quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Sob Marina crescerão as forças da oposição

Há 12 anos o Brasil vive sem uma oposição eficiente. Os parlamentares de oposição são quase todos de direita, e por isso não podem bater pesado no PT, que faz um governo de direita. Exemplo gritante, existem somente 50 milhões de empregos para uma população de 200 milhões de brasileiros, mas o governo diz que vivemos uma situação de pleno emprego e essa oposição incompetente não discorda, e ainda o confirma até em seus programas eleitorais. Para a direita, ou seja, para capitalistas, o desemprego é uma necessidade, pois é o que achata os salários, e dizem alguns tucanos que o salário mínimo está alto!?!? Além do absurdo da declaração, é flagrante a incapacidade oposicionista dessa gente. A oposição verdadeira, de esquerda, socialista, é minúscula sob o PT, até pela ilusão do proletariado em uma suposta utilidade em se manter esse partido no governo.


Marina aparece como uma saída não tão retrógrada do tempo petista. A massa de trabalhadores pobres do Brasil não engole mais a opção tucana, claramente elitista, capitalista até a medula. O disfarce socialdemocrata do PSDB acabou ainda sob FHC e as últimas campanhas desse partido mostraram-se ainda mais à direita do que o próprio governo que fizeram. Marina tem cara de trabalhadora, foi ministra de Lula, por isso é mais aceitável para o eleitorado, que espera, com ela, sair de baixo do julgo petista sem retroceder. Afinal, se ela foi ministra de Lula a ruptura não seria tão grande. Por isso a vitória de Marina está condicionada ao discurso que ela fizer no segundo turno. Se ela continuar fazendo declarações idiotas, ou seja, capitalistas, vai perder a parte mais avançada de seu eleitorado, ficar só com os eleitores de direita, e perder. Um conhecido teórico de esquerda afirmou que o segundo turno entre Dilma e Marina será uma disputa de promessas ao capital, mostrando que mora na Lua. As ex-ministras de Lula terão que disputar o proletariado, e a que não o fizer com competência perderá as eleições. O apoio explícito do PSDB a uma das candidatas, aliás, pode ser um beijo da morte, derrotando essa candidata.

Em um muito possível governo de Marina, dadas as declarações que ela já fez nessa e na campanha passada, e dados os assessores que a cercam, podemos esperar um grande crescimento de uma verdadeira oposição. A direita, cansada de fazer uma oposição para a qual é incapaz, se apressará a oferecer apoio à nova presidente, acentuando suas tendências liberais. O eleitorado de esquerda, precisando de oposicionistas competentes e honestos, abandonará ainda mais rápido o PT e seus aliados igualmente desmoralizados, cuja inutilidade será agora explícita, e votará nos partidos mais linha-dura, que batem com força. O PT, aliás, será linchado publicamente, pois não terá mais a cobertura do Planalto para se defender das acusações de corrupção, e nunca terá o acobertamento de classe que as elites dispensam aos seus próprios membros, nem a proteção do povo, a quem traiu.

A política econômica de Marina é tão ineficiente quanto a dos tucanos e dos petistas, pois é igualmente liberal em um país que precisa desesperadamente de ação direta estatal. A crença liberal é ainda mais falsa e absurda que as crenças religiosas, e exige muito mais cegueira, embora seja hegemônica em nosso país (as idéias dominantes em uma sociedade são sempre as idéias da classe dominante). Se o governo Dilma se mantivesse, na mesma linha atual, ainda assim teríamos convulsões sociais de grandes proporções nos anos vindouros, mas em um governo que além de não fazer o que é necessário ainda adote medidas liberalizantes teremos uma grave recessão. Se Junho aconteceu sem uma grave recessão, imagine-se o que será do país com a recessão!

A declaração mais idiota feita por Marina sobre economia foi a defesa da independência do Banco Central. Verdade que desde FHC o BC já atua de forma independente, nas mãos do mercado, e que os petistas mantiveram a mesma situação, contudo, oficializar isso é amarrar as próprias mãos, e logo quando a crise econômica bate às portas. O controle do governo sobre o BC existe para valorizar e desvalorizar a moeda conforme os interesses do país. Exemplo simples, se o país está muito deficitário e precisa realizar um valor menor de importações pode desvalorizar a própria moeda, desincentivando as importações e incentivando as exportações, ou pode fazer o contrário se precisar reduzir os custos de vida e de investimento. Controlar o valor da própria moeda é uma questão de soberania e há quem diga, “me dê o controle da emissão de moeda de um país e eu não me importarei com quem está no governo”. Não é de fato catastrófica com querem os petistas a declaração de Marina. Ela está só confessando que não entende nada de economia e que pretende atar as próprias mãos. Um governo posterior minimamente sensato poderá simplesmente desfazer essa independência e ainda investigar os abusos cometidos e colocar na cadeia os envolvidos. A declaração da candidata, porém, comprova que ela não sabe como resolver os problemas econômicos da atualidade, e que está cercada de gente que também não sabe, e que propõem coisas que piorarão a crise.

Para derrotar Marina os petistas estão abusando do “perigo evangélico”, quando sabem que é ridículo imaginar que uma presidente poderá obedecer a um pastor e não a uma coligação de aliados políticos. O governo de Marina não será um governo dos evangélicos, a não ser que ela queira encurtar sua passagem pelo Planalto. Os evangélicos no Brasil cresceram exatamente pelo motivo oposto pelo qual eles surgiram na Europa no século XVI. Lá, nasceram enfrentando uma Igreja Católica medieval, conservadora, enquanto aqui cresceram como viúvas da Igreja Católica conservadora. No Brasil, os evangélicos atuais são a linha dura do catolicismo, revoltados com a Igreja Católica porque ela se tornou tolerante demais. Claro, há exceções, posto que o protestantismo permite praticamente que cada igreja tenha sua linha própria, mas majoritariamente, é movimento de “fundamentalismo” religioso (entre aspas porque na verdade eles não se apegam a nenhum fundamento, mas só a preconceitos mesmo). Ao mesmo tempo que isso torna essas igrejas perigosas, também as tornam isoladas e impossibilitam, como alguns temem, um governo religioso. O “perigo evangélico” é, hoje, só um bicho papão usado pelos petistas para tentarem se manter no Planalto. O governo de Marina, aliás, deve desmoralizar os políticos evangélicos como um todo, fortalecendo dentro das igrejas o movimento para não se misturar religião e politicagem. Se as igrejas evangélicas continuarem se comportando como partidos políticos, não tomarão o poder, mas perderão adeptos, serão cada dia mais atacadas e logo estarão pagando impostos.

A bandeira verde só complica ainda mais a situação de Marina em caso de vitória, pois presa à crença liberal qualquer medida ambientalista reduz produtividade, encarece preços, dificulta investimentos etc. A única maneira de se combinar desenvolvimento econômico com preservação ambiental é uma economia planejada e controlada por um Estado forte. Exemplo claro, os descartáveis. Obviamente o interesse ambiental é não produzir mais descartáveis, mas somente produtos recicláveis e de uso prolongado, reduzindo os gastos em matéria prima, em energia e reduzindo a poluição. Contudo, em uma economia de mercado, ao contrário, o necessário é vender sem parar, e para isso não há nada melhor que descartáveis. Proibir os descartáveis, coisa que ninguém nem propõe, seria o mesmo que quebrar o país imediatamente, fechando milhares de fábricas. Só em uma economia planejada tal medida seria possível, pois nesse caso fechar fábricas não geraria problema algum, sendo que o Estado poderia garantir os empregos, adaptar as máquinas e os prédios etc., como já se demonstrou no século XX. Mas, como sabemos, nem se quiser, e não quer, Marina estabelecerá uma economia planificada, então ou bem ela decepcionará todos os seus eleitores verdes, que naturalmente virão para as fileiras da oposição, ou defenderá medidas que complicarão a já frágil economia, sendo muito possível que ela faça ambas as coisas.


De qualquer forma, pelo pouco que se pode deduzir por enquanto, já sabemos que Marina engrossará a oposição nos parlamentos e nas ruas. Ela realmente deve trazer o espírito de Junho, mas não porque conseguiu o incorporar, mas porque depois de alguns meses decepcionando os eleitores todo mês será Junho!

2 comentários:

Choldraboldra disse...

Um bom texto... Mas uma vitória da Marina iria deslocar as forças que agora apoiam o governo, e estas passariam a apoiá-la...

Alex Lombello Amaral disse...

Note que isso não nega meu texto em nada... As forças que estão com o governo SÃO de direita. O PMDB, por exemplo, já afiançou que apoiaria Marina.

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