Os significados de uma eleição vão muito além de seus
resultados, e na verdade são também resultados até mais importantes do que a
eleição em si. Forças que venceram nos votos, as vezes perderam na realidade,
apesar de se elegerem, e forças que perderam nos votos, as vezes venceram mais
do que se tivessem eleito alguém. Política não é para iniciantes! Por exemplo,
uma das grandes vencedoras desse pleito foi Jânia Costa, que ficou em terceiro
lugar mas já é um das favoritas para 2020 ou para quando forem as eleições. Já
um Aécio Neves (saindo um pouco de São João) nem estava disputando nada
diretamente e é um dos maiores perdedores, pois Dória em São Paulo já lançou
Alckmin à presidência logo na comemoração da vitória.
No fim das contas o vencedor em São João, Nivaldo, teve
somente 22 mil votos, ou seja, só 2 mil a mais do que ele teve quando perdeu há
4 anos, e menos da metade do eleitorado válido. De fato, como 36% foram
abstenções, brancos e nulos, Nivaldo não teve nem um terço do eleitorado. Ele se elegeu somente com sua velha
clientela, e com a divisão dos votos entre os demais candidatos. Se São João
tivesse segundo turno, ele provavelmente perderia.
Rômulo Viegas teve mais chances do que todos imaginavam, e
chegou a 35% dos votos. Se aqui tivesse segundo turno, venceria! De nossa
análise no artigo anterior só erramos em imaginar que Jânia tirava votos de
Nivaldo, enquanto ela também dividiu os votos anti-nivaldistas. De resto,
estávamos certos, e seguindo o que dissemos Rominho teria alguma chance a mais,
embora pouca.
O Pt podia ter reduzido a própria humilhação e posado de
herói, se na última semana retirasse sua candidatura e apoiasse decididamente
Rômulo Viegas. Não seria nada demais para o Pt de São João Del Rei, que em 2000
e 2004 foi linha auxiliar do PSDB, e com Sidinho do Ferrotaco. Porque quem
apóia Sidinho não apoiou Rômulo? Devem ter muito ódio de São João Del Rei! Só
os votos petistas não virariam o jogo, mas talvez a manobra petista gerasse uma
empolgação que convencesse eleitores de Jânia e nulos a votarem contra Nivaldo,
e gerasse uma virada. Deveria ser dado um recado claro – Retiramos nossa
candidatura porque não temos chance nenhuma, e São João não tem segundo turno.
O único que tem condições de vencer Nivaldo é Rômulo Viegas, portanto votaremos
nele - Atitude tão nobre poderia ter revertido em mais votos para o legislativo
e a derrota petista não teria sido tão absoluta. Mesmo se ainda assim Nivaldo
vencesse, o Pt não sairia tão mal, e se conseguisse virar o jogo estaria
comemorando apesar da própria derrota! Moralmente, teria superado a derrota.
Mas diante da catástrofe óbvia, o que fizeram os “líderes” petistas? Nada!
Imobilismo! Choro! Mesmo que os problemas burocráticos se resolvam e o Pt
consiga ao menos uma vereadora, tinham 4, a derrota é total. Circula o boato de
que o erro burocrático que está impedindo que os votos de Vera do Polivalente
sejam contabilizados foi na verdade uma sabotagem interna. Se foi assim esse
petista sabotou o partido todo! Típico. É só parar para escutar velhas
histórias de antigos petistas para se descobrir que eles sempre se picaram,
assim como sempre foram hostis às outras organizações de esquerda.
O PSTU teve somente metade dos votos que teve em 2012, e
mesmo tendo a cabeça de chapa só conseguiu puxar para sua chapa de vereadores
80 votos de legenda, em comparação com os 118 da última eleição. A culpa não é
dos militantes do PSTU daqui, que militam de Sol a Sol, estão inseridos nos
movimentos sociais, têm histórico de luta e são bem quistos pela população em
geral. A culpa é da política que vem de Paris, e que para nós é tão distante
quanto se viesse de outro planeta. Tendo sofrido um racha recentemente, a
direção do PSTU considerou que a melhor forma de sobreviver era se isolando
ainda mais! Em todo canto só fecharam aliança com a condição de fazerem
exclusivamente seu próprio discurso. Foi o que fizeram aqui, colocando de lado
os programas desenvolvidos pela Frente de Esquerda em 2008 e 2012. O PCB, o
PSOL e as Brigadas aceitaram como forma de manter a Frente unida, e por
considerarem que não era prioritária para eles esse ano a campanha para o
executivo. A campanha do PSTU simplesmente levantou mais slogans nacionais,
tipo “Fora Temer” e “Fora Todos” do que assuntos municipais, dos quais quase
nem falou. Foi o tipo de campanha cujo recado para o eleitor foi – essa
campanha não é para valer, é só protesto. Não vote em mim! - Como lado
positivo, exatamente ao contrário de 2012, quando os votos dobraram em relação
a 2008, a Frente não saiu das eleições despedaçada, com as pessoas não podendo
se ver. A eleição não gerou nenhum desgaste político interno. O desgaste de
2012 se deu exatamente debatendo o programa, e recusando as fórmulas enviadas
de Paris via Belo Horizonte. Evitamos quase tudo o que parecia extra-terrestre,
e isso dobrou a votação, mas os debates em torno de cada item foram duros,
magoaram vários camaradas, e depois das eleições a Frente só existia
oficialmente.
A eleição do legislativo teve ainda mais votos nulos que as
passadas, apesar de ter 3 vezes mais candidatos. O poder financeiro, como
sempre, imperou, desde a montagem das chapas até o final. As chapas ligadas aos três candidatos a prefeito mais votados foram também as mais votadas, como
também é normal, até porque parte do eleitorado tem como hábito votar nos
vereadores da base do prefeito. É curioso que foram eleitos como vereadores os
filhos do prefeito e do vice-prefeito! Isso será assunto para quatro anos. Se
essa tentativa de criar dinastias políticas resultar em bens para a cidade,
ótimo! Dinastias mal conseguem se manter quando são nobres reinando sobre
analfabetos, quanto mais essas dinastias eleitorais que as vezes se tenta
formar. Não merecem nossa preocupação. Se errarem a mão correm o risco de
queimarem os filhos junto com eles, e essa preocupação talvez também faça bem à
cidade. O legislativo parece não ter esquerda, não tem representantes além
disso de toda uma série de opiniões que são, contudo, fortes na sociedade. Não
que ele já tenha representado a população de São João Del Rei em algum momento,
mas o divórcio entre representantes e representados é cada vez mais
escandaloso. Se Nivaldo só representa um terço do eleitorado, a Câmara
representa menos ainda que isso.
O PSOL não pôde lançar candidatos, e o PSTU não fez nenhuma
campanha para os seus candidatos, de forma que só podemos falar de uma
candidatura da Frente de Esquerda, de Alexandre Marciano, do PCB. Marciano teve
50% mais votos que em 2012, apesar de estar concorrendo com três vezes mais
candidatos. Foram 140 votos, que é pouco menos de um quinto do que teve a
candidata mais votada do Pt. Deixou para trás mais de 200 concorrentes. Em
termos percentuais, subiu de 0,18% para 0,32% do eleitorado válido. Teve um só
material, dez mil exemplares de um panfleto A4. O PCB teve ainda 25 votos de
legenda, 6 a mais que em 2012.
Agora temos um governo que já nasce com a maioria da
população em oposição. O Pt está morto, desmoralizado. O resto da direita não
sabe fazer oposição. Esse quadro abre espaço para o crescimento de uma nova
esquerda.
Embora as pessoas não reconheçam, a classe dominante tem um projeto muito bem elaborado para o país (e o está aplicando com bastante sucesso). Este projeto é o de acabar com a ideia de desenvolvimentismo, ou seja, a ideia de que Estado deve induzir o desenvolvimento, em detrimento de uma ideia de que o Estado deve garantir as condições de funcionamento do mercado; acabar com a ideia de Estado de bem-estar social, ou seja, que o Estado tem a função de garantir alguns direitos sociais aos cidadãos - e, para isso, não estão preocupados com a degradação da democracia -; e o retorno a um tipo de sociedade em que o Estado tem a única função de garantir a segurança e o controle orçamentário. Esta classe pretende acabar com a ideia de que os cidadãos têm qualquer direito a ser garantido pelo Estado, para que o setor privado possa vir a suprir as necessidades das pessoas e obter lucros com isso, e também que o Estado tem qualquer função de administrar empresas públicas, que devem ser privatizadas. Para que as pessoas possam adquirir planos de saúde, pagar pela educação e pela previdência privada, enfim, tudo o que precisam, este projeto inclui o estímulo à iniciativa privada, as pessoas devem abrir seus próprios negócios e assim se dará a manutenção da economia. Os cortes dos gastos primários (sem contar os juros da dívida) tem isso como objetivo, a única função do Estado é a segurança e o pagamento dos juros da dívida pública, e, para pagá-los, o Estado deve arrecadar impostos, que servirão apenas para isso, para o pagamento dos juros para os detentores da dívida pública. Enfim, estamos em um momento em que os interesses financeiros domina todas as sociedades, que devem canalizar toda a arrecadação para o sistema financeiro, e a sociedade acabar com toda a regulação e controle do Estado para que os investidores privados possam atender às necessidades das pessoas por meio da iniciativa privada. Por fim, não vemos resistência porque para isso precisamos de uma classe trabalhadora forte, e a classe trabalhadora se torna forte com a garantia e a proteção de direitos - sobretudo a garantia de emprego, e com o crescimento da economia; com a política, ou seja, a disputa do Estado através da organização de partidos políticos capazes de apresentar um projeto e obter apoio de massa; e com a mobilização dos movimentos sociais. Não há outro caminho para lidar com estas questões, mas a economia e as condições de emprego estão degradadas, e a classe trabalhadora, frágil; e a política, e, sobretudo, os partidos de origem popular, foi deliberadamente deslegitimada pela classe dominante exatamente para impedir a resistência aos seus interesses... Mais especificamente, acho que o objetivo é que o atual governo aprove essas medidas duras e estruturais (o teto dos gastos, a reforma da previdência, a flexibilização das leis trabalhistas, e, também, a privatização das empresas públicas) já que ele não tem condições de disputar eleições e, portanto, não tem problema em sofrer com o desgaste político, e depois o PSDB deve entrar para controlar essa sociedade. Em geral, apenas os setores das classes populares são prejudicados. O único setor da classe dominante que também está sendo prejudicado é o da indústria, e não sei porquê eles aderem a esse projeto. Mas, de qualquer forma, esse é um projeto do setor financeiro internacional, que a mídia, a política, os poderes constitucionais, e a sociedade em geral, entram de roldão... Enfim, houve um setor da classe dominante, o setor financeiro internacional, que ascendeu ao domínio, e que esta situação, embora ruim para a sociedade como um todo, e mesmo para a manutenção do capitalismo e da democracia, é bom para esse setor, e, enquanto for bom para esse setor, este continuará impondo os seus interesses sobre o restante da sociedade.
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