sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Censura e autocensura na esquerda brasileira



Há muito tempo se conhece a existência de um tipo que prolifera entre a juventude e entre os militantes que nunca amadurecem, e existem em todos os partidos e forças de esquerda que se dizem revolucionárias e portanto organizadas conforme o centralismo democrático – esse tipo é o censor! Agora, com a internet, essas figuras enjoadas e prejudiciais ampliaram seu raio de ação, pois podem implicar com outros militantes que moram no outro canto do país, e que de outra forma estariam livres de serem perturbados ao menos pelos chatos de longe.


Há alguns anos a direção de meu Partido decidiu orientar os militantes a se precaverem contra os grupos de discussão nos sites de redes sociais, e eu então fui contra, não conseguia ver problema nenhum, e os problemas eram mesmo pequenos. Temia-se o debate, que devia ser restrito aos fóruns presenciais do Partido e à Tribuna de Debates que só circula nas vésperas dos Congressos. Agora, vejo que alguns grupos realmente podem se tornar prejudiciais ao Partido, mas não pelo debate, e sim pelo espetáculo lamentável que os fiscais ideológicos criam, tentando censurar militantes do Partido, o que já seria absurdo em particular, quanto mais em público. O Partido fica parecendo um espaço autoritário, onde as opiniões são reprimidas, como uma igreja ou uma seita. Assim como existe o “irmão” que vai com a Bíblia nas mãos reprimir outro “irmão”, estamos sendo atacados por uma horda de “irmãos” pseudo-comunistas que acham que as resoluções são uma Bíblia.

É o caso do que se tornou o grupo mais polêmico que tem existido de nosso Partido na internet, que tem o nome de “Partido Comunista Brasileiro – PCB (não oficial)”, que não é dirigido pelo Partido. Nesse grupo os governistas devem ser em maior número que os comunistas, e publicam a vontade, mas os comunistas que publicam por lá, além de ofendidos por petistas e outras pragas, agora têm sido publicamente censurados, e alguns bloqueados, expulsos da página, por outros militantes do Partido. Militantes do Partido, sérios, importantes em suas bases, ou simpatizantes que sempre votam e até contribuem com o Partido, são ali ofendidos, sofrem linchamentos virtuais, são expulsos, e isso por moderadores que não são da direção do Partido, e que mais parecem ter saído de um convento.

A desculpa desses fiscais de internet é o centralismo democrático. Acham eles que o centralismo democrático implica em censura e em autocensura. Haja ignorância! Vamos por partes. Tanto o marxismo quanto o leninismo são ciências, e só têm valor se forem usados assim, como ciências. Uma pessoa só é marxista se o for cientificamente, se não será somente uma repetidora de frases de Marx. Os leigos por vezes dizem que a ciência é uma religião do presente, ou do futuro, mas é porque não sabem o que é ciência além do que podem saber pelos meios de comunicação. Exemplo simples, uma coisa é dar aula de física, outra coisa é ser físico. Não existem físicos sem professores de física, mas os físicos destroem aquilo que o professor de física ensina, porque esse é o papel da ciência, pois é assim que a humanidade avança. Assim, se uma pessoa adotar os textos de Marx e de Lênin como verdades essa pessoa nunca será verdadeiramente marxista nem leninista. Marx, Lênin, Engels, Mao etc. sempre defenderam uma postura científica.

Todos atribuímos o centralismo democrático a Lênin. O motivo de todos adotarem esse modelo é óbvio, a vitória de 1917, onde foi indispensável o Partido Bolchevique. Imaginam nossos fiscais ideológicos de internet que o centralismo democrático de Lênin restringe a liberdade de expressão. Isso nunca foi verdade, nem na teoria, nem na prática. O centralismo unifica a prática, e é democrático porque permite o máximo de debate que as condições possibilitarem e tem o máximo de fóruns que se puder realizar. As opiniões não precisam ser unificadas, nem é necessário cercear opiniões divergentes. Também na prática, tanto como militante quanto como dirigente, Lênin deu inúmeros exemplos disso. Como militante de base muitas vezes escreveu contra a linha do Partido e mesmo contra a direção. Como dirigente e chefe dos jornais do Partido sempre permitiu franco e pesado debate nas páginas desses jornais. Aliás, até a época de Stálin os jornais soviéticos, incluindo os do Partido, publicavam opiniões divergentes. Foi a contra-revolução que restaurou a censura e usou a deturpação do centralismo democrático para justificá-la.

Tenta-se distorcer a questão alegando-se que uma opinião é uma ação, e que portanto as opiniões também têm que ser unificadas. Contudo, isso é um absurdo completo, e só não é analfabetismo porque sabemos que quem o diz não o faz por ignorância, mas desespero de causa de justificar o injustificável. A liberdade é sempre de uma coisa ou de outra, nunca total, portanto o termo “liberdade de expressão” é uma limitação, que indica que essa liberdade específica é só de expressão, separando portanto a expressão de outras ações. A inexistência de diferença entre ações e opiniões é o argumento de todo regime autoritário que já existiu para cercear a liberdade de expressão, a começar por aquela dos comunistas. A liberdade de expressão, uma conquista revolucionária, não implica liberdade de todas as ações, assim como a restrição de uma ação, por exemplo, matar, não implica na proibição de escrever sobre assassinato. Mas não se pode incitar ao assassinato e apelar à liberdade de expressão em lugar nenhum do mundo, podem contestar alguns camaradas, e é verdade. Da mesma forma, no Partido, quem usar as palavras para pedir votos para outros candidatos, não escolhidos pelo coletivo, está ferindo a democracia interna, o centralismo democrático, e não poderá apelar para sua liberdade de expressão como justificativa. Contudo, a liberdade de expressão dos militantes tem que ser garantida, sob pena de estarmos manchando o nome do Partido Comunista. Os inimigos nos comparam com os fascistas, e alguns camaradas parecem querer confirmar essa calunia com maus exemplos.

Espetáculo que dá vergonha é ver os fiscais voluntários da ideologia alheia escrevendo que os militantes não podem dizer isso ou aquilo porque é diferente do que “está na resolução”, parecido com ver um crente policiando outro crente e tentando obrigá-lo a fazer o que “está na Bíblia”. Por muitas vezes os jornais do Partido Bolchevique publicaram artigos contrários às resoluções e às opiniões de Lênin. O que Lênin fez? Ele se rebaixaria a usar um subterfúgio autoritário do tipo “está nas resoluções”? Nunca! Ele simplesmente respondeu, sem nunca se valer de sua autoridade como dirigente ou como chefe de redação.

Que triste ver militantes que ao invés de defenderem uma posição porque acreditam nela e sabem defende-la, a defendem porque “está na resolução”, ou que usam essa frase porque não têm a capacidade de defender a posição que julgam defender. É a volta do princípio da autoridade, que era usado na Europa medieval e que foi varrido pelo método científico. Antes do método científico, que se baseia no experimento, vigorava o método da autoridade. Não se testava nada, não se duvidava dos antigos. Quando se queria saber de alguma coisa, primeiro, consultava-se a Bíblia, e se estivesse lá, pronto, era a resposta final. Se não estivesse buscava-se em outros livros sagrados, ou dos sábios do mundo antigo, mais propriamente Aristóteles. Se nada fosse encontrado também nos antigos, recorria-se aos Papas, depois aos Cardeais e assim por diante. Esses vigilantes da conduta partidária parece que pensam da mesma forma. Se se lhes pergunta algo, primeiro, eles precisam procurar nas resoluções, para ver se o Partido já decidiu, porque se decidiu então acabou, lá está a opinião deles. São uns monges cabresteiros.

Também existem palavras proibidas por essas autoridades não-constituidas da internet, assim como piadas. Antes padres e professores puniam alunos que falavam palavras feias, palavrões. Agora existem palavras feias proibidas para os militantes de esquerda. Exemplo, não se pode mais dizer “viado”, “bicha”, “sapatão”, “crioulo” etc. É obrigatório dizer homossexual, ou cidadão de cor, ou a frescura que o valha. Aliás, pobres dos humoristas, não podem fazer piadas mais sobre nada. Estão na mira dos monges da esquerda.

Mas pior que tudo isso, é que de censores e perseguidores, esses militantes se desenvolvem no sentido de serem dedo-duros. Não que tenha qualquer importância real as denúncias que eles fazem, pois são obviamente criancices, mas mostram uma degeneração moral lamentável. O Partido devia denunciar a cultura do dedodurismo. Trata-se do militante que enfurecido porque um debate não caminha como ele deseja ameaça com uma rusga interna dentro do Partido. Ou seja, ele leva a questão a alguma instância de direção, pedindo punição para o outro militante, que teria se desviado da política do Partido. Muitas vezes, de fato, o Partido se perde nessas crises internas, perdendo tempo valioso de reuniões raras, para julgar camaradas. O Partido então se torna um tribunal, que julga seus próprios membros, e cuja punição é a expulsão desse mesmo tribunal, e enquanto isso a classe operária está abandonada nas fábricas, os burgueses que descobrem isso riem de rolar no chão e os historiadores do futuro custarão a entender tamanha imbecilidade. Mas o pior, como já se disse, é a cultura que isso gera, de dedo-duros. Antes, os comunistas estigmatizavam os dedu-duros ao ponto dos militantes morrerem sob torturas para não traírem ninguém, e agora, não por decisão de nenhuma direção, claro, mas por força da ignorância geral, os dedo-duros são formados entre nós mesmos. Querem nos transformar em um convento de monges fofoqueiros, que toda hora correm para o abade para contar que fulano disse isso ou aquilo contra “as resoluções”.

Os prejuízos que esse policiamento ideológico causa sempre foram imensos! É comum tanto no PCB, quanto no PCdoB, quanto em vários outros partidos se dizer que se todo mundo que um dia foi do Partido tivesse ficado, a Revolução já estaria feita. De fato. Claro que muitos dos que saírem tinham mesmo que sair, por diversos motivos, mas uma boa metade das perdas desses partidos se deram a toa, por conta de infantilidades. Brigas inúteis, em torno de assuntos laterais. O pior talvez tenha sido o primeiro caso sério, ridículo, que atingiu vários partidos do mundo, e se parece com alguns problemas atuais, embora dessa vez setorizados. Foi o obrerismo, uma versão anti-marxista de comunismo segundo a qual só operários deviam ser dirigentes do Partido, ou mesmo entrar nele. Só operários seriam revolucionários. Só operários compreenderiam o movimento operários. Naturalmente, centenas de intelectuais foram expulsos, e no próprio movimento operário o Partido perdeu muito. Muitos dos esforços feitos durante a década de 1920 para construir o Partido foram perdidos na virada da década de 20 para 30 quando grassou a praga obrerista.

Revoluções só aconteceram em países onde as organizações revolucionárias mantiveram livre debate de idéias. Já no Brasil, onde predomina na cultura política uma deturpação tupiniquim de centralismo democrático, um autoritarismo que mais se parece com as regras de um convento, estamos há décadas brigando entre nós mesmos em tribunais que só existem para nós. As questões práticas estão todas abandonadas, enquanto nossos militantes brigam para definir o que é ortodoxia e o que heresia.

Sobre a autocensura, devo dizer que o militante que tem uma opinião e não a emite porque ela é contra as resoluções é suspeito para mim. O que ele quer? Favores da direção? Ou ele ainda não entendeu o que é uma ciência? O marxismo é uma ciência, e as ciências avançam com críticas. Então se o militante tem uma discordância, de duas uma – ou as resoluções estão erradas e precisam mesmo ser criticadas para serem corrigidas quanto antes (e em público, porque a direção do Partido é coletiva e não estamos na clandestinidade), ou o militante é que está errado, e precisa dizer o que pensa para que possa ser ensinado (preferencialmente em público, para que outros que têm o mesmo engano também aprendam). Algumas pessoas podem se magoar? Que dó!

O desrespeito aberto dos vigias de internet pela liberdade de expressão dos camaradas faz lembrar os debates recentes de artigos desse blog a respeito dos atentados terroristas contra a revista de humor Charlie Hebdo. Não é difícil perceber uma raiz comum aos dois problemas – pseudo-comunistas acham que liberdade de expressão tem que ter limites e eles mesmos se dedicam a limitar a liberdade de expressão de alguns camaradas. Acreditaram na caricatura que a direita faz dos comunistas, como autoritários, e a vestiram, e ficam por ai fortalecendo a mentira da direita.

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