sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

SOU CHARLIE E FUI RAFINHA BASTOS... E MONTEIRO LOBATO... E PORTINARI..., ATÉ "O SEXO E AS NEGA"...: A LIBERDADE DE EXPRESSÃO LÁ E CÁ...



Wlamir Silva
Professor
Historiador


 Há quem se anime a discutir se a questão que envolve o "Charlie" é acerca da liberdade de expressão, e do humor, ou do terrorismo. Não vejo contradição. Sou a favor da primeira e contra o segundo. O terrorismo contra a livre expressão é o paroxismo do obscurantismo. O humorista Rafinha Bastos questiona a atenção ao Charlie e a indiferença à censura e a violência, em bem menor escala, contra ele. Um texto bem escrito e coerente, reparem os que estigmatizam os "primatas" do stand-up [1]. Na ocasião participei do debate, ainda engatinhando nas redes sociais - acho que não havia FACEBOOK, ou eu não estava nele, ou não sabia usá-lo direito -, em comentários a artigos sobre o assunto, como o que reproduzo abaixo, de outubro de 2011:

"Wlamir Silva - 12/10/2011

Não sou espectador do CQC e só vi a piada de Rafinha Bastos após a polêmica. Foi uma resposta rápida que apenas retirada da fluidez do contexto pode ter a repercussão que teve. De mau gosto? Sim. E daí, mau gosto é crime? Elogio à pedofilia ou ao estupro só na imaginação puritana de alguns sisudos patrulheiros da linguagem.

A piada foi feita com referência explícita a uma pessoa, abrindo espaço para uma ação legal. Que o façam os interessados. Já a restrição ao profissional por pressão financeira de anunciantes é censura à liberdade, e assim deve ser tratada. De fato parece que a referida pressão não está sendo tão eficaz, ainda bem.

Já piadas sobre estupros de feias, e poupem-me do ridículo risco de estímulo ao estupro por piadas..., têm o mesmo sentido das que se fazem com gays, gordos, baixos, altos, magros, portugueses, fanhos, mancos etc. Ou seja, da essência mesma do humor, que não existe sem estereótipos. Nesse campo mais amplo, o 'politicamente correto' é a morte do humor e da liberdade de expressão.

Não. O politicamente incorreto não é um 'valor em si', se é que isso existe entre o céu e a terra, e também não o é o 'politicamente correto'. Toda a linguagem é feita de ilimitadas e controversas combinações. A liberdade de expressão é que, como princípio, impede que uns padrões linguísticos se imponham sobre outros, na nossa conhecida censura...

E o que se quer afinal, contra Casoy, Lobão, Marta, Bolsonaro e Mônica? Além da eventual execração ou reação pública? E se não surge, é com a censura que consertamos isso? Afinal, outroladismo e o impedimento de expressão só serve para os outros? Não há atalhos. Ou ganhamos a sociedade para concepções mais avançadas ou o atraso prevalecerá. Se avançarmos, poderemos rir de tudo sem que o mundo caia sobre nossas cabeças (frase corrente do Asterix, aquele quadrinho chauvinista e colonialista francês...).

A questão não é se é permitido atacar vulneráveis. A questão é: é o humor que os torna vulneráveis? Garis deixarão de ser vistos como inferiores se Casoy for emudecido, numa sociedade de citadas diferenças abissais? Homossexuais deixarão de ser agredidos se não forem objeto de representações estereotípicas (há algo mais estereotípico que uma parada gay?). Mulheres deixarão de ser agredidas se os humoristas as deixarem em paz (Rafinha Bastos fez turnê no Congo e na África do Sul?).

E o anúncio da modelo Gisele Bündchen?[2] Ora, boçalidade modernosa! Mais uma vez o gosto e a opinião devem ser critérios de permissão de existência! Certamente a modelo, aliás, independente e bem-sucedida produz o 'sexismo atrasado e superado' que contribui de fato para a submissão da mulher! Os espectadores não percebem a ironia, claro, e assim são incapazes de fazer uma leitura menos linear que a da genial ministra. Precisam ser protegidos de tão insidiosa conspiração machista! Suspenda-se a peça!

Sou partidário aguerrido do politicamente incorreto, reação popular ao 'politicamente correto'. Não sei se quebro paradigmas, mas atendo à minha leitura de que, em primeiro lugar, a linguagem é, como tantos outros, campos de disputa. Em segundo, que essas disputas não se ganham com a censura. E terceiro, e mais pessoal, a de que me criei no subúrbio do Rio de Janeiro, onde sempre foi evidente que o humor cáustico e sacana convive em harmonia com as almas mais gentis, e a intolerância é, quase sempre, companheira da sisudez.

Sejamos duros. Combatamos a censura dos proprietários e anunciantes privados e a censura de Estado da ministra Iriny Lopes. Lutemos com ideias, inclusive as bem-humoradas, por uma sociedade mais crítica e inteligente. Mas não com o garrote da censura. Que os deuses de todos as panteões nos protejam de sisudas esquerdas "evangélicas" e moralistas, e do inferno prometido de um socialismo 'amish'".[3]

Outra polêmica foi a da razia contra a obra de Monteiro Lobato, ameaçada de ser retirada de programa governamental ou de ser “explicada” em notas, considerada “racista”. Na ocasião também participei com comentário a um artigo em um Blog:

“A polêmica existe e até morna pela gravidade do fato. E o seu cerne é exatamente a exigência de "notas explicativas" para a circulação da obra nas escolas. Trata-se de censura classificatória e, pior, rotulatória. Por que não um carimbo na capa: racista!

É a liberdade de expressão que está em jogo. As editoras publicarão autores com trechos polêmicos, passíveis de serem incluídos no index do Estado, somados os critérios burocráticos e os programas oficiais de compras de livros?

Aliás, diga-se, a profa. Marisa Lajolo, citada, já se posicionou contra a prática das notas. A pesquisadora critica considerarem-se as crianças como tontas (vejam o texto no link abaixo). Eu diria que são classificados como tontos também os professores e a sociedade.

A profa. Lajolo também questiona certeira: o que as notas explicarão? ‘A nota deve informar ao leitor que ‘Caçadas de Pedrinho’ é um livro racista?’. E quem escreve e/ou decide? Será nomeado um ‘explicador-geral da República’?

O poder de compra do governo orienta práticas no mercado editorial e a cunha do CNE, pode esperar, anuncia outras ações. E aí não me preocupa tanto Lobato, que sobreviverá como Gulliver em Liliput, mas os outros (novos) autores. O que passa a ser suspeito? E como resistirão eles à censura associada de burocracia estatal e mercado?

Por fim seguem o link prometido e uma declaração de Marisa Lajolo, evidenciando a real polêmica. Fla-Flu é dividir a sociedade entre racistas (contra a censura) e não racistas (pela censura) face à liberdade da expressão.

http://www.todospelaeducacao.org.br/comunicacao-e-midia/educacao-na-midia/11293/quem-paga-a-musica-escolhe-a-danca

‘Estamos (no Brasil) em pleno epicentro de uma polêmica nacional: o Conselho Nacional de Educação acabou de proibir a presença do livro ‘Caçadas de Pedrinho’ (de Monteiro Lobato) nos acervos com os quais o Governo Federal provê livros para escolas públicas por considerá-lo racista e por julgar os professores incompetentes para lidar com a questão. Faço parte do grupo de educadores que considera a medida absurda. E vos pergunto: como os Estados Unidos (melhor dizendo, autoridades educacionais norte-americanas) lidam com obras como Tom Sayer, Aventuras de Huck, Cabana de Pai Tomás? Circulam nas escolas? Não circulam? Circulam com informações de que têm conteúdo racista? Tenho o maior interesse em saber, e de antemão fico muito grata.

Abraço.
Marisa Lajolo’."[4]

Mais recentemente, já neste São João del Pueblo, lembrei da censura sofrida pela obra do pintor, e comunista, Cândido Portinari, em livros didáticos. Violência obscurantista concertada por um movimento racialista, sob a ameaça do Judiciário e acatada por editora privada[5].  Reagi também à proposta de censura série de TV O sexo e as nega, antes mesmo de sua estreia, iniciativa obscurantista com um triste acolhimento pelo PCB de Minas Gerais[6]. Não faltou quem questionasse a preocupação com algo tão fútil, pois é aí que reside a questão: a liberdade ao que não gostamos.

Para nós a liberdade de expressão não é algo de somenos, ou coisa de burguês. Insistimos no assunto até porque ele parece deslocado em nossa sociedade, e em nossas esquerdas. Parece por demais sedutora a ideia de apagar o que nos incomoda, ou o que incomoda a quem quer que seja, o que é complicado em 200 milhões de habitantes... Claro, tudo isso implica o arrogar-se em controlar os sentidos presentes nas mais variadas obras e representar parcelas da sociedade que não autorizaram serem representadas. Trata-se, sobretudo, de tentar tutelar a sociedade, até mesmo a infantilizando. É questão essencial para uma discussão entre as esquerdas e, em especial, os comunistas. Afinal, temos mitos a destruir quanto a nossas “tendências autoritárias” e uma nova sociedade a construir... Nela haverá liberdade de expressão?


[1] http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2015/01/1575802-rafinha-bastos-voce-e-realmente-charlie.shtml
[2] Em fins de 2011 a ministra Iriny Lopes, da Secretaria de Política para as Mulheres, pediu a suspensão, de uma propaganda com a modelo Gisele Bündchen ao Conar (Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária), após denúncia de feministas.

Foi o suficiente para que movimentos em defesa das mulheres manifestassem repúdio ao conteúdo da propaganda, endossado pela secretaria do governo federal. A "reação à reação", no entanto, foi ainda mais forte: a ministra foi criticada por supostamente tentar cercear a liberdade de expressão. Para os "críticos da crítica", faltou bom humor ao governo e às feministas.
[3] Comentário ao artigo Rafinha não dançou por machismo, mas por mexer com gente rica, de Gilberto Maringoni. Folha de São Paulo, 10/10/2011. http://cartamaior.com.br/?/Coluna/Rafinha-nao-dancou-por-machismo-mas-por-mexer-com-gente-rica/22793.
[4] Comentário ao artigo Monteiro Lobato, o racismo e uma falsa polêmica, do Blog O biscoito fino e a massa. http://www.idelberavelar.com/archives/2010/11/monteiro_lobato_o_racismo_e_uma_falsa_polemica.php
[5] http://saojoaodelpueblo-pcb.blogspot.com.br/2014/09/a-censura-estatal-privada-sob-o-manto.html
[6] Fiz uma nota pública e a retirei ao ser informado de que havia sido um erro, o que não se verificou, arrependi-me de retirar tal nota.

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