domingo, 9 de julho de 2017

Por que o parlamentarismo?

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O novo presidente do PSDb declarou defender o parlamentarismo, no que repetiu uma declaração do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, semanas atrás, quando negou seu apoio à revogabilidade dos mandatos executivos por plebiscito popular. Logo surgiram na internet, em grupos que se autodefinem de esquerda, comentários contrários ao parlamentarismo, encaixando-o em uma narrativa fantástica do golpe parlamentar de 2016. Opera-se assim uma inversão – a “direita” defende o parlamentarismo, e certa “esquerda” defende o presidencialismo, muito embora essa escolha em si seja o inverso do que os termos significavam quando surgiram no século XVIII, pois nada mais parecido com a monarquia que o presidencialismo.

Segundo os “gênios” de nossa tão bem sucedida esquerda o parlamentarismo seria conservador, ou seja, o presidencialismo permitiria mais avanços sociais que o parlamentarismo!?!? Melhor nem comparar o IDH ou outro indicativo social qualquer que se queira dos países parlamentaristas e dos presidencialistas, porque afinal, apesar da vitória parlamentarista ser esmagadora, não existem modelos.

A idéia de nossos incríveis “pensadores” de esquerda é que de posse do poder executivo seria possível promover avanços mesmo sem maioria parlamentar. Parece que 14 anos de governo petista com maioria parlamentar de direita não ensinaram nada a ninguém! Para um presidente fazer qualquer coisa significativa sem maioria parlamentar precisa, ou fechar o parlamento, ou comprá-lo, ou coisa que o valha, ou seja, a opção presidencialista é de fato uma opção autoritária. É a velha ilusão no Salvador da Pátria!

É necessária maioria parlamentar. Mas o presidencialismo não permite bons parlamentos. Os eleitores, exatamente iludidos em busca de um salvador, só votam a sério para os cargos executivos, e para os cargos legislativos votam por critérios não-políticos, como amizade, parentesco, local de moradia, serviços prestados etc.

Nos países parlamentaristas as eleições parlamentares são levadas mais a sério. Vota-se nos deputados pensando em quem será primeiro ministro. Os próprios candidatos expõem mais as fotos dos candidatos a primeiro ministro que as suas. Ou seja, vota-se no parlamento por critérios políticos!

O presidencialismo é corruptor. Para governar o poder executivo precisa de maioria no legislativo, e tem a chave do cofre para conquistar essa maioria, legal ou ilegalmente. É o que se vê em milhares de municípios brasileiros, há décadas! No parlamentarismo é a maioria parlamentar que governa, portanto essa maioria pode até roubar diretamente, mas não existe mais um mecanismo suplementar para não só estimular, mas na verdade obrigar à corrupção. A corrupção dos parlamentos sempre aparece, mas são os poderes executivos os agentes corruptores principais do país, porque precisam ser!


O parlamentarismo não é perfeito, não é o poder do proletariado, não acabará com o poder do capital. Contudo, para nossa realidade política é um grande avanço. Ficamos livres dos salvadores da pátria que existem em cada município, as eleições parlamentares são politizadas, e corrupção dos parlamentos pelos executivos deixa de ser obrigatória. Os petistas, que nunca se preocuparam com avanços na democracia, como demonstraram em seus 14 anos de governo, só se preocupam, como sempre, com o Lula, e serão contrários ao parlamentarismo. Completou-se assim uma incrível inversão – em propostas políticas o Pt está mais à direita que o PSDb! Enquanto os tucanos propõem o parlamentarismo, os petistas propõem que a nação seja salva por um messias, o Barba!

sábado, 17 de junho de 2017

TATUAGEM OU ESCRACHO?

Wlamir Silva, professor e historiador



Os imbróglios foram mais ou menos simultâneos. O ladrão pé-de-chinelo tatuado na testa e o "escracho" aéreo da jornalista. Escolhemos, então, nas redes sociais, não tratar da barbárie do mundo cão e, sim, comentar o caso da intolerância no, digamos assim, mundo das ideias[1]. Houve quem preferisse a pequena barbárie, porque lá é que estaria o retrato da nossa sociedade. E nele se plasmaria uma patologia aterradora. O caso da jornalista nem deixa marcas, e não tem a crueza, que dá, como na velha crônica policial, o tom dramático.


Escolhemos o caso do "mundo das ideias" porque ele se aproxima de uma realidade na qual atuamos. O mundo da universidade, o – hoje indiretamente – das escolas e da militância política com pretensões de intervenção racional no mundo real. Espaços que se perdem hoje sob um maniqueísmo constrangedor e empobrecedor. Muitos dos que escolheram a crueza da barbárie cotidiana, e desdenharam dos simples gritos em um avião, trataram os dois da mesma forma: demarcaram previamente os bons e maus e, a partir dali, traçaram rigidamente suas opiniões...

No episódio da tatuagem, logo o ladrão não era exatamente um ladrão, era um doente e, como é comum, se o fosse, o era pela pobreza. O tatuador e seu "comparsa", por sua vez, eram, a despeito da também evidente pobreza – e aí um deles ter, um dia, roubado, passa a ser um estigma –, uma estranha sombra do polo das classes dominantes. O ápice da narrativa maniqueísta foi o de que os "tatuadores" teriam alugado um quarto de pensão apenas com o objetivo de fazer aquilo. Uma pequena teoria da conspiração que teve, inclusive, transformada numa curiosa peça simbólica uma cadeira de plástico. Os que sofrem são bons, todo bons, e os que infligem sofrimento são maus, todo maus.


O mesmo método foi transferido para o episódio do avião. De um lado a terrível, golpista, toda poderosa, Globo. Do outro os guerreiros ungidos dos oprimidos. Não podia haver dúvidas. Surgem "depoimentos", contraditórios, suspeitos, mas, de fato, não importa. A linde entre os bons e maus é previamente dada, independe dos fatos e tons. Ali o ápice é que, num dos "depoimentos", se faz a tábula rasa do passado da jornalista insultada, da sua prisão, da tortura sofrida[2]. A adesão ao mal elimina a história pessoal. E o mal é óbvio, não um campo complexo de luta entre concepções de mundo. Mundo no qual o Liberalismo é poderoso, mas é tratado como se numa espécie de sessão de exorcismo.

O desprezo pela intolerância no campo das ideias e, sendo estas ideias estruturantes da sociedade, da política, é significativo. A política como campo de disputas de visões de mundo é desqualificada pela apriorística afirmação de certo "bem" e de seus evidentes arautos. O mal é o outro, sem problemas. Tal evidência foi recentemente posta em questão por uma pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo, que mostrou entre populações periféricas a predominância de percepções liberais e individualistas[3]. As eleições municipais de 2016 já haviam ensejado até mesmo violentas diatribes contra o povo incapaz e ignaro[4]. As análises sobre o Lulismo já apontaram, há muito, o conservadorismo das classes subalternas. Nenhuma novidade. Isso é visto “a olho nu” na sociedade.

O desprezo pela luta no campo das ideias, das concepções de mundo, e pelas condições de fazê-lo é permeada por várias deformações no que diz respeito à teoria política e suas reverberações. a do espontaneísmo, que espera que a massa subalterna mude de ideia quase por mágica. A do vanguardismo, que espera que ela siga os “bons” porque eles são os evidentes portadores da verdade,  numa mal compreendida e com uma, em muito, anacrônica perspectiva insurrecional. Mas, em especial, de uma farsa que se auto atribui um papel representativo e, até messiânico, quando adere aos interesses das classes dominantes e, mais grave, às práticas políticas mais deletérias.

Apenas sob tais deformações políticas pode fazer sentido combater ideias diversas por meio destes atos simbólicos toscos, por constrangimentos que apenas reforçam a fragilidade de ideias e projetos que se cacifem para enfrentar as concepções conservadoras que predominam na sociedade. Podem servir de catarse para alguns grupos, até para fins políticos menores, mas são contraproducentes. Pior que tais práticas se reproduzam em ambientes acadêmicos, nos quais somos testemunhos oculares, e nos ambientes que ensejam a organização e a formulação de projetos políticos de fato transformadores da sociedade.

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[1] Wlamir Silva. Getúlio, a Globo e os imbecis de sempre. https://www.facebook.com/wlamir.silva.9/posts/1424635554286614
[2] Wlamir Silva. A triste república do teria sido. https://www.facebook.com/wlamir.silva.9/posts/1426383010778535
[3] Polarização política é indefinida nas periferias da cidade de São Paulo, diz estudo. Instituto Humanitas Unisinos.
http://www.ihu.unisinos.br/566330-polarizacao-politica-e-indefinida-nas-periferias-da-cidade-de-sao-paulo-diz-estudo
A matéria na própria Perseu Abramo foi retirada da página...
[4] Pobre povo brasileiro. Carta Capital. https://www.cartacapital.com.br/revista/926

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Estudante de São João del Rei ferido em Brasília

A célula do Partido Comunista Brasileiro lançou uma nota de apoio ao estudante ferido em Brasília:

Nota de Apoio ao Estudante de São João Del Rei Ferido em Brasília

Estudante de História da UFSJ foi ferido no olho durante as manifestações em Brasília e corre risco de perder a visão.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

SÃO JOÃO DEL REI TEM ATO CONTRA A CORRUPÇÃO EM FRENTE O SOLAR DOS NEVES

Em São João Del Rei, no dia 18 Abril, aconteceu um ato contra a corrupção em frente o Solar dos Neves.
SÃO JOÃO DEL REI, 18/ABRIL: MANIFESTAÇÃO EM FRENTE O SOLAR DOS NEVES (Foto: Polyana Corrêa)

domingo, 9 de abril de 2017

Um caso em que os comunistas devem defender o livre mercado

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Temos um caso raro em que os comunistas devem defender o livre mercado e os capitalistas o estão atacando! Não estamos nos referindo à polêmica entre Xi Jimping e Trump. Quando defende o livre mercado Xi Jimping está defendendo os interesses nacionais chineses do atual momento, e quando defende o protecionismo Trump está defendendo os interesses nacionais dos EUA do atual momento. Nem tudo o que é bom para a China, ou para os EUA, é bom para o Brasil. Tomar como princípio, como verdade da ciência econômica, as posições do camarada Xi ou de Donald Trump além de absurda prova de pobreza teórica seria mais uma importação de receitas estrangeiras. O Brasil precisa de protecionismo não alfandegário, mas de insumos, com forte apoio de empresas estatais e uma política monetária atrevida. Mas esse não é o assunto desse artigo.

Temos um caso local! Os comerciantes da cidade conseguiram aprovar uma lei que dificulta a realização de feiras, tendo como alvo principal a famosa feira de roupas de Divinópolis, e que atingiu também a feira de artesanato que tem se repetido na avenida Tancredo Neves. O perfil ideológico desses comerciantes a respeito de economia política fica claro pela opção de vereador que os representou apresentando o projeto de lei, que é do DEM. Na prática, temos o DEM e comerciantes de discurso ultra liberal combatendo o livre comércio! Não é bem uma novidade. Ai estão as empresas de transporte coletivo, ai estão os taxistas, ai estão os postos de gasolina etc. Como seus bisavós eram liberais que viviam de escravos, e com argumentos liberais defendiam a escravidão, reduzida em seus discursos a propriedade privada, os atuais liberais vivem de seus monopólios! Soubessem defender os interesses da Pátria como defendem os seus interesses particulares e não viveríamos em um chiqueiro. Primeiro, contudo, eles teriam que acreditar que existe Pátria, ou seja, que os interesses coletivos de uma sociedade é que acarretam benesses ou problemas para os particulares. Estariam agora em boa situação econômica, e portanto não estariam preocupados com feirinhas.

Os comunistas precisam defender, na medida do possível, também os interesses imediatos das classes trabalhadoras. É mentira que as feiras acarretam desemprego. É mentira que as feiras podem falir os comerciantes. É verdade que se tem abusado do espaço na avenida Tancredo Neves e que as feiras ali não podem ser tão numerosas, mas é bom que aconteçam. A feira de roupas, por sua vez, é importante para a economia doméstica de várias famílias. Portanto, é nossa opinião que nesse caso os comunistas, fazendo coro aos trabalhadores, devem defender o livre comércio, ao contrário do DEM!

As reclamações dos comerciantes contêm muitas verdades. Os impostos sobre os comerciantes são mesmo abusivos. Os comerciantes pagam mais de 70% do ICMS que sai de São João Del Rei. Um imposto bizarro, que prejudica toda a economia exatamente porque incide sobre o comércio. Comerciantes de São João Del Rei não são a classe dominante nem brasileira, nem local. Do ponto de vista marxista são pequena-burguesia, e uma parte pobre e sofrida da pequena burguesia. Além do ICMS são taxados pelo município, têm que pagar uma série de impostos disfarçados de regras de segurança ou higiene, inclusive para particulares (a exemplo do monopólio de recarregamento de extintores de incêndio), são explorados pelos bancos etc.

O que está falindo muitos comerciantes locais, longe de serem as feiras, é a crise econômica, gerada pelas políticas liberais e recessivas de Dilma e Temer. Dois fanáticos monetaristas, que acreditam que fazem certo em conter gastos públicos. Dois otários na provável avaliação de Lula, que escolheu exatamente dois fanáticos para ter certeza de que deixariam os cofres cheios para ele gastar em 2018. As economias capitalistas precisam de constante incentivo, não podem parar de crescer, e os governos sempre precisaram incentivá-las, entre outras coisas, fazendo circular mais dinheiro. É ilusório, quase inexistente na história, que Estados de países capitalistas tenham a contas equilibradas, e irrelevante a longo prazo a balança comercial, pois ela tem que se compensar necessariamente, como mostram os gráficos (pois seja ouro, seja moeda estrangeira, a função das divisas é comprar no exterior, e só, não servem de comida). Desincentivar a economia, como Dilma e Temer fizeram e Temer continua fazendo, para resolver um problema político, quase cartorial, como o déficit público é irresponsabilidade. Mas nesse assunto nossos monopolistas locais são para lá de liberais, assim como o DEM.

quarta-feira, 29 de março de 2017

A reforma da imprevidência

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A incapacidade dos governantes brasileiros de preverem os resultados de suas lambanças econômicas é impressionante. Nem sequer os interesses do capital financeiro explicam tal incompetência. As pessoas são guiadas por ideologias, saibam ou não, gostem ou não, e acreditam que se guiam por seus interesses reais. Seus interesses estão de fato escondidos por trás das ideologias, mas não com grande capacidade de adaptação. As ideologias não são ciências, e oferecem as mesmas fórmulas para realidades que mudam cada dia mais rápido. Observemos.

O argumento dos defensores da contra-reforma da previdência é neo-malthusiano. Malthus foi um pensador que ficou conhecido sobretudo pela sua idéia que foi derrubada de forma mais retumbante pela realidade. A população cresce em progressão geométrica, e as terras são limitas, de forma que a produção agrícola, supôs Malthus, só poderia crescer no máximo em progressão aritmética. Sendo assim a fome e a miséria seriam inevitáveis! Pelo contrário, desde o tempo de Malthus a produção agrícola cresceu muito mais do que a população. Hoje sobra comida, e só há fome devido à má distribuição. Produzimos na Terra alimentos para várias vezes a população do planeta! E nossa tecnologia continua crescendo!

A tese dos defensores da reforma da previdência é que a população vive cada dia mais, diminui o número de jovens, e o número de trabalhadores por aposentado é cada vez menor. Verdades! Daí, concluem nossos malthusianos, faltará recursos para todos os aposentados! Acreditam, como Malthus, que a produção só pode crescer com o crescimento dos braços e do capital! Não entendem que se no passado existiam cinco trabalhadores por aposentado, esses cinco juntos não produziam metade do que um sozinho produz hoje!

quarta-feira, 15 de março de 2017

REFORMA DA PREVIDÊNCIA E ARGUMENTO DEMOGRÁFICO: VAI PRA CUBA!

Wlamir Silva
Professor
Historiador

Em princípios de 2009 foi feita uma reforma da Previdência em Cuba.
 Por meio da Lei nº 105/08, da Assembleia Nacional do Poder Popular, e do Decreto nº 283/09[1]. Era prevista sua conclusão, após as fases de transição, até o ano de 2015[2].  Já devendo estar implementada plenamente. Nos “por cuanto” que sustentaram a decisão do Parlamento cubano é central o argumento de ordem demográfica, o envelhecimento da população, ao qual se atribui a tomada de “medidas indispensáveis”:

“La población cubana se caracteriza por un proceso de envejecimiento, resultado de la baja natalidad y el aumento de la esperanza de vida al nacer, lo que influye en la disminución de los arribantes a la edad laboral y en un creciente impacto en la disponibilidad de los recursos humanos, factor este esencial para satisfacer las necesidades de la sociedad.”

http://www.mtss.cu/

Alguns pontos da Lei Cubana devem ser observados, por mais óbvios que sejam, em atendimento ao rebaixamento da discussão política brasileira. No artigo 6 se vê que a seguridade cubana é regulada em suas contribuições pela legislação tributária, conforme, portanto a arrecadação. E, no Artigo 9, são listados, para além das aposentadorias e pensões, assistência médica, medicamentos e casos especiais de invalidez[3]

A Lei cubana estabeleceu a idade mínima para a aposentadoria em 60 anos para as mulheres e 65 anos para os homens[4].  Ainda com a exigência de não menos que 30 anos de serviço[5].  Na definição do valor da aposentadoria por idade, a Lei cubana estabelece em seu Artigo 27 que

“La cuantía de la pensión ordinaria por edad se determina de conformidad con las reglas siguientes:
a) por los primeros 30 años de servicios, se aplica el 60 % sobre el salario promedio; y
b) por cada año de servicios que exceda de 30 se incrementa en el 2 % el porcentaje a aplicar.”

Ou seja, cumpridos os 30 anos mínimos o trabalhador cubano recebe 60% do salário médio[6] e, a cada dois anos além daqueles 30 anos, mais 2%. Isso quer dizer que apenas 20 anos após os 30 anos o trabalhador alcançará os 100% sobre a média salarial[7]. O que implica 50 anos de trabalho para o salário integral médio.

Não temos aqui a pretensão de esgotar os motivos da decisão cubana. Muito menos de desconsiderar as diferenças entre Cuba e Brasil. Em Cuba, em face da qualidade as saúde e educação públicas, o peso do salário é menor na medição da qualidade de vida. Fato demonstrado pela expectativa de vida cubana, 5 anos superior à brasileira[8].

Também é Cuba um país de parcos recursos naturais e seu sistema de seguridade deve considerar tal realidade[9]. Por fim, tais discussões são de ordem política – mesmo filosófica – ampla. A questão é outra, ou são outras. A realidade contábil relativa ao envelhecimento da população não é uma tolice “neomalthusiana” ou uma justificativa de privilégios do capital, se não, não faria sentido o esforço cubano. E nossos gargalos de justiça social estão, antes, na própria ordem social e estatal vigentes.

A idade mínima da aposentadoria tem aumentado no mundo[10]. O que ressaltamos é que Cuba socialista e planificada tem preocupações de ordem demográfica, com o crescimento da expectativa de vida da população. A reforma cubana se deve a dívidas e sonegações empresariais, aos privilégios parlamentares e do Judiciário, como dizem ser os únicos móveis da reforma proposta por aqui? Ou há que considerar tais elementos de forma mais realista?

Sim, pois enfrentar a ordem vigente exige o convencimento de setores amplos da classe trabalhadora. E tal pedagogia cobra, e cobrará, os discursos fáceis. Cuba nos ensina, de duas formas diversas, que enfrentar os enormes desafios de mudar a ordem social e política brasileira, reformando-a ou revolucionando-a, não se faz mistificando a realidade. Pior que a reforma é não acumularmos meios convencer os trabalhadores para além dos slogans e das atribuições de culpa simplórias que, mais adiante, revelarão sua vacuidade.

Sabemos que levantar esta questão vai causar o horror de "atacar Cuba", "apoiar Temer" e "defender a reforma indefensável". Não é nada disso, mas compreendo a abordagem. Para tais militantes é preciso ser simples para ser eficaz. Nossa divergência é esta: só se avança respeitando a inteligência dos trabalhadores, isto porque só eles podem libertar a si mesmos. E fazer isso é dizer a verdade. Como repetia Gramsci: A VERDADE É SEMPRE REVOLUCIONÁRIA.



[2] As regras de transição são mais claramente estabelecidas no Decreto 283, em seu Artigos 26 e 29.
[3] O que demonstra, lá como aqui, como cálculos estritos de contribuição versus aposentadoria são simplórios.
[4] Guardadas a possibilidade de aposentadorias em trabalhos desgastantes, conforme definido pelo ministério do Trabalho e Seguridade Social. Artigo 21.
[5] Artigo 22, Inciso I, Item b.
[6] Que se calcula sobre maiores salários em 5 anos dos últimos 15 anos, veja o Artigo 26º.
[7] A pensão extraordinária, por invalidez é de 40% do salário médio, ver o Artigo 28, as pensões por invalidez também consideram tempo de contribuição, porcentagem de salário médio e incrementos a cada ano trabalhado, vide artigos 62 a 64.
[8] Ver http://www.indexmundi.com/map/?l=pt&v=30. No entanto, parte desta média se deve à baixíssima mortalidade infantil cubana, fato memorável, mas que pouco impacta nas idades de aposentadoria. Ver Hélio Schwartsman Bebês não se aposentam.  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2017/03/1864489-bebes-nao-se-aposentam.shtml
[9] Que, no entanto, deve ser proporcional no que tange ao acesso ao bens existentes.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O retorno do esquecido Getúlio Vargas


É o último mês do último ano da gestão petista, e é a primeira vez que sou obrigado a publicar um artigo que a elogia. Por meio da Secretaria de Cultura, que passou quatro anos sob direção do PCdoB e ninguém nem notou, a estátua de Getúlio Vargas foi reinaugurada na Av. Leite de Castro. Ela está sem a carta testamento que tinha no pedestal original, no início da Av. Tancredo Neves, e precisou ser pintada, certamente por ter sofrido danos no período em que ficou abandonada, jogada em um canto. A estátua de Getúlio foi retirada de seu local original pela administração tucana-petista de 2004 a 2008.

A retirada da estátua de Getulio, substituída por (mais) um busto de Tancredo Neves, representou com exatidão o ódio que a direita brasileira tem por Vargas. Getúlio Vargas já reclamava disso em vida, e o atribuía à burrice das classes dominantes brasileiras, que seriam incapazes de compreender que ele as salvou do comunismo. De fato os exploradores mais xucros nunca o perdoaram por criar leis trabalhistas, e a direita ideológica liberal nunca o perdoou por ser nacionalista/estatista (no Brasil atual essas duas coisas são inseparáveis). Getúlio Vargas perseguiu os comunistas e outros oposicionistas, torturou e matou, e além de assassino foi ladrão, mas mesmo assim, por WO, foi até hoje o melhor presidente que tivemos! Os liberais tentam colocar JK na disputa, e os petistas são mais cômicos ainda tentando emplacar o Barba, mas não dão para saída. Os monarquistas, inábeis, tentam elevar a figura de Pedro II, quando se conhecessem melhor a monarquia tentariam com Pedro I, que em 9 anos fez muito mais que seu filho em 49. Fato é que Getúlio assumiu o comando de uma fazenda e a transformou em um país cheio de cidades e indústrias. Foi pouco, foi vacilante, foi corrupto, foi a custa de muito sangue, mas foi o melhor que tivemos até agora. Que a direita brasileira, ao invés de ser getulistas seja anti-getulista é um sintoma do maior problema que temos nesse país – a existência de grandes forças políticas anti-nacionais! Desde a independência somos obrigados a conviver com forças cujo projeto é o domínio estrangeiro.

Essa estátua de Getúlio, que hoje está em frente à mais antiga fábrica da cidade, foi feita com dinheiro de subscrição entre os trabalhadores, e os tucanos não tinham o direito de a retirarem do lugar para colocarem mais um busto do avô do patrão deles, e muito menos de a danificarem, sumindo com a carta testamento. Administração fracassada, depois de um governo de destruição nacional, que desindustrializou o país, multiplicou o desemprego, a violência e a corrupção, não tinham sequer moral para bulir com Getúlio Vargas. Eis a situação moral insustentável das classes dominantes brasileiras – estão abaixo de um ladrão sanguinário.

O retorno da estatua serviu para revelar o esquecimento em que caiu Getúlio Vargas. Quando Getúlio morreu, em 1954, os trabalhadores fizeram grandes manifestações, violentas, no país todo (São João inclusive), matando no ninho o golpe de direita que o levara ao suicídio. Até poucos anos atrás quase todo Sindicato ainda tinha uma foto de Getúlio, e mesmo muitas casas particulares. Atualmente Getúlio está esquecido! Em manifestações faz muito tempo que uma foto dele não aparece. Diante dessa estátua, as pessoas param e perguntam quem é! Uns chutam que é de Antonio Lombello, nome da praça, e cuja placa está perto da estátua, que por sua vez (incompetência até para reinaugurar uma estátua) está sem identificação. Outros chutam que é do construtor da fábrica! Tudo bem que a estátua não se parece tanto assim com o original, mas é impressionante.

Stálin morreu um ano antes, e até hoje na Rússia (que nem é sua pátria natal) e vários outros países as fotos de Stálin ainda aparecem aos montes nas manifestações. Não que Getúlio se compare, mas ao menos a nível nacional ainda devia ser lembrado. Contudo, em partes, foi a política getulista que gerou esse fenômeno. Na medida em que abafou o movimento sindical, enchendo-o de pelegos do Ministério do Trabalho, Getúlio estancou o desenvolvimento político do povo trabalhador, seu amadurecimento enquanto classe. Assim, tanto em 1945 quanto em 1954 ele não teve o apoio dos trabalhadores a não ser tarde demais, no segundo caso só depois de morto.

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Esse desserviço está em vigor até hoje! Embora sem a intervenção direta do Ministério, os Sindicatos estão quase todos mortos, parasitados, dominados por bandidos. Para os trabalhadores os Sindicatos não existem, são como escritórios do governo, como cartórios, e é comum entre eles o termo “dono do sindicato”, referindo-se ao bandido que o controla. O meio para controlar Sindicatos é o mesmo que o capital usa para controlar cidades, países etc. – eleições diretas.
As leis trabalhistas de Getúlio estão desaparecendo, e não se vê resistência, assim como não se viu platéia na reinauguração da estátua, que não foi aproveitada para protestar em defesa dos direitos trabalhistas. O que sustentava os direitos trabalhistas em todo o mundo era a existência da União Soviética. Com a queda da União Soviética os trabalhadores do mundo todo estão perdendo direitos. No Brasil soma-se a inexistência de um verdadeiro movimento sindical, morto por Vargas, e morto novamente pelo parasitismo petista, e uma “esquerda” que nem sequer pisa nas portas de fábricas. Os trabalhadores brasileiros estão órfãos! Há poucos anos, em uma assembléia operária de Barroso, ouvi trabalhadores perguntando se tinham direito a férias e décimo terceiro! Getúlio Vargas, pelo visto, não foi presidente em Barroso! Quem vai lutar para manter direitos que só têm no papel?


Sobre a administração que finda, basta dizer que o prefeito sequer tentou reeleição e que sua candidata ficou em quarto lugar. Na era da internet a única chance que essa administração sempre teve foi a transparência total, e o máximo de democracia direta online, mas como pedir isso do partido que ficou 14 anos no governo e sequer deixou sindicatos, associações comunitárias etc. terem rádios? Não tomou nem uma pequena medida democratizante (em 14 anos), mas criou, banalizando o terrorismo, leis para reprimir os movimentos sociais!?!? Ao invés de democratizar as empresas estatais as entregou para aliados políticos corruptos??? Aliás, partido esse que defende que democracia é esse regime fracassado e semimorto que temos no Brasil, inclusive com voto obrigatório. Bom será se ao fracasso administrativo ainda não se seguirem um monte de processos por corrupção, pois nesse item também o Pt revelou-se um partido de direita.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Reitoria Ocupada - A PEC 241 e a defensiva sem motivos

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Os estudantes ocuparam a Reitoria da UFSJ na manhã desse dia 24 de Outubro de 2016. Essa ocupação não tem motivos locais, mas é a contribuição dos universitários da UFSJ à onda de ocupações que atinge todo o país. A bandeira principal é contra a PEC 241, uma falsa polêmica, mas isso não diminui em nada a importância das ocupações.

Os comunistas devem apoiar de todas as maneiras possíveis esta e todas as ocupações que os estudantes têm feito! Ocupações são pedagógicas, politizam os estudantes que delas participam, e ensinam muito mais do que meses de algumas aulas. Ademais, embora em torno de uma falsa polêmica, as forças políticas estão em choque, com princípios opostos (polêmica essa bem real), e o resultado dessa luta será real, apesar da polêmica ser irreal. A humanidade sempre lutou em torno de fantasmas, falsas polêmicas, porque só muito recentemente, e só os que mais entendem o marxismo, conseguiram começar a entender racionalmente a história humana, mas essas lutas moveram a história humana mesmo assim! Pois apesar de lutarem em torno de quimeras, as bases sociais que lutam são bem concretas. Lembremo-nos de que desde 2013 a divisão social/ideológica se acentuou no Brasil.

Quem não quiser debater detalhes sobre a PEC pode pular para o item 2, onde vou debater a polêmica real, que é contra uma visão de economia do século XIX, o monetarismo. E quem não gosta de economia pode pular para o item 3, onde proponho o fim de 40 anos de defensiva por parte das “esquerdas” brasileiras.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Alguns significados dos resultados das eleições de 2016 em São João del Rei

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Os significados de uma eleição vão muito além de seus resultados, e na verdade são também resultados até mais importantes do que a eleição em si. Forças que venceram nos votos, as vezes perderam na realidade, apesar de se elegerem, e forças que perderam nos votos, as vezes venceram mais do que se tivessem eleito alguém. Política não é para iniciantes! Por exemplo, uma das grandes vencedoras desse pleito foi Jânia Costa, que ficou em terceiro lugar mas já é um das favoritas para 2020 ou para quando forem as eleições. Já um Aécio Neves (saindo um pouco de São João) nem estava disputando nada diretamente e é um dos maiores perdedores, pois Dória em São Paulo já lançou Alckmin à presidência logo na comemoração da vitória.

No fim das contas o vencedor em São João, Nivaldo, teve somente 22 mil votos, ou seja, só 2 mil a mais do que ele teve quando perdeu há 4 anos, e menos da metade do eleitorado válido. De fato, como 36% foram abstenções, brancos e nulos, Nivaldo não teve nem um terço do eleitorado.  Ele se elegeu somente com sua velha clientela, e com a divisão dos votos entre os demais candidatos. Se São João tivesse segundo turno, ele provavelmente perderia.

Rômulo Viegas teve mais chances do que todos imaginavam, e chegou a 35% dos votos. Se aqui tivesse segundo turno, venceria! De nossa análise no artigo anterior só erramos em imaginar que Jânia tirava votos de Nivaldo, enquanto ela também dividiu os votos anti-nivaldistas. De resto, estávamos certos, e seguindo o que dissemos Rominho teria alguma chance a mais, embora pouca.

O Pt podia ter reduzido a própria humilhação e posado de herói, se na última semana retirasse sua candidatura e apoiasse decididamente Rômulo Viegas. Não seria nada demais para o Pt de São João Del Rei, que em 2000 e 2004 foi linha auxiliar do PSDB, e com Sidinho do Ferrotaco. Porque quem apóia Sidinho não apoiou Rômulo? Devem ter muito ódio de São João Del Rei! Só os votos petistas não virariam o jogo, mas talvez a manobra petista gerasse uma empolgação que convencesse eleitores de Jânia e nulos a votarem contra Nivaldo, e gerasse uma virada. Deveria ser dado um recado claro – Retiramos nossa candidatura porque não temos chance nenhuma, e São João não tem segundo turno. O único que tem condições de vencer Nivaldo é Rômulo Viegas, portanto votaremos nele - Atitude tão nobre poderia ter revertido em mais votos para o legislativo e a derrota petista não teria sido tão absoluta. Mesmo se ainda assim Nivaldo vencesse, o Pt não sairia tão mal, e se conseguisse virar o jogo estaria comemorando apesar da própria derrota! Moralmente, teria superado a derrota. Mas diante da catástrofe óbvia, o que fizeram os “líderes” petistas? Nada! Imobilismo! Choro! Mesmo que os problemas burocráticos se resolvam e o Pt consiga ao menos uma vereadora, tinham 4, a derrota é total. Circula o boato de que o erro burocrático que está impedindo que os votos de Vera do Polivalente sejam contabilizados foi na verdade uma sabotagem interna. Se foi assim esse petista sabotou o partido todo! Típico. É só parar para escutar velhas histórias de antigos petistas para se descobrir que eles sempre se picaram, assim como sempre foram hostis às outras organizações de esquerda.

O PSTU teve somente metade dos votos que teve em 2012, e mesmo tendo a cabeça de chapa só conseguiu puxar para sua chapa de vereadores 80 votos de legenda, em comparação com os 118 da última eleição. A culpa não é dos militantes do PSTU daqui, que militam de Sol a Sol, estão inseridos nos movimentos sociais, têm histórico de luta e são bem quistos pela população em geral. A culpa é da política que vem de Paris, e que para nós é tão distante quanto se viesse de outro planeta. Tendo sofrido um racha recentemente, a direção do PSTU considerou que a melhor forma de sobreviver era se isolando ainda mais! Em todo canto só fecharam aliança com a condição de fazerem exclusivamente seu próprio discurso. Foi o que fizeram aqui, colocando de lado os programas desenvolvidos pela Frente de Esquerda em 2008 e 2012. O PCB, o PSOL e as Brigadas aceitaram como forma de manter a Frente unida, e por considerarem que não era prioritária para eles esse ano a campanha para o executivo. A campanha do PSTU simplesmente levantou mais slogans nacionais, tipo “Fora Temer” e “Fora Todos” do que assuntos municipais, dos quais quase nem falou. Foi o tipo de campanha cujo recado para o eleitor foi – essa campanha não é para valer, é só protesto. Não vote em mim! - Como lado positivo, exatamente ao contrário de 2012, quando os votos dobraram em relação a 2008, a Frente não saiu das eleições despedaçada, com as pessoas não podendo se ver. A eleição não gerou nenhum desgaste político interno. O desgaste de 2012 se deu exatamente debatendo o programa, e recusando as fórmulas enviadas de Paris via Belo Horizonte. Evitamos quase tudo o que parecia extra-terrestre, e isso dobrou a votação, mas os debates em torno de cada item foram duros, magoaram vários camaradas, e depois das eleições a Frente só existia oficialmente.

A eleição do legislativo teve ainda mais votos nulos que as passadas, apesar de ter 3 vezes mais candidatos. O poder financeiro, como sempre, imperou, desde a montagem das chapas até o final. As chapas ligadas aos três candidatos a prefeito mais votados foram também as mais votadas, como também é normal, até porque parte do eleitorado tem como hábito votar nos vereadores da base do prefeito. É curioso que foram eleitos como vereadores os filhos do prefeito e do vice-prefeito! Isso será assunto para quatro anos. Se essa tentativa de criar dinastias políticas resultar em bens para a cidade, ótimo! Dinastias mal conseguem se manter quando são nobres reinando sobre analfabetos, quanto mais essas dinastias eleitorais que as vezes se tenta formar. Não merecem nossa preocupação. Se errarem a mão correm o risco de queimarem os filhos junto com eles, e essa preocupação talvez também faça bem à cidade. O legislativo parece não ter esquerda, não tem representantes além disso de toda uma série de opiniões que são, contudo, fortes na sociedade. Não que ele já tenha representado a população de São João Del Rei em algum momento, mas o divórcio entre representantes e representados é cada vez mais escandaloso. Se Nivaldo só representa um terço do eleitorado, a Câmara representa menos ainda que isso.

O PSOL não pôde lançar candidatos, e o PSTU não fez nenhuma campanha para os seus candidatos, de forma que só podemos falar de uma candidatura da Frente de Esquerda, de Alexandre Marciano, do PCB. Marciano teve 50% mais votos que em 2012, apesar de estar concorrendo com três vezes mais candidatos. Foram 140 votos, que é pouco menos de um quinto do que teve a candidata mais votada do Pt. Deixou para trás mais de 200 concorrentes. Em termos percentuais, subiu de 0,18% para 0,32% do eleitorado válido. Teve um só material, dez mil exemplares de um panfleto A4. O PCB teve ainda 25 votos de legenda, 6 a mais que em 2012.


Agora temos um governo que já nasce com a maioria da população em oposição. O Pt está morto, desmoralizado. O resto da direita não sabe fazer oposição. Esse quadro abre espaço para o crescimento de uma nova esquerda.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

ERRATA: A era nivaldista não acabou !

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Em 2012, quando Nivaldo foi derrotado pelo fracasso que nos desadministra, publiquei aqui mesmo um artigo com o título “Frente Socialista dobra votação – Era nivaldista encerrada – Gestão de Helvécio se iniciará sobre a sombra de Daniel Dantas”. Há menos de uma semana das eleições de 2016 podemos afirmar que erramos. A era nivaldista não terminou! Como diz o povo nas ruas, “o trator voltou”. As chances dos demais candidatos sempre foram muito pequenas, e agora são quase nulas, quase.

Quem sempre teve alguma chance foi Rômulo Viegas (PSDB), que seria o provável vencedor se Nivaldo fosse barrado pela justiça. Mas para vencer Nivaldo Rômulo precisaria somar todos os votos anti-nivaldistas. Precisaria, portanto, que Cristina (PT) não tivesse quase voto algum, ou mesmo que retirasse sua candidatura, mas quanto o Pt cobraria por isso? Os votos da Frente de Esquerda não iriam mesmo para Rômulo Viegas, mas antes para os nulos. É mais fácil talvez que a Frente de Esquerda esteja tirando votos de Nivaldo.  Além disso seria necessário que a campanha de Jânia, que tira votos de Nilvado, crescesse. Mesmo assim, talvez Nivaldo tenha mais votos que todos os 4 adversários somados, e nesse caso toda essa matemática eleitoral não vale nada, porque Rômulo poderia conseguir apoio dos outros 3 candidatos e ainda assim perderia. Mas mesmo que por milagre Nivaldo seja derrotado, esse milagre se chamará Jânia, de forma que virá da própria base nivaldista, e não do anti-nivaldismo.

É realmente impressionante que em 4 anos a imagem de Nivaldo, que parecia aposentado, tenha melhorado tanto. O maior cabo eleitoral dele é o atual prefeito, como todos sabem. O fracasso foi total! Tinha a maioria da Câmara dos Vereadores, a qual manteve por quase todo o mandato. Seu partido estava no governo federal, e na metade de seu mandato ganhou o governo estadual. Tinha apoio jurado dos professores da UFSJ. Apesar disso tudo, que nenhum outro prefeito nunca teve antes, é voz pública que foi o pior prefeito que já tivemos, tendo tomado esse título de Sidinho, que de 2004 a 2008 também conseguiu ressuscitar Nivaldo. Basta dizer que o atual prefeito sequer está tentando a reeleição, e que sua vice, que é a candidata petista, está amargando o quarto lugar nas pesquisas.

É simples, os petistas dizem que não tinham dinheiro nem para tapar buracos, e realmente a cidade ficou 4 anos esburacada, mas ao mesmo tempo têm mais de 800 cargos sem concurso na Prefeitura, o que soma mais de 1% da população da cidade! O prefeito chegou a reclamar de falta de dinheiro para pintar faixas, mas todo ano gastam milhares de reais com medalhinhas com as quais se condecoram uns aos outros... Dizem que não têm dinheiro para aumentar salários dos professores e outros que realmente trabalham, mas o orçamento anual da Câmara de Vereadores subiu de 1 milhão e meio para quase 5 milhões!

Agora, no fim do mandato, fizeram algo de decente melhorando a iluminação em alguns pontos, mas as verbas para isso sempre existem, pois pagamos para isso na conta da Cemig. Ou seja, a Prefeitura sempre teve o dinheiro para fazer esse serviço, mas só agora o conseguiu. A escolha da iluminação de leds foi correta, e economizará energia apesar do maior número de postes! Além disso, os postes são corretos do ponto de vista da poluição visual, pois eles dirigem a luz para baixo, ao invés de desperdiçá-la para o céu, confundindo aves a atrapalhando as observações astronômicas.

Contudo, nem se São João virasse a Cidade Luz o fracasso da administração petista seria reversível. E se Nivaldo realmente vencer, ficará pior, porque ele logo no primeiro mês provará que a Prefeitura tem recursos, desmoralizando completamente os petistas. Contudo creio que qualquer um dos 4 opositores que ganhasse conseguiria o mesmo – no primeiro mês mostrar serviço e acabar com as mentiras petistas! E se fosse alguém honesto, como Jordano, da Frente de Esquerda, o Pt ainda sofreria uma auditoria dessa gestão suspeita. Sim, suspeita, porque se faz menos que Nivaldo e o dinheiro some, algo está muito errado.

A Frente de Esquerda passou por dificuldades para se manter unida dessa vez, mas por fim se manteve. A campanha está boa, com grande receptividade por parte dos candidatos comunistas. Os petistas estão escondendo o vermelho e a estrela, mas os comunistas não têm tido problema nenhum com a cor vermelha e a foice e o martelo. O único problema é quando alguém acha que são petistas, mas ai é só explicar. Que os petistas e pseudobistas abram mão dos símbolos soviéticos, achamos mais que justo e honesto, pois eles nunca os mereceram, nunca foram sequer dignos deles. Mais ainda, é mesmo uma condição de paz, dos verdadeiros comunistas para os petistas, que eles parem de sujar nossos símbolos com suas patas! Quem chamava a União Soviética de ditadura, porque usa sua estrela e suas cores? Aproveitem que já estão mesmo passando essa vergonha de esconderem os símbolos e os troquem por alguma coisa que os represente.  E repetimos – fiquem felizes por ser um Nivaldo e não um Jordano na frente nas pesquisas, porque se nós ganhássemos lascaríamos em vocês uma auditoria!

domingo, 4 de setembro de 2016

GOLPISMO, “FORA TEMER” E AS CONTRAPRODUCENTES AMARRAS AO LULISMO

Wlamir Silva
Professor e historiador

A insistência da tese do “golpe”, acompanhada das agressões por epítetos de “canalhas” e “golpistas” aos que dela discordam ou, mesmo, aos que negam a ela alguma centralidade, demonstra a pretensão de direção e hegemonia do Lulismo. De fato, trata-se, de viabilizar a sobrevivência e o retorno, sem nenhuma autocrítica, desta força política em processo falimentar.


Slogans substituem o debate e a divulgação de temas graves


Pensar a organização dos trabalhadores em seu conjunto, em perspectiva da resistência em curto prazo e, principalmente, em longo prazo, é ainda mais incompatível com a sombra do discurso do “golpe”. Afinal, o apoio popular ao impeachment esteve, em maio de 2016, em 66%, e a rejeição a ele em 27% (Datafolha). O que aponta para as restrições da associação ao referido discurso.

A rejeição “de todos”, ser percebida em pesquisas de opinião, e a olho nu, e o desejo difuso de eleições gerais (62%, Datafolha, maio de 2016), expõe uma descrença para com o sistema político, ou com a política, que extrapola uma rejeição ao atual governo. O mesmo quadro já se dava com o governo anterior e se mantem, com diferenças inexpressivas, para o atual.

Se a questão premente são os direitos trabalhistas e de aposentadoria em risco, a tese do “golpe” também é um estorvo. A preservação de tais direitos tem peso quase secular no imaginário popular, e é preciso mobilizar este patrimônio ideológico e simbólico. E esta população, em sua imensa maioria, em especial nos segmentos menos remunerados, não rejeita o impeachment.

Além do que, a preservação de direitos se deveu, desde os anos 1950, ao Parlamento,
sensível às pressões do voto popular, mesmo com maiorias conservadoras. Insistir com a pecha de “golpista” ao Congresso e associar tais demandas a um projeto político falido – e que reformou a previdência, foi conivente e tramou a flexibilização trabalhista – é contraproducente.

Eficaz será a construção de pautas unificadas com base nos direitos a serem defendidos, evitando a sua confusão com slogans e palavras de ordem de fins outros. Pressionar o Congresso com listas de votantes nas medidas que retirem direitos no calor da crise. Apelar para o patrimônio destes direitos fortemente assentados no imaginário popular.

A longo prazo, é ainda menos atraente, para uma perspectiva política que se pretenda transformadora, reforçar amarras ao Lulismo. Visto que tal projeto foi pífio no que tange ao desenvolvimento econômico e criação de novos direitos, promoveu a cooptação e a fragilização da organização dos trabalhadores e aderiu e reforçou a política tradicional conservadora.

Em perspectiva histórica, há um longo e pedregoso caminho a percorrer: o de retomar as bases de organização social e política autônomas e o de construir projetos políticos mais claros junto à população. E esta clareza não implica em unidade prévia ou forçada, ou a imposição de uma posição sobre as outras.

Um novo caminho à esquerda deve ser o da abertura de campos de discussão, possibilidades de unidade e alianças mais ou menos amplas. Desde que com base em programas e intenções publicamente estabelecidas, respeito aos militantes e em consonância com uma pedagogia política junto à população.

Afinal, o reconhecimento de sermos, hoje, ínfima minoria, é um ponto de partida necessário para voos maiores. Atalhos sedutores de tomada do poder, irreais pelo vazio de seu pragmatismo ou pela vacuidade de seu espontaneísmo, são apenas desvios que, como vemos, cobram, cedo ou tarde, o seu preço com juros.



terça-feira, 23 de agosto de 2016

O FETICHE DAS ESQUERDAS PELAS ELEIÇÕES DOS EXECUTIVOS

Wlamir Silva
Professor
Historiador


“[O] direito de voto universal [...] trouxe muito mais [...]. Durante a campanha eleitoral, ele nos forneceu um meio sem igual para entrar em contato com as massas populares [...] e obrigar todos os partidos a defender-se diante de todo o povo dos nossos ataques às suas opiniões e ações; e, além disso, ele colocou à disposição dos nossos representantes uma tribuna no Parlamento, do alto da qual podiam dirigir a palavra tanto a seus adversários no Parlamento como às massas do lado de fora com muito mais autoridade e liberdade”. F. Engels, 1895.[1]

A polêmica da exclusão de candidatos nos debates no Rio de Janeiro[2] traz uma questão transversal e, de fato, maior. Trata-se do fetiche da esquerda com as candidaturas aos executivos. Cujo desdobramento denunciador é o paradigma de, eventualmente no Poder Executivo, se atribuir os fracassos e as contradições programáticas às armadilhas das coalizões, dando à tragédia anunciada ares de acidente de percurso.

As eleições e o sistema representativo são alvos de diversas discussões num campo “de esquerda”. Desde a negação extrema da atuação parlamentar, em nome de um exclusivismo da política não institucional ou de uma mal explicada “democracia direta”, até uma pragmática e conveniente adesão ou conivência com os vícios da política tradicional clientelista. Ou seja, do ascetismo inócuo à promiscuidade desqualificadora.

Detalhe da bancada do PCB na Constituinte de 1946, 10%
dos votos, influência pela consistência de programa e argumentos.

A história do sistema representativo nega a tese da atuação parlamentar de todo inócua. Os parlamentos tiveram um papel importante na institucionalização de direitos da classe trabalhadora, do Estado do bem estar social e das liberdades políticas. Desde a social-democracia europeia no século XIX e, no Brasil, desde a atuação do PCB em 1946, ao PTB e passando pelo MDB, ambos, aliás, tendo sido espaços de atuação política legal dos comunistas.

A ânsia de saltar os óbices da conquista de espaços parlamentares, quando honesta, mostra a impaciência para com a pedagogia política de longo prazo, de fundamentos claros e exercício cotidiano da coerência política. Numa mal disfarçada descrença na capacidade do exercício da autonomia pelos trabalhadores e setores populares. Por meio da qual brotam esperanças em arroubos espontaneístas e vanguardismos tolos.

Já a ambição desonesta pelos apressados poderes do político tradicional, que prospera pelo acesso às “tetas” do Executivo, bem sabe da imersão na lógica vigente. Sabe também como utilizar-se de discursos fantasiosos de promoção de benesses à população mais desassistida e, até mesmo, de simbolismos revolucionários simplórios. Seus manipuladores conhecem e alimentam a inércia política que lhes interessa e sustenta, em especial a da anomia dos trabalhadores.

A luta aberta por espaços parlamentares não colide com as ações de organização da classe trabalhadora em outros níveis. Ao contrário, se for feita com clareza de princípios e práticas, pode ser um meio de politização. Tanto nas campanhas como nos eventuais exercícios de mandato. Afinal, como pretender ser uma alternativa de poder se não o puder exercê-lo de forma a prefigurar novas ideias e práticas?[3] Por isso é processo mais lento, porque mais substancial.

Não se trata de sectarismo ou purismo irreal. É possível fazer alianças e acordos. Desde os que alinhem setores à esquerda aos que estabeleçam meios de viabilizar políticas que atendam à população, ou minorem seus males. Desde que sejam expostos, programaticamente, em alianças, e com seus termos e motivos, nas questões pontuais. Seria o exercício de uma pedagogia política emancipadora, inclusive dos limites incontornáveis da ordem vigente.



[1] ENGELS, Friedrich. Prefácio (1895). In: MARX, Karl. As lutas de classes na França. São Paulo: Boitempo, 2012, pp. 21-22.
[2] Isso se dá pela nova Lei Eleitoral aprovada pelo Congresso e sancionada pela presidente afastada Dilma Rousseff em 2015, estabelecendo como exigência o número superior a nove parlamentares na Câmara dos Deputados ou, no primeiro turno, com a aprovação de pelo menos 2/3 (dois terços) dos pelo menos 2/3 (dois terços) dos candidatos aptos, no caso de eleição majoritária.
[3] Alguns dirão que sob o capitalismo não são possíveis tais prefigurações. Como se o advento do socialismo fosse uma panaceia imediata, como se a história do socialismo real justificasse tal pensamento mágico.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

O golpe de 1964 e o golpe de 2016

Raramente tenho deixado meus documentos oitocentistas para tratar de assuntos mais recentes, mas como historiador é para mim tão repugnante ver a distorção completa de um evento histórico da importância do golpe de 1964 e da ditadura que se seguiu, que sou obrigado a me dar a esse trabalho.

O Brasil já viveu montes de golpes vitoriosos e fracassados, e nenhum nunca foi igual ao outro. D. Pedro I deu o primeiro, quando fechou a Constituinte em 1823. Foi derrubado por um movimento que seus apoiadores chamaram de golpe. D. Pedro II tomou a coroa três anos mais cedo do que o previsto em um golpe e segundo os monarquistas caiu em outro. Durante seu longo reinado um partido golpeou o outro em seguidas eleições. Para os monarquistas a instalação da República foi um golpe, e para os paulistas a Revolução de 1930 foi outro. Em 1932 os cafeicultores tentaram retomar o poder com um golpe. Em 1837 Getúlio se tornou ditador com um golpe, e em 1945 ele caiu em outro. Ademais, golpes acontecem até em eleições sindicais e estudantis.

De todos os golpes do passado os petistas escolheram exatamente o menos parecido com o atual para fazer essa comparação mentirosa e até criminosa, pois contribuir para aumentar a ignorância do povo (coisa que aliás o Pt sempre fez) é sempre um crime terrível.

Primeiro porque assim se compara o governo petista com o governo de Jango, o que é ofensivo a esse último, que não era corrupto, não traiu a pátria (pelo contrário, limitou a remessa de lucros de empresas multinacionais para o estrangeiro), não traiu os trabalhadores, tentou fazer reforma agrária (o Pt em 14 anos não fez, nem tentou). Isso não fazia de Jango nenhum socialista, nenhum revolucionário, mas muito superior ao Pt, certamente. O Pt cortou direitos trabalhistas, privatizou, multiplicou os lucros dos capitalistas, se corrompeu por completo e durante seus 14 anos deixou centenas de sem terra serem assassinados. Dilma foi pior que Lula e fez menos reforma agrária do que FHC! Que os petistas queiram esconder suas sujeiras é normal, mas que para isso sujem a imagem do Presidente João Goulart é inaceitável.

Segundo, alguns idiotas concluíram que se tivemos um golpe então agora temos um regime de exceção e até uma ditadura! É por essas e outras que muitas vezes tenho afirmado que os petistas são de direita, dado que o nível intelectual deles é o mesmo das pessoas de direita, que há dois meses estavam vendo em algum lugar uma ditadura comunista! O nível do ridículo é o mesmo! Eu podia fazer comparações históricas e perguntar, depois do Golpe da Maioridade seguiu-se uma ditadura? E depois de 1945 etc? Mas essa gente nem sabe que isso foi no Brasil! É elementar que nem sob Dilma nem sob Temer vivemos sequer um regime de exceção, mas só o fracasso mesmo. São governos fracos, de um regime que não consegue canalizar esgoto em metade das ruas do país.
Terceiro, toda a história do golpe de 1964 é diferente. Comecemos pelas Forças Armadas. Elas tinham ajudado Vargas no golpe de 1937 e o derrubaram no golpe de 1945. Em 1954 forçaram Vargas ao suicídio com um golpe. Em 1955 alguns militares planejavam um golpe para não deixar JK tomar posse, e outros militares deram um golpe para garantir a posse! Em 1962 tentaram outro golpe e em 1964, treinados com se vê, conseguiram finalmente segurar o poder por 20 anos. Não é preciso ter boa memória para notar que as Forças Armadas atuais são outras, que não têm a mais mínima prática de golpes.

As Forças Armadas (FFAA) tinham um projeto para o país em 1964, elaborado na Escola Superior de Guerra e sustentado pelo Clube Militar, e atualmente isso não existe. As FFAA tinham um efetivo bem maior, mais disciplinado, e anti-comunista por doutrinação dos padres. Atualmente a tropa é menor e a indisciplina invadiu os quartéis tanto quanto as salas de aula. A fidelidade dos soldados é disputada pelo tráfico nas grandes cidades e mesmo pela consciência dos recrutas, que é outra muito diferente da de 1964. Em 1964 as FFAA tinham o respeito do povo, eram consideradas uma esperança de regeneração para o país. Atualmente, como em Junho, tomam pedradas nos desfiles de 7 de Setembro e sofrem denúncias de corrupção. Em 1964 as FFAA estavam bem mais unidas, e queriam o poder. Hoje os militares nem têm tanta unidade política, nem querem tomar o poder, porque nem têm planos para fazer algo com ele.

Outra enorme diferença são as esquerdas, que em 1964 só existiam nas grandes cidades, e hoje existem espalhadas pelo país inteiro. Se já aconteceu uma forte resistência quando o regime de 1964 se endureceu, a tentativa de instaurar uma forte repressão atualmente geraria uma resistência muitas vezes maior!

Em 1963, quando Brizola visitou BH, foi recebido por uma procissão, liderada por um padre, cuja intenção era tirar o demônio do corpo dele. Essa era a cultura política da época – Brizola, um latifundiário, seria comunista e portanto possuído pelo capeta!

Em 2016 tivemos um golpe, mas foi um daqueles de baixo calão, entre bandidos, como quando um chefão do crime toma o comando de outro chefão. Não é que não mudou nada, pelo contrário, várias coisas podem mudar quando uma quadrilha toma a favela de outra! A direita que estava crescendo na oposição agora está pagando politicamente pelo governo que ajudou a colocar no poder ao sustentar o golpe, e ainda ficou, inteira, com o título de golpista, em benefício exclusivo da ala suicida do PMDB. A direita teria um governo legítimo e ainda limpo de 4 anos, pois venceria em 2018, e trocou isso por um governo interino e sujo que talvez não dure dois anos e meio (e melhor, ajudou o país a se livrar da direita mais inteligente e perigosa, porque enrustida - o Pt e seus aliados). O governo Dilma tinha apoio de parte do povo, de militantes que a defendiam (só porque ela veste vermelho) por piores que fossem os crimes de traição que ela cometesse, enquanto Temer tem uma oposição popular quase absoluta. O resultado é que ela conseguia fazer maldades que ele só ameaça fazer. Se o governo dela foi marcado pelo estelionato, pois ela fez exatamente tudo ao contrário do que prometeu, e tudo o que acusou que os outros fariam, o dele está sendo marcado pelo recuo, pois sem apoio popular recua de cada uma de suas propostas idiotas, que aliás são as mesmas do Pt, e que aliás não foram aprovadas nas urnas, pois para os eleitores o Pt e Temer falaram outras coisas!

Por fim, o discurso petista comparando 2016 a 1964 confunde a defesa do Pt com a defesa da democracia. Vou relevar o mal caratismo, a desonestidade dessa tática. Está difícil defender o Pt, sujo por corrupção, traidor dos trabalhadores e do país, então se convoca as pessoas para defenderem a democracia! Que belos democratas, que assim emporcalham a democracia para defender ladrões! Mas o pior, o crime maior dessa conversa, é que assim além de se proteger uma quadrilha ainda se defende um regime fracassado, autoritário, assassino e que de democracia não tem nada!!! O Pt mesmo é a prova de que o povo não manda em nada por meio eleitoral, pois traiu completamente seus eleitores. Em seus estertores, o petismo é conservador! Quer conservar o regime dos ladrões. Precisamos construir uma democracia de verdade, e os petistas, para defenderem seus ladrões, dificultam esse trabalho blindando uma falsa democracia e confundindo o povo.


O governo Temer é ilegítimo, golpista, seu programa de governo não teve apoio das urnas, os deputados e senadores que o sustentam igualmente não representam nem suas famílias quanto mais o povo. Mas o Fora Temer não é um Volta Dilma. A volta de Dilma, se acontecer, é um preço a pagar pelo Fora Temer, e não seu objetivo. Teria, porém, um único lado bom esse retorno, visto que algumas pessoas não aprenderam o que é o Pt em 14 anos de traição, e precisam de um pouco mais de decepção. É que na vida não existe aprovação automática – quem não aprende tem que sofrer de novo e pronto.