terça-feira, 26 de julho de 2016

À TURCA?

Wlamir Silva
Professor
Historiador


A “presidenta” Dilma Rousseff traçou um paralelo da tentativa de golpe na Turquia com o impeachment em curso, ressalvando que lá ocorreu um “golpe verdadeiramente militar”[1], enquanto no Brasil ele seria um “golpe parlamentar”. Golpe porque estariam sendo desrespeitados os resultados eleitorais de Tayyip Erdogan, eleito em 2014, já primeiro turno com 51.79% dos votos, e de seu partido que confirmou em 2015 a maioria no Parlamento turco[2]. Um blog lulista chegou a sugerir um paralelo de resistência, à Erdogan, contra Temer[3].

Governar “à turca” é, há muito, sinônimo de governar de forma despótica e violenta.  Do uso de “meios tão violentos quanto os dos turcos”, disse Montesquieu. A tentativa de golpe na Turquia faz jus ao estereótipo eurocêntrico. Sem a pretensão ou, aqui, o interesse de compreender as nuances e as contradições turcas, parece-nos claro que a perspectiva do golpe militar não animou o povo turco e que a reação do governo se deu, no mínimo, no mesmo diapasão. Os golpes militares turcos não prenunciavam liberdades e a democracia turca tampouco, sob o signo da violência.

Os paralelos justificadores do “golpe” na conjuntura política brasileira, voltados para o passado, têm se caracterizado pela sua vacuidade. Este paralelo à turca não foge à regra. A abstração da violência, rompendo a ordem institucional no intento de derrubar Erdogan ou na reação do governo turco, é mesmo chocante. Não contradizem, no entanto, as comparações históricas endógenas, em especial com o golpe civil-militar de 1964, mas também, é bom lembrar, com alusões até ao nazismo.

O mote do “golpe” é a baliza para tratar o governo interino, estabelecido institucionalmente e sem violência militar ou assemelhada, como o promotor de enormes desgraças. Processos que já vinham sendo gestados no governo afastado, como a “Reforma da Previdência”, são alardeados como novidades absolutas do “usurpador”.  A crise que se arrastava e suas carências são denunciadas como maldades. Quaisquer fatos desagradáveis são “festejados” em tom de alarme como sinais do apocalipse trazido por Temer, o anticristo[4].

Nota-se certa nostalgia autoritária, banhada pela ficção que edulcora o “golpe”. Ainda ontem, alardeou-se a prisão do ex-senador Eduardo Suplicy na reintegração de posse na Zona Oeste de São Paulo[5]. O mesmo Blog lulista repercutiu o que, simbolicamente, mostraria um “país doente”: Eduardo Suplicy preso, Eduardo Cunha solto[6]. A prisão de Eduardo Suplicy surge então como símbolo da violência autoritária, atenuando o lamentado déficit de violência politica do “golpe parlamentar-midiático-judiciário etc.”.

Mas, Eduardo Suplicy foi tratado “à turca”? Vejamos. O respeitável petista deitou-se à frente da tropa de choque e foi carregado, sem violência, até uma viatura e, de lá, conduzido à delegacia onde foi liberado. E o que foi a reintegração de posse? Foi de propriedade da Prefeitura de São Paulo – da qual Suplicy foi secretário – e porque em áreas de risco... Houve resistência e o uso da força pela Polícia Militar. Houve abusos? Aparentemente não. A Prefeitura petista achava que se podia fazer a omelete sem quebrar os ovos?

Fatos comparáveis?
Algo comparável às ações turcas, com suas centenas de mortos e milhares de feridos?[7] É claro que isso não quer dizer que sejamos um paraíso. Pelo contrário. Nossa violência é endêmica. Conflitos rurais e indígenas, criminalidade, milícias etc. Além da pobreza e da miséria, das carências de saneamento, saúde e educação básica etc. Mas nada disso chegou com um “golpe”, nada disso é criação de um “usurpador”. São mazelas que se arrastam, mais ou menos a céu aberto, e não ficam melhores quando maquiadas por polianas marqueteiras.

Como se arrastam as perversidades do nosso sistema político, marcado pelo clientelismo, o tráfico de influência e tendo como seu corolário a crescente mediocridade do sistema representativo. Mas este fenômeno tampouco pode ser atribuído ao governo interino. O governo afastado e o anterior não tiveram nenhuma contradição com ele enquanto dele usufruíram. De fato estabeleceram relações profundas com os vícios citados, a eles aderindo e até a eles emprestando maior organização.

Nada por aqui foi feito “à turca”. Nem o golpe, nem o contragolpe, fato com o qual devíamos nos regozijar. Mas todo paralelo serve à estratégia cega traçada por aqui. E nem se pretende mais barrar o impeachment, mas apontar embates políticos adiante[8]. Neste contexto, é especialmente irresponsável o paralelo com a Turquia. Com tantos escolhos sociais e políticos, devemos, ao menos, valorizar a erradicação do golpismo de fato – não institucional e violento – e pensar a participação popular paulatina, sólida e avessa a aventuras e quarteladas...





[4] A “Escola sem partido” ou um editorial do Globo pelo ensino pago nas universidades públicas. Quanto ao último, como se o mesmo não tivesse sido sugerido por Bresser Pereira, como ministro de FHC, hoje lulista convicto, e como se ideias conservadoras dependessem de golpismos, fossem de responsabilidade governamental ou, pior, devessem ser, de alguma forma, eliminadas do espaço público.
[7] Aliás, em sua maior parte pelo governo que reagiu ao golpe...
[8] Dilma Rousseff já foi politicamente descartada,  como disse ela mesma: carta fora do baralho.

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