terça-feira, 23 de agosto de 2016

O FETICHE DAS ESQUERDAS PELAS ELEIÇÕES DOS EXECUTIVOS

Wlamir Silva
Professor
Historiador


“[O] direito de voto universal [...] trouxe muito mais [...]. Durante a campanha eleitoral, ele nos forneceu um meio sem igual para entrar em contato com as massas populares [...] e obrigar todos os partidos a defender-se diante de todo o povo dos nossos ataques às suas opiniões e ações; e, além disso, ele colocou à disposição dos nossos representantes uma tribuna no Parlamento, do alto da qual podiam dirigir a palavra tanto a seus adversários no Parlamento como às massas do lado de fora com muito mais autoridade e liberdade”. F. Engels, 1895.[1]

A polêmica da exclusão de candidatos nos debates no Rio de Janeiro[2] traz uma questão transversal e, de fato, maior. Trata-se do fetiche da esquerda com as candidaturas aos executivos. Cujo desdobramento denunciador é o paradigma de, eventualmente no Poder Executivo, se atribuir os fracassos e as contradições programáticas às armadilhas das coalizões, dando à tragédia anunciada ares de acidente de percurso.

As eleições e o sistema representativo são alvos de diversas discussões num campo “de esquerda”. Desde a negação extrema da atuação parlamentar, em nome de um exclusivismo da política não institucional ou de uma mal explicada “democracia direta”, até uma pragmática e conveniente adesão ou conivência com os vícios da política tradicional clientelista. Ou seja, do ascetismo inócuo à promiscuidade desqualificadora.

Detalhe da bancada do PCB na Constituinte de 1946, 10%
dos votos, influência pela consistência de programa e argumentos.

A história do sistema representativo nega a tese da atuação parlamentar de todo inócua. Os parlamentos tiveram um papel importante na institucionalização de direitos da classe trabalhadora, do Estado do bem estar social e das liberdades políticas. Desde a social-democracia europeia no século XIX e, no Brasil, desde a atuação do PCB em 1946, ao PTB e passando pelo MDB, ambos, aliás, tendo sido espaços de atuação política legal dos comunistas.

A ânsia de saltar os óbices da conquista de espaços parlamentares, quando honesta, mostra a impaciência para com a pedagogia política de longo prazo, de fundamentos claros e exercício cotidiano da coerência política. Numa mal disfarçada descrença na capacidade do exercício da autonomia pelos trabalhadores e setores populares. Por meio da qual brotam esperanças em arroubos espontaneístas e vanguardismos tolos.

Já a ambição desonesta pelos apressados poderes do político tradicional, que prospera pelo acesso às “tetas” do Executivo, bem sabe da imersão na lógica vigente. Sabe também como utilizar-se de discursos fantasiosos de promoção de benesses à população mais desassistida e, até mesmo, de simbolismos revolucionários simplórios. Seus manipuladores conhecem e alimentam a inércia política que lhes interessa e sustenta, em especial a da anomia dos trabalhadores.

A luta aberta por espaços parlamentares não colide com as ações de organização da classe trabalhadora em outros níveis. Ao contrário, se for feita com clareza de princípios e práticas, pode ser um meio de politização. Tanto nas campanhas como nos eventuais exercícios de mandato. Afinal, como pretender ser uma alternativa de poder se não o puder exercê-lo de forma a prefigurar novas ideias e práticas?[3] Por isso é processo mais lento, porque mais substancial.

Não se trata de sectarismo ou purismo irreal. É possível fazer alianças e acordos. Desde os que alinhem setores à esquerda aos que estabeleçam meios de viabilizar políticas que atendam à população, ou minorem seus males. Desde que sejam expostos, programaticamente, em alianças, e com seus termos e motivos, nas questões pontuais. Seria o exercício de uma pedagogia política emancipadora, inclusive dos limites incontornáveis da ordem vigente.



[1] ENGELS, Friedrich. Prefácio (1895). In: MARX, Karl. As lutas de classes na França. São Paulo: Boitempo, 2012, pp. 21-22.
[2] Isso se dá pela nova Lei Eleitoral aprovada pelo Congresso e sancionada pela presidente afastada Dilma Rousseff em 2015, estabelecendo como exigência o número superior a nove parlamentares na Câmara dos Deputados ou, no primeiro turno, com a aprovação de pelo menos 2/3 (dois terços) dos pelo menos 2/3 (dois terços) dos candidatos aptos, no caso de eleição majoritária.
[3] Alguns dirão que sob o capitalismo não são possíveis tais prefigurações. Como se o advento do socialismo fosse uma panaceia imediata, como se a história do socialismo real justificasse tal pensamento mágico.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

O golpe de 1964 e o golpe de 2016

Raramente tenho deixado meus documentos oitocentistas para tratar de assuntos mais recentes, mas como historiador é para mim tão repugnante ver a distorção completa de um evento histórico da importância do golpe de 1964 e da ditadura que se seguiu, que sou obrigado a me dar a esse trabalho.

O Brasil já viveu montes de golpes vitoriosos e fracassados, e nenhum nunca foi igual ao outro. D. Pedro I deu o primeiro, quando fechou a Constituinte em 1823. Foi derrubado por um movimento que seus apoiadores chamaram de golpe. D. Pedro II tomou a coroa três anos mais cedo do que o previsto em um golpe e segundo os monarquistas caiu em outro. Durante seu longo reinado um partido golpeou o outro em seguidas eleições. Para os monarquistas a instalação da República foi um golpe, e para os paulistas a Revolução de 1930 foi outro. Em 1932 os cafeicultores tentaram retomar o poder com um golpe. Em 1837 Getúlio se tornou ditador com um golpe, e em 1945 ele caiu em outro. Ademais, golpes acontecem até em eleições sindicais e estudantis.

De todos os golpes do passado os petistas escolheram exatamente o menos parecido com o atual para fazer essa comparação mentirosa e até criminosa, pois contribuir para aumentar a ignorância do povo (coisa que aliás o Pt sempre fez) é sempre um crime terrível.

Primeiro porque assim se compara o governo petista com o governo de Jango, o que é ofensivo a esse último, que não era corrupto, não traiu a pátria (pelo contrário, limitou a remessa de lucros de empresas multinacionais para o estrangeiro), não traiu os trabalhadores, tentou fazer reforma agrária (o Pt em 14 anos não fez, nem tentou). Isso não fazia de Jango nenhum socialista, nenhum revolucionário, mas muito superior ao Pt, certamente. O Pt cortou direitos trabalhistas, privatizou, multiplicou os lucros dos capitalistas, se corrompeu por completo e durante seus 14 anos deixou centenas de sem terra serem assassinados. Dilma foi pior que Lula e fez menos reforma agrária do que FHC! Que os petistas queiram esconder suas sujeiras é normal, mas que para isso sujem a imagem do Presidente João Goulart é inaceitável.

Segundo, alguns idiotas concluíram que se tivemos um golpe então agora temos um regime de exceção e até uma ditadura! É por essas e outras que muitas vezes tenho afirmado que os petistas são de direita, dado que o nível intelectual deles é o mesmo das pessoas de direita, que há dois meses estavam vendo em algum lugar uma ditadura comunista! O nível do ridículo é o mesmo! Eu podia fazer comparações históricas e perguntar, depois do Golpe da Maioridade seguiu-se uma ditadura? E depois de 1945 etc? Mas essa gente nem sabe que isso foi no Brasil! É elementar que nem sob Dilma nem sob Temer vivemos sequer um regime de exceção, mas só o fracasso mesmo. São governos fracos, de um regime que não consegue canalizar esgoto em metade das ruas do país.
Terceiro, toda a história do golpe de 1964 é diferente. Comecemos pelas Forças Armadas. Elas tinham ajudado Vargas no golpe de 1937 e o derrubaram no golpe de 1945. Em 1954 forçaram Vargas ao suicídio com um golpe. Em 1955 alguns militares planejavam um golpe para não deixar JK tomar posse, e outros militares deram um golpe para garantir a posse! Em 1962 tentaram outro golpe e em 1964, treinados com se vê, conseguiram finalmente segurar o poder por 20 anos. Não é preciso ter boa memória para notar que as Forças Armadas atuais são outras, que não têm a mais mínima prática de golpes.

As Forças Armadas (FFAA) tinham um projeto para o país em 1964, elaborado na Escola Superior de Guerra e sustentado pelo Clube Militar, e atualmente isso não existe. As FFAA tinham um efetivo bem maior, mais disciplinado, e anti-comunista por doutrinação dos padres. Atualmente a tropa é menor e a indisciplina invadiu os quartéis tanto quanto as salas de aula. A fidelidade dos soldados é disputada pelo tráfico nas grandes cidades e mesmo pela consciência dos recrutas, que é outra muito diferente da de 1964. Em 1964 as FFAA tinham o respeito do povo, eram consideradas uma esperança de regeneração para o país. Atualmente, como em Junho, tomam pedradas nos desfiles de 7 de Setembro e sofrem denúncias de corrupção. Em 1964 as FFAA estavam bem mais unidas, e queriam o poder. Hoje os militares nem têm tanta unidade política, nem querem tomar o poder, porque nem têm planos para fazer algo com ele.

Outra enorme diferença são as esquerdas, que em 1964 só existiam nas grandes cidades, e hoje existem espalhadas pelo país inteiro. Se já aconteceu uma forte resistência quando o regime de 1964 se endureceu, a tentativa de instaurar uma forte repressão atualmente geraria uma resistência muitas vezes maior!

Em 1963, quando Brizola visitou BH, foi recebido por uma procissão, liderada por um padre, cuja intenção era tirar o demônio do corpo dele. Essa era a cultura política da época – Brizola, um latifundiário, seria comunista e portanto possuído pelo capeta!

Em 2016 tivemos um golpe, mas foi um daqueles de baixo calão, entre bandidos, como quando um chefão do crime toma o comando de outro chefão. Não é que não mudou nada, pelo contrário, várias coisas podem mudar quando uma quadrilha toma a favela de outra! A direita que estava crescendo na oposição agora está pagando politicamente pelo governo que ajudou a colocar no poder ao sustentar o golpe, e ainda ficou, inteira, com o título de golpista, em benefício exclusivo da ala suicida do PMDB. A direita teria um governo legítimo e ainda limpo de 4 anos, pois venceria em 2018, e trocou isso por um governo interino e sujo que talvez não dure dois anos e meio (e melhor, ajudou o país a se livrar da direita mais inteligente e perigosa, porque enrustida - o Pt e seus aliados). O governo Dilma tinha apoio de parte do povo, de militantes que a defendiam (só porque ela veste vermelho) por piores que fossem os crimes de traição que ela cometesse, enquanto Temer tem uma oposição popular quase absoluta. O resultado é que ela conseguia fazer maldades que ele só ameaça fazer. Se o governo dela foi marcado pelo estelionato, pois ela fez exatamente tudo ao contrário do que prometeu, e tudo o que acusou que os outros fariam, o dele está sendo marcado pelo recuo, pois sem apoio popular recua de cada uma de suas propostas idiotas, que aliás são as mesmas do Pt, e que aliás não foram aprovadas nas urnas, pois para os eleitores o Pt e Temer falaram outras coisas!

Por fim, o discurso petista comparando 2016 a 1964 confunde a defesa do Pt com a defesa da democracia. Vou relevar o mal caratismo, a desonestidade dessa tática. Está difícil defender o Pt, sujo por corrupção, traidor dos trabalhadores e do país, então se convoca as pessoas para defenderem a democracia! Que belos democratas, que assim emporcalham a democracia para defender ladrões! Mas o pior, o crime maior dessa conversa, é que assim além de se proteger uma quadrilha ainda se defende um regime fracassado, autoritário, assassino e que de democracia não tem nada!!! O Pt mesmo é a prova de que o povo não manda em nada por meio eleitoral, pois traiu completamente seus eleitores. Em seus estertores, o petismo é conservador! Quer conservar o regime dos ladrões. Precisamos construir uma democracia de verdade, e os petistas, para defenderem seus ladrões, dificultam esse trabalho blindando uma falsa democracia e confundindo o povo.


O governo Temer é ilegítimo, golpista, seu programa de governo não teve apoio das urnas, os deputados e senadores que o sustentam igualmente não representam nem suas famílias quanto mais o povo. Mas o Fora Temer não é um Volta Dilma. A volta de Dilma, se acontecer, é um preço a pagar pelo Fora Temer, e não seu objetivo. Teria, porém, um único lado bom esse retorno, visto que algumas pessoas não aprenderam o que é o Pt em 14 anos de traição, e precisam de um pouco mais de decepção. É que na vida não existe aprovação automática – quem não aprende tem que sofrer de novo e pronto.