terça-feira, 5 de agosto de 2014

Nem todos são nem nem ou tem tem, ou a armadilha do paternalismo pós-moderno.



Wlamir Silva
 Professor e historiador




No domingo passado voltamos, eu, minha esposa e minha cachorrinha, a um restaurante onde trabalha como garçonete uma jovem de uns 20 anos que já conhecíamos. De novidade ela contou que terminou o curso de auxiliar de enfermagem e que já estava trabalhando em um posto de saúde local, sendo garçonete agora apenas aos domingos e deixando o sábado de folga. Já na segunda-feira, passeando com a cachorrinha pelo centro a encontramos novamente, em frente a um cursinho preparatório privado. Perguntada se estudava ali, ela comentou baixinho e sorrindo: sou péssima em matemática...

A jovem de origem pobre é determinada e esforçada. Talvez nem saiba que paga o preço de um sistema educacional fajuto, que, além das carências estruturais conhecidas, destina gente como ela à farsa da “educação para a cidadania”. Na qual o conteúdo é dispensável e restam as futuras acomodações das ações afirmativas. Talvez saiba, mas prefira não chorar o leite derramado. Sua tenacidade e mérito pessoal tenta passar olimpicamente sobre as mazelas. Talvez sua elegância pessoal – a educação que não é instrução e nela é impecável – a faça preferir dedicar-se a buscar seu caminho de cabeça erguida.

Ainda com aquele exemplo na retina li, com atraso, um artigo escrito por Marcus Faustini, diretor teatral, documentarista e escritor, no Globo de 27 de julho, intitulado O nem nem é tem tem. Como se sabe, os nem nem são aqueles jovens que não estudam nem trabalham. Que são, diz o autor, 30% dos jovens do Estado do Rio de Janeiro, e, segundo o IBGE, um quinto dos jovens brasileiros. O autor clama por políticas públicas que “garantam direitos e promovam o desenvolvimento da vida da juventude”. Os nem nem são para ele um “quadro estruturante” e nele a maioria seria de mulheres, pelo quê ele reivindica que seja também uma politica de gênero. Será que nossa primeira personagem sabe disso?

Tais políticas, uma verdadeira reforma do Estado, avança ele, deve fugir do que chama de “senso comum de um pensamento de direita”, “que acredita que o desenvolvimento só se dá com meritocracia e ordem, sem considerar o direito à igualdade de oportunidade”. Mas também do que chama de “caricato pensamento que reivindica o lugar de esquerda, que só pensa o jovem como alguém a ser conscientizado”. A caricatura esquerdista reduziria o jovem a um “reprodutor de discursos sem singularidades”. De uma penada, o articulista descarta o mérito pessoal, condicionando-o à igualdade de oportunidades que, assim, se torna um mítico ponto de partida, e a conscientização política, reduzida in totum a discursos prontos e impostos. Que amarras terríveis enfrenta e supera – talvez por não sabê-las – a jovem auxiliar de enfermagem, garçonete e estudante!

Além disso, conforme diz o sr. Faustini, deveria temer “a naturalização das deliberadas mortes de jovens negros [...] na guerra às drogas”. Como é ingênua nossa singela personagem...Mas, talvez ela tenha mesmo algo a temer neste país violento. No mesmo domingo em que a reencontramos, num passeio à noitinha com a cachorrinha no mesmo centro, temos a oportunidade de cruzar com o “rolezinho” de jovens com bonés virados para trás, com roupas e tênis cuidadosamente arrumados para parecerem com os habitantes de guetos estadunidenses. São barulhentos e mal-educados, tratam-se aos empurrões e cabeludos palavrões, os quais também dirigem às meninas passantes. Vários andam em bandos e alguns utilizam jaquetas da mesma cor, como a sugerir gangues. Caminham gingando e olham ameaçadoramente. Sim talvez ela tenha mesmo algo a temer...

Prestamos especial atenção, pois a presença de pessoas de mais idade, assim como a cachorrinha bem tratada, para alguns deles é um acinte, passível de agressão. Somos para alguns deles a “elite branca”, expressão popularizada por imbecis de várias extrações, e, de certa forma, “devedores sociais”. Afinal, dois professores que reúnem quase 60 anos de trabalho e que aparentam “riqueza” (a cachorrinha de roupa!) são alvos deste arremedo de luta de classes. E, claro, rapers, funkeiros e jogadores bilionários, assim como corporações empresariais, que fabricam magicamente os seus objetos de adoração e consumo, são parte da paisagem...

Para o sr. Faustini a juventude recebe bem as ofertas da sociedade, o que ele chama de “convocações narrativas”, seja lá o que isso queira dizer.  Formas engajamento “social, cultural, político ou religioso, até a experimentação comportamental [...] mediada hoje pelo consumo”. Assim como à “indústria do entretenimento, do discurso empreendedor, e até mesmo à sedução do mundo marginal”. Do “do outsider viajante à inserção no aparente sedutor mundo de pequenos crimes”. A generalidade e a imprecisão dos engajamentos são sintomáticas, mais ainda é o fato de que esforços como a da jovem que abriu nosso texto, o trabalho e a escola, não façam parte deles... 

Para ele, devemos à juventude brasileira “a [...] consolidação da cultura digital no país, o passinho do menor, a invenção dos mototáxis, o frescor dos coletivos na cultura, na moda e no urbanismo etc etc”. Baseado neste mix de dívidas e contribuições, o sr. Faustini propõe, com a sugestão de uma jovem da Rocinha que “quicava nos agudos e nos pés”, que os nem nem se tornem os tem tem... ou seja “tem desejos, tem tempo pela frente pra mudar!”. Vamos com facilidade do mito – a adesão à tecnologia informática vira ação cultural e o trabalho precarizado de transporte vira invenção –, para a tal singularidade lá em cima oposta aos “discursos reproduzidos”, o que caracteriza estes jovens é uma cultura, o exemplo da moda, o passinho, é explicativo. Mais significativo é o que dá sentido a tudo aquilo: o consumo.

Não sabemos se a jovem auxiliar de enfermagem, garçonete e estudante gosta do passinho, ou de funk, ou de rap... De fato, aqui isso não importa. Importa que isso não a define. É bem provável que ela não veja com naturalidade a “inserção no aparente sedutor mundo de pequenos crimes”. Pela experiência docente de muitos anos, também é provável que ela tenha tido sua vida escolar prejudicada por personagens semelhantes aos cultivadores da estética da violência e da marginalidade que gingam ameaçadores pela rua principal da cidade.  Com certeza, com base em sua própria narrativa, não obteve seu crescimento em “coletivos culturais”, mas sim “capinando” entre os escolhos de um sistema público de educação em frangalhos e incursões num sistema privado que, não obstante suas limitações, não lhe nega “conteúdo”.

Não que a cultura e o lazer não sejam importantes. Não que não se possa gostar de uma ou outra forma estética, ainda que nos pareça que se intenta uma exagerada homogeneização e se negue tanto a importação cultural como a ação da mídia que a promove. Mas é uma cruel falácia que isso vá salvar os nem nem... E aqui há que se reparar uma injustiça do autor. A de que a direita enjeite os nem nem, e a de que a esquerda os queira conscientizar... A direita de verdade já os equacionou como restos do sistema, e dará a eles pão e circo na medida exata da manutenção de seu conformismo, o que disso sobra justifica um útil aparato repressivo. A esquerda parece determinada a tratá-los como vítimas e como portadores de uma identidade cultural essencial, homogênea e imutável, com signos culturais “naturais”, como o funk e o rap, e uma inexorável, mas respeitável, tendência à criminalidade. Em ambos os casos, são negados ao jovens oriundos da classe trabalhadora o mérito pessoal. Para a direita eles são incapazes de tê-lo, para tal esquerda o indivíduo não existe e, assim, o esforço pessoal é coisa de burguês...

As esquerdas não chegam à nossa jovem auxiliar de enfermagem, garçonete e estudante. Nem a milhares, milhões, como ela. Procuram em adolescentes bocós ou mesmo no restolho social aqueles que entendem como mais avessos à sociedade de mercado. Afastam-se do mundo do trabalho e buscam suas bases sociais nos que, tristemente, mais estão afogados no consumo* ou mesmo no preguiçoso, acanalhado e covarde lumpemproletariado. Reforçam mesmo tais vícios sociais, justificando-os. Alguns até ensaiam demagógicas identidades “culturais”, buscando atalhos pela suposta homogeneidade cultural, construída, aliás, pelo mercado que eles pensam combater. Como se a crítica e a militância emancipatória pudesse ser definida pelo que se ouve, vê ou dança...

Torçamos pela nossa jovem auxiliar de enfermagem, garçonete e estudante e pelos seus muitos iguais. Que eles não sejam tragados pelo consumismo exacerbado, convencidos a esperar em berço esplêndido esmolas “sociais” ou busquem por necessidade “coletivos culturais”. Que não sejam enredados por paternalismos ou arapucas como ProJovens, cotas e ProUnis. Quem sabe um dia eles não venham a ensinar a nossas esquerdas que é no mundo do trabalho e da luta por melhores condições de vida, onde o esforço e o mérito pessoal não são miragens ou slogans, que se encontra a chave da emancipação da classe trabalhadora.

Esperar a igualdade de oportunidades para que nossos jovens tenham vidas dignas, apesar de difíceis, e formem uma classe trabalhadora capaz de promover a sua própria emancipação é alimentar um círculo vicioso reacionário. Entender que as dificuldades justificam a inércia e, mesmo, a criminalidade, de setores da juventude é afastar-se da classe trabalhadora. Dispersar a luta política por grupos definidos por presumidas características culturais essenciais – assim como por cor, gênero, opção sexual etc. – é abrir mão da organização do coletivo que interessa: o da classe trabalhadora.

 

*Mesmo que entre os participantes haja trabalhadores é noutro sentido e contexto que eles são buscados.

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