quarta-feira, 29 de março de 2017

A reforma da imprevidência

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A incapacidade dos governantes brasileiros de preverem os resultados de suas lambanças econômicas é impressionante. Nem sequer os interesses do capital financeiro explicam tal incompetência. As pessoas são guiadas por ideologias, saibam ou não, gostem ou não, e acreditam que se guiam por seus interesses reais. Seus interesses estão de fato escondidos por trás das ideologias, mas não com grande capacidade de adaptação. As ideologias não são ciências, e oferecem as mesmas fórmulas para realidades que mudam cada dia mais rápido. Observemos.

O argumento dos defensores da contra-reforma da previdência é neo-malthusiano. Malthus foi um pensador que ficou conhecido sobretudo pela sua idéia que foi derrubada de forma mais retumbante pela realidade. A população cresce em progressão geométrica, e as terras são limitas, de forma que a produção agrícola, supôs Malthus, só poderia crescer no máximo em progressão aritmética. Sendo assim a fome e a miséria seriam inevitáveis! Pelo contrário, desde o tempo de Malthus a produção agrícola cresceu muito mais do que a população. Hoje sobra comida, e só há fome devido à má distribuição. Produzimos na Terra alimentos para várias vezes a população do planeta! E nossa tecnologia continua crescendo!

A tese dos defensores da reforma da previdência é que a população vive cada dia mais, diminui o número de jovens, e o número de trabalhadores por aposentado é cada vez menor. Verdades! Daí, concluem nossos malthusianos, faltará recursos para todos os aposentados! Acreditam, como Malthus, que a produção só pode crescer com o crescimento dos braços e do capital! Não entendem que se no passado existiam cinco trabalhadores por aposentado, esses cinco juntos não produziam metade do que um sozinho produz hoje!


Claro que é difícil para um empresário, que vê o mundo como uma empresa, compreender que não há relação necessária entre o número de aposentados e o número de trabalhadores. A visão do século XIX de previdência é de uma empresa, cujos sócios são os trabalhadores contribuintes, que assim pagam para terem aposentadoria. Então havia sentido em se pensar no número de contribuintes por aposentado. Além de ser uma visão limitada, que não permite avançar nos reais interesses econômicos da nação, é injusta, pois desconhece que toda a riqueza é produzida pelos trabalhadores, de forma que qualquer um que trabalha já está contribuindo para a sociedade o suficiente para ter direito a se aposentar.

Deixemos, porém, a justiça de lado, e nos concentremos em nossos interesses econômicos enquanto sociedade. Precisamos do oposto completo dessa reforma e de quase tudo que tem sido feito! Os recursos sobram, temos desperdício, temos obesidade como graves e crescentes problemas. Faltam empregos! Nos tempos ditos bons de Lula chegamos a 50 milhões de carteiras assinadas, para 200 milhões de habitantes. Já era pouco! Caímos para 39 milhões! As indústrias estão ociosas, com máquinas paradas, funcionários em férias coletivas. Em um quadro desses, qualquer medida que desestimule os empregos, que dificulte as aposentadorias, já está atrapalhando. Aliás, falar dessas coisas já atrapalha a economia!

Precisamos do oposto! Precisamos que os trabalhadores mais velhos se aposentem para dar vagas aos mais novos, até porque eles não agüentam mais. Precisamos acabar com leis mal feitas que desestimulam as empresas a empregar. Talvez o principal exemplo sejam as contribuições previdenciárias, que devem ser extintas (com exceção do FGTS, a não ser que volte a garantia de emprego). Que se tire o dinheiro de qualquer outra fonte, que não faltam, em um país tão rico que se dá ao luxo de não cobrar impostos sobre grandes fortunas, sobre movimentação financeira, sobre grandes propriedades rurais inativas, sobre igrejas, e ainda doa 47% do orçamento da União para banqueiros e outros ladrões.

Por que os atuais e depostos governantes são tão incapazes? Existe, primeiro, a limitação ideológica (daí intelectual), segundo, a limitação de infraestrutura do país (oriunda do fanatismo liberal), terceiro, por medo da desmoralização completa do capitalismo financeiro, que não tem mais sentido para as sociedades depois de 1973.

1 – São liberalóides fanáticos, e no caso de Dilma e Temer, do pior tipo, o monetarista! Acreditam que é mais necessário que tudo manter a estabilidade da moeda, e que para isso é proibido emitir moeda sem lastro, o que geraria inflação. Quando as moedas eram de ouro e prata essas duas crenças já eram erradas e os financistas mais inteligentes, como Mauá, entendiam isso.

Uma inflação muito alta realmente é prejudicial aos trabalhadores, mas uma inflação moderada é melhor do que desemprego, criminalidade, insegurança etc. Só para um setor entre os capitalismo realmente é importante a estabilidade da moeda – os capitalistas financeiros! Para quem pega dinheiro nos EUA e investe no Brasil é necessário trocar dólares por reais, e depois os lucros precisam ser trocados de reais para dólares. Se o lucro for 10% e o real ao mesmo tempo se desvalorizar 10% em relação ao dólar, o investidor não ganhou nada!

Como os capitalistas financeiros, esses que não trabalham, não gerenciam, só especulam, são hoje os dominantes em todo o mundo, a ideologia deles é a dominante, como de fato percebemos. Contudo, derrubar a economia vai derrubar a arrecadação, reduzindo o que se pode roubar do Estado, e vai derrubar os lucros das empresas desses financistas. Sendo assim, como avancei no início do artigo, a ideologia não se adaptou.

Ademais, também não é correto que conter a emissão de moeda contem a inflação. Os bancos privados, quando emprestam dinheiro, estão emitindo moeda. Um caloteiro, quando dá um cheque sem fundos, está emitindo moeda! Um governo não tem o controle sobre a moeda que os monetaristas imaginam em seus sonhos.

A comparação entre os governos Lula e Dilma é outra prova. Lula, mesmo acreditando que estava errado, abriu as torneiras de dinheiro, e isso não gerou a inflação dos pesadelos monetaristas. Dilma, crente liberalóide, fechou as torneiras! Resultado? Foi Dilma que gerou inflação e derrubou a economia, como o São João Del Pueblo denunciou que ela estava anunciando que faria ainda em 2011 (Vide Dilma está chamando a crise para o Brasil).

2 – Existem limites reais, sim, para qualquer economia. Se se livrar dos parasitas que no governo e por interesses mesquinhos a limitam, nossa economia esbarrará em algum outro gargalo, mas dessa vez real. Atualmente o problema é de infraestrutura. Os liberalóides há 40 anos esperam que a iniciativa privada construa nossa infraestrutura e nossa indústria de base. O resultado é que o país se desindustrializou. Todos se lembram de reportagens recentes sobre engarrafamentos de dois dias no porto de Santos, e todos se lembram que antes mesmo da seca de 2013 o país já estava quase sofrendo apagões. Para evitar apagões em ano eleitoral, o governo comprou de volta cotas de energia elétrica, gerando desemprego.

Os liberais preferem impedir o crescimento do país do que admitirem que o mercado é incapaz de gerar o desenvolvimento do Brasil sem forte apoio e intervenção estatal. Não podem admitir que só o Estado é capaz de multiplicar nossa infraestrutura e nossa indústria de base na velocidade necessária. Se o pais crescer, e faltar energia, o liberalismo é que fica no escuro.


3 – Por fim, é necessário justificar o roubo de 47% de nosso orçamento! A papelada inútil dos financistas tem que parecer valer alguma coisa. O fetiche do dinheiro tem que ser mantido!!! Para um Estado, contudo, moeda mesmo é só a estrangeiro, o ouro e a prata, ou seja, divisas. A moeda que um governo emite só é dinheiro para ele mesmo se ele quiser muito manter esse estado de coisas. Para um Estado seus recursos são a mão-de-obra disponível, a matéria prima, a energia instalada. O capital para um Estado não é a papelada que ele mesmo emite (seria até ridículo, pois o capital seria então multiplicável ou inflamável), mas parte do que já citamos. Por exemplo, para ter energia é necessário que antes alguém tenha criado usinas e uma rede de distribuição, e isso, sim, é capital para uma sociedade ou para um Estado. Também quando falamos de mão-de-obra existe uma parcela dela de formação difícil e cara, e isso é capital para uma sociedade. A única necessidade que um país como o Brasil tem portanto de qualquer investimento estrangeiro é do que for obrigado a importar, sejam matérias primas muito raras ou tecnologia. Portanto, quando nosso governo toma dinheiro emprestado, não é um empréstimo, mas uma forma de saquear dinheiro público e doar para algum ladrão que não deu nada em troca, visto que seu dinheiro é inútil. Quando nosso governo deixa de emitir moeda e investir ele mesmo, e deixa estrangeiros converterem sua moeda em reais e os emprestarem aos brasileiros, está somente permitindo o saque das riquezas e sobretudo, da mão-de-obra nacional. A confissão de que não é necessário conter gastos está a um passo da confissão de que o governo não precisa continuar endividado. Seria o apocalipse do capitalismo, de forma que os capitalistas terão que continuar vivendo, enquanto puderem, na mais idiota das mentiras.

3 comentários:

Choldraboldra disse...

Embora as pessoas não reconheçam, a classe dominante tem um projeto para o país (e o está colocando em prática). Este projeto é o de acabar com a ideia de desenvolvimentismo, ou seja, a ideia de que Estado deve induzir o desenvolvimento, em detrimento de uma ideia de que o Estado deve garantir as condições de funcionamento do mercado; acabar com a ideia de Estado de bem-estar social, ou seja, que o Estado tem a função de garantir alguns direitos sociais aos cidadãos (e, para isso, não estão preocupados com as condições de funcionamento da democracia); e o retorno a um tipo de sociedade em que o Estado tem a única função de garantir a segurança e o controle orçamentário. Esta classe pretende acabar com a ideia de que os cidadãos têm qualquer direito a ser garantido pelo Estado, para que o setor privado possa vir a suprir as necessidades das pessoas e obter lucros com isso, e também que o Estado tem qualquer função de administrar empresas públicas, que devem ser privatizadas. Para que as pessoas possam adquirir planos de saúde, pagar pela educação e pela previdência privada, enfim, tudo o que precisam, este projeto inclui o estímulo à iniciativa privada - as pessoas, então, devem tornar-se empreendedoras e abrir seus próprios negócios e é assim que a economia deve funcionar. Os cortes dos gastos primários (sem contar os juros da dívida) têm esse objetivo, a única função do Estado é a segurança e o pagamento dos juros da dívida pública, e, para pagá-los, o Estado deve arrecadar impostos, que servirão apenas para isso, para o pagamento dos juros para os detentores da dívida pública. Enfim, estamos em um momento em que os interesses financeiros domina todos os países, que devem canalizar toda a arrecadação para o sistema financeiro, e a sociedade acabar com toda a regulação e controle do Estado para que os investidores privados possam atender às necessidades das pessoas por meio da iniciativa privada. Por fim, não vemos resistência porque para isso precisamos de uma classe trabalhadora forte, e a classe trabalhadora se torna forte com a garantia e a proteção de direitos - sobretudo a garantia de emprego, e com o crescimento da economia; com o exercício da política, ou seja, a disputa do Estado através da organização de partidos políticos capazes de apresentar um projeto e obter apoio de massa; e com a mobilização dos movimentos sociais. Não há outro caminho para lidar com estas questões, mas a economia e as condições de emprego estão degradadas, e a classe trabalhadora, frágil; e a política, e, sobretudo, os partidos de origem popular, foi deliberadamente deslegitimada pela classe dominante - exatamente para isso, para impedir a resistência aos seus interesses... Mais especificamente, o objetivo é que o atual governo aprove essas medidas duras e estruturais (o teto dos gastos, a reforma da previdência, a flexibilização das leis trabalhistas, e, também, a privatização das empresas públicas) já que ele não tem condições de disputar eleições e, portanto, não tem problema em sofrer com o desgaste político, e depois os partidos tradicionais devem ser colocados no poder novamente para controlar tudo isso. Em geral, apenas os setores das classes populares são prejudicados. O único setor da classe dominante que também está sendo prejudicado é o da indústria... Mas, de qualquer forma, esse é um projeto do setor financeiro internacional, que a mídia, a política, os poderes constitucionais, e a sociedade em geral, entram de roldão... Enfim, houve um setor da classe dominante, o setor financeiro internacional, que ascendeu ao domínio, e que esta situação, embora ruim para a sociedade como um todo, e mesmo para a manutenção do capitalismo e da democracia, é boa para esse setor, e, enquanto for assim, este continuará impondo os seus interesses sobre o restante da sociedade.

AF Sturt Silva disse...

Precisamos acabar com leis mal feitas que desestimulam as empresas a empregar.
mas que tipo de leis são essas?

Alex Lombello Amaral disse...

A resposta está no texto = Eu proponho o fim das contribuições previdenciárias e que as aposentadorias sejam pagas por outros impostos. = Ou seja, eu proponho que as aposentadorias como um todo sejam encargos do cofre geral da União, visto que já estão mesmo unificados os cofres da previdência e da União, desde FHC. = Ainda em outras palavras, proponho a desvinculação entre trabalhadores na ativa e trabalhadores aposentados. Os primeiros não devem precisar contribuir com nada, pois já contribuem com tudo, e os últimos devem ser mantidos pelo Estado. E mais, devem ser aposentados o quanto antes, e com os melhores salários possíveis, para que sejam proibidos de voltarem a trabalhar... Governantes que não podem oferecer isso não merecem governar nem os próprios narizes. Entreguem o governo aos comunistas.

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