terça-feira, 10 de março de 2015

UM ATO SEM NENHUM CARÁTER: A FARSA DO 13 DE MARÇO DE LULA E DILMA

Wlamir Silva
Professor e historiador

O Brasil vive uma crise econômica que não é passageira – como quer fazer crer a presidente da República –, mas um desdobramento de problemas estruturais de uma economia assentada na exportação de commodities, excessivamente financeirizada e que vem se desindustrializando. Agravada pela inércia governamental no que diz respeito às questões estruturais, em diversos níveis, pelo aparelhamento do Estado por uma máquina partidária e a adesão, e justificação “ideológica”, a práticas clientelistas e corrupção.

A massa da população, despolitizada, assiste atônita a um quadro que simplesmente não compreende. Com uma pequena maioria reelegeu a presidente da República com base em mal explicados argumentos da necessidade de deter certa “direita”. Agora vê, com ainda mais obscuros argumentos, a presidente tomar decisões contra uma crise que ouviu a candidata enfaticamente negar. Novamente se aponta para hordas de “fascistas” que justificariam o apoio a ela, independente do que ela vier a fazer...

A propósito de um burlesco conflito de rua entre meia dúzia governistas e oposicionistas, um personagem tragicômico alude a um “fascismo” de “burguesinhos” e põe na conta do partido no poder uma melhora “da vida de milhões de brasileiros”. A vitória parca nas eleições e os votos envergonhados de muitos – é uma merda, mas é o menos pior – mostra que tal relação de causa e efeito é cada vez menos reconhecida. Até porque a crise escancara os pés-de-barro de tais mudanças.

A exaltada “distribuição de renda” por políticas compensatórias e focalizadas já mostra o seu limite. A massa salarial de baixo poder aquisitivo sofre muito qualquer “marola” e isso é agravado pelas carências quase intocadas no que diz respeito ao saneamento, à saúde pública e à educação básica. Pouco a pouco os que se animaram com o aumento de consumo percebem que os fundamentos disso são frágeis e que boa parte se deve à inercial popularização de bens de consumo eletrônicos pelo capitalismo e pela China[1]. A carestia e o endividamento aumentam, o desemprego também.

O caso da Petrobrás soa, justamente, aos ouvidos da população como um exemplo desta inércia estatal. Exatamente pelo respeito que as pessoas têm pela empresa. Pelo papel dela no imaginário popular. O “petrolão” conspurca um patrimônio popular e aprofunda o sentimento já iniciado com o “mensalão”. Se fazem isso com a Petrobrás, do que mais são capazes? Pensa o povo... A estratégia do “eu não sabia de nada” é cada vez menos eficaz. A Petrobrás jamais será privatizada se depender do povo. A menos que se a vá destruindo por dentro, o que parece estar acontecendo.

Parte do drama advém da consciente despolitização alimentada pelo Lulismo há mais de década. Apostando na “compra” de apoios com migalhas compensatórias e mistificações. A cooptação de movimentos sociais com cargos e verbas públicas foi complementada pela criação midiática de uma “falsa direita”. Uma “direita fascista” descolada do grande capital, pois este – os banqueiros que nunca lucraram tanto, as sócias empreiteiras, a agroexportação e a mineração responsáveis pelo “paraíso” das commodities, inclusos os “heróis” usineiros – vai muito bem... A qualquer crítica se responde com um compungido "a direita vem aí", como na história do menino e do lobo...
    
O melancólico discurso de Lula apelando para o “exército de Stédile” é apenas um detalhe da ópera bufa da criação do fantasma do golpe. As associações com Getúlio Vargas em 1954 e Jango em 1964 são a própria “história que se repete como farsa” premeditada. Em obra clássica sobre 1964, o cientista politico René Dreifuss delineou uma complexa articulação entre militares, lideranças políticas civis, influência dos EUA e o capital, trazendo no fim uma caudalosa lista de empresas apoiadoras do golpe. No panfleto lulista se insinua uma lista de velhos roqueiros, humoristas, militares destemperados e políticos histriônicos.

Mas a pantomima continua. Sempre pela via da despolitização, de um estelionato de ideias e de arapucas para consciências distraídas. O Lulismo articula para o próximo dia 13 de março um ato (ou atos, em várias partes do país)... A escolha da data é óbvia: fazer de Dilma – ou de Lula? A títere ou o manipulador? – um Jango... Mas não param aí os enganos. As convocatórias do “Ato” são díspares. É tradição dos movimentos sociais a ideia de que tais convocatórias devem ser claras, e conhecidas as discussões sobre que palavras de ordem devem entrar e quais os termos e significado. Para alguns um “porre”... De fato mero respeito à consciência popular.

Não é o caso do “Ato” convocado por Lula e seus “braços” nos movimentos sociais e aliados perenes e ocasionais. A confusão é novamente premeditada. Parte é feita para um ato em defesa da Petrobrás. Afinal, quem não é a favor da Petrobrás? Associada à uma reforma política (ou constituinte) ou a defesa da democracia e direitos. Aqui e ali se busca costurar as generalidades num ato de desagravo a Dilma Rousseff. As generalidades públicas enganam, as costuras subterrâneas mostram o teor governista: “sindicalistas ,movimentos sociais, estudantis farão ato em defesa da Petrobrás, pelas reformas estruturais [e quais seriam?], política e contra o golpe do Impeachment [grifo nosso]”[2].

Convocações "neutras", para atrair "trouxas"
 Como se este governo tivesse legitimidade para defender a Petrobrás que loteou. Para defender reforma politica totalmente enredado nas práticas mais vexaminosas. Para criticar cortes em saúde e educação, imerso numa profunda inércia administrativa. Como se houvesse uma articulação golpista em curso no país.

A manipulação lulista
A “esperta” convocação para atos sem conteúdo definido e na construção de um golpe imaginário é apenas mais um capítulo na saga despolitizadora lulista. Na aposta na ignorância e na desmobilização popular, com a cooptação de setores organizados e a mistificação da massa popular. Na estudada falta de ideologia e debate sobre o país, encoberta por “marquetagens” de “ricos versus pobres”, demonização da “classe média” e outra bobagens sob medida para maquiar as profundas relações com o grande capital.

O Lulismo é uma péssima escola para a democracia. Muito pior o é para uma mudança radical na sociedade. É a escola da manipulação da consciência e do cultivo da dependência dos trabalhadores. Para os que creem, de fato, que a emancipação da classe trabalhadora só pode ser feita pela própria classe trabalhadora, a mistificação lulista é um câncer. 





[1] Como ocorreu, por exemplo, com a popularização das TVs no início dos anos 1970, sob os auspícios do insuspeito de ser “popular” Emílio Garrastazu Medici... E o "efeito China" é duplo: compram nossas commodities e vendem produtos baratos.
[2] Plantão Brasil. http://www.plantaobrasil.com.br/

3 comentários:

AF Sturt Silva disse...

Não sei se as manifestações do dia 13 são coisas do governo Dilma ou do lulismo. Pelo que entendi elas são da esquerda governista. Embora seja de bases de apoio esses movimentos não estão de bem com a Dilma. Nem Lula está (mas isso não tem importância, afinal são do mesmo grupo político).

Wlamir Silva disse...

Lula fez a convocatória e há mais de uma linha convocatória... Se estão "de bem" ou não não importa. Importa que tentam evitar um "golpe" que não existe com falsos pretextos...

Alex Lombello Amaral disse...

Só discordo do termo lulismo, inocentando o petismo... O petismo sempre foi despolitizador... O petismo sempre foi mentiroso, enganador, baseado em farsas, em sujeiras... O petismo sempre enfraqueceu os trabalhadores, por exemplo, tomando, aparelhando e saqueando os sindicatos, de forma a manter os trabalhadores dependentes... A concepção de democracia do Pt sempre foi a mesma de toda a direita brasileira - esse lixo que temos... Aliás, essa falsa democracia, baseada em eleições diretas, é a mesma que o Pt sempre usou para parasitar os sindicatos.

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