O NÚCLEO SADIO DO SENSO COMUM

Wlamir Silva, professor e historiador

O resultado da pesquisa de opinião* acerca da intervenção militar na segurança do Rio de Janeiro não surpreende, e é mais impactante por ter sido colhido após a execução da vereadora Marielle Franco. 76% são ainda favoráveis à intervenção, contra 20% contrários.

Há um ceticismo e uma apreensão quanto ao feito até agora, mas, ainda assim, a porcentagem dos que acham que a situação já melhorou (21%) é mais de três vezes a dos que acham que piorou (6%). E uma ligeira maioria de otimistas (52%), que creem que a segurança no município irá melhorar. Contra 36% que não se alterará. O que quer dizer que 88% não creem que piorará.

O apoio atravessa regiões e segmentos socioeconômicos, e a variação é de maior apoio na zona oeste, de bairros populares (81%), contra um apoio menor, mas também de maioria, na zona sul (63%). E é maior entre entre os de menor escolaridade e mais pobres, ainda que ainda se mantenha entre os de maior escolaridade e renda. 

É muito significativo que seja irrisória a diferença - dentro da margem de erro, entre os moradores de "dentro e fora das favelas" (78% e 75% são a favor da intervenção, respectivamente). E a inexistência dela entre brancos, pardos e negros. O que põe em sérias dúvidas o discurso identitário tido como óbvio por alguns.

A forma pouco organizada da intervenção na segurança no Rio, e sua motivação política, não escondem que a experiência popular clama por uma política de segurança. E que se ela certamente compreende a necessidade de políticas públicas e diminuição das desigualdades, não repele a ação repressiva simbolizada, mais que tudo, pelas forças armadas. 

Pode-se chamar isso de "senso comum", e soterrá-lo com a opinião "científica" de uma miríade de "especialistas", mas isso não resolve a questão. E a questão exige, sim uma abordagem racional, mas nos parece que a população, ancorada em sua experiência social, percebe melhor as relações entre estruturas sociais e segurança que certos "especialistas".

As contradições envolvidas na construção da ordem não são tarefa a ser loteada entre especialistas, como se "uma colcha de retalhos" de opiniões abalizadas constituísse um horizonte unívoco. O que já foi chamado de "paradoxo da democracia" põe em perspectiva as contribuições intelectuais a tal processo: oferecer subsídios para o debate público. Um pouquinho de humildade e respeito à sociedade fariam bem.

As Forças Armadas provavelmente deixarão o Rio muto parecido com o que é hoje, lamentavelmente. Não porque não estejam preparadas para policiamento - o que é um fato -, mas porque dificilmente se encaminhará a reforma das polícias e se avançará em políticas públicas, e nem tocaremos nos gargalos do "desenvolvimento".

Mas não deixarão a sensação de que, no geral, fizeram mal ao Estado. Ficará a impressão de que os civis não são capazes de fazer a sua parte. E permanecerá latente a questão da segurança pública. Ou nos apropriamos disso em perspectiva transformadora, ou isso alimentará um cada vez maior conservadorismo.



* https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/03/maioria-no-rio-aprova-intervencao-federal-mas-nao-ve-melhora-na-cidade.shtml

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