quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O SOCIALISMO AVESTRUZ DE LUCIANA GENRO E O PAPEL DAS ELEIÇÕES PARA AS ESQUERDAS




Wlamir Silva
Professor
Historiador


Em entrevista num programa de humor, questionada sobre milhões de mortos dos regimes comunistas, a candidata do PSOL Luciana Genro ensaiou uma réplica com as mortes do capitalismo, mas reagiu, de fato, dizendo que o seu socialismo não tem nada a ver com tudo aquilo e, por fim, mandando o apresentador “estudar”.

O grau de despolitização de nossa sociedade, bem apontado pelo candidato do PCB, Mauro Iasi, somado ao enorme impacto midiático das redes sociais, faz com que lances menores e frases de efeito ganhem enorme repercussão. Muitos comemoram que Luciana Genro “sambando” sobre o apresentador, seja lá o que isso queira dizer.

Noves fora o fla-flu das redes sociais, que tem o condão de manter cada um na sua posição original, de parte a parte, resta o incômodo de lidar com a experiência socialista. Observe-se que o questionamento, feito de forma tosca, juntava Revolução Russa, União Soviética, China, Camboja, Cuba etc. A forma simplória em nada ajudou Luciana Genro a descartá-lo. Por quê?

As próximas eleições não vão trazer mudanças profundas, nem estancar mudanças profundas que, supostamente, estariam em curso. O que não quer dizer que mudanças pequenas não sejam importantes. De todo modo, tal decisão está longe das candidaturas minoritárias. Então, qual o papel destas candidaturas?

O apresentador Danilo Gentili deu o troco da grosseria vazia do “vá estudar” com um “você pedir voto não deixa de ser uma piada”... Se Luciana estivesse ali realmente em busca de uma vitória eleitoral seria um tolo erro de marketing: estigmatizar o humorista frente ao seu público. Mas sabemos que a questão não é essa. O que incomoda Luciana Genro?

O “vá estudar” é, sim, uma grosseria. Mas muito maior do que uma grosseria, e, sobretudo, do que uma grosseria pessoal. Com relação à experiência histórica do “socialismo real”, o professoral desdém de Luciana Genro pode ser estendido ao conjunto da sociedade, mesmo a setores escolarizados ou universitários. É o conjunto da sociedade que se estigmatiza.

É claro que o espaço de tempo era curto. Mas o recado da candidata foi o de juntar toda a experiência socialista indiscriminadamente – Lenin e Pol Pot, URSS e China... – e jogá-la, assim, na lata do lixo. Ademais a resposta de que as ideias “puras” de Marx nunca foram postas em prática é inaceitável, idealista, a-histórica e, claro, insustentável.



Se Luciana Genro fosse realmente presidenciável, o não enfrentamento mínimo de um processo cheio de contradições e dificuldades se justificaria pelo marketing eleitoral. Mas se Iasi, José Maria ou ela fossem candidatos com chances, seria outra eleição, outro patamar de politização. Não o sendo, a candidata replicou apenas a provocação tosca.
  
As experiências socialistas são uma questão de difícil “digestão” mesmo entre nossas minúsculas esquerdas. Quanto ao passado e o presente. O que une China, Cuba e Coréia do Norte? A China é socialista? A ilha Cuba é um modelo? A Coréia é uma caricatura? E se pretende que isso não seja uma questão? Resolver com um “não tenho nada com isso”?

O que significaram Lenin, Trotsky e Stalin, Mao Tsé-Tung? Isso para além das anacrônicas, simplórias e inúteis querelas domésticas “de esquerda”. E a experiência anterior da social-democracia alemã e do espartaquismo de Rosa Luxemburgo? O que tudo isso nos têm a dizer no mundo “globalizado”, na “sociedade informática”?

Por que “caiu’ o bloco soviético? Por falta de planificação econômica ou excesso dela? Por não atender às demandas de consumo? E não havia como equilibrar planejamento e consumo? E o regime político porque se mostrou tão frágil? Ele era representativo? Como e por que ecoou tão forte naquelas sociedades uma visão de mundo burguesa? Como e por que emergiu da burocracia estatal uma concentrada burguesia?

A China e sua expansão industrial acelerada, que produz bilionários e conglomerados, é socialismo? As reformas cubanas de abertura ao mercado e diminuição do Estado são socialistas? O regime militarizado e pessoal da Coréia é socialista? O que estes modelos econômicos e políticos nos têm a dizer?

É claro que, como bem observou Luciana Genro, não se trata de importar modelos, mas muito menos de agir como avestruzes. Até porque quando as avestruzes tentam esconder suas pequenas cabecinhas deixam à mostra o corpanzil emplumado... Para as esquerdas que têm como horizonte o socialismo esta não é uma opção.


Cabe aos que desejam construir o socialismo – como perspectiva de organização da sociedade e não como mero patrimônio ético – enfrentar estas questões. E, mais, entender que elas dizem respeito ao conjunto da sociedade, ao conjunto da classe trabalhadora, que, acreditem, mal a conhecem, que dirá a estudaram.

E tudo isso se dá num quadro político de longo prazo, no qual não há atalhos ou místicas de aligeiramento. A pressa aí é apenas retardar o trabalho longo e árduo necessário. Assim, ao invés de frases de efeito, melhor aproveitar as eleições para avançar a tarefa histórica dos que não podem e não querem livrar-se dela, a história, e suas complicações.

PS. De fato, os avestruzes nunca enterraram a cabeça na terra, mas também ninguém conseguiu descartar a história... rsrs.


7 comentários:

Alex Lombello Amaral disse...

Só um triste detalhe - essa abordagem de que não existiu socialismo é generalizada entre os trotskistas. rsrsrsrs... Eles acham que podem defender o socialismo assim, negando que os regimes socialistas do século XX tenham sido socialistas... rsrsrsrs... É muita inocência!

Wlamir Silva disse...

Nada é novo, não é Alex... Lembra-se do capitalismo de Estado do PCdoB? Tanto a discutir, tão pouca coisa acumulada, e gente preocupada com o "Sexo e as nega"... rsrs

Rafael Tcheba disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rafael Tcheba disse...

A minha candidata continua sendo a Luciana Genro. Mas ela perdeu uma enorme oportunidade de avançar no debate em questão.

Negar a existência do socialismo só porque "não foi como Marx preveu", como se ele fosse Mãe de Ná e não filósofo, é de uma inocência ou de uma ignorância enorme.

Venho tentando compreender o papel das candidaturas pequenas e de esquerda já há algum tempo. Se ainda não tenho total noção do tema, acredito que fatos como esse nos ajudam a responder à questão: a luta política por meio das eleições deve ser, no mínimo, pedagógica! Se não é possível alcançar a maioria dos votos do eleitorado num curto prazo, que pelo menos o façamos pensar. É fundamental aproveitar espaços como esse, de maneira consciente, para construir uma cultura política menos cega (parece muito torcida de futebol!). E não é se esquivando de questões assim que podemos cumprir tal tarefa. O gigante anencéfalo de julho do ano passado se manifesta através de avestruzes como esse, rsrs.

Entretanto, penso que na maioria das vezes a Luciana cumpre essa demanda. Escorregou? Sim. Demais! Mas tô esperando é o Wlamir se candidatar preu poder votar nele, hehe.

Aloísio Silva disse...

Na eleição se disputa votos. E o PSOL faz isso. Seria um erro não fazer. Vai ser complicado fazer um debate desses num período eleitoral, onde se faz tudo - de menos "política". Mais num programa "tosco" e com apresentador mais "tosco" ainda. A Genro não é teórica como o Iasi. Ele sai bem fazendo a defesa de Cuba na questão social. Ela diz que aquilo lá não é democracia e torna-se "ficha limpa" diante da "opinião pública" brasileira. Nesse sentido, a opção dela, assim como a do PSTU, levam ao utopismo. Isso é diferente, por exemplo, da opção do PCdoB que assumi como positiva, numa boa, o socialismo monárquico norte-coreano. A opção do PCdoB confirma uma ideia (negativa) sobre o comunismo que a sociedade brasileira imagina. No entanto, o que temos que discutir realmente são os problemas do Brasil. E por aqui quem morreu aos milhares foram justamente os comunistas!

Alex Lombello Amaral disse...

Sobre uma parte do debate, referente aos pequenos partidos, eles disputam meio que uma série B das eleições. Disputam entre si, sobretudo os de esquerda, em uma medição de forças que na minha opinião é infantil.

Wlamir Silva disse...

Há quem tenha entendido que achei que a Luciana deixou de defender o socialismo. Não é bem assim, ela podia ter "aberto" suas dúvidas, apontado para a necessidade de discussão... Somos alijados da real disputa mas, ainda assim, capturados pela lógica marqueteira que não admite dúvidas...

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