domingo, 4 de março de 2012

Carta ao Alex sobre o Esquerdismo

Camarada: Gostei muitíssimo de seu texto sobre o Esquerdismo e gostaria de fazer algumas observações a respeito dele. Nele você fala da dificuldade em organizar a militância e fundar as células nas cidades do interior, assunto que me interessa bastante. Em primeiro, gostaria de opinar sobre esse assunto que o motiva a escrever, o esquerdismo tal como definido por Lênin.


Em primeiro, ao tratar dele, você reclama com razão de uma má vontade com as eleições que se pode observar na resposta do holandês Anton Pannekoek em uma carta em resposta a Lênin. O principal argumento de Pannekoek é que um russo como Lênin, que viveu sempre sobre o absolutismo, não pode conhecer a estrutura que é a democracia capitalista holandesa, que Pannekoek pretendia desmontar a partir da base, sem participar de eleição alguma. No entanto, para desmontar tal estrutura, concordo com Lênin que seria preciso lutar dentro e fora dela, justamente pelo fato dela ser forte. Mas o fato é que ali, Lênin fala a partir do ponto de vista de alguém que pode dar lições sobre como conduzir a revolução, pois está à testa de uma revolução vitoriosa. Não estando à testa de uma experiência bem sucedida, parte dessa autoridade se esvai. Pode-se dizer que, hoje em dia, o esquerdismo é bem mais disseminado do que o marxismo-leninismo tradicional. O fato é que os grupos de esquerda passaram a chamar aqueles que deles divergem de infantis, de imaturos, de forma muito livre (o que não é o caso do seu artigo). Daí, a avaliação produziu um adjetivo, um julgamento moral, que é algo que o artigo de Lênin traz muito sutilmente, como no título, onde fala em “doença infantil”. Assim, surge uma metáfora medicalizante: o esquerdista seria um doente, um infantil, um imaturo, um ignorante. A direita apropriou-se dessa imagem para fazer dela a imagem de todo comunista, como na frase boboca que faz orgulho a Churchill e foi citada por Lula: “Quem não é socialista aos vinte anos não tem coração, quem não é conservador aos cinqüenta não tem cabeça”. Assim, teríamos a fórmula de que só se pode ser socialista sem cabeça e conservador sem coração. Mas é justamente de “socialistas sem cabeça” que estamos tratando aqui. A realidade é tão adversa que é preciso fazer mais do que um julgamento moral: qual será a conformação social, econômica e psicológica que gera algo tão insistente como a vontade de resolver as coisas sem paciência, sem método, rápido demais, para chegar mais rápido ao futuro, ignorando um conselho de um brilhante revolucionário como Lênin com um argumento culturalista infundado como esse citado acima? É algo que não decorre da experiência do stalinismo, pois existia antes dele. No entanto, essas acusações a respeito dos supostos massacres de Stálin e sobre o stalinismo real precisam ser respondidas, pois é o ataque que a mídia repete diariamente, sempre que tem oportunidade. É um fardo ter que dizer isso, mas a mídia dá a tarefa de defender as facetas positivas de Stálin, Mao e Pol Pot ao repetir acusações insistentes contra eles. Sem encontrar na militância comunista argumentos e respostas, é muito fácil que as pessoas não queiram se envolver e busquem saída no esquerdismo, que busquem grupos de “ação direta”, “autônoma”, opondo-se a partidos, supondo que a centralização, a administração e a disciplina necessárias em qualquer partido levarão faltamente ao dogmatismo cego e a novas repressões. Não só as denúncias contra Stálin, que se voltam contra o socialismo como um tudo, ajudam a empurrar as pessoas para o esquerdismo, assim como os acontecimentos dos anos 60 levaram essa vaga ainda mais adiante. O esquerdismo apresentou-se justamente enquanto alternativa para o conflito entre USA e URSS. O comportamento da chamada “nova esquerda”, embora apresente uma problemática nova e que precisa ser estudada, tinha muitos pontos em comum com os grupos que Lênin critica. Assim sendo, coloco um outro desdobramento do problema: o marxismo, que possibilita aos trabalhadores a consciência revolucionária, é um tipo de explicação do mundo que está muito mais acessível aos intelectuais, à pequena burguesia letrada do que aos operários e camponeses. Não é transmitido pelo senso comum, não é facilmente transmissível de pai para filho. Implica em estudos, leituras, participação em sindicatos ou partidos. Tendo origem na pequena burguesia, o intelectual precisa revolucionar seu pensamento para atingir as posições proletárias. Mas o intelectual muitas vezes imagina que já sabe tudo o que precisa saber, que com seus raciocínios, sem muita pesquisa, esforço e prática, chegará à conclusão de qual é a ação correta, daí a pressa e a impaciência, que faz com que as experiências bem sucedidas e a voz de um militante mais experiente não sejam escutadas. Creio que é pode ser essa contradição que reside na base dos variados esquerdismos. O anarquista sonha então em acabar logo com o estado sem passar pela ditadura do proletariado de Lênin, supondo que a teoria de Lênin e Stálin da revolução em um só país seria violentar a teoria de Marx, só porque ele não criou essa teoria, supondo que ela criada somente para que pudessem justificar o fato de que detinham poder. Não idealizamos o proletário e digamos que o contrário também existe: o proletário que tem resistência à teoria por ela ter de ser aprendida junto a pessoas de origem pequeno-burguesa. Ele supõe que uma teoria marxista também seria pequeno-burguesa e que também visa explorá-lo. O PT é um exemplo curioso. Esse partido em sua origem criticava tanto as revoluções socialistas quanto trabalhistas anteriores, mas adotava uma plataforma revolucionária com a finalidade de superá-las. Enquanto tanto o PDT quanto o PCB confiaram que existia uma “burguesia nacional progressista” comandando a transição, o PT crescia e triunfava em sua radicalização esquerdista de um partido dos trabalhadores, “sem patrões”, mas não porque avaliasse seriamente que essa burguesia com um projeto nacional capaz de enfrentar o imperialismo não existia, mas porque essa estratégia era proveitosa no momento. Assim, na prática creio que sempre foi, majoritariamente, um grupo social-democrata de direita, com fraseologia de esquerda. A plataforma democrático-popular era adotada não por convicção, mas para competir com os demais partidos de esquerda. Atentemos para isso, portanto: a violenta competição entre as organizações de esquerda, que faz com que organizações adotem essa ou aquela política ditadas pela necessidade de competir, mas sem acreditar a fundo nelas. Aliás, derrubada a URSS e com a burguesia internacionalizando-se em último grau nos anos 90, derrotados o PCB e Brizola, o PT passa a se aliar com os patrões. Passou de um início esquerdista para a senilidade neoliberal, tendo em comum ter tido sempre como inimigos os setores da burguesia que desejavam um projeto nacional, setores esses que praticamente deixaram de existir a partir das privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso. Então estamos vivendo o flagelo de ter que um partido de esquerda de massas, que unia sindicalismo, intelectuais rompidos com o trabalhismo e a URSS e os setores progressistas da Igreja Católica, passando de um comportamento “esquerdista” a neoliberal. Após conquistado o estado, o partido prosseguiu mantendo sua base na esquerda e ampliando-a para a direita ao adotar posições mais conservadoras. O fim da URSS, a respeito de cujo projeto diziam não se interessar, mostrou-se, no entanto, determinante no comportamento que assumiram posteriormente. Creio que numa situação tão desfavorável quanto é a de fundar um partido em pequenos municípios conservadores, onde um militante fica extremamente exposto, existem várias precauções que precisam ser tomadas. Não é a questão de fazer treinamento para a luta armada, mas não é descabido que o partido promova cursos de defesa e segurança pessoal para seus militantes. A grande proprietária espiritual das populações interioranas é a Igreja Católica. Outra fonte de informação determinante é a televisão. Em ambas a discussão política aberta e explícita não existe, mas uma visão política é transmitida indiretamente e naturalizada, em ambas existe quase que uma totalização conservadora, uma verdadeira lavagem cerebral. Nesse contexto profundamente adverso, creio que o militante precisa se inserir nos espaços que estiverem disponíveis, sejam eles uma Comunidade Eclesial de Base ou uma torcida organizada. E, finalmente, creio que no interior o comunista deve lidar com todos pequenos grupos esquerdistas que encontrar, buscando cooperar com eles e entender o meio onde está participando, buscando atenuar justamente a competição entre as organizações de esquerda. Abraços do camarada Lúcio Júnior.

2 comentários:

AF Sturt Silva disse...

Camaradas, só uma dica, quando for referir ao outro texto sugiro colocar o link, para podermos ler o outro que está se referindo.

alex disse...

É verdade.
Refere-se ao texto http://saojoaodelpueblo-pcb.blogspot.com/2011/03/infantilidades-dos-comunistas.html aqui no próprio São João del-Pueblo, de 10 de Março de 2011.

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