domingo, 31 de agosto de 2014

O PORQUÊ DO ÓDIO À MARINA SILVA

Wlamir Silva
Professor e historiador


Não sou "marinista", mas respeito Marina Silva. E não, não é um respeito protocolar que estendo a todos. Não tenho mais o menor respeito por Lula. Não por nostalgia do que Lula jamais foi - um homem de esquerda, comprometido com mudanças político-sociais profundas -, mas pela completa adesão ao que há de mais nefando nas práticas políticas tradicionais e pelo uso de um capital político importante, que não é só dele, para legitimá-las. Lula, como bem observou um arguto analista, não tem caráter.

Causam-me náuseas os ataques hidrófobos a Marina Silva - Marina sorri no funeral, Marina é amiga de "banqueira", Marina fez acordo com o agronegócio, Marina é antigay... -, coisas de quem não admite que se ponha em risco uma vitória eleitoral. De uma miríade de assessorezinhos que podem largar o osso. É política feita nos (pós)modernos e assépticos escritórios de marqueteiros, onde, como sói acontecer em nosso país, o novo alimenta o arcaísmo. Não é à toa que se unem também aí as práticas de Aécio e Dilma

Todos os vícios ou práticas que marcam os que estiveram no poder por duas décadas tornam terríveis pecados associados a Marina Silva. Governos e campanhas que há muito mamam no sistema financeiro, nas empreiteiras e no agronegócio, que o tempo todo negociam com bancadas conservadoras questões relativas a costumes, que fazem coisas quase circenses em campanhas, que afirmam, reafirmam e renovam práticas clientelistas, agora se fingem vestais ou apontam para a incoerência alheia.

É como se dissessem: fomos os primeiros a chafurdar na lama e, assim, temos o “direito de primogenitura” à sujeira! O que esta neófita faz aqui? O crime de Marina, sabemos, não é nenhum destes apontados por redatores fake a soldo de dinheiro público. O pecado venal de Marina é ousar disputar uma eleição. Mais ainda é ousar vencê-la! Não é acidente que Eduardo Campos já tenha sido "pupilo” de Lula, que Marina tenha sido o “Lula de saias”... Deixaram de sê-lo não por terem mudado de caráter ou posição, mas por terem ousado exercer o direito de serem candidatos. Isso sim é abominado pelo Lulismo.

Marina não é isenta de contradições. Pelo contrário. Mas sua candidatura talvez faça com que certas questões sejam discutidas. Qual o papel do capital financeiro no país? Pois a despeito dos discursos orquestrados ele vai muito bem obrigado nas últimas duas décadas. O que são o agronegócio e a agricultura familiar e como realizar uma reforma agrária integrada ao mercado e garantir os direitos dos trabalhadores rurais empregados? Porque hoje a reforma agrária estagnou e a organização sindical rural foi sugada pelas boas relações com o Estado. Como fazer avançar legislações relativas aos costumes promovendo um debate sólido na sociedade? Pois hoje “se joga para a plateia” enquanto se fazem acordos com lideranças reacionárias, ignorando-se a enorme massa que tem sinceros limites e dúvidas, que seria sensível a uma substancial discussão sem caricaturas de parte a parte.

Não se trata tão-somente de que propostas a candidata têm, ou das que tinha Eduardo Campos. Creio mesmo que um fez bem ao outro no curto tempo em que se aliaram. Nem mesmo de uma candidata ou candidato. Até porque vivemos num deserto de ideologias e programas – e oásis de esquerda aqui e ali não mudam isso, até o contrário, deve nos pôr em alerta ao risco de “contaminação”. Trata-se de construir também uma ética de práticas políticas que comece a preparar nelas mesmas as práticas que serão generalizadas no Estado.

Por fim, chama a atenção a unidade de Dilma, e Lula, claro, pois “postes” não pensam, e Aécio, ao desqualificar a proposta de uma ‘nova política”, por parte de Eduardo Campos e Marina Silva. É claro que se pode e deve questionar até onde pode ir tal proposta, hoje sustentada por Marina. Mas o que impressiona é exatamente que mesmo no plano do discurso eleitoreiro Dilma e Aécio não podem admitir tal tema de campanha. Percebem que esta é uma questão sensível no eleitorado, por isso a atacam, mas não são capazes de, sequer de forma marqueteira, jogar com isso... Não a desprezam... A temem.

A prepotência, o apego aos milhares de cargos e influências e o temor da discussão política fazem a campanha baixa do Lulismo. Meias palavras, montagens e associações forçadas inundam as redes sociais e meios de imprensa financiados sabe-se lá como. Contando com o discreto apoio aecista. Trata-se agora de garantir o "nosso segundo turno"... Nisso vale até mesmo o apelo à discriminação religiosa, por meio dos já conhecidos e nefastos jogos maniqueístas, sem pudores do que isso faz de mal no seio da sociedade.

Não faz muito, Lula respondia a manifestantes de rua que se quisessem criticar “entrassem para a política”. Agora, diante do inaceitável risco eleitoral, diz que “não é hora de abandonar a política”. Para Lula a política é uma coisa pronta e imutável. Uma coisa para profissionais, que tem suas regras próprias. A política para Lula é o que aí está, e não há mudanças possíveis. Resta fazer com que esta “política” se volte para os pobres. Como se isso fosse possível. Saudado no mundo da política como "o" legítimo trabalhador, Lula tem uma profunda crença na incapacidade dos trabalhadores de mudar a sociedade e faz disso arma eleitoral conservadora.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

50 milhões de empregos para 200 milhões de brasileiros

Eis o melhor que o capitalismo pode fazer, depois de 12 anos em que mesmo a oposição de direita diz que estamos crescendo, e quando toda a mídia capitalista tem o descaramento de falar de “pleno emprego”, na verdade só temos 50 milhões de empregos. Crescer para esse povo do Partido Português é demorar 4 anos para aumentar os empregos em 10%. O índice de desemprego dessa gente, sejam tucanos ou petistas, é na verdade o índice de pessoas que todo mês vão ao SINE atrás de emprego, ou seja, é o índice dos desesperados, porque todo mundo sabe que o SINE quase nunca arranja nada. Que 6% de um povo esteja desesperado ao ponto de ir todo mês ao SINE não é um índice baixo.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A GRATIDÃO CLIENTELISTA DO LULISMO E TODOS NÓS...

     Wlamir Silva
     Professor e historiador

      Uma nota publicada no Facebook do PT em 7 de agosto intitulada Abalada de Eduardo Campos é digna de destaque. Ela não está mais lá, é claro, depois do acidente trágico*. Não temos, no entanto, motivos para duvidar de sua autenticidade, inclusive por ter sido referida muito antes pelo Diário de Pernambuco**. Nela, que é apócrifa, cada vez mais comum no Lulismo, além da cantilena da conspiração da mídia e de outras barbaridades, há a seguinte consideração:

"Beneficiário singular da boa vontade dos governos do PT, de quem se colocou, desde o governo Lula, como aliado preferencial, Campos transformou sua perspectiva de poder em desespero eleitoral, no fim do ano passado.
[...]
      Eduardo Campos é o resultado de uma série de medidas que incluem a disposição de Lula em levar para Pernambuco a Refinaria Abreu e Lima, em parceria com a Venezuela, depois de uma luta de mais de 50 anos. Sem falar nas obras da transposição do Rio São Francisco e a Transnordestina. Ou do Estaleiro Atlântico Sul, fonte de empregos e prestígio que Campos usou tão bem em suas estratégias eleitorais
     Pernambuco recebeu 30 bilhões de reais do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, do qual a presidenta Dilma Rousseff foi a principal idealizadora e gestora.
     O estado também ganhou sete escolas técnicas federais, além de cinco campi da Universidade Federal Rural construídos para melhorar a vida do estudante do interior.
     Eduardo Campos cresceu, politicamente, graças à expansão de programas como Projovem, Samu, Bolsa Família, Luz para Todos, Enem, ProUni e Sisu. Sem falar no Pronasci, que contribuiu para a diminuição da criminalidade no estado, por muito tempo um dos mais violentos do País.
     Campos poderia ser grato a tudo isso e, mais à frente, com maturidade e honestidade política, tornar-se o sucessor de um projeto político voltado para o coletivo, e não para o próprio umbigo".



      Nem aqui entramos no mérito de se eles realmente acreditam que está realmente ocorrendo tal "revolução" no país, que patina em infraestrutura, saúde e educação e se desindustrializa. Ou do caráter falso e eleitoreiro de programas como o Projovem.
       Chamamos a atenção para o fato de que tal texto só pode comportar duas leituras: 1) ninguém pode ser candidato de oposição à candidata governamental, pois todos deviam ser "gratos" pelas ações do governo federal. 2) o governador de Pernambuco foi privilegiado - "beneficiário singular"...- com investimentos e programas e, por isso, devia ser grato... Por que Aécio Neves não deveria ser grato?
      Conhecemos bem o modus operandi do governo. O vemos de perto em âmbito municipal e nas universidades. Verbas devidas e demandas legítimas são tratadas pelo método da chantagem política. Por meio dela se impõem políticas e se costuram mais ou menos complexas articulações eleitorais. Trata-se do velho e mau clientelismo, do patrimonialismo que, confortavelmente associado ao capital - apesar e por causa dos falsos discursos -, se renova e se justifica.
      O texto do PT (ainda existe um PT?) Lulista faz o elogio ao filhotismo e ao clientelismo. A referência à "boa vontade" do governo é por si esclarecedora. Mais ainda, grava com requintes de cinismo, como no lombo de um boi, a palavra GRATIDÃO. Política é gratidão ao concedido. Mas a gratidão - virtude privada - é em política a máscara cínica do autoritarismo e o freio ao enfrentamento de questões de fundo. Como bem observava o geógrafo Milton Santos:


"O clientelismo é um elemento não-cidadania, porque distorce a orientação eleitoral, afastando o indivíduo da meta da consciência possível e, portanto, afastando a sociedade da possibilidade de uma autêntica representação. O clientelismo suprime a vontade, já que com ele o direito real de escolher é deferido a um outro. Em nome de virtudes cardeais, com a gratidão e o reconhecimento, há uma renúncia efetiva à responsabilidade".

      Como dissemos, conhecemos de perto as práticas, e no ambiente aparentemente insuspeito  da universidade. Na qual as ameaças de penúria material e isolamento por ousar pensar ou candidatar-se são não só acompanhadas das mais baixas formas de manipulação como também do discurso de que devemos ser "gratos" pelo concedido, sejam construções, expansões ou, mesmo, nossos empregos... E se isso funciona na universidade, podemos imaginar o quanto isso importa para o país imerso em tantas carências materiais e culturais.
       Não é então aleatório que Eduardo Campos tenha sido o único dos presidenciáveis, ao lado de Marina Silva, a levantar em discurso público a questão do peso "do clientelismo, do fisiologismo e do patrimonialismo" e da necessidade de "dar um salto de qualidade na política [com] uma concepção de Estado, de coisa pública, de bem comum" (retirado do programa dos candidatos, mas que esteve presente em declarações públicas).
       Também é evidente que sua imersão no sistema político, inclusive na crença de que Lula estava "mudando o país", ponha em questão o quanto estivesse disposto a discuti-lo, e sobretudo, de dar passos no sentido de rompê-lo. Mas a própria disposição foi um fato político. E a perspectiva da candidatura de Marina Silva, com menores compromissos históricos com a política tradicional, pode contribuir com isso.
      Campos devia ser grato por ter sido privilegiado. E serão privilegiados todos os que forem gratos. No limite, mesmo os adversários podem contar com tal "solidariedade" desde que não rompam a lógica do sistema. A partir das bases aí estabelecidas compreendem-se as estranhas alianças e as identidades entre alguns aparentemente diferentes. Não o são... são iguais. Como mostra Milton Santos, tal lógica é uma renúncia à responsabilidade política. Esta foi a cobrança feita pelo esbirros lulistas a Eduardo Campos, esta é a cobrança que fazem a todos nós...
      Como tal lógica esmera-se em se impor a todos nós, é justamente dos que não estão imersos no cipoal de favores, concessões, cargos de confiança etc. que se pode esperar a crítica à lógica dominante. Pondo em perspectiva a sua superação. Ou a naturalizamos? Ou a suportamos em troca de paliativos que só eternizam as desigualdades e as tragédias sociais mantidas pela concentração de poder e a sua intrínseca incapacidade de promover mudanças significativas na sociedade?
       Ou ainda, numa perspectiva supostamente revolucionária ignoramos estas questões considerando-as "burguesas" ou "weberianas", destinadas a serem superadas numa epifania socialista? Em direção à qual se ignora o longo caminho a percorrer e os tantos a serem convencidos... Isso, inclusive, diante da experiência socialista que - sem sequer a propriedade privada - permitiu a criação de redes de tráfico de influências e privilégios, impedindo a democracia  radical que deveria ser buscada e, com a crise do sistema, originando os bilionários da atual Rússia e Leste Europeu...
       Ignorar é, como vimos,renunciar a uma responsabilidade.

* Uma busca no Google com o título A balada de Eduardo Campos leva ao endereço do PT no Facebook...
**  http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/politica/2014/01/07/interna_politica,483237/pt-publica-nota-oficial-com-o-titulo-a-balada-de-eduardo-campos.shtml

sábado, 9 de agosto de 2014

Lucro das estatais, prejuízo para o povo. Prejuízo das estatais, lucros para o povo!

Um dos argumentos mais freqüentes na boca dos privatistas é que “as estatais privatizadas davam prejuízo”. Incapazes de compreenderem o papel das empresas estatais, presos que estão aos raciocínios utópicos do século XVIII, os privatistas acham que empresas particulares e estatais são a mesma coisa, que devem funcionar com a mesma lógica. Ora, se fosse para as estatais fazerem o mesmo que as particulares fazem, para que precisariam existir?

Quando uma empresa estatal tem lucro, significa que o governo recebeu mais dinheiro, ou seja, é como se fossem impostos não autorizados por nenhum parlamento! Sabemos que nossos governos são corruptos, e sabemos que mais de 40% do orçamento da União é gasto pagando juros de dívidas de origem duvidosa. Em outras palavras, se uma estatal tem lucros isso significa mais dinheiro nas mãos de políticos e financistas. Atualmente, com as estatais vendendo ações na bolsa, isso piorou, indo parte dos lucros diretamente para financistas. Sendo assim, porque desejar que uma estatal tenha lucro?

O lucro de qualquer empresa é acrescido quando ela consegue elevar seus preços sem perder vendas, ou reduzir/congelar os salários, ou demitir, etc. Em outras palavras, é o povo que paga o lucro de uma estatal, ou porque paga preços mais altos, ou porque recebe salários menores, ou porque pode concorrer a menos concursos.

Os salários elevados e o grande número de empregados eram outras críticas constantes dos privatistas, mostrando nesse caso ignorância até mesmo de suas próprias utopias do século XVIII. Uma das melhores coisas que uma estatal pode fazer, além de oferecer preços baixos, é empregar muita gente e pagar bem! O dinheiro recebido por empregados públicos subalternos circula nas cidades, acaba nas mãos de comerciantes da cidade, circula, gera empregos. Se uma estatal paga mal e demite, esse mesmo dinheiro deixa de circular no Brasil, e vai para as contas estrangeiras de políticos corruptos e financistas, os agiotas internacionais.

O ideal é que as empresas estatais fiquem no zero a zero, ou se não, no vermelho, o que significa menos dinheiro nas mãos de políticos e financistas. Para isso as estatais devem investir, contratar e pagar bem. Para esse cálculo investimento não precisa contar como lucro reinvestido, ou melhor dizer, se houver lucro, que ele seja obrigatoriamente reinvestido. O que deve ser evitado são as retiradas para os governos e acionistas, que devem ser zerados. O caminho do dinheiro deve ser só dos governos para as estatais, nunca o contrário, porque o contrário significa do povo para o governo.

Para isso servem estatais, para algo que as particulares não podem fazer, que é viver no prejuízo. O que se pode fazer tendo lucros, as empresas particulares já são capazes de fazer. Contudo, é muito pouco o que o setor privado pode fazer. Na verdade, o setor privado precisa de constante apoio estatal até mesmo para existir. A economia de um país tem que ser embasada por infraestrutura e impulsionada por preços baixos de insumos, como só pode ser feito por estatais.

O Brasil vive hoje um gargalo energético, pois o setor sofreu privatizações. Esperavam os crentes smitianos que os capitalistas empatassem seu dinheiro em um setor no qual os retornos demoram décadas. Pior, os lunáticos que nos governam acreditam que obras públicas podem ser bem feitas e com rapidez por empreiteiras particulares. O resultado é que o país está impossibilitado de crescer por falta de portos, estradas, ausência de ferrovias, e agora falta até de energia. O grosso da infraestrutura e da indústria de base que sustentam o Brasil são ainda de trinta anos atrás, ou seja, de antes da era privatista.

Serão cegos os governantes e a grande mídia? Claro que não, eles são todos empregados dos financistas, ou micro-sócios deles, pois certamente estão amarrados por ações e títulos do tesouro. Acontece que o capital financeiro pode não ter pátria mas tem centros e interesses geoestratégicos, e o bem estar dos brasileiros por meio de um crescimento econômico planejado é contra esses interesses. O papel do Brasil segundo os interesses do capital financeiro é gerar lucros elevados e exportar matérias primas baratas. Já o crescimento econômico e o bem estar dos brasileiros significaria ficar com mais dessas matérias primas para nosso próprio consumo, portanto elevando o preço das mesmas, e perder menos dinheiro para o exterior.

Portanto, o privatismo é só uma das formas como o domínio do capital financeiro se apresenta, se justifica, se aprofunda, sem se revelar. As privatizações foram um fracasso para o desenvolvimento nacional, mas para os capitalistas financeiros significaram mais controle sobre o Brasil e mais lucros. O imperialismo contemporâneo se dá assim, pelas finanças, pois na medida em que grupos estrangeiros compram empresas aqui, eles também passam a financiar a imprensa e os políticos, dominando o país. De fato, as três empresas que são as maiores doadoras dos três candidatos à presidência da República mais fortes nas pesquisas (da mídia paga pelo mesmo dinheiro) são, as três, majoritariamente controladas por capital estrangeiro. Assim, ganhe quem ganhar, será um devedor do capital estrangeiro.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Nem todos são nem nem ou tem tem, ou a armadilha do paternalismo pós-moderno.



Wlamir Silva
 Professor e historiador




No domingo passado voltamos, eu, minha esposa e minha cachorrinha, a um restaurante onde trabalha como garçonete uma jovem de uns 20 anos que já conhecíamos. De novidade ela contou que terminou o curso de auxiliar de enfermagem e que já estava trabalhando em um posto de saúde local, sendo garçonete agora apenas aos domingos e deixando o sábado de folga. Já na segunda-feira, passeando com a cachorrinha pelo centro a encontramos novamente, em frente a um cursinho preparatório privado. Perguntada se estudava ali, ela comentou baixinho e sorrindo: sou péssima em matemática...

A jovem de origem pobre é determinada e esforçada. Talvez nem saiba que paga o preço de um sistema educacional fajuto, que, além das carências estruturais conhecidas, destina gente como ela à farsa da “educação para a cidadania”. Na qual o conteúdo é dispensável e restam as futuras acomodações das ações afirmativas. Talvez saiba, mas prefira não chorar o leite derramado. Sua tenacidade e mérito pessoal tenta passar olimpicamente sobre as mazelas. Talvez sua elegância pessoal – a educação que não é instrução e nela é impecável – a faça preferir dedicar-se a buscar seu caminho de cabeça erguida.

Ainda com aquele exemplo na retina li, com atraso, um artigo escrito por Marcus Faustini, diretor teatral, documentarista e escritor, no Globo de 27 de julho, intitulado O nem nem é tem tem. Como se sabe, os nem nem são aqueles jovens que não estudam nem trabalham. Que são, diz o autor, 30% dos jovens do Estado do Rio de Janeiro, e, segundo o IBGE, um quinto dos jovens brasileiros. O autor clama por políticas públicas que “garantam direitos e promovam o desenvolvimento da vida da juventude”. Os nem nem são para ele um “quadro estruturante” e nele a maioria seria de mulheres, pelo quê ele reivindica que seja também uma politica de gênero. Será que nossa primeira personagem sabe disso?

Tais políticas, uma verdadeira reforma do Estado, avança ele, deve fugir do que chama de “senso comum de um pensamento de direita”, “que acredita que o desenvolvimento só se dá com meritocracia e ordem, sem considerar o direito à igualdade de oportunidade”. Mas também do que chama de “caricato pensamento que reivindica o lugar de esquerda, que só pensa o jovem como alguém a ser conscientizado”. A caricatura esquerdista reduziria o jovem a um “reprodutor de discursos sem singularidades”. De uma penada, o articulista descarta o mérito pessoal, condicionando-o à igualdade de oportunidades que, assim, se torna um mítico ponto de partida, e a conscientização política, reduzida in totum a discursos prontos e impostos. Que amarras terríveis enfrenta e supera – talvez por não sabê-las – a jovem auxiliar de enfermagem, garçonete e estudante!

Além disso, conforme diz o sr. Faustini, deveria temer “a naturalização das deliberadas mortes de jovens negros [...] na guerra às drogas”. Como é ingênua nossa singela personagem...Mas, talvez ela tenha mesmo algo a temer neste país violento. No mesmo domingo em que a reencontramos, num passeio à noitinha com a cachorrinha no mesmo centro, temos a oportunidade de cruzar com o “rolezinho” de jovens com bonés virados para trás, com roupas e tênis cuidadosamente arrumados para parecerem com os habitantes de guetos estadunidenses. São barulhentos e mal-educados, tratam-se aos empurrões e cabeludos palavrões, os quais também dirigem às meninas passantes. Vários andam em bandos e alguns utilizam jaquetas da mesma cor, como a sugerir gangues. Caminham gingando e olham ameaçadoramente. Sim talvez ela tenha mesmo algo a temer...

Prestamos especial atenção, pois a presença de pessoas de mais idade, assim como a cachorrinha bem tratada, para alguns deles é um acinte, passível de agressão. Somos para alguns deles a “elite branca”, expressão popularizada por imbecis de várias extrações, e, de certa forma, “devedores sociais”. Afinal, dois professores que reúnem quase 60 anos de trabalho e que aparentam “riqueza” (a cachorrinha de roupa!) são alvos deste arremedo de luta de classes. E, claro, rapers, funkeiros e jogadores bilionários, assim como corporações empresariais, que fabricam magicamente os seus objetos de adoração e consumo, são parte da paisagem...

Para o sr. Faustini a juventude recebe bem as ofertas da sociedade, o que ele chama de “convocações narrativas”, seja lá o que isso queira dizer.  Formas engajamento “social, cultural, político ou religioso, até a experimentação comportamental [...] mediada hoje pelo consumo”. Assim como à “indústria do entretenimento, do discurso empreendedor, e até mesmo à sedução do mundo marginal”. Do “do outsider viajante à inserção no aparente sedutor mundo de pequenos crimes”. A generalidade e a imprecisão dos engajamentos são sintomáticas, mais ainda é o fato de que esforços como a da jovem que abriu nosso texto, o trabalho e a escola, não façam parte deles... 

Para ele, devemos à juventude brasileira “a [...] consolidação da cultura digital no país, o passinho do menor, a invenção dos mototáxis, o frescor dos coletivos na cultura, na moda e no urbanismo etc etc”. Baseado neste mix de dívidas e contribuições, o sr. Faustini propõe, com a sugestão de uma jovem da Rocinha que “quicava nos agudos e nos pés”, que os nem nem se tornem os tem tem... ou seja “tem desejos, tem tempo pela frente pra mudar!”. Vamos com facilidade do mito – a adesão à tecnologia informática vira ação cultural e o trabalho precarizado de transporte vira invenção –, para a tal singularidade lá em cima oposta aos “discursos reproduzidos”, o que caracteriza estes jovens é uma cultura, o exemplo da moda, o passinho, é explicativo. Mais significativo é o que dá sentido a tudo aquilo: o consumo.

Não sabemos se a jovem auxiliar de enfermagem, garçonete e estudante gosta do passinho, ou de funk, ou de rap... De fato, aqui isso não importa. Importa que isso não a define. É bem provável que ela não veja com naturalidade a “inserção no aparente sedutor mundo de pequenos crimes”. Pela experiência docente de muitos anos, também é provável que ela tenha tido sua vida escolar prejudicada por personagens semelhantes aos cultivadores da estética da violência e da marginalidade que gingam ameaçadores pela rua principal da cidade.  Com certeza, com base em sua própria narrativa, não obteve seu crescimento em “coletivos culturais”, mas sim “capinando” entre os escolhos de um sistema público de educação em frangalhos e incursões num sistema privado que, não obstante suas limitações, não lhe nega “conteúdo”.

Não que a cultura e o lazer não sejam importantes. Não que não se possa gostar de uma ou outra forma estética, ainda que nos pareça que se intenta uma exagerada homogeneização e se negue tanto a importação cultural como a ação da mídia que a promove. Mas é uma cruel falácia que isso vá salvar os nem nem... E aqui há que se reparar uma injustiça do autor. A de que a direita enjeite os nem nem, e a de que a esquerda os queira conscientizar... A direita de verdade já os equacionou como restos do sistema, e dará a eles pão e circo na medida exata da manutenção de seu conformismo, o que disso sobra justifica um útil aparato repressivo. A esquerda parece determinada a tratá-los como vítimas e como portadores de uma identidade cultural essencial, homogênea e imutável, com signos culturais “naturais”, como o funk e o rap, e uma inexorável, mas respeitável, tendência à criminalidade. Em ambos os casos, são negados ao jovens oriundos da classe trabalhadora o mérito pessoal. Para a direita eles são incapazes de tê-lo, para tal esquerda o indivíduo não existe e, assim, o esforço pessoal é coisa de burguês...

As esquerdas não chegam à nossa jovem auxiliar de enfermagem, garçonete e estudante. Nem a milhares, milhões, como ela. Procuram em adolescentes bocós ou mesmo no restolho social aqueles que entendem como mais avessos à sociedade de mercado. Afastam-se do mundo do trabalho e buscam suas bases sociais nos que, tristemente, mais estão afogados no consumo* ou mesmo no preguiçoso, acanalhado e covarde lumpemproletariado. Reforçam mesmo tais vícios sociais, justificando-os. Alguns até ensaiam demagógicas identidades “culturais”, buscando atalhos pela suposta homogeneidade cultural, construída, aliás, pelo mercado que eles pensam combater. Como se a crítica e a militância emancipatória pudesse ser definida pelo que se ouve, vê ou dança...

Torçamos pela nossa jovem auxiliar de enfermagem, garçonete e estudante e pelos seus muitos iguais. Que eles não sejam tragados pelo consumismo exacerbado, convencidos a esperar em berço esplêndido esmolas “sociais” ou busquem por necessidade “coletivos culturais”. Que não sejam enredados por paternalismos ou arapucas como ProJovens, cotas e ProUnis. Quem sabe um dia eles não venham a ensinar a nossas esquerdas que é no mundo do trabalho e da luta por melhores condições de vida, onde o esforço e o mérito pessoal não são miragens ou slogans, que se encontra a chave da emancipação da classe trabalhadora.

Esperar a igualdade de oportunidades para que nossos jovens tenham vidas dignas, apesar de difíceis, e formem uma classe trabalhadora capaz de promover a sua própria emancipação é alimentar um círculo vicioso reacionário. Entender que as dificuldades justificam a inércia e, mesmo, a criminalidade, de setores da juventude é afastar-se da classe trabalhadora. Dispersar a luta política por grupos definidos por presumidas características culturais essenciais – assim como por cor, gênero, opção sexual etc. – é abrir mão da organização do coletivo que interessa: o da classe trabalhadora.

 

*Mesmo que entre os participantes haja trabalhadores é noutro sentido e contexto que eles são buscados.