, na medida em que parasitaram seus sindicatos.

Contudo, como também é público, a crise política está custando caro à nação, pois os bandidos que estão agarrados ao poder para não perderem o fórum privilegiado, estão de pernas abertas para as potências estrangeiras, onde podem inclusive vir a pedir asilo. Que essa crise demore muito a se resolver, que avance lentamente, só interessa a quem está com medo da justiça comum.

O que podemos ter? A solução da crise pela reforma das partes políticas da Constituição, ou seja, pela reforma do designer do poder. Será um poder proletário, socialista? Não, pelos motivos acima indicados. O que será? Será o que na opinião pública for mais forte.

Os generais podem derrubar a sexta República, que vai cair mesmo ou dessa forma ou de outra, mas não podem impor o que será a sétima República. Ninguém pode! Quando cai um regime e se inicia outro, não são os algozes do regime caído que decidem o que será o próximo, quase nunca. Sempre se inicia uma fase, de alguns anos, de profundos debates políticos, e então se desenvolve a força política/social que realmente forja o novo regime. Então para que esperar? Para que a nação deve sofrer mais alguns anos de decadência desse regime fracassado? A nação terá mesmo que passar pela fase de mudança de regime, então que comece logo!

As críticas ao meu apoio ao general Mourão foram todas no sentido de que em 1964 os militares se apegaram ao poder, apesar de terem dito que não o fariam. E eu acredito em discursos? Eu estaria chegando a minhas conclusões pelo conteúdo do que disse esse ou aquele general? Em 1964 só um completo idiota acreditaria que os militares não queriam o poder, visto que eles vinham tentando – deram um golpe em Getúlio em 1945; deram outro, que o levou à morte, em 1954; tentaram um golpe em 1955 contra JK; tentaram outro golpe em 1962 contra Jango e finalmente conseguiram em 1964. Mais ainda, eles tinham projetos para o país, que justificavam manter o poder, e hoje eles não têm projetos.

Muitas das críticas são sobre o que foi a ditadura militar, sobre suas atrocidades. Sim, a ditadura cometeu atrocidades, completamente inúteis, e foi um dos motivos pelos quais fracassou. É mentira que a ditadura só matou guerrilheiros. A ditadura matou gente pacata, intelectuais, desde o primeiro dia. Mas o que isso tem a ver com 2017? Os militarem que hoje servem, os que hoje já estão se aposentando, ainda não eram militares quando a ditadura acabou. Eles não tem nada a ver com o que aconteceu entre 1964 e 1985.

Em 2017 a situação é completamente diferente, no Brasil e no mundo! Digam o que disserem os generais, mas se eles derrubarem a “ladrocracia” precisarão de uma nova Constituição, e cada artigo dessa nova Constituição será discutido na Internet.

Suponhamos que eu esteja errado e eles queiram ficar no poder, e tentem impor uma Constituição menos democrática que a atual. Ai eles fracassarão, e depois que caírem teremos uma Constituinte da era da Internet. Observa-se esse fenômeno na história do Brasil e do mundo – Constituições que duram poucos anos, porque não correspondem aos ditames da opinião pública da época. Acontecem exatamente em períodos de transição.

O que os comunistas devem fazer em caso de golpe militar? Devem preservar seus militantes, em alguns casos retirando-os do país; Devem organizar a resistência, se ela for necessária, de fora do país; Devem evitar confrontos armados, e devem lutar por cada vírgula de cada artigo da nova Constituição de que o país precisa.


Se os comunistas devem fazer oposição ou não ao regime que se instalar? Depende do que esse regime fizer.


domingo, 9 de julho de 2017

Por que o parlamentarismo?

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O novo presidente do PSDb declarou defender o parlamentarismo, no que repetiu uma declaração do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, semanas atrás, quando negou seu apoio à revogabilidade dos mandatos executivos por plebiscito popular. Logo surgiram na internet, em grupos que se autodefinem de esquerda, comentários contrários ao parlamentarismo, encaixando-o em uma narrativa fantástica do golpe parlamentar de 2016. Opera-se assim uma inversão – a “direita” defende o parlamentarismo, e certa “esquerda” defende o presidencialismo, muito embora essa escolha em si seja o inverso do que os termos significavam quando surgiram no século XVIII, pois nada mais parecido com a monarquia que o presidencialismo.

Segundo os “gênios” de nossa tão bem sucedida esquerda o parlamentarismo seria conservador, ou seja, o presidencialismo permitiria mais avanços sociais que o parlamentarismo!?!? Melhor nem comparar o IDH ou outro indicativo social qualquer que se queira dos países parlamentaristas e dos presidencialistas, porque afinal, apesar da vitória parlamentarista ser esmagadora, não existem modelos.

A idéia de nossos incríveis “pensadores” de esquerda é que de posse do poder executivo seria possível promover avanços mesmo sem maioria parlamentar. Parece que 14 anos de governo petista com maioria parlamentar de direita não ensinaram nada a ninguém! Para um presidente fazer qualquer coisa significativa sem maioria parlamentar precisa, ou fechar o parlamento, ou comprá-lo, ou coisa que o valha, ou seja, a opção presidencialista é de fato uma opção autoritária. É a velha ilusão no Salvador da Pátria!

É necessária maioria parlamentar. Mas o presidencialismo não permite bons parlamentos. Os eleitores, exatamente iludidos em busca de um salvador, só votam a sério para os cargos executivos, e para os cargos legislativos votam por critérios não-políticos, como amizade, parentesco, local de moradia, serviços prestados etc.

Nos países parlamentaristas as eleições parlamentares são levadas mais a sério. Vota-se nos deputados pensando em quem será primeiro ministro. Os próprios candidatos expõem mais as fotos dos candidatos a primeiro ministro que as suas. Ou seja, vota-se no parlamento por critérios políticos!

O presidencialismo é corruptor. Para governar o poder executivo precisa de maioria no legislativo, e tem a chave do cofre para conquistar essa maioria, legal ou ilegalmente. É o que se vê em milhares de municípios brasileiros, há décadas! No parlamentarismo é a maioria parlamentar que governa, portanto essa maioria pode até roubar diretamente, mas não existe mais um mecanismo suplementar para não só estimular, mas na verdade obrigar à corrupção. A corrupção dos parlamentos sempre aparece, mas são os poderes executivos os agentes corruptores principais do país, porque precisam ser!


O parlamentarismo não é perfeito, não é o poder do proletariado, não acabará com o poder do capital. Contudo, para nossa realidade política é um grande avanço. Ficamos livres dos salvadores da pátria que existem em cada município, as eleições parlamentares são politizadas, e corrupção dos parlamentos pelos executivos deixa de ser obrigatória. Os petistas, que nunca se preocuparam com avanços na democracia, como demonstraram em seus 14 anos de governo, só se preocupam, como sempre, com o Lula, e serão contrários ao parlamentarismo. Completou-se assim uma incrível inversão – em propostas políticas o Pt está mais à direita que o PSDb! Enquanto os tucanos propõem o parlamentarismo, os petistas propõem que a nação seja salva por um messias, o Barba!

sábado, 17 de junho de 2017

TATUAGEM OU ESCRACHO?

Wlamir Silva, professor e historiador



Os imbróglios foram mais ou menos simultâneos. O ladrão pé-de-chinelo tatuado na testa e o "escracho" aéreo da jornalista. Escolhemos, então, nas redes sociais, não tratar da barbárie do mundo cão e, sim, comentar o caso da intolerância no, digamos assim, mundo das ideias[1]. Houve quem preferisse a pequena barbárie, porque lá é que estaria o retrato da nossa sociedade. E nele se plasmaria uma patologia aterradora. O caso da jornalista nem deixa marcas, e não tem a crueza, que dá, como na velha crônica policial, o tom dramático.


Escolhemos o caso do "mundo das ideias" porque ele se aproxima de uma realidade na qual atuamos. O mundo da universidade, o – hoje indiretamente – das escolas e da militância política com pretensões de intervenção racional no mundo real. Espaços que se perdem hoje sob um maniqueísmo constrangedor e empobrecedor. Muitos dos que escolheram a crueza da barbárie cotidiana, e desdenharam dos simples gritos em um avião, trataram os dois da mesma forma: demarcaram previamente os bons e maus e, a partir dali, traçaram rigidamente suas opiniões...

No episódio da tatuagem, logo o ladrão não era exatamente um ladrão, era um doente e, como é comum, se o fosse, o era pela pobreza. O tatuador e seu "comparsa", por sua vez, eram, a despeito da também evidente pobreza – e aí um deles ter, um dia, roubado, passa a ser um estigma –, uma estranha sombra do polo das classes dominantes. O ápice da narrativa maniqueísta foi o de que os "tatuadores" teriam alugado um quarto de pensão apenas com o objetivo de fazer aquilo. Uma pequena teoria da conspiração que teve, inclusive, transformada numa curiosa peça simbólica uma cadeira de plástico. Os que sofrem são bons, todo bons, e os que infligem sofrimento são maus, todo maus.


O mesmo método foi transferido para o episódio do avião. De um lado a terrível, golpista, toda poderosa, Globo. Do outro os guerreiros ungidos dos oprimidos. Não podia haver dúvidas. Surgem "depoimentos", contraditórios, suspeitos, mas, de fato, não importa. A linde entre os bons e maus é previamente dada, independe dos fatos e tons. Ali o ápice é que, num dos "depoimentos", se faz a tábula rasa do passado da jornalista insultada, da sua prisão, da tortura sofrida[2]. A adesão ao mal elimina a história pessoal. E o mal é óbvio, não um campo complexo de luta entre concepções de mundo. Mundo no qual o Liberalismo é poderoso, mas é tratado como se numa espécie de sessão de exorcismo.

O desprezo pela intolerância no campo das ideias e, sendo estas ideias estruturantes da sociedade, da política, é significativo. A política como campo de disputas de visões de mundo é desqualificada pela apriorística afirmação de certo "bem" e de seus evidentes arautos. O mal é o outro, sem problemas. Tal evidência foi recentemente posta em questão por uma pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo, que mostrou entre populações periféricas a predominância de percepções liberais e individualistas[3]. As eleições municipais de 2016 já haviam ensejado até mesmo violentas diatribes contra o povo incapaz e ignaro[4]. As análises sobre o Lulismo já apontaram, há muito, o conservadorismo das classes subalternas. Nenhuma novidade. Isso é visto “a olho nu” na sociedade.

O desprezo pela luta no campo das ideias, das concepções de mundo, e pelas condições de fazê-lo é permeada por várias deformações no que diz respeito à teoria política e suas reverberações. a do espontaneísmo, que espera que a massa subalterna mude de ideia quase por mágica. A do vanguardismo, que espera que ela siga os “bons” porque eles são os evidentes portadores da verdade,  numa mal compreendida e com uma, em muito, anacrônica perspectiva insurrecional. Mas, em especial, de uma farsa que se auto atribui um papel representativo e, até messiânico, quando adere aos interesses das classes dominantes e, mais grave, às práticas políticas mais deletérias.

Apenas sob tais deformações políticas pode fazer sentido combater ideias diversas por meio destes atos simbólicos toscos, por constrangimentos que apenas reforçam a fragilidade de ideias e projetos que se cacifem para enfrentar as concepções conservadoras que predominam na sociedade. Podem servir de catarse para alguns grupos, até para fins políticos menores, mas são contraproducentes. Pior que tais práticas se reproduzam em ambientes acadêmicos, nos quais somos testemunhos oculares, e nos ambientes que ensejam a organização e a formulação de projetos políticos de fato transformadores da sociedade.

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[1] Wlamir Silva. Getúlio, a Globo e os imbecis de sempre. https://www.facebook.com/wlamir.silva.9/posts/1424635554286614
[2] Wlamir Silva. A triste república do teria sido. https://www.facebook.com/wlamir.silva.9/posts/1426383010778535
[3] Polarização política é indefinida nas periferias da cidade de São Paulo, diz estudo. Instituto Humanitas Unisinos.
http://www.ihu.unisinos.br/566330-polarizacao-politica-e-indefinida-nas-periferias-da-cidade-de-sao-paulo-diz-estudo
A matéria na própria Perseu Abramo foi retirada da página...
[4] Pobre povo brasileiro. Carta Capital. https://www.cartacapital.com.br/revista/926

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Estudante de São João del Rei ferido em Brasília

A célula do Partido Comunista Brasileiro lançou uma nota de apoio ao estudante ferido em Brasília:

Nota de Apoio ao Estudante de São João Del Rei Ferido em Brasília

Estudante de História da UFSJ foi ferido no olho durante as manifestações em Brasília e corre risco de perder a visão.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

SÃO JOÃO DEL REI TEM ATO CONTRA A CORRUPÇÃO EM FRENTE O SOLAR DOS NEVES

Em São João Del Rei, no dia 18 Abril, aconteceu um ato contra a corrupção em frente o Solar dos Neves.
SÃO JOÃO DEL REI, 18/ABRIL: MANIFESTAÇÃO EM FRENTE O SOLAR DOS NEVES (Foto: Polyana Corrêa)

domingo, 9 de abril de 2017

Um caso em que os comunistas devem defender o livre mercado

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Temos um caso raro em que os comunistas devem defender o livre mercado e os capitalistas o estão atacando! Não estamos nos referindo à polêmica entre Xi Jimping e Trump. Quando defende o livre mercado Xi Jimping está defendendo os interesses nacionais chineses do atual momento, e quando defende o protecionismo Trump está defendendo os interesses nacionais dos EUA do atual momento. Nem tudo o que é bom para a China, ou para os EUA, é bom para o Brasil. Tomar como princípio, como verdade da ciência econômica, as posições do camarada Xi ou de Donald Trump além de absurda prova de pobreza teórica seria mais uma importação de receitas estrangeiras. O Brasil precisa de protecionismo não alfandegário, mas de insumos, com forte apoio de empresas estatais e uma política monetária atrevida. Mas esse não é o assunto desse artigo.

Temos um caso local! Os comerciantes da cidade conseguiram aprovar uma lei que dificulta a realização de feiras, tendo como alvo principal a famosa feira de roupas de Divinópolis, e que atingiu também a feira de artesanato que tem se repetido na avenida Tancredo Neves. O perfil ideológico desses comerciantes a respeito de economia política fica claro pela opção de vereador que os representou apresentando o projeto de lei, que é do DEM. Na prática, temos o DEM e comerciantes de discurso ultra liberal combatendo o livre comércio! Não é bem uma novidade. Ai estão as empresas de transporte coletivo, ai estão os taxistas, ai estão os postos de gasolina etc. Como seus bisavós eram liberais que viviam de escravos, e com argumentos liberais defendiam a escravidão, reduzida em seus discursos a propriedade privada, os atuais liberais vivem de seus monopólios! Soubessem defender os interesses da Pátria como defendem os seus interesses particulares e não viveríamos em um chiqueiro. Primeiro, contudo, eles teriam que acreditar que existe Pátria, ou seja, que os interesses coletivos de uma sociedade é que acarretam benesses ou problemas para os particulares. Estariam agora em boa situação econômica, e portanto não estariam preocupados com feirinhas.

Os comunistas precisam defender, na medida do possível, também os interesses imediatos das classes trabalhadoras. É mentira que as feiras acarretam desemprego. É mentira que as feiras podem falir os comerciantes. É verdade que se tem abusado do espaço na avenida Tancredo Neves e que as feiras ali não podem ser tão numerosas, mas é bom que aconteçam. A feira de roupas, por sua vez, é importante para a economia doméstica de várias famílias. Portanto, é nossa opinião que nesse caso os comunistas, fazendo coro aos trabalhadores, devem defender o livre comércio, ao contrário do DEM!

As reclamações dos comerciantes contêm muitas verdades. Os impostos sobre os comerciantes são mesmo abusivos. Os comerciantes pagam mais de 70% do ICMS que sai de São João Del Rei. Um imposto bizarro, que prejudica toda a economia exatamente porque incide sobre o comércio. Comerciantes de São João Del Rei não são a classe dominante nem brasileira, nem local. Do ponto de vista marxista são pequena-burguesia, e uma parte pobre e sofrida da pequena burguesia. Além do ICMS são taxados pelo município, têm que pagar uma série de impostos disfarçados de regras de segurança ou higiene, inclusive para particulares (a exemplo do monopólio de recarregamento de extintores de incêndio), são explorados pelos bancos etc.

O que está falindo muitos comerciantes locais, longe de serem as feiras, é a crise econômica, gerada pelas políticas liberais e recessivas de Dilma e Temer. Dois fanáticos monetaristas, que acreditam que fazem certo em conter gastos públicos. Dois otários na provável avaliação de Lula, que escolheu exatamente dois fanáticos para ter certeza de que deixariam os cofres cheios para ele gastar em 2018. As economias capitalistas precisam de constante incentivo, não podem parar de crescer, e os governos sempre precisaram incentivá-las, entre outras coisas, fazendo circular mais dinheiro. É ilusório, quase inexistente na história, que Estados de países capitalistas tenham a contas equilibradas, e irrelevante a longo prazo a balança comercial, pois ela tem que se compensar necessariamente, como mostram os gráficos (pois seja ouro, seja moeda estrangeira, a função das divisas é comprar no exterior, e só, não servem de comida). Desincentivar a economia, como Dilma e Temer fizeram e Temer continua fazendo, para resolver um problema político, quase cartorial, como o déficit público é irresponsabilidade. Mas nesse assunto nossos monopolistas locais são para lá de liberais, assim como o DEM.

quarta-feira, 29 de março de 2017

A reforma da imprevidência

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A incapacidade dos governantes brasileiros de preverem os resultados de suas lambanças econômicas é impressionante. Nem sequer os interesses do capital financeiro explicam tal incompetência. As pessoas são guiadas por ideologias, saibam ou não, gostem ou não, e acreditam que se guiam por seus interesses reais. Seus interesses estão de fato escondidos por trás das ideologias, mas não com grande capacidade de adaptação. As ideologias não são ciências, e oferecem as mesmas fórmulas para realidades que mudam cada dia mais rápido. Observemos.

O argumento dos defensores da contra-reforma da previdência é neo-malthusiano. Malthus foi um pensador que ficou conhecido sobretudo pela sua idéia que foi derrubada de forma mais retumbante pela realidade. A população cresce em progressão geométrica, e as terras são limitas, de forma que a produção agrícola, supôs Malthus, só poderia crescer no máximo em progressão aritmética. Sendo assim a fome e a miséria seriam inevitáveis! Pelo contrário, desde o tempo de Malthus a produção agrícola cresceu muito mais do que a população. Hoje sobra comida, e só há fome devido à má distribuição. Produzimos na Terra alimentos para várias vezes a população do planeta! E nossa tecnologia continua crescendo!

A tese dos defensores da reforma da previdência é que a população vive cada dia mais, diminui o número de jovens, e o número de trabalhadores por aposentado é cada vez menor. Verdades! Daí, concluem nossos malthusianos, faltará recursos para todos os aposentados! Acreditam, como Malthus, que a produção só pode crescer com o crescimento dos braços e do capital! Não entendem que se no passado existiam cinco trabalhadores por aposentado, esses cinco juntos não produziam metade do que um sozinho produz hoje!

quarta-feira, 15 de março de 2017

REFORMA DA PREVIDÊNCIA E ARGUMENTO DEMOGRÁFICO: VAI PRA CUBA!

Wlamir Silva
Professor
Historiador

Em princípios de 2009 foi feita uma reforma da Previdência em Cuba.
 Por meio da Lei nº 105/08, da Assembleia Nacional do Poder Popular, e do Decreto nº 283/09[1]. Era prevista sua conclusão, após as fases de transição, até o ano de 2015[2].  Já devendo estar implementada plenamente. Nos “por cuanto” que sustentaram a decisão do Parlamento cubano é central o argumento de ordem demográfica, o envelhecimento da população, ao qual se atribui a tomada de “medidas indispensáveis”:

“La población cubana se caracteriza por un proceso de envejecimiento, resultado de la baja natalidad y el aumento de la esperanza de vida al nacer, lo que influye en la disminución de los arribantes a la edad laboral y en un creciente impacto en la disponibilidad de los recursos humanos, factor este esencial para satisfacer las necesidades de la sociedad.”

http://www.mtss.cu/

Alguns pontos da Lei Cubana devem ser observados, por mais óbvios que sejam, em atendimento ao rebaixamento da discussão política brasileira. No artigo 6 se vê que a seguridade cubana é regulada em suas contribuições pela legislação tributária, conforme, portanto a arrecadação. E, no Artigo 9, são listados, para além das aposentadorias e pensões, assistência médica, medicamentos e casos especiais de invalidez[3]

A Lei cubana estabeleceu a idade mínima para a aposentadoria em 60 anos para as mulheres e 65 anos para os homens[4].  Ainda com a exigência de não menos que 30 anos de serviço[5].  Na definição do valor da aposentadoria por idade, a Lei cubana estabelece em seu Artigo 27 que

“La cuantía de la pensión ordinaria por edad se determina de conformidad con las reglas siguientes:
a) por los primeros 30 años de servicios, se aplica el 60 % sobre el salario promedio; y
b) por cada año de servicios que exceda de 30 se incrementa en el 2 % el porcentaje a aplicar.”

Ou seja, cumpridos os 30 anos mínimos o trabalhador cubano recebe 60% do salário médio[6] e, a cada dois anos além daqueles 30 anos, mais 2%. Isso quer dizer que apenas 20 anos após os 30 anos o trabalhador alcançará os 100% sobre a média salarial[7]. O que implica 50 anos de trabalho para o salário integral médio.

Não temos aqui a pretensão de esgotar os motivos da decisão cubana. Muito menos de desconsiderar as diferenças entre Cuba e Brasil. Em Cuba, em face da qualidade as saúde e educação públicas, o peso do salário é menor na medição da qualidade de vida. Fato demonstrado pela expectativa de vida cubana, 5 anos superior à brasileira[8].

Também é Cuba um país de parcos recursos naturais e seu sistema de seguridade deve considerar tal realidade[9]. Por fim, tais discussões são de ordem política – mesmo filosófica – ampla. A questão é outra, ou são outras. A realidade contábil relativa ao envelhecimento da população não é uma tolice “neomalthusiana” ou uma justificativa de privilégios do capital, se não, não faria sentido o esforço cubano. E nossos gargalos de justiça social estão, antes, na própria ordem social e estatal vigentes.

A idade mínima da aposentadoria tem aumentado no mundo[10]. O que ressaltamos é que Cuba socialista e planificada tem preocupações de ordem demográfica, com o crescimento da expectativa de vida da população. A reforma cubana se deve a dívidas e sonegações empresariais, aos privilégios parlamentares e do Judiciário, como dizem ser os únicos móveis da reforma proposta por aqui? Ou há que considerar tais elementos de forma mais realista?

Sim, pois enfrentar a ordem vigente exige o convencimento de setores amplos da classe trabalhadora. E tal pedagogia cobra, e cobrará, os discursos fáceis. Cuba nos ensina, de duas formas diversas, que enfrentar os enormes desafios de mudar a ordem social e política brasileira, reformando-a ou revolucionando-a, não se faz mistificando a realidade. Pior que a reforma é não acumularmos meios convencer os trabalhadores para além dos slogans e das atribuições de culpa simplórias que, mais adiante, revelarão sua vacuidade.

Sabemos que levantar esta questão vai causar o horror de "atacar Cuba", "apoiar Temer" e "defender a reforma indefensável". Não é nada disso, mas compreendo a abordagem. Para tais militantes é preciso ser simples para ser eficaz. Nossa divergência é esta: só se avança respeitando a inteligência dos trabalhadores, isto porque só eles podem libertar a si mesmos. E fazer isso é dizer a verdade. Como repetia Gramsci: A VERDADE É SEMPRE REVOLUCIONÁRIA.



[2] As regras de transição são mais claramente estabelecidas no Decreto 283, em seu Artigos 26 e 29.
[3] O que demonstra, lá como aqui, como cálculos estritos de contribuição versus aposentadoria são simplórios.
[4] Guardadas a possibilidade de aposentadorias em trabalhos desgastantes, conforme definido pelo ministério do Trabalho e Seguridade Social. Artigo 21.
[5] Artigo 22, Inciso I, Item b.
[6] Que se calcula sobre maiores salários em 5 anos dos últimos 15 anos, veja o Artigo 26º.
[7] A pensão extraordinária, por invalidez é de 40% do salário médio, ver o Artigo 28, as pensões por invalidez também consideram tempo de contribuição, porcentagem de salário médio e incrementos a cada ano trabalhado, vide artigos 62 a 64.
[8] Ver http://www.indexmundi.com/map/?l=pt&v=30. No entanto, parte desta média se deve à baixíssima mortalidade infantil cubana, fato memorável, mas que pouco impacta nas idades de aposentadoria. Ver Hélio Schwartsman Bebês não se aposentam.  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2017/03/1864489-bebes-nao-se-aposentam.shtml
[9] Que, no entanto, deve ser proporcional no que tange ao acesso ao bens existentes.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O retorno do esquecido Getúlio Vargas


É o último mês do último ano da gestão petista, e é a primeira vez que sou obrigado a publicar um artigo que a elogia. Por meio da Secretaria de Cultura, que passou quatro anos sob direção do PCdoB e ninguém nem notou, a estátua de Getúlio Vargas foi reinaugurada na Av. Leite de Castro. Ela está sem a carta testamento que tinha no pedestal original, no início da Av. Tancredo Neves, e precisou ser pintada, certamente por ter sofrido danos no período em que ficou abandonada, jogada em um canto. A estátua de Getúlio foi retirada de seu local original pela administração tucana-petista de 2004 a 2008.

A retirada da estátua de Getulio, substituída por (mais) um busto de Tancredo Neves, representou com exatidão o ódio que a direita brasileira tem por Vargas. Getúlio Vargas já reclamava disso em vida, e o atribuía à burrice das classes dominantes brasileiras, que seriam incapazes de compreender que ele as salvou do comunismo. De fato os exploradores mais xucros nunca o perdoaram por criar leis trabalhistas, e a direita ideológica liberal nunca o perdoou por ser nacionalista/estatista (no Brasil atual essas duas coisas são inseparáveis). Getúlio Vargas perseguiu os comunistas e outros oposicionistas, torturou e matou, e além de assassino foi ladrão, mas mesmo assim, por WO, foi até hoje o melhor presidente que tivemos! Os liberais tentam colocar JK na disputa, e os petistas são mais cômicos ainda tentando emplacar o Barba, mas não dão para saída. Os monarquistas, inábeis, tentam elevar a figura de Pedro II, quando se conhecessem melhor a monarquia tentariam com Pedro I, que em 9 anos fez muito mais que seu filho em 49. Fato é que Getúlio assumiu o comando de uma fazenda e a transformou em um país cheio de cidades e indústrias. Foi pouco, foi vacilante, foi corrupto, foi a custa de muito sangue, mas foi o melhor que tivemos até agora. Que a direita brasileira, ao invés de ser getulistas seja anti-getulista é um sintoma do maior problema que temos nesse país – a existência de grandes forças políticas anti-nacionais! Desde a independência somos obrigados a conviver com forças cujo projeto é o domínio estrangeiro.

Essa estátua de Getúlio, que hoje está em frente à mais antiga fábrica da cidade, foi feita com dinheiro de subscrição entre os trabalhadores, e os tucanos não tinham o direito de a retirarem do lugar para colocarem mais um busto do avô do patrão deles, e muito menos de a danificarem, sumindo com a carta testamento. Administração fracassada, depois de um governo de destruição nacional, que desindustrializou o país, multiplicou o desemprego, a violência e a corrupção, não tinham sequer moral para bulir com Getúlio Vargas. Eis a situação moral insustentável das classes dominantes brasileiras – estão abaixo de um ladrão sanguinário.

O retorno da estatua serviu para revelar o esquecimento em que caiu Getúlio Vargas. Quando Getúlio morreu, em 1954, os trabalhadores fizeram grandes manifestações, violentas, no país todo (São João inclusive), matando no ninho o golpe de direita que o levara ao suicídio. Até poucos anos atrás quase todo Sindicato ainda tinha uma foto de Getúlio, e mesmo muitas casas particulares. Atualmente Getúlio está esquecido! Em manifestações faz muito tempo que uma foto dele não aparece. Diante dessa estátua, as pessoas param e perguntam quem é! Uns chutam que é de Antonio Lombello, nome da praça, e cuja placa está perto da estátua, que por sua vez (incompetência até para reinaugurar uma estátua) está sem identificação. Outros chutam que é do construtor da fábrica! Tudo bem que a estátua não se parece tanto assim com o original, mas é impressionante.

Stálin morreu um ano antes, e até hoje na Rússia (que nem é sua pátria natal) e vários outros países as fotos de Stálin ainda aparecem aos montes nas manifestações. Não que Getúlio se compare, mas ao menos a nível nacional ainda devia ser lembrado. Contudo, em partes, foi a política getulista que gerou esse fenômeno. Na medida em que abafou o movimento sindical, enchendo-o de pelegos do Ministério do Trabalho, Getúlio estancou o desenvolvimento político do povo trabalhador, seu amadurecimento enquanto classe. Assim, tanto em 1945 quanto em 1954 ele não teve o apoio dos trabalhadores a não ser tarde demais, no segundo caso só depois de morto.

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Esse desserviço está em vigor até hoje! Embora sem a intervenção direta do Ministério, os Sindicatos estão quase todos mortos, parasitados, dominados por bandidos. Para os trabalhadores os Sindicatos não existem, são como escritórios do governo, como cartórios, e é comum entre eles o termo “dono do sindicato”, referindo-se ao bandido que o controla. O meio para controlar Sindicatos é o mesmo que o capital usa para controlar cidades, países etc. – eleições diretas.
As leis trabalhistas de Getúlio estão desaparecendo, e não se vê resistência, assim como não se viu platéia na reinauguração da estátua, que não foi aproveitada para protestar em defesa dos direitos trabalhistas. O que sustentava os direitos trabalhistas em todo o mundo era a existência da União Soviética. Com a queda da União Soviética os trabalhadores do mundo todo estão perdendo direitos. No Brasil soma-se a inexistência de um verdadeiro movimento sindical, morto por Vargas, e morto novamente pelo parasitismo petista, e uma “esquerda” que nem sequer pisa nas portas de fábricas. Os trabalhadores brasileiros estão órfãos! Há poucos anos, em uma assembléia operária de Barroso, ouvi trabalhadores perguntando se tinham direito a férias e décimo terceiro! Getúlio Vargas, pelo visto, não foi presidente em Barroso! Quem vai lutar para manter direitos que só têm no papel?


Sobre a administração que finda, basta dizer que o prefeito sequer tentou reeleição e que sua candidata ficou em quarto lugar. Na era da internet a única chance que essa administração sempre teve foi a transparência total, e o máximo de democracia direta online, mas como pedir isso do partido que ficou 14 anos no governo e sequer deixou sindicatos, associações comunitárias etc. terem rádios? Não tomou nem uma pequena medida democratizante (em 14 anos), mas criou, banalizando o terrorismo, leis para reprimir os movimentos sociais!?!? Ao invés de democratizar as empresas estatais as entregou para aliados políticos corruptos??? Aliás, partido esse que defende que democracia é esse regime fracassado e semimorto que temos no Brasil, inclusive com voto obrigatório. Bom será se ao fracasso administrativo ainda não se seguirem um monte de processos por corrupção, pois nesse item também o Pt revelou-se um partido de direita.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Reitoria Ocupada - A PEC 241 e a defensiva sem motivos

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Os estudantes ocuparam a Reitoria da UFSJ na manhã desse dia 24 de Outubro de 2016. Essa ocupação não tem motivos locais, mas é a contribuição dos universitários da UFSJ à onda de ocupações que atinge todo o país. A bandeira principal é contra a PEC 241, uma falsa polêmica, mas isso não diminui em nada a importância das ocupações.

Os comunistas devem apoiar de todas as maneiras possíveis esta e todas as ocupações que os estudantes têm feito! Ocupações são pedagógicas, politizam os estudantes que delas participam, e ensinam muito mais do que meses de algumas aulas. Ademais, embora em torno de uma falsa polêmica, as forças políticas estão em choque, com princípios opostos (polêmica essa bem real), e o resultado dessa luta será real, apesar da polêmica ser irreal. A humanidade sempre lutou em torno de fantasmas, falsas polêmicas, porque só muito recentemente, e só os que mais entendem o marxismo, conseguiram começar a entender racionalmente a história humana, mas essas lutas moveram a história humana mesmo assim! Pois apesar de lutarem em torno de quimeras, as bases sociais que lutam são bem concretas. Lembremo-nos de que desde 2013 a divisão social/ideológica se acentuou no Brasil.

Quem não quiser debater detalhes sobre a PEC pode pular para o item 2, onde vou debater a polêmica real, que é contra uma visão de economia do século XIX, o monetarismo. E quem não gosta de economia pode pular para o item 3, onde proponho o fim de 40 anos de defensiva por parte das “esquerdas” brasileiras.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Alguns significados dos resultados das eleições de 2016 em São João del Rei

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Os significados de uma eleição vão muito além de seus resultados, e na verdade são também resultados até mais importantes do que a eleição em si. Forças que venceram nos votos, as vezes perderam na realidade, apesar de se elegerem, e forças que perderam nos votos, as vezes venceram mais do que se tivessem eleito alguém. Política não é para iniciantes! Por exemplo, uma das grandes vencedoras desse pleito foi Jânia Costa, que ficou em terceiro lugar mas já é um das favoritas para 2020 ou para quando forem as eleições. Já um Aécio Neves (saindo um pouco de São João) nem estava disputando nada diretamente e é um dos maiores perdedores, pois Dória em São Paulo já lançou Alckmin à presidência logo na comemoração da vitória.

No fim das contas o vencedor em São João, Nivaldo, teve somente 22 mil votos, ou seja, só 2 mil a mais do que ele teve quando perdeu há 4 anos, e menos da metade do eleitorado válido. De fato, como 36% foram abstenções, brancos e nulos, Nivaldo não teve nem um terço do eleitorado.  Ele se elegeu somente com sua velha clientela, e com a divisão dos votos entre os demais candidatos. Se São João tivesse segundo turno, ele provavelmente perderia.

Rômulo Viegas teve mais chances do que todos imaginavam, e chegou a 35% dos votos. Se aqui tivesse segundo turno, venceria! De nossa análise no artigo anterior só erramos em imaginar que Jânia tirava votos de Nivaldo, enquanto ela também dividiu os votos anti-nivaldistas. De resto, estávamos certos, e seguindo o que dissemos Rominho teria alguma chance a mais, embora pouca.

O Pt podia ter reduzido a própria humilhação e posado de herói, se na última semana retirasse sua candidatura e apoiasse decididamente Rômulo Viegas. Não seria nada demais para o Pt de São João Del Rei, que em 2000 e 2004 foi linha auxiliar do PSDB, e com Sidinho do Ferrotaco. Porque quem apóia Sidinho não apoiou Rômulo? Devem ter muito ódio de São João Del Rei! Só os votos petistas não virariam o jogo, mas talvez a manobra petista gerasse uma empolgação que convencesse eleitores de Jânia e nulos a votarem contra Nivaldo, e gerasse uma virada. Deveria ser dado um recado claro – Retiramos nossa candidatura porque não temos chance nenhuma, e São João não tem segundo turno. O único que tem condições de vencer Nivaldo é Rômulo Viegas, portanto votaremos nele - Atitude tão nobre poderia ter revertido em mais votos para o legislativo e a derrota petista não teria sido tão absoluta. Mesmo se ainda assim Nivaldo vencesse, o Pt não sairia tão mal, e se conseguisse virar o jogo estaria comemorando apesar da própria derrota! Moralmente, teria superado a derrota. Mas diante da catástrofe óbvia, o que fizeram os “líderes” petistas? Nada! Imobilismo! Choro! Mesmo que os problemas burocráticos se resolvam e o Pt consiga ao menos uma vereadora, tinham 4, a derrota é total. Circula o boato de que o erro burocrático que está impedindo que os votos de Vera do Polivalente sejam contabilizados foi na verdade uma sabotagem interna. Se foi assim esse petista sabotou o partido todo! Típico. É só parar para escutar velhas histórias de antigos petistas para se descobrir que eles sempre se picaram, assim como sempre foram hostis às outras organizações de esquerda.

O PSTU teve somente metade dos votos que teve em 2012, e mesmo tendo a cabeça de chapa só conseguiu puxar para sua chapa de vereadores 80 votos de legenda, em comparação com os 118 da última eleição. A culpa não é dos militantes do PSTU daqui, que militam de Sol a Sol, estão inseridos nos movimentos sociais, têm histórico de luta e são bem quistos pela população em geral. A culpa é da política que vem de Paris, e que para nós é tão distante quanto se viesse de outro planeta. Tendo sofrido um racha recentemente, a direção do PSTU considerou que a melhor forma de sobreviver era se isolando ainda mais! Em todo canto só fecharam aliança com a condição de fazerem exclusivamente seu próprio discurso. Foi o que fizeram aqui, colocando de lado os programas desenvolvidos pela Frente de Esquerda em 2008 e 2012. O PCB, o PSOL e as Brigadas aceitaram como forma de manter a Frente unida, e por considerarem que não era prioritária para eles esse ano a campanha para o executivo. A campanha do PSTU simplesmente levantou mais slogans nacionais, tipo “Fora Temer” e “Fora Todos” do que assuntos municipais, dos quais quase nem falou. Foi o tipo de campanha cujo recado para o eleitor foi – essa campanha não é para valer, é só protesto. Não vote em mim! - Como lado positivo, exatamente ao contrário de 2012, quando os votos dobraram em relação a 2008, a Frente não saiu das eleições despedaçada, com as pessoas não podendo se ver. A eleição não gerou nenhum desgaste político interno. O desgaste de 2012 se deu exatamente debatendo o programa, e recusando as fórmulas enviadas de Paris via Belo Horizonte. Evitamos quase tudo o que parecia extra-terrestre, e isso dobrou a votação, mas os debates em torno de cada item foram duros, magoaram vários camaradas, e depois das eleições a Frente só existia oficialmente.

A eleição do legislativo teve ainda mais votos nulos que as passadas, apesar de ter 3 vezes mais candidatos. O poder financeiro, como sempre, imperou, desde a montagem das chapas até o final. As chapas ligadas aos três candidatos a prefeito mais votados foram também as mais votadas, como também é normal, até porque parte do eleitorado tem como hábito votar nos vereadores da base do prefeito. É curioso que foram eleitos como vereadores os filhos do prefeito e do vice-prefeito! Isso será assunto para quatro anos. Se essa tentativa de criar dinastias políticas resultar em bens para a cidade, ótimo! Dinastias mal conseguem se manter quando são nobres reinando sobre analfabetos, quanto mais essas dinastias eleitorais que as vezes se tenta formar. Não merecem nossa preocupação. Se errarem a mão correm o risco de queimarem os filhos junto com eles, e essa preocupação talvez também faça bem à cidade. O legislativo parece não ter esquerda, não tem representantes além disso de toda uma série de opiniões que são, contudo, fortes na sociedade. Não que ele já tenha representado a população de São João Del Rei em algum momento, mas o divórcio entre representantes e representados é cada vez mais escandaloso. Se Nivaldo só representa um terço do eleitorado, a Câmara representa menos ainda que isso.

O PSOL não pôde lançar candidatos, e o PSTU não fez nenhuma campanha para os seus candidatos, de forma que só podemos falar de uma candidatura da Frente de Esquerda, de Alexandre Marciano, do PCB. Marciano teve 50% mais votos que em 2012, apesar de estar concorrendo com três vezes mais candidatos. Foram 140 votos, que é pouco menos de um quinto do que teve a candidata mais votada do Pt. Deixou para trás mais de 200 concorrentes. Em termos percentuais, subiu de 0,18% para 0,32% do eleitorado válido. Teve um só material, dez mil exemplares de um panfleto A4. O PCB teve ainda 25 votos de legenda, 6 a mais que em 2012.


Agora temos um governo que já nasce com a maioria da população em oposição. O Pt está morto, desmoralizado. O resto da direita não sabe fazer oposição. Esse quadro abre espaço para o crescimento de uma nova esquerda.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

ERRATA: A era nivaldista não acabou !

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Em 2012, quando Nivaldo foi derrotado pelo fracasso que nos desadministra, publiquei aqui mesmo um artigo com o título “Frente Socialista dobra votação – Era nivaldista encerrada – Gestão de Helvécio se iniciará sobre a sombra de Daniel Dantas”. Há menos de uma semana das eleições de 2016 podemos afirmar que erramos. A era nivaldista não terminou! Como diz o povo nas ruas, “o trator voltou”. As chances dos demais candidatos sempre foram muito pequenas, e agora são quase nulas, quase.

Quem sempre teve alguma chance foi Rômulo Viegas (PSDB), que seria o provável vencedor se Nivaldo fosse barrado pela justiça. Mas para vencer Nivaldo Rômulo precisaria somar todos os votos anti-nivaldistas. Precisaria, portanto, que Cristina (PT) não tivesse quase voto algum, ou mesmo que retirasse sua candidatura, mas quanto o Pt cobraria por isso? Os votos da Frente de Esquerda não iriam mesmo para Rômulo Viegas, mas antes para os nulos. É mais fácil talvez que a Frente de Esquerda esteja tirando votos de Nivaldo.  Além disso seria necessário que a campanha de Jânia, que tira votos de Nilvado, crescesse. Mesmo assim, talvez Nivaldo tenha mais votos que todos os 4 adversários somados, e nesse caso toda essa matemática eleitoral não vale nada, porque Rômulo poderia conseguir apoio dos outros 3 candidatos e ainda assim perderia. Mas mesmo que por milagre Nivaldo seja derrotado, esse milagre se chamará Jânia, de forma que virá da própria base nivaldista, e não do anti-nivaldismo.

É realmente impressionante que em 4 anos a imagem de Nivaldo, que parecia aposentado, tenha melhorado tanto. O maior cabo eleitoral dele é o atual prefeito, como todos sabem. O fracasso foi total! Tinha a maioria da Câmara dos Vereadores, a qual manteve por quase todo o mandato. Seu partido estava no governo federal, e na metade de seu mandato ganhou o governo estadual. Tinha apoio jurado dos professores da UFSJ. Apesar disso tudo, que nenhum outro prefeito nunca teve antes, é voz pública que foi o pior prefeito que já tivemos, tendo tomado esse título de Sidinho, que de 2004 a 2008 também conseguiu ressuscitar Nivaldo. Basta dizer que o atual prefeito sequer está tentando a reeleição, e que sua vice, que é a candidata petista, está amargando o quarto lugar nas pesquisas.

É simples, os petistas dizem que não tinham dinheiro nem para tapar buracos, e realmente a cidade ficou 4 anos esburacada, mas ao mesmo tempo têm mais de 800 cargos sem concurso na Prefeitura, o que soma mais de 1% da população da cidade! O prefeito chegou a reclamar de falta de dinheiro para pintar faixas, mas todo ano gastam milhares de reais com medalhinhas com as quais se condecoram uns aos outros... Dizem que não têm dinheiro para aumentar salários dos professores e outros que realmente trabalham, mas o orçamento anual da Câmara de Vereadores subiu de 1 milhão e meio para quase 5 milhões!

Agora, no fim do mandato, fizeram algo de decente melhorando a iluminação em alguns pontos, mas as verbas para isso sempre existem, pois pagamos para isso na conta da Cemig. Ou seja, a Prefeitura sempre teve o dinheiro para fazer esse serviço, mas só agora o conseguiu. A escolha da iluminação de leds foi correta, e economizará energia apesar do maior número de postes! Além disso, os postes são corretos do ponto de vista da poluição visual, pois eles dirigem a luz para baixo, ao invés de desperdiçá-la para o céu, confundindo aves a atrapalhando as observações astronômicas.

Contudo, nem se São João virasse a Cidade Luz o fracasso da administração petista seria reversível. E se Nivaldo realmente vencer, ficará pior, porque ele logo no primeiro mês provará que a Prefeitura tem recursos, desmoralizando completamente os petistas. Contudo creio que qualquer um dos 4 opositores que ganhasse conseguiria o mesmo – no primeiro mês mostrar serviço e acabar com as mentiras petistas! E se fosse alguém honesto, como Jordano, da Frente de Esquerda, o Pt ainda sofreria uma auditoria dessa gestão suspeita. Sim, suspeita, porque se faz menos que Nivaldo e o dinheiro some, algo está muito errado.

A Frente de Esquerda passou por dificuldades para se manter unida dessa vez, mas por fim se manteve. A campanha está boa, com grande receptividade por parte dos candidatos comunistas. Os petistas estão escondendo o vermelho e a estrela, mas os comunistas não têm tido problema nenhum com a cor vermelha e a foice e o martelo. O único problema é quando alguém acha que são petistas, mas ai é só explicar. Que os petistas e pseudobistas abram mão dos símbolos soviéticos, achamos mais que justo e honesto, pois eles nunca os mereceram, nunca foram sequer dignos deles. Mais ainda, é mesmo uma condição de paz, dos verdadeiros comunistas para os petistas, que eles parem de sujar nossos símbolos com suas patas! Quem chamava a União Soviética de ditadura, porque usa sua estrela e suas cores? Aproveitem que já estão mesmo passando essa vergonha de esconderem os símbolos e os troquem por alguma coisa que os represente.  E repetimos – fiquem felizes por ser um Nivaldo e não um Jordano na frente nas pesquisas, porque se nós ganhássemos lascaríamos em vocês uma auditoria!

domingo, 4 de setembro de 2016

GOLPISMO, “FORA TEMER” E AS CONTRAPRODUCENTES AMARRAS AO LULISMO

Wlamir Silva
Professor e historiador

A insistência da tese do “golpe”, acompanhada das agressões por epítetos de “canalhas” e “golpistas” aos que dela discordam ou, mesmo, aos que negam a ela alguma centralidade, demonstra a pretensão de direção e hegemonia do Lulismo. De fato, trata-se, de viabilizar a sobrevivência e o retorno, sem nenhuma autocrítica, desta força política em processo falimentar.


Slogans substituem o debate e a divulgação de temas graves


Pensar a organização dos trabalhadores em seu conjunto, em perspectiva da resistência em curto prazo e, principalmente, em longo prazo, é ainda mais incompatível com a sombra do discurso do “golpe”. Afinal, o apoio popular ao impeachment esteve, em maio de 2016, em 66%, e a rejeição a ele em 27% (Datafolha). O que aponta para as restrições da associação ao referido discurso.

A rejeição “de todos”, ser percebida em pesquisas de opinião, e a olho nu, e o desejo difuso de eleições gerais (62%, Datafolha, maio de 2016), expõe uma descrença para com o sistema político, ou com a política, que extrapola uma rejeição ao atual governo. O mesmo quadro já se dava com o governo anterior e se mantem, com diferenças inexpressivas, para o atual.

Se a questão premente são os direitos trabalhistas e de aposentadoria em risco, a tese do “golpe” também é um estorvo. A preservação de tais direitos tem peso quase secular no imaginário popular, e é preciso mobilizar este patrimônio ideológico e simbólico. E esta população, em sua imensa maioria, em especial nos segmentos menos remunerados, não rejeita o impeachment.

Além do que, a preservação de direitos se deveu, desde os anos 1950, ao Parlamento,
sensível às pressões do voto popular, mesmo com maiorias conservadoras. Insistir com a pecha de “golpista” ao Congresso e associar tais demandas a um projeto político falido – e que reformou a previdência, foi conivente e tramou a flexibilização trabalhista – é contraproducente.

Eficaz será a construção de pautas unificadas com base nos direitos a serem defendidos, evitando a sua confusão com slogans e palavras de ordem de fins outros. Pressionar o Congresso com listas de votantes nas medidas que retirem direitos no calor da crise. Apelar para o patrimônio destes direitos fortemente assentados no imaginário popular.

A longo prazo, é ainda menos atraente, para uma perspectiva política que se pretenda transformadora, reforçar amarras ao Lulismo. Visto que tal projeto foi pífio no que tange ao desenvolvimento econômico e criação de novos direitos, promoveu a cooptação e a fragilização da organização dos trabalhadores e aderiu e reforçou a política tradicional conservadora.

Em perspectiva histórica, há um longo e pedregoso caminho a percorrer: o de retomar as bases de organização social e política autônomas e o de construir projetos políticos mais claros junto à população. E esta clareza não implica em unidade prévia ou forçada, ou a imposição de uma posição sobre as outras.

Um novo caminho à esquerda deve ser o da abertura de campos de discussão, possibilidades de unidade e alianças mais ou menos amplas. Desde que com base em programas e intenções publicamente estabelecidas, respeito aos militantes e em consonância com uma pedagogia política junto à população.

Afinal, o reconhecimento de sermos, hoje, ínfima minoria, é um ponto de partida necessário para voos maiores. Atalhos sedutores de tomada do poder, irreais pelo vazio de seu pragmatismo ou pela vacuidade de seu espontaneísmo, são apenas desvios que, como vemos, cobram, cedo ou tarde, o seu preço com juros.