O DEBATE DO SÉCULO

Wlamir Silva
Professor e historiador

No debate midiático entre Jordan Peterson e Slavoj Žižek [1], dois intelectuais e acadêmicos - em um grande teatro lotado com preços caríssimos e seguido largamente nas redes -, ambos os contedores destacaram a possibilidade do diálogo, do debate civilizado, entre diferentes.

Há um sentimento de frustração para com o resultado do debate. Frustração que se explica pelo seu caráter midiático associado à ideia de uma "solução final", definitiva, categórica. De fato uma coisa alimenta a outra. O que se reflete no tema escolhido: "Felicidade: marxismo vs capitalismo".

Um debate que tem como mote a abstrata "felicidade" não pode mesmo ser categórico. Mas não deixa de ser provocativo exatamente por sua fugacidade. E a frustração, que em parte se deve ao caráter midiático, advém mais de outro vetor: ali se concentra um déficit de debate no seio da sociedade mesma e das academias, com as quais têm laços os dois contedores.

Por aqui, podemos dizer sem medo de errar que praticamente se eliminou a possibilidade do debate cordial sobre questões assemelhadas, entre "direita e esquerda". Inclusive no seio das universidades, nas quais se estabelece a censura, prévia - sei do pleonasmo, é reforçativo - do que simplesmente não pode ser dito, visto e ouvido. Outrossim, se alardeiam medos e valentias quase sempre imaginários.

A desqualificação do oponente por sonoros adjetivos e palavrões, barricadas e pancadaria - ainda que de uma violência quase histriônica -, ou pelo boicote silencioso dos cochichos, é a regra. E as partes a exercem de acordo com o poder que possuem, nos espaços em que são hegemônicos. Das salas de aula aos auditórios, passando pelos corredores, o "outro" é banido. E o "outro" pode ser só os que duvidam, uma vez que, seccionados os campos, e cada vez mais previamente, os sinais do que não pode ser dito se tornam cada vez mais simplórios.

Os contedores Peterson e Žižek sinalizaram duas vertentes principais disso. Para Peterson "não existe liberdade de expressão porque as pessoas são apenas avatares de seu grupo identitário". Já Žižek, que também critica a superficialidade dos movimentos de minorias, "[s]e alguém pensa diferente de você, imediatamente é rotulada de fascista", e dá um exemplo substancioso: "Trump é uma catástrofe a longo prazo, mas não é um fascista".

É disso que se trata. E as "identidades" se amalgamam, ou se justapõem, de forma variada, e os "fascismos" se definem ao sabor das conveniências. Mas com um denominador comum: formam monólitos que repugnam o diferente, que impedem o diálogo onde ele seria a regra. Ao redor dos monólitos, e tanto mais conforme sua dureza, nada viceja. O pensamento é absorvido por eles, desidratado, ou perece.

Talvez a civilidade dos contendores do Sony Centre, Canadá, e das redes se explique pelo caráter mesmo do debate. Uma espécie de redoma de civilidade. Mas a questão permanece: a cisão mental entre civilizados e deploráveis - com sinais trocados, para onde importa pouco - contribui com o quê?

Mais ainda quando consideramos que o paquidérmico entorno deste juízo final binário em eterno retorno - sei do paradoxo - não liga ou se inteira dele... O debate do século é o que não é feito. O desafio é o vazio monolítico que nos esteriliza.
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