sábado, 24 de janeiro de 2015

Terrorismo é fracasso completo e a liberdade de expressão é estratégica

Nas últimas semanas, enquanto a direita defende a limitação da liberdade de expressão, parte da esquerda ousa abandonar os jornalistas assassinados, nossos camaradas de esquerda, e defender a mesma volta ao passado desejada pela direita, sob o pretexto esfarrapado de defenderem os povos muçulmanos do imperialismo. Além de abandonarem a liberdade de expressão, abandonaram as críticas pertinazes de Lênin contra o terrorismo, e abandonaram a esquerda do mundo islâmico. A tese desses capitulacionistas cai por terra quando se constata que o império não está precisando de mais propaganda nenhuma para continuar suas agressões contra os árabes.


O Estado Islâmico está cortando cabeças, o que é propaganda suficiente para dez guerras, e se os países da OTAN não estão agredindo com mais força é porque estão ficando sem pessoal. Nos EUA Obama fala em reduzir os efetivos, e na guerra contra a Líbia nem sequer pilotos os EUA forneceram, ficando esse encargo por conta dos franceses e ingleses. A França está envolvida em agressões na África, e talvez agora até precise retirar tropas de lá para reforçar a segurança interna. Ou seja, os atentados não se enquadram como propaganda para ataques imperialistas. O atentado pode ter sido arquitetado pelo Mossad, serviço de inteligência israelense, mas serviços de inteligência e grupos terroristas são complementares, não opostos como se imagina. Serviços de inteligência atuam usando a chamada “provocação”, ou seja, infiltram-se em grupos políticos e convencem seus membros a cometerem atentados. Também os interesses de terroristas islâmicos e do Mossad são complementares, pois ambos querem limitar a liberdade de expressão. Contudo, se for esse o caso (não há disso nenhuma prova ou evidência), é mais um motivo para não termos nenhuma simpatia nem pelos terroristas, nem pela tática terrorista, nem pelo objetivo de limitar a liberdade de expressão.

Antes de entrarmos no assunto central, tratemos da tática terrorista. Quase sempre ela é um fracasso. Se o objetivo é chamar a atenção, seria mais eficiente um blog, um post na internet, um panfleto, porque bombas não dão as mensagens que os que as armam querem, mas a mensagem que os jornalistas que a noticiam quiserem dar. Normalmente os atos terroristas, mesmo não sendo intencionalmente suicidas, resultam em enormes perdas de pessoal para as organizações envolvidas. Mas os resultados, por sua vez, são mínimos. Observe-se o caso dos dois atentados de Paris. O primeiro, que tornou-se o centro dos debates, foi contra jornalistas, humoristas, e o objetivo seria aterrorizar quem pensasse em desenhar Maomé. Qual o resultado? Uma revista que vendia 60 mil cópias, só em francês, vendeu 7 milhões, em várias línguas. Eu mesmo não conhecia a Charlie Hebdo e não compartilhava charges de Maomé, porque não tinha motivos para isso. Agora eu compartilho as charges de Maomé da Charlie Hebdo, pois tornou-se necessário. Como eu, milhões que nunca pensariam em compartilhar um desenho de Maomé agora o fazem. O resultado do ato, como se vê, foi o oposto do desejado. O segundo ataque foi contra um mercado de judeus. Ora, o único motivo pelo qual judeus e muçulmanos brigam é a invasão da Palestina por Israel. Se Israel saísse da Palestina acabaria todo o motivo da briga, pois nunca antes judeus e muçulmanos brigaram, em mais de mil anos de convivência. A guerra de resistência dos palestinos contra Israel é justa, e os atos que acontecem em território palestino ou israelense são atos de guerra de guerrilhas. Porém, ataques contra judeus na França são uma estupidez, porque não são contra Israel. Qual foi o resultado? Judeus franceses estão se mudando para Israel, porque se sentem mais seguros lá do que na França. Ou seja, o ato terrorista, como de costume, gerou o oposto do que objetivava. Aliás, nada fortalece mais o sionismo, movimento político-religioso judeu pela criação e manutenção de Sion, Israel, a “terra prometida”, do que as perseguições aos judeus na Europa. O interesse islâmico devia ser garantir a segurança dos judeus contanto que fora da Palestina.

Contudo, a maioria dos que capitularam aos desejos da direita vão argumentar que também condenam o terrorismo, mas estão de acordo com os objetivos dos terroristas, que supostamente seriam defender o mundo muçulmano do império, e mais especificamente a Palestina de Israel. Quando surge uma novidade, antes de aprendê-la, nós tentamos enquadrá-la em categorias já conhecidas. Só depois desse exercício o cérebro humano aceita se dedicar a um trabalho ainda maior, que é encaixar a novidade no mundo conhecido, que se modifica e precisa ser compreendido novamente. Em meio aos pensadores de esquerda isso não é diferente. As vezes é até caricatural, como o fato de a cada novo episódio aparecer algum maluco para dizer que foi tudo uma armação da CIA ou de outro serviço de inteligência. Ou seja, não existe mundo real, ninguém faz nada, porque tudo que acontece foi feito pela CIA, mais onipotente que o deus da Bíblia, que para convencer Jonas a se tornar profeta precisou lançar tempestades contra todo um navio, até a tripulação resolver jogar o escolhido no mar, ele ser engolido por uma baleia e jogado na praia de volta. A acreditar em nossos experts hoje deus teria menos trabalho contratando a CIA. Quando o lugar comum não é a CIA, é “o” imperialismo, ou se não é o fascismo que está sempre voltando desde 1945. Sim, novos fascismos surgem, vide Ucrânia, mas ficar gritando sempre que ele está vindo lembra a história de Pedro e o Lobo. Infelizmente, nossos revolucionários parecem mais preocupados em vislumbrar as operações da CIA e a volta do fascismo do que em descobrir os caminhos da Revolução. No caso atual, devido ao fato dos assassinatos terem sido cometidos por militantes fanáticos muçulmanos muita gente está enquadrando o caso nos esquemas antigos, como uma provocação armada para estimular a guerra contra países muçulmanos.

Nossos capitulacionistas se esquecem de que nos países muçulmanos também há uma esquerda, que luta por liberdade de expressão, que luta para poder desenhar Maomé e para poder fazer piadas. Em nome da luta contra o imperialismo o que se propõe é abandonar a esquerda desses países oprimidos da pior maneira possível, que é calando-nos também aqui, onde podemos falar. Como um jornalista de esquerda poderá conquistar sua liberdade em seu país autoritário se nos países ditos democráticos os jornalistas abrirem mão da liberdade que têm?

A situação atual é uma novidade. Na verdade, algumas pessoas nem vêem a questão! Nota-se muita gente comparando os 12 mortos da Charlie Hebdo com os 2 mil mortos da Nigéria, como se a questão fosse número de mortos. Apesar da mesma tática terrorista, os assassinatos dos cartunistas franceses tem um significado completamente diferente do 11 de Setembro, dos atentados de Londres e da Espanha, dos atentados na África, muito diferente dos de Israel, que são guerra de guerrilhas, e até do outro atentado que aconteceu em Paris mesmo horas depois. Talvez nem seus fomentadores muçulmanos entendam isso, e os prováveis fomentadores ocidentais, se entendem, só entendem pelo ponto de vista que querem entender. Há alguns anos, quando um jornal dinamarquês publicou uma charge de Maomé, multidões levantaram-se enfurecidas no mundo muçulmano, prenunciando o conflito atual. Mas então a violência se restringiu aos próprios muçulmanos, imolando-se em praça pública, e o resto do mundo ficou comovido. Agora, foi muito diferente. Jornalistas foram mortos fora das fronteiras muçulmanas, e o foram por serem humoristas! Ou seja, eles ameaçaram todos os jornalistas e humoristas do mundo. Colocaram uma espada no pescoço da liberdade de expressão. A guerra que se iniciou não é entre Estados, nem entre nações, nem entre religiões, é entre avançar ou recuar, é entre esquerda e direita, é entre a idade média e o futuro.

O fanatismo religioso existe, e está atuante. Sim, ele tem sido estimulado, seja por serviços de “inteligência”, seja pelas agressões aos muçulmanos, seja pela propaganda anticomunista constante, que inclui propaganda religiosa, é claro. Mas uma coisa não deixa de existir porque foi estimulada por serviços de inteligência. Aliás, esse fanatismo religioso é de direita mesmo nos países muçulmanos, em alguns dos quais muita gente tem sido morta por lutar por exercer um pouquinho de liberdade de expressão. Já dissemos que existe uma esquerda no Islã, e ela luta, entre outras coisas, pela liberdade de brincar com o profeta deles como nós podemos brincar com os nossos. Podemos, pois conquistamos esse direito, na França desde a Grande Revolução de 1789, e no Brasil desde a Revolução do Porto de 1820, mas nos dois casos com muito esforço, muito sangue de jornalistas regando o chão.

Agora, sobretudo com a difusão da internet, o mundo está muito ligado. Até há pouco tempo os muçulmanos podiam conseguir fechar seus países culturalmente, e impor lá dentro limites à liberdade de expressão e ao humor. Agora não estão podendo mais, seja pela comunicação virtual, seja devido a terem milhões de imigrantes vivendo nos países ocidentais. Então, a não ser que a direita muçulmana consiga trancar de novo seus povos e fechar-lhes os olhos, o mundo islâmico avançará. Por exemplo, aprenderá a tolerar o humor, como aprendemos nos mundos cristão, budista etc (claro que as divisões religiosas são para seguir o raciocínio desse assunto). Só existe uma maneira de evitar esse avanço sem trancar o mundo muçulmano em uma gigantesca reserva, que é fazer o resto do mundo retroceder. Ou seja, nós todos no resto do mundo teríamos que abrir mão do direito que conquistamos debochando de nossos próprios profetas, e agora teríamos que voltar a termos assuntos intocáveis, e isso para que os poderosos do mundo muçulmano continuem mantendo toda aquela parte da humanidade presa à idade média.
A estratégia adotada por esses fanáticos é o medo, o terror. Querem impor suas leis ao resto do mundo usando o terror, o assassinato. Acreditam que assim conseguirão gerar a autocensura em todo o mundo. Se estudassem saberiam que nem a inquisição, torturando e queimando pessoas vivas, conseguiu calar os hereges.

O incrível é gente que se diz de esquerda disposta a abrir mão da liberdade de expressão sem pestanejar. Quanta falta de visão sobre o que é importante e o que não é. A liberdade de expressão é VITAL para os comunistas e para a esquerda em geral. Se aceitarmos que a liberdade de expressão tem limites serão os comunistas e os assim denominados os primeiros a serem “limitados”. Limitar a liberdade de expressão é o sonho da direita desde 1789, e limitar a liberdade de expressão da esquerda é o sonho atual, tanto que a revista atacada é uma revista de esquerda.

Se pensarmos bem, a liberdade de expressão foi a maior, se não a única, conquista de 1984, 1985 e 1988. O povão sabe disso ao seu modo, pois o que entende por democracia é hoje exclusivamente liberdade de expressão. Um raciocínio simples e realista, o regime que temos seria “a democracia”, e a única coisa em que ele se destaca do passado é que nele existe liberdade de expressão, obviamente perseguida pelos poderosos que tentam limitá-la pelas ameaças, pelos processos judiciais, pelo poder financeiro etc. Não que esse mesmo povo valorize essa liberdade de expressão que é para eles a própria democracia, pois é capaz de votar em inimigos jurados da liberdade de expressão sem nenhum remorso.

O descaso do povo com a liberdade de expressão compreende-se, posto que pouco faz uso dela. Só recentemente, com a internet, o povo começou a ter ocasião de fazer uso da liberdade de expressão. A internet é o terror dos políticos, da direita, das TVs, da grande imprensa em geral. Sem liberdade de expressão, que significado teria a internet? Como impor limites à liberdade de expressão sem dificultar a comunicação coletiva na internet? A internet é um alvo, e não há como atingi-lo sem mirar na liberdade de expressão.

Infelizmente, tem surgido nos últimos tempos uma tendência de desrespeito à liberdade de expressão mesmo entre pessoas ditas de esquerda, sobretudo no meio governista, mas também entre os oposicionistas. Essa tendência propõe censurar coisas e tenta censurar na prática, por meio de linchamentos virtuais. As justificativas podem ser raciais, sexuais, religiosas etc. Já aconteceu o caso de portugueses querendo proibir a divulgação de piadas de portugueses, e não foi essa a única piada pronta, pois tem se tentando censurar até livros de Monteiro Lobato. Daí compreende-se que agora mais ou menos as mesmas pessoas proponham que todo o mundo não islâmico se autocensure como se vivesse sob as leis de um califa. Deveríamos ser condescendentes com os fanáticos religiosos apedrejadores de mulheres.

Proteger o fanatismo islâmico não tem nada a ver com proteger os povos que penam sob esse fanatismo. Pelo contrário, apoiar esses povos é ajudá-los a se libertarem da ignorância, da religião. Se o império os ataca é entre outros motivos porque eles são alvos frágeis, pois é assim que qualquer predador escolhe suas vítimas. Devemos condenar o imperialismo, mas também devemos condenar o fanatismo religioso, e não podemos abrir mão de nem uma partícula de liberdade de expressão. Não há nenhuma relação entre desenhar Maomé e defender a agressão militar contra um povo do Islã. Para apoiar um povo agredido pelo império não existe arma mais necessária que a liberdade de expressão, então não é sequer coerente aceitar limites à liberdade de expressão em nome da defesa de povos agredidos. Os povos muçulmanos precisam de liberdade de debochar da religião e de seus líderes religiosos lá em seus países, pois só assim se livrarão de seus chefes corruptos, vendidos, se tornarão fortes e serão mais respeitados. Contribuir para o avanço do Islã pode custar caro, como a luta por liberdade de expressão sempre custou, mas no fim venceremos. Se a capacidade dos fanáticos de assassinar crescer, se apelará para o anonimato, até que a estratégia proibicionista se prove um completo fracasso e deixe de ter adeptos.


Um comentário:

waqar khan disse...

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