domingo, 4 de setembro de 2016

GOLPISMO, “FORA TEMER” E AS CONTRAPRODUCENTES AMARRAS AO LULISMO

Wlamir Silva
Professor e historiador

A insistência da tese do “golpe”, acompanhada das agressões por epítetos de “canalhas” e “golpistas” aos que dela discordam ou, mesmo, aos que negam a ela alguma centralidade, demonstra a pretensão de direção e hegemonia do Lulismo. De fato, trata-se, de viabilizar a sobrevivência e o retorno, sem nenhuma autocrítica, desta força política em processo falimentar.


Slogans substituem o debate e a divulgação de temas graves


Pensar a organização dos trabalhadores em seu conjunto, em perspectiva da resistência em curto prazo e, principalmente, em longo prazo, é ainda mais incompatível com a sombra do discurso do “golpe”. Afinal, o apoio popular ao impeachment esteve, em maio de 2016, em 66%, e a rejeição a ele em 27% (Datafolha). O que aponta para as restrições da associação ao referido discurso.

A rejeição “de todos”, ser percebida em pesquisas de opinião, e a olho nu, e o desejo difuso de eleições gerais (62%, Datafolha, maio de 2016), expõe uma descrença para com o sistema político, ou com a política, que extrapola uma rejeição ao atual governo. O mesmo quadro já se dava com o governo anterior e se mantem, com diferenças inexpressivas, para o atual.

Se a questão premente são os direitos trabalhistas e de aposentadoria em risco, a tese do “golpe” também é um estorvo. A preservação de tais direitos tem peso quase secular no imaginário popular, e é preciso mobilizar este patrimônio ideológico e simbólico. E esta população, em sua imensa maioria, em especial nos segmentos menos remunerados, não rejeita o impeachment.

Além do que, a preservação de direitos se deveu, desde os anos 1950, ao Parlamento,
sensível às pressões do voto popular, mesmo com maiorias conservadoras. Insistir com a pecha de “golpista” ao Congresso e associar tais demandas a um projeto político falido – e que reformou a previdência, foi conivente e tramou a flexibilização trabalhista – é contraproducente.

Eficaz será a construção de pautas unificadas com base nos direitos a serem defendidos, evitando a sua confusão com slogans e palavras de ordem de fins outros. Pressionar o Congresso com listas de votantes nas medidas que retirem direitos no calor da crise. Apelar para o patrimônio destes direitos fortemente assentados no imaginário popular.

A longo prazo, é ainda menos atraente, para uma perspectiva política que se pretenda transformadora, reforçar amarras ao Lulismo. Visto que tal projeto foi pífio no que tange ao desenvolvimento econômico e criação de novos direitos, promoveu a cooptação e a fragilização da organização dos trabalhadores e aderiu e reforçou a política tradicional conservadora.

Em perspectiva histórica, há um longo e pedregoso caminho a percorrer: o de retomar as bases de organização social e política autônomas e o de construir projetos políticos mais claros junto à população. E esta clareza não implica em unidade prévia ou forçada, ou a imposição de uma posição sobre as outras.

Um novo caminho à esquerda deve ser o da abertura de campos de discussão, possibilidades de unidade e alianças mais ou menos amplas. Desde que com base em programas e intenções publicamente estabelecidas, respeito aos militantes e em consonância com uma pedagogia política junto à população.

Afinal, o reconhecimento de sermos, hoje, ínfima minoria, é um ponto de partida necessário para voos maiores. Atalhos sedutores de tomada do poder, irreais pelo vazio de seu pragmatismo ou pela vacuidade de seu espontaneísmo, são apenas desvios que, como vemos, cobram, cedo ou tarde, o seu preço com juros.



2 comentários:

Alex Lombello Amaral disse...

Concordo com as críticas que você faz ao Pt, embora descorde dessa sua mania de proteger o Pt destacando um "lulismo" como se existisse algum petista que não é lulista.
Porém discordo do raciocínio geral do texto, que faz relações que não existem, e acaba protegendo Temer e a direita sob o argumento de que o contrário é salvar o Pt. O Pt na verdade é aquele partido que está desmoralizado, escondendo a estrelinha, a cor vermelha e até a sigla. O petismo realmente sobreviverá ao Pt, porque é o velho menchevismo e renasce constantemente da ignorância, mas teremos que enfrentá-lo com outra roupagem.
Atualmente temos um governo que por suas próprias palavras já prometeu ser péssimo, já disse que é inimigo do povo e da nação.
Combater esse governo é obrigação de todo comunista, e pedir menos que Fora Temer, nesse momento, é como pedir fica Temer. Isso sim é levar água para o moinho do Pt, cuja única chance de existência é fazer a esquerda verdadeira, com destaque para os comunistas, parecer uma quinta coluna. Não pode existir erro maior nesse momento do que parecer apoiador de Temer.
Sobre a direita ganhar o título de golpista, problema é dela! Não será a primeira vez, a UDN carregou essa pecha por toda a sua existência. A direita que se esforce por voltar a parecer amante das leis. E pensar que eles reclamavam do carinhoso apelido de coxinhas!?!?

Daniel Oliveira disse...

Excelente análise, Alex!!

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