sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Censura e autocensura na esquerda brasileira



Há muito tempo se conhece a existência de um tipo que prolifera entre a juventude e entre os militantes que nunca amadurecem, e existem em todos os partidos e forças de esquerda que se dizem revolucionárias e portanto organizadas conforme o centralismo democrático – esse tipo é o censor! Agora, com a internet, essas figuras enjoadas e prejudiciais ampliaram seu raio de ação, pois podem implicar com outros militantes que moram no outro canto do país, e que de outra forma estariam livres de serem perturbados ao menos pelos chatos de longe.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

CENSURA, INTOLERÂNCIA E TACANHICE: AGORAFOBIA, DOENÇA SENIL DO COMUNISMO

Wlamir Silva
Professor
Historiador

Fomos expulsos e bloqueados por causa de uma postagem de um vídeo[1], com uma pequena introdução e o título Travesti Comunista, na comunidade não oficial do PCB no Facebook. Não fomos avisados do porquê da sumária expulsão, apenas que estávamos sujeitos “ao banimento”, e quem mandou o “recado” disse que também não crê “que a transfobia seja funcional ao capital”. Consideração que não deixa de ser preocupante, pois sugere que a censura pode ser feita por divergência de opinião...


Outra possibilidade, mais improvável, é a de que tenha incomodado “a discussão sobre as relações com a luta de classes”, que ressaltamos como o importante no vídeo, mas aí seria uma censura à camarada Amanda. Mas, talvez até de forma inconsciente, a “superposição” da luta de classes à pauta LGBT soe como uma agressão. 


O expulso com alunos, ecos do "saiaço" da UFSJ... Humor é fundamental...
Como não tivemos esta informação e, muito menos outras pessoas que por ali passam ou se interessariam pelo assunto, faço aqui algumas conjeturas.

Fora isso, resta um desrespeito quanto à forma. Talvez ela tenha sido considerada agressiva e desrespeitosa, o que poderia implicar em uma exclusão. Nesse sentido, vale a pena uma pequena exegese do minúsculo texto, afinal, os que empunham tesouras, mesmo virtuais, não costumam ser chegados a sutilezas nas palavras.

A primeira possibilidade deste ângulo está no próprio título: TRAVESTI COMUNISTA. Expressão, aliás, com a qual ela é apresentada no vídeo. Pode ter parecido a alguns que a própria justaposição de termos implicasse uma galhofa. Se fosse operário comunista, professor comunista ou mesmo negro comunista, não haveria problema. Até concordaria com a crítica se fosse isso. Usei tal título para chamar a atenção para o fato raro e para a postagem, mas não me agrada esta adjetivação pela opção sexual, aliás, nem pela cor.

Outro fato pode ter sido o uso dos “rsrs”, comuns nas redes sociais, que, aos que confundem sisudez com seriedade, pode ter sido interpretado também como zombaria. E aqui explicaremos risos... rsrs.

Os primeiros “rsrs” vêm na frase em que afirmamos que a “luta contra a discriminação sob a ordem burguesa [...] pode avançar mais rápido do que a crítica efetiva ao capital”. Sobre o que dissemos “não sei se rio ou choro disso... rsrs”. Bem, se há aí um deboche é para os que decantam a proximidade do fim do capitalismo, sabemos que essas polianas por aí. Ou seja, nada contra os LGBT...

Queremos rir porque nos agrada a ideia de que esta questão, como outras, podem avançar muito ou serem resolvidas no capitalismo, espero e quero colaborar com isso. Dá-nos vontade de chorar porque o fim do capitalismo, na minha avaliação, vai demorar muito. Com estes comunistas que aí se apresentam é que vai demorar mesmo... rsrs. Fechamos dizendo que, ao contrário de outros, não vendemos o mito de que tudo é culpa do capital, nem de que o socialismo será a panaceia universal.

Talvez tenham esquecido que Fidel Castro, não faz muito, fez uma autocrítica sobre a questão em Cuba [2].

O segundo “rsrs” vai no finalzinho do texto e, qualquer criança de 12 anos bem alfabetizada saberia, não se dirige à Amanda ou aos LGBT, mas à Luciana Genro que protagonizou uma explicação desastrosa sobre a história do socialismo durante a campanha presidencial. Um “desrespeito” à Luciana Genro justificou a expulsão?

O terceiro “rsrs” foi, reconheço, uma brincadeira com a transexualidade da camarada Amanda, ou com o artigo que designa o gênero: “a intenção foi ser didático, ou didática?”. Aliás, “travesti” é substantivo de dois gêneros...rsrs. Deviam reparar que o site da entrevista denominasse Pergunte às Bee..., e o próprio clima do vídeo.

O que fariam se nós disséssemos, como um dos entrevistadores das Bee, que o papel deles nas lutas políticas é o de embelezá-las? Se pensassem um pouco, ou conhecessem um pouco aos que querem “defender”, saberiam que eles são mais bem-humorados e bem menos suscetíveis do que supõe a vã filosofia dos censores “vermelhos”. De todo modo, chiste que justifica uma expulsão?

Trata-se de fato uma solenidade respeitosa e vitimizante para com a comunidade LGBT[3]. Consideram-na frágil e dependente e, portanto, carente de seus atos protetivos. Há nisso também uma ponta de oportunismo, com a necessidade de mostrar-se sempre de acordo com as suas demandas.

Ao ceder ao identitarismo acrítico colaboram para guetificação dos envolvidos e a criação de um muro entre propostas políticas mais amplas ou qualquer ideia que seja estranha àquele discurso fechado . Como foi visto recentemente com o entrevero de Mauro Iasi e setores hidrófobos do movimento negro.

Elogiamos justamente o caminho, aliás, inverso, feito pela camarada Amanda, imaginamos a que custo, de levar perspectivas universais ao nicho identitário. Fato sabido pelo Bee..., cujos entrevistadores previram a polêmica o "vai dar treta" e o “mimimi”. Ela enfrentou a questão de relacionar os LGBT à luta de classes, admiramos isso. Aliás, distinguindo-se do PT, o que muitos por lá, na comunidade do PCB, não fazem...



A visão tacanha do que os outros sejam ou precisem se desdobra na incapacidade de perceber as variações e complexidades da linguagem. O paternalismo faz com que qualquer palavra solta ou frase que ou se identifique com um determinado estereótipo, ou seja de sentido, PARA ELES, incompreensível, seja tachado de discriminatório a ponto de censura e expulsão. São reforçadores de estereótipos até porque se arrogam em intérpretes mais capazes e filantrópicos que os outros, impedindo que eles o façam por si mesmos.   

Houve um tempo em que boa parte da intelectualidade brasileira gravitava em torno do PCB, no qual a nossa influência social era importante. É claro que se pode argumentar que isso não deu certo, é preciso tentar coisas novas. Não deixa de ser estranho para quem hoje vive batendo no peito “aqui é partidão”. Isso ocorria pela variedade e liberdade dos seus intelectuais e artistas[4]. A censura que ali ocorreu é, para a sociedade que nos circunda, premonitória. Quem promove tacanhices recruta tacanhos.

Sabemos que há uma preocupação em quebrar o estigma de certo “puritanismo” e intolerância dos comunistas com relação à sexualidade e aos homossexuais, uma pequeníssima verdade se em contraste com a sociedade. Duvidamos que esta postura de solenidade ritual tacanha colabore para com isso, em especial se acompanhada do reforço de outro ferrete a nós atribuído – com um quê de verdade que devemos enfrentar, não empurrar para baixo do tapete – de não primar pela liberdade de expressão e promover a censura quando das experiências históricas socialistas.

 A questão em si é pequeníssima. Pequena era também a postagem, que apenas queria mostrar a importância da discussão proposta por Amanda[5]. Noutro sentido, ela é fundamental. A liberdade de expressão quer dizer que a discussão pública qualifica a consciência social, por isso é um princípio. O que os comunistas pensam da liberdade da expressão? É ocioso dizer que esta discussão só pode ser feita com liberdade de expressão.

É pueril e até vergonhoso, mas necessário, dizer que na referida comunidade do PCB são comuns os bate-bocas mais rasteiros, que se repetem e se arrastam, inclusive com palavras de baixo-calão, desqualificações, agressões e leviandades. Nossa postagem não fez nada disso, mas não mereceu a mesma leniência. O que nos difere que justifique uma expulsão tão de pronto?

No caso específico, pouca gente percebe o deslizamento de sentido da palavra homofobia. Fobia, que significa medo irracional, transformou-se em ódio, em parte pela discriminação e violência, em parte por um erro de perspectiva: pois os medos irracionais devem ser objeto de uma pedagogia, antes e contra o ódio.

Trocando em miúdos, nem todos que têm um medo ou rejeição irracional aos homossexuais – muitos da classe trabalhadora –, os odeiam. Podem e devem ser objeto de uma pedagogia social e política que não combina com a demonização fácil, no epítetos de “fascistas” e outros, que parecem ser a solução para alguns.

Vemos agora um novo deslizamento, ainda que não dito. A agorafobia, medo irracional da discussão pública, se torna um ódio ao enfrentamento de ideias diferentes e, como vemos, até de fragmentos de linguagem que incomodam. O medo da discussão pública leva ao ódio da exclusão.

A discussão pública é o espaço de elaboração da teoria e de uma cultura política, no qual é preciso liberdade, tolerância e inteligência. A agorafobia é hoje, talvez como nunca, uma doença senil para os comunistas.





[1] https://www.youtube.com/watch?v=uTs1JPQEkSg
[2] http://gilsonsampaio.blogspot.com.br/2010/09/entrevista-con-fidel-castro-ii-parte-el.html
[3] O que já é por si problemático, todos os homossexuais pertencem e se veem como membros de um coletivo? Este coletivo, se existe, é homogêneo. Já caímos na esparrela de supor que havia um proletariado único, portador de uma essência e “nosso” por leis históricas...
[4] Quando se tentou o contrário, como no obreirismo que estigmatizou Caio Prado Jr., o resultado foi catastrófico.
[5] Não costumo postar vídeos ou matérias com as quais não possa ou queira ser identificado. Aprendi no FB que depois tiram o seu comentário e seu nome fica identificado àquilo que você criticou. Pus o vídeo porque posso me orgulhar de ser identificado com a fala de Amanda e não me incomoda “ser visto” ao lado do Bee...