domingo, 13 de maio de 2012

Resposta ao camarada Sílvio sobre a crise do marxismo




Em sua carta de desfiliação do PCB, o camarada Silvio, de Borda da Mata, que todos continuamos respeitando, fez uma interessante avaliação sobre a situação atual do marxismo, que precisamos debater. O trecho que nos interessa é o seguinte:

Além disso, apesar de proibirmos a existência das correntes internas no Partido, sabemos da existência de inúmeras tendências. Muitas delas conflitantes entre si. Marx afirma que o capitalismo, pelas suas características, traz em seu seio a semente de sua destruição. Acredito que isso também se deu com o marxismo. O socialismo marxista, logo após a morte dos dois maiores expoentes dessa ideologia/filosofia, começou a cavar a sua "sepultura". Esse fato se dá em virtude de cada liderança que esposa o marxismo ter adaptado esta ideologia para o momento em que vivia, tornando-a mais eficaz de acordo com as especificidades táticas do momento, de acordo com as peculiaridades de cada sociedade onde se desenvolvia a luta. Isso aconteceu na URSS, com o leninismo; na China com o Maoismo; em Cuba, com o foquismo, etc. Além dessas interpretações peculiares do marxismo que acabaram sendo vitoriosas em seus países, existem outras que nunca conseguiram chegar ao Poder, tais como o trotskismo, luxemburguismo, etc.

Levando-se em conta que cada adaptação utilizada foi fruto da crítica às outras correntes já existentes, de que foi uma tentativa de aperfeiçoamento do marxismo, muitas das correntes criadas, desgarradas, acabaram, muitas vezes, se tornando uma antítese do marxismo. Principalmente porque as correntes sempre disputam entre sí o epíteto de descendente direta de Marx, ou de Lenin (a interpretação que melhor se adaptou ao seu tempo), e principalmente a hegemonia na classe operária. Isso faz com que elas sejam concorrentes entre si. E mais que isso. Essas correntes se comportam como inimigas. Essas disputas são tão absurdas que chegaram a ir a campos de batalha em lados opostos, como aconteceu em Angola, com Jonas Savimbi (Unita) apoiado por China e o MPLA pelos soviéticos, ou mesmo na URSS, onde “trotskystas” e “stalinistas” fizeram praticamente uma guerra civil entre si.

Mesmo na atualidade encontramos dezenas, talvez centenas de correntes pretensamente marxistas concorrendo entre si, e facilitando e perpetuando o capitalismo. Mesmo dentro de um mesmo partido encontramos diversas correntes "marxistas" (luxemburguistas, stalinistas, trotsquistas, gramcinianos, lukacsistas, titistas, etc). Esse movimento correntista já estava presente entre os revolucionários ao tempo de Lenin. Entretanto aquele Camarada tratava os divisionistas-diversionistas a pau. Por isso o Partido tinha uma atuação mais coesa. Após a morte de Lenin várias lideranças se assanharam para assumir seu posto. E cada uma dessas lideranças tinha fórmulas distintas para a aplicação do marxismo à sociedade. Como não aconteceu uma hegemonia avassaladora de uma corrente sobre as outras, se perpetuou o divisionismo, este mal acabou se perpetuando até a presente data. Isso trouxe indisfarçável prejuízo à classe trabalhadora que tem atuado dividida, ou mesmo perdido a confiança de que os marxistas são seus legítimos representantes, e adotado ideologias estranhas como guias de suas lutas.”

O camarada descreve com clareza e elegância o acontecido, mas sua avaliação, suas conclusões, não correspondem à realidade do marxismo nem de nenhuma ciência. Se o marxismo dependesse de Marx e Lênin para existir é que estaria morto, não seria uma ciência, mas uma moda, como querem os capitalistas. As ciências não vivem de certezas, de estabilidade, de unanimidades, a ciência é movida pela dúvida, pela crítica. Por isso o marxismo viveu sim uma crise durante o século XX, mas foi enquanto existiu a União Soviética, pois o sucesso da URSS impedia as críticas marxistas ao marxismo. O marxismo de fato produzirá sua própria destruição, e Marx, se aceitasse a existência de um marxismo (ele não gostava disso) teria concordado com a inexorabilidade desse fim, pois essa é a filosofia marxista, todas as coisas produzem a sua própria destruição. Mas isso está longe de acontecer, porque se tivesse acontecido, essa nova teoria, superior ao marxismo, estaria provando o seu sucesso, e hoje, com internet, saberíamos na semana seguinte e todos os verdadeiros marxistas se passariam para ela, pois seria mais eficiente para destruir o capitalismo.

De certa forma, Lênin já superou Marx, sobretudo no assunto “como fazer uma revolução”, e por isso temos que falar de marxismo-leninismo, e não só de marxismo. Os outros teóricos que surgiram contribuíram mesmo quando erraram, porque alguém precisa errar para os outros acertarem, mas eles não chegaram nem perto de superarem a teoria marxista-leninista. Se eu precisasse apostar, diria que o marxismo será superado quando já não existir capitalismo no mundo e for necessária uma nova teoria para cuidar de novos problemas.

Por isso discordo do camarada quando diz que Lênin enfrentava as divergências e divisões “a pau”. Uma observação atenta das obras de Lênin e Stálin mostra o contrário. Esses camaradas debatiam exaustivamente com seus oponentes no campo socialista, e os derrotavam no campo das idéias, respeitosamente. Lênin usava palavras duras, mas sua força estava nos argumentos. Por esses mesmos escritos nota-se que os jornais do Partido publicavam todos os artigos, mesmo com as mais disparatadas idéias. Depois elas eram respondidas. A pau é como no Brasil nos tratamos uns aos outros os camaradas, como Silvio muito bem ressaltou. Lênin não tem nada com isso.

A idéia do camarada de que o marxismo se destruiu por subdivisões é uma incompreensão de como funciona uma ciência.  Quando um biólogo darwinista desenvolve um novo remédio, muitas vezes ele o faz a partir de uma pesquisa em que ele questionava alguma das posições de Darwin. Existem diferentes correntes darwinistas, einsteinianas etc., e muitas vezes elas nasceram de um sucesso e geram outros sucessos. Também fracassos, o camarada pode me responder, mas assim é que vive a ciência. As correntes marxistas não são a morte do marxismo, muito embora um dia alguma corrente marxista possa vir a superar o próprio marxismo, elas são de fato a prova de que o marxismo continua vivo.

Então, de fato, algumas correntes não deram resultados vitoriosos, como o luxemburguismo, e algumas são fracassos completos, como o trotskismo, mas as vitórias todas vieram do surgimento de correntes, que foram o desenvolvimento do marxismo para compreender diferentes realidades. Não haveria Revolução Soviética sem leninismo, nem Revolução Chinesa sem maoísmo, nem Revolução Cubana sem as peculiares idéias do comandante Fidel Castro, nem Revolução Vietnamita sem Ho Chi Minh e mesmo sem um gênio da guerra revolucionária como o general Giap. Nenhuma revolução nasceu diretamente dos livros de Karl Marx, sem o desenvolvimento de um teórico local.

Portanto, o problema do marxismo no Brasil não é que existam concepções diferentes. O problema é que são todas cópias, é que não existe uma produção marxista nacional, própria, independente. Essa produção, sim, foi reprimida a pau desde a década de 20. Quando o Partido Comunista nasceu no Brasil o marxismo iniciava sua longa hibernação, deixando de se desenvolver quase no mundo todo, sendo somente e mal divulgado. Isso se somou às características nacionais, pois somos um país cuja primeira editora surgiu há menos de 200 anos. Os dados da UNESCO mostram que o Brasil é campeão sul-americano de ignorância, para usar logo a palavra verdadeira. O resultado foi que os poucos marxistas brasileiros que se atreveram a produzir foram tratados “a pau”, a não ser que tratassem de assunto onde não entrassem em conflito com teóricos estrangeiros.

Aliás, até hoje impera no movimento comunista brasileiro uma cultura anti-debates, uma cultura de segredos, de "assunto internos", que tem mais haver com o fascismo e com seitas secretas do que com Marx e Lênin. O partido de Lênin, mesmo na mais fechada clandestinidade, quando o tzarismo matava revolucionários aos montes, debatia abertamente em seus jornais. Os artigos e livros de Lênin e contra Lênin são provas disso. Para preservar os camaradas usava-se pseudônimos, sendo que Lênin mesmo não era um nome existente nos registros tzaristas, mas os conflitos teóricos eram abertos, francos, sinceros até a grosseria. O jornal impresso por Lênin publicava artigos atacando Lênin e as posições de Lênin, que depois os respondia. Digam o que tiverem dito o próprio Lênin e outros marxistas posteriores, não é possível chegar a nenhuma conclusão diferente quando se lê a documentação. Não havia, nos partidos que fizeram revoluções, nada parecido com essa cultura do silêncio que reina no movimento comunista brasileiro, dentro dos partidos comunistas e até entre eles. Até para um PC criticar o outro, atualmente, isso se faz em conversas particulares mais que em textos. As cartas de despedida dos camaradas Rafael e Sílvio foram exemplos disso. Eles não as publicaram em blogs, nem em comunidades na internet, só as enviaram para alguns camaradas. Que sentido tem isso? Preservar o Partido e o movimento comunista? É assim que se preserva um partido, ao invés abrir um debate público em que todos os camaradas possam opinar o próprio Partido possa se defender ou aprender e avançar, cria-se mais um motivo de conversinhas e fofocas? Lênin deixaria um partido desse jeito?

O movimento comunista está vivendo uma crise (note-se que uma crise do movimento comunista não é necessariamente uma crise do marxismo), mas as crises é que produzem soluções. O Partido não pode se fechar à diversidade atual do movimento comunista. Ainda não surgiu a linha marxista que terá sucesso no Brasil, e quando ela surgir não será necessário reprimir as demais. O seu sucesso será percebido exatamente pelo esvaziamento de todas as outras, e será provavelmente a síntese de todas. Definir uma posição só significaria explodir o Partido em um monte de grupelhos. Eu defendo exatamente o contrário do camarada Silvio, eu defendo uma anistia ideológica geral, incluindo teóricos, camaradas falecidos e vivos. Que sejam declaradas nulas todas as condenações resultantes de brigas de correntes nesses 90 anos de história do PCB. Que sejam resgatados e estudados os textos dos camaradas mesmo que tenham sido banidos e considerados “pequeno-burgueses”, “trotskistas”, “anarquistas”, “social-democratas”, “stalinistas” etc., pois os camaradas de hoje têm discernimento para julgarem eles mesmos qualquer texto.

Sem abrir mão do centralismo democrático, o Partido Comunista Brasileiro precisa reconhecer a variedade de concepções marxistas em seu seio, assim como terá que reconhecer a variedade de realidades dentro do Brasil e seus necessários e desejáveis reflexos sobre o Partido. Essa variedade não deve ser sempre uma fraqueza, ela deve se tornar uma riqueza e ajudar a construir a revolução brasileira.

Um comentário:

Cem Flores disse...

Alex,
Tendo em vista nossa concordância com vários pontos de sua argumentação, gostaríamos de postar esta sua carta em nosso blog para que possamos, de forma respeitosa, tentar reforçar através de um breve comentário alguns aspectos que acreditamos serem fundamentais no debate sobre a crise do marxismo levantados em sua argumentação.
Não debateremos a questão da saída do PCB do camarada Silvio, haja vista não termos dados, bem como, não ser, pelo que entedemos, uma discussão pública.
Atenciosamente,

Equipe do blog
"Que cem flores desabrochem! Que cem escolas rivalizem!"
http://cemflores.blogspot.com

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