sexta-feira, 21 de junho de 2013

E já vai terminar - Sem projeto, sem partido, sem chance de vitória


Como tenho escrito artigo após artigo, o antipartidarismo das manifestações é um nítido sintoma de falência do regime político da Constituição de 1988. Os partidos são a parte do sistema político que tenta ser popular. Se a parte que tenta está tão impopular, o que dizer da parte que não tenta? Tenho notado que algumas pessoas desatentas acham que por isso eu também sou antipartido, quando na verdade sou membro do Partido Comunista desde sempre. Mas certamente, antes de me filiar, tive repulsa por todos os partidos, e até hoje tenho repulsa pela maioria deles. Não há brasileiro que goste da maioria dos partidos, há no máximo aqueles que gostam do próprio partido e atura os aliados.

O Partido Comunista, porém, não é um partido como os outros, não é uma quadrilha para escalar os cargos públicos, é uma organização para construir uma Revolução e a partir daí criar uma verdadeira República, verdadeiramente democrática, ou seja, governada pelos trabalhadores e não por políticos profissionais. Como historiador, logo notei que não é possível nenhum movimento, nem mesmo um levante, uma revolução, obter sucesso na atualidade sem uma organização científica, que consiga enxergar ao longe no tempo e no espaço, de forma a conseguir ensinar os caminhos.

Eis ai esse movimento, já vai acabar. A redução das passagens deixou o movimento sem bandeira, ou com uma bandeira pela metade. O tamanho das multidões e a variedade de grupos deixou os organizadores sem controle, com medo das possíveis conseqüências, e o Movimento do Passe Livre de São Paulo acaba de anunciar que não convocará novas manifestações. Agora a TV e a polícia acabarão de linchar os pequenos grupos que insistirem em continuar na festa que acabou.

Fato é que o Movimento do Passe Livre não planejou que as coisas chegassem a essa dimensão. A repressão policial foi que levou as massas para as ruas e transformou um protesto de bandeira meramente econômica em um protesto político. Os cartazes deixaram muito claro a grande insatisfação com a “política brasileira”, um sentimento, ainda nada racionalizado. Um sistema político e os partidos são indissociáveis, mesmo aqueles partidos, como o meu, que defendem outro sistema político. Os manifestantes podem não entender isso, mas sentem, assim como sentem que a polícia, as TVs, os bancos etc. fazem parte do mesmo sistema. O MPL não tinha e continua não tendo um projeto de país. Não foi criado para isso, mas para uma pauta específica, o passe livre, e se resolvesse ter projetos para outras coisas, se dividiria. Então, quando o movimento tornou-se de contestação do sistema político, o MPL manteve-se agarrado ao passe livre, e agora é obrigado, por prudência (e acho que está certo, antes que a violência piore a toa, porque seriam mortes sem resultados), a recuar em São Paulo, exemplo que será seguido em outras cidades de acordo com as circunstâncias referentes às passagens de ônibus.

Não ter projeto e não ter partido é a mesma coisa, embora no Brasil, dada a crise partidária criada pela própria Constituição, isso não seja muito claro. Parte da fraqueza dos partidos revolucionários é resultado de sua falta de projetos claros e detalhados. Falam vagamente de socialismo e de poder popular, mas isso não é projeto, são conceitos teóricos, que só interessam a nós mesmos. Pior ainda, alguns partidos pretensamente revolucionários parasitam sindicatos e entidades estudantis da mesma forma que os grandes partidos parasitam o estado, usando inclusive miniaturas do mesmo regime político, para poderem dizer que parasitam por culpa dos eleitores, em um e outro caso. Portanto a repulsa de muitos manifestantes tem suas razões, além da ignorância. Há alguns anos eu já defendo que o Partido Comunista não leve bandeiras para certas manifestações (há casos e casos) porque já notei o descontentamento e a artificialidade.

Eis a tragédia atual do Brasil. Não é o antipartidarismo, é a falta imensa de um Partido que consiga criar um projeto que resolva os problemas que existem. Não um projeto de governo, mas um projeto de Constituição. Sem projeto, e sem organização, como a história já está farta de nos ensinar, não há vitória. Teremos que nos contentar com centavos.

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