domingo, 29 de junho de 2014

Papa Francisco não entende diferenças entre cristianismo e comunismo

O Papa disse que o comunismo tenta roubar da igreja a “bandeira dos pobres”, e que como o cristianismo tem quase dois mil anos a mais que o marxismo, então os marxistas são cristãos. Essas declarações foram em resposta a declarações ainda mais absurdas, de que o Papa seria leninista porque critica o capitalismo. O Papa ao menos deu provas de entender o que é o cristianismo, coisa que não se pode dizer nem de um por cento dos “cristãos” atuais, que são anti-cristãos em praticamente tudo o que pensam e fazem, mas o animal que chamou o Papa de leninista não entende nem o cristianismo, muito menos o marxismo, e portanto não conseguir entender um só parágrafo de Lênin.


Em primeiro lugar, o marxismo não tem nada a ver com pobres e com pobreza, não é igualitarista, nem distributivista, mas o cristianismo era. As piadas que os capitalistas fazem sobre os comunistas na verdade se aplicariam aos verdadeiros cristãos, mas para isso teriam que ser um pouco mais extremistas. Vamos ao exemplo da clássica piada dos tênis, em que um jovem vai se filiar ao Partido Comunista. Então o secretário do Partido pergunta: “Se você tivesse duas casas, daria uma ao Partido?” É uma piada que demonstra completa ignorância sobre o marxismo, confundindo o marxismo com distributivismo e igualitarismo, mas poderia se aplicar ao cristianismo, contanto que fosse formulada assim: “Se você tivesse UMA casa, a VENDERIA e doaria TODO o dinheiro à comunidade cristã?” O cristianismo do século I era assim, igualitarista e distributivista até o último centavo. Já o comunismo de Marx e Engels sequer veta a filiação de ricos ao Partido. O próprio Engels era rico e assim ficou até morrer, no comando do movimento marxista mundial. Marx também não nasceu pobre. Fidel e Raul Castro eram mais que ricos, latifundiários. Mao Zedung e Lênin não eram ricos, nem pobres. Astrogildo Pereira, fundador do PCB, era de uma família dominante em uma pequena cidade da roça.

O movimento cristão não só defendia os pobres, mas idolatrava a pobreza, obrigando seus membros a se reduzirem à pobreza. Já no marxismo o único papel que se reconhece da pobreza é como um dos pilares de sustentação do capitalismo, e mesmo uma das raízes sem a qual o capitalismo sequer poderia ter nascido. A revolução industrial só foi possível na medida em que existiam milhões de pessoas na miséria e portanto dispostas a trabalharem por salários de fome, e até hoje o capitalismo precisa da pobreza para ter trabalhadores e salários baixos.

O marxismo não é um movimento “dos pobres”, nem tenta ser. O Partido Comunista quer crescer entre todas as classes sociais, e prioriza a classe que considera mais capaz, que é o proletariado, com destaque para seus setores operários. Não é preciso ser muito informado para saber que os operários estão longe de serem os mais pobres em nossa sociedade. A decisão de Marx, de apoiar o proletariado, se baseia no estudo da história humana nos últimos milhares de anos, quando as forças principais que geram grandes transformações são as classes sociais. Portanto, a única forma possível de intervir conscientemente na história humana seria apoiando e fortalecendo determinadas classes sociais. Seria necessário apoiar uma classe, em primeiro lugar, capaz de tomar o poder, mas ao mesmo tempo, cujos interesses materiais coincidam com o fim das classes sociais. O proletariado já demonstrou, desde a época de Marx, sua capacidade de chegar ao poder, e como classe produtora de todas as riquezas, só pode ter o interesse econômico de abolir as classes sociais.

Marx não tentou prever o que seria a sociedade sob domínio dos operários, e nem interessa, e aliás é certo que o poder operário pode assumir uma infinidade de formas e pode adotar uma infinidade de políticas completamente diferentes entre si e até opostas. Talvez em algum país operários sob influência cristã sejam igualitaristas e distributivistas, mas é fácil imaginar que quase sempre adotarão um critério nada igualitarista, aliás defendido por Marx como o mais eficiente quando o capitalismo tiver caído a pouco, que é “a cada um segundo o seu trabalho”.

Provavelmente o Papa Francisco leu o Manifesto Comunista, mas por algum motivo desconsiderou a parte em que Marx e Engels traçam as diferenças gigantescas entre o cristianismo igualitarista dos primeiros e verdadeiros cristãos e o comunismo do Manifesto. O engano do Papa é aliás, comum, praticamente generalizado. As pessoas afirmam que Cristo era comunista acreditando que o era como Marx, e também acreditam que Marx era igualitarista e distributivista como Cristo. Não é simples desinformação, porque de fato pode-se explicar a um capitalista vinte vezes que as coisas não são assim, mas ele “esquecerá”, esquecerá que Cristo era igualitarista e distributivista para assim poder continuar se dizendo “cristão”, e esquecerá que o marxismo é completamente diferente do cristianismo e voltará a criticar “o comunismo” como se esse fosse o cristianismo. O conhecimento de cada ser humano parece estar limitado involuntariamente, como podem perceber os professores (caso do autor desse texto). Os capitalistas revelam-se de inacreditável incapacidade para compreenderem o marxismo. Têm uma resistência doentia a estudar qualquer obra que saibam ser marxista, e quando estudam esquecem as partes que lhes são muito desagradáveis. Dando aulas de história nota-se que alguns conteúdos, embora simples, enfrentam resistência de aprendizagem, sendo repetidamente esquecidos. Por exemplo, não é complicada a informação de que todo Estado que já existiu era ou é na realidade uma ditadura de classe, mas os estudantes resistem a aceitá-la.

Já o desinformado que disse que o Papa é leninista conseguiu revelar uma ignorância assustadora nessa declaração. Primeiro, ele revelou que desconhece que já existiam críticas ao capitalismo antes mesmo de Marx nascer, inclusive vindas de setores cristãos. Para esse exemplar do “pensamento” capitalista atual, toda a crítica ao capitalismo é marxista!?!? Obviamente, um gênio desses não podia nem imaginar o que é o leninismo. Ele deve pensar que o leninismo são críticas ao capitalismo, como aliás acreditam os capitalistas em massa. Noventa por cento do leninismo é o estudo sobre como se faz uma revolução proletária, ou seja, algo do qual o Papa Francisco passou longe.

Voltando às declarações do Papa, deixemos claras algumas coisas. Nós comunistas (marxistas) respeitamos o movimento cristão verdadeiro dos séculos I e II como exemplares antigos de luta por justiça, talvez até como ancestrais distantes do marxismo. O Manifesto Comunista trata do comunismo cristão lado a lado com os socialismos utópicos. Esse movimento, porém, morreu, acabou e fracassou, porque não tinha mesmo nenhuma possibilidade de sucesso. O igualitarismo, aliás, não é justo, e o distributivismo também não, assim como não são eficientes nem para a economia, nem como movimento político. Os próprios cristãos só tinham essas práticas porque aguardavam o apocalipse para breve, de forma que não tinham preocupações econômicas e políticas.

O que existe hoje, o catolicismo tanto quanto as igrejas protestantes, longe de serem cristãos, carregam a moral romana e judaica. Praticamente tudo o que a igreja católica manteve de Cristo é o que este herdou do judaísmo. As inovações propriamente cristãs foram descartadas. Publicamos um artigo sobre isso há alguns anos, chamado O Cristianismo, o catolicismo e o comunismo, aqui mesmo no São João del Pueblo.

O movimento comunista não é cristão porque é a superação do cristianismo assim como de todas as utopias. O movimento comunista nasce também do fracasso do cristianismo e outros socialismo utópicos. Depois de dois mil anos, tempo que bem ressaltou o Papa, de fracasso das diversas táticas cristãs, desde a original, passando pela caridade, pelo movimento monástico, por revoluções de inspiração religiosa, enfim, dentro do próprio mundo cristão, compreendeu-se que não se pode esperar um mundo melhor das boas intenções, da consciência, do amor etc., mas sim que se deve arrancar um mundo melhor de humanos imperfeitos, mal intencionados, inconscientes e odiosos, usando a ciência!

É por isso que o marxismo nunca foi igualitarista, nunca inventou regras para uma sociedade perfeita, nunca impôs limites de propriedade, não cultua a pobreza, nem condena os ricos. Por uma perspectiva científica nada disso faria sentido. O poder humano de transformação da natureza se baseia em seu conhecimento sobre ela, e não em sua vontade, ou seja, não é contrariando o conhecimento sobre a natureza que se transforma essa natureza. Assim também, a vontade dos pensadores que inventaram utopias não vale nada se contrariar as forças que realmente movem as sociedades.

Os estudos marxistas indicam que a forma de acabar com a pobreza não é a distribuição de bens, que sequer é possível. A forma de acabar com a pobreza é o desenvolvimento tecnológico extremo, mais exatamente, o crescimento das forças produtivas em um patamar que ainda não podemos imaginar. A distribuição já está determinada quando se realiza a produção, pois então já se define se as matérias primas, a energia e a mão-de-obra disponíveis serão gastos com bens de luxo ou com bens de consumo populares. O marxismo aplaude cada passo no desenvolvimento tecnológico, elogia o capitalismo como um modo de produção no qual as forças produtivas avançam mais rápido do que avançavam em antigos modos de produção, mas denuncia que o capitalismo dificulta e as vezes trava esse desenvolvimento, que poderia ser muitas vezes mais rápido sob domínio proletário.

Em resumo, quando se estuda mais a fundo o marxismo, nota-se que ele é totalmente diferente de tudo o que os não-marxistas imaginam, e inclusive é muito diferente do cristianismo, que por sua vez também é completamente diferente do catolicismo, como se pode estudar no artigo indicado.

Mais informações em: O Cristianismo Primitivo, com textos de Engels e Rosa Luxemburg.

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