terça-feira, 3 de maio de 2011

Carta de desfiliação de Sammer Simam e resposta de Alex Lombello Amaral

Abaixo publicamos na integra a carta de Sammer Siman, anunciando sua saída do PCB, e a resposta de Alex Lombello Amaral, que permanece no Partido Comunista.


CARTA DE DESLIGAMENTO DO PCB

Por Sammer Siman, militante social e economista
São Paulo, 01 de maio de 2011

Venho por meio desta desligar-me do Partido Comunista Brasileiro. Uma decisão que me deixa insatisfeito por um lado, por deixar de estar junto de alguns valorosos camaradas de honestidade revolucionária ímpar, mas que me deixa aliviado por outro, por estar deixando um ambiente permeado por dogmatismos e misticismos.

Minha entrada no PCB, primeiro partido em que me organizei, aconteceu em setembro de 2007, três anos depois do início de minha militância no movimento social. Ali, depois de anos de dedicação ao movimento estudantil, adquiri a clareza que a luta política era mais complexa, sendo a opção partidária a única alternativa pra uma necessária ação coletiva situada na totalidade, uma ação que englobasse atuação nos movimentos sociais, disputa do poder do Estado, denúncia dos limites e contradições capitalistas, estudo das experiências socialistas, estudo do socialismo científico, etc, etc.

Entrei no PCB com uma clareza: Tudo na política (assim como na vida) passa essencialmente pelo método, passa pelo “o que fazer e como fazer”, pois não basta simplesmente convicção do que se quer, não basta boa vontade. Assim, desde o início tive um foco: refletir o método de se fazer política.

Minha experiência vinha da prática do DCE UFSJ, que partia de um diagnóstico muito claro: O movimento estudantil estava falido, e o grande responsável por isso eram os partidos que o mantinha aparelhado, eternizando um movimento nada representativo, parasitário e negativo inclusive para os próprios partidos de pretensões revolucionárias. Logo, uma condição pra mim era essencial: militar num partido que não aparelhasse o movimento estudantil, que estivesse disposto a rever o método, a práxis.

O raciocínio foi direto: nada melhor do que um partido comunista para fazer autocrítica, pois se nós comunistas não fizéssemos quem mais faria?

Por quase quatro anos militei no PCB com este foco, tendo esta questão como central (e não única). Convencer camaradas da necessidade de revermos o método. Alertar pra compreensão básica de que só avançaremos com espaços democráticos, pois a prática do poder na base é essencial para termos um Estado hegemonizado pela classe trabalhadora no futuro. Ter um movimento estudantil que pratique uma democracia de fato é condição necessária (mas não suficiente, porque os estudantes são só uma parte da sociedade) pra uma democracia de fato na sociedade como um todo.

No entanto, ao invés de deparar-me com um partido “arejado”, deparei com muitos camaradas repletos de dogmas, carregando práticas autoritárias, entendendo o ser comunista como sinônimo de uma figura iluminada, detentora das verdades do mundo e bastião duma tão falada revolução. Camaradas que acham que revolução é um joguinho de vídeo-game, com fases pré-definidas e mecanizadas.

Camaradas que acreditam sinceramente que revolução é sinônimo de uma quartelada, que acreditam que a coragem pra apertar um gatilho é suficiente pra colocarem-se na posição de revolucionários (em anexo mando um artigo do camarada Alex Lombello que segue no PCB, que trata de algumas infantilidades dos comunistas).

Ora, tais reflexões podem me fazer parecer detentor de verdades. Não as tenho, mas tenho humildade pra reconhecer que pouco ou nada estamos construindo pra formação de uma massa crítica que seja capaz de se autodeterminar.

O PCB hoje não consegue dialogar com seu povo. Quer falar de socialismo como conceito pra uma massa inculta, que não sabe a diferença entre capitalismo e socialismo. Utiliza-se de uma linguagem militante pro povo, defendendo coisas como “o Brasil só muda com uma revolução socialista” ou então “da necessidade de conformarmos um bloco histórico do proletariado”, enquanto deveria priorizar a inserção nos movimentos de base pra ajudar na sua reorganização, contribuir pra elevar sua massa crítica, ajudando a sintonizar as contradições quotidianas na totalidade.

É como disse Anita Prestes numa oportunidade em Cuba: O PCB está repleto de intelectuais brilhantes, formulando idéias brilhantes que não dialogam com as correlações de forças sociais que estão dadas.

O triunfo soviético aconteceu sob a bandeira “pão, paz e terra”. O cubano sob bandeiras como “abaixo a ditadura de Batista, pela reforma agrária, pelo fim do analfabetismo”. A Venezuela está criando bases pro socialismo resgatando uma identidade nacional, buscando por soberania por meio do combate das mazelas e da ignorância de seu povo. E só avançaremos no Brasil lutando por sua soberania, contribuindo pro nosso povo se autodeterminar. Ademais, todos estes processos vieram de lutas de décadas ou mesmo secular, não tendo nada sido construído "do dia pra noite".

Aqui estou novamente falando de método, pois sou internacionalista, enxergo o mundo pela ótica da luta de classes e não por meras fronteiras geográficas. No entanto, lutar por soberania nacional é condição básica pra construção de um Brasil socialista. O partidão hoje atribui o nacionalismo pra burguesia, como se esta tivesse algum compromisso com nosso povo. Assim, o partido perde um foco elementar, que é o caminho que temos pra construir outra sociedade utilizando-nos de nossa identidade nacional. É na esteira desta luta que nosso povo terá condições de assimilar conhecimento pra se reorganizar enquanto sociedade.

O PCB também comete outro erro básico. Nega a complexidade da luta política, tentando definir toda correlação de forças por meio de uma sopa de letrinhas, como se o Brasil tivesse homogeneidade partidária. Pude trabalhar num município chamado Açucena (MG), uma cidade de 11 mil habitantes. Ora, o que se vê num lugar como este muitas vezes é, um PSDB ou um DEM mais progressista que um PSB, ou um PT mais de direita do que um PMDB, e por aí vai...Ora, quantas “Açucenas” existem no Brasil?

Novamente aqui estou tratando de método. A maneira de se posicionar num determinado espaço pela compreensão da contradição fundamental da política, o que não se caracteriza muitas vezes pela composição do partido X ou Y. Assim, volta e meia o PCB comete atrocidades como a destituição do comitê da Paraíba porque este apoiou João Maranhão no segundo turno de 2010, uma figura nada revolucionária, mas que era menos pior do que o tucano rival. Ou como ocorrido no Maranhão, de não ter aliado com o PC do B, porque o PC do B é inimigo em função das divergências históricas e da macro-política.

E nestas idas e vindas o PCB segue numa política puritana e sem assumir nenhum compromisso com o povo paraibano, maranhense, com o povo brasileiro.

Estes equívocos têm relação com um problema básico: concepção partidária. No meu entendimento, um partido tem que ser tido como um organismo vivo, capaz de interagir com o povo, mostrando alguns caminhos e contradições para este de um lado e aprendendo e se renovando com este mesmo povo de outro.

Logo, deve partir do pressuposto que não temos respostas pra tudo. Não temos uma visão holística e consensuada da história, não temos todas as respostas prontas pro futuro, até porque isso é a negação da dialética, elemento fundamental que garante a atualidade do marxismo. Pra mim, partido é um organismo vivo, que nem sempre terá respostas dadas. Um partido que se coloca como baluarte da verdade, que carrega consigo certezas sobre tudo e todos, não é um partido, e sim uma igreja, uma seita missionária que leva adiante respostas prontas.

E isso me deixava desconfortável no PCB. Excessivas certezas sobre tudo, uma maxi simplificação da realidade. Um usual maniqueísmo sobre tudo e todos, sendo ou um governo muito ruim ou um governo muito bom. O fato de chegar numa reunião partidária vendo militantes querendo resolver os problemas da crise mundial ou da Conchinchina sem muitas vezes saber o que fazer num âmbito sindical na sua base.

Ademais, a prática do PCB tem graves elementos conservadores na sua relação partidária interna. Um fulano por vezes vira membro do comitê central ad eterno por suas contribuições históricas no partido, independente de sua capacidade de desempenhar determinadas funções e de representar a base do partido.

Estou com Fidel Castro no modo de lidar com isso. Dizia ele no contexto do I Congresso do PC Cubano em 1975 que alguém não seria dirigente partidário pelo simples fato de ter participado da guerrilha de Sierra Maestra. Condição fundamental pra direção seria ter respaldo da base, representá-la de fato.

Ou seja, mais uma questão de método. Uma ou outra destas críticas que faço aqui não fiz dentro do partido, mas ali vivi o suficiente pra compreender que o grosso da militância partidária está irredutível para rever seus métodos.

Uma de minhas atuações mais contundente no PCB e que mais me motivou a tomar esta decisão aqui anunciada aconteceu no ano de 2010, no contexto das eleições pro DCE UFMG. Ali militei com camaradas de valiosa intenção revolucionária que, enquanto estivemos juntos, encamparam a bandeira de reorganização pela base, ou seja, fizeram uma reflexão do método.

Passado o tempo, eis os mesmos camaradas retomando velhas práticas, assentados sobre os velhos métodos de se fazer política. Ver isso é algo que me tira as energias, pois, afinal, meu compromisso é contribuir na construção de uma sociedade socialista e não com o instrumento que pode aparentar ser mais contundente para tal.

É como disse ao camarada Otávio em Cuba, tenho amor a causa e não ao instrumento. Isso me dá muita tranqüilidade pra tomar essa decisão hoje, sem medo de errar, sabendo do risco de estar cometendo um erro. No entanto, não pecarei pela omissão, sigo meu caminho na decisão que me parece a mais acertada neste momento.

Sou comunista pela simples fato de almejar uma sociedade mais justa, e querer dar a minha pequena contribuição pra isso, sem nenhuma ilusão de que viverei nesta sociedade. Felizmente já passei da fase de auto-afirmação, e darei minha humilde contribuição repercutindo uma práxis comunista, o que poderá acontecer numa organização que não tenha na sua “fachada” a inscrição partido comunista.

Me chama muita atenção os escritos de um jurista do passado que, numa tentativa de distinguir o que é do que se diz que é, contou a seguinte estória:

“Podem os meus ouvintes plantar no seu quintal uma macieira e segurar no seu tronco um papel (ou bandeira) que diga: “Esta árvore é uma figueira”. Bastará esse papel para transformar em figueira o que é macieira? Não, naturalmente. E embora conseguissem que seus criados, vizinhos e conhecidos, por uma razão de solidariedade (ou ignorância), confirmassem a inscrição existente na árvore, a planta continuaria sendo o que realmente era e, quando desses frutos, estes destruiriam a fábula, produzindo maçãs, e não figos.“ Ferdinand Lassare (livro Direito Constitucional Descomplicado – Vicente Paulo)

Vivi esta dicotomia dentro do partido, e agora vivo uma dicotomia inversa fora dele. Deparei-me com diversos militantes do partido que se colocam como comunistas mas, por exemplo, não entendem a centralidade da revogabilidade de mandatos ou mesmo não concordam com ela. De fora, deparo-me com uma série de militantes sociais (muitos deles sem partido) que não se identificam como comunistas (talvez por falta de conhecimento, preconceito, insegurança ou tudo isso junto...), mas que entendem e defendem a revogabilidade com questão central (eis novamente uma bandeira política exemplificativa de método e não mais uma mera proposta).

Buscarei por outra organização. Tenho muita força pra militar, estou num grau de consciência onde é praticamente impossível ficar isolado, sem agir coletivamente. Buscarei estar ao lado de uma militância que se fundamente numa práxis efetivamente transformadora e não esteja limitada ao mero “parecer ser”, que não se contente com a retórica.

Saio do PCB com a clareza de que aprendi muito e de que pude dar algumas contribuições pro partido. Tenho certeza que estarei junto com o partidão em muitos momentos, um partido que é feito por alguns valiosos militantes de, repito, honestidade revolucionária ímpar.

E deixo algo explícito: Este gesto de listar uma série de críticas vem com o propósito de deixar reflexões para o partido, pois creio que o PCB tem muito que refletir. Repito: Não detenho verdades, só entendo como fundamental o MÉTODO, se eu estiver errado que me respondam com argumentos.

Neste momento também peço a amigos e camaradas que ficam no partidão uma posição de “desarme”, que me poupem de teorias da conspiração, como “ele esta querendo ir pro partido tal”, ou “era um agente infiltrado no partido”. Este tipo de coisa também cansei de vivenciar nestes últimos anos, e na maioria delas tenho clareza que não passa de devaneio, pois parte do pressuposto que o partido detém algum tipo de caminho da revolução e de que o partido é o único instrumento capaz de dar respostas revolucionárias.

Não estou iludido de que todos compreenderão meus motivos, mas espero respeito a esta decisão, pelo menos daqueles camaradas que conhecem minimamente minha práxis militante.

Meus sinceros agradecimentos aos 43 meses de Partidão.

Saudações comunistas!




Sabemos que na esquerda brasileira não é comum que esse tipo de documento seja publicado e debatido publicamente, mas lamentamos muito que os camaradas de outras cidades se comportem com tal medo do debate. Estamos fazendo o oposto, que é o certo em toda conjuntura política que o possibilite, não somente como forma de formação política e estímulo ao debate, mas por democracia.

Gostaria que a carta de desfiliação do camarada Rafael Pimenta também tivesse tido esse destino, e lamento que sem tal acontecimento até hoje muita gente não saiba nem que esse camarada se desfiliou. A Verdade, camaradas, Pravda, era o nome do jornal de Lênin, e Gramsci também não disse a toa que a verdade sempre, sempre, entenderam, sempre é revolucionária!



Resposta de Alex Lombello Amaral:


No início eu pensei que o arquivo em anexo na carta de desfiliação fosse cópia da própria carta. Depois percebi que não, que se trata na verdade de um texto meu, publicado no Expresso Vermelho, no São João del-Puebo e no Estudos Vermelhos, intitulado “Infantilidades dos comunistas brasileiros no século XXI”. Não sei porque o camarada Sammer Siman, comunista sincero, revolucionário mais militante que eu, que não está planejando um caminho carreirista, mas pelo contrário, está dando esse passo errado por ansiedade de trilhar o caminho revolucionário, anexou esse texto à sua carta. Talvez desconhecendo que sua própria atitude é um exemplo clássico de infantilidade esquerdista, com todo respeito, claro, pois tenho acusado quatro quintos do Partido, inclusive a célula de São João del-Rei, de esquerdismo, e sempre com muito respeito.

A pressa, a ansiedade, sempre são ingredientes fortes para empurrarem bons militantes para caminhos esquerdistas, impedindo a persistência necessária a uma estratégia, que logicamente exige longo ou médio prazo. Mas as doenças infantis, dialeticamente, são saudáveis, pois preparam o sistema imunológico. Quase todo comunista passa por uma fase esquerdista. Ai aprende o que já ouviu dos outros camaradas, mas não acreditou.

O camarada encontrará, em todas as organizações que conhecer, problemas que hoje aponta no PCB, como quem foge da própria sombra, em doses diferentes, e na maioria encontrará problemas muito maiores. Como linha mestra de sua formação, seu histórico e sua visão revolucionários, o camarada aponta, corretamente, a luta por uma nova democracia, ou seja, por um novo Estado, destacadamente onde a correlação de forças nos permite esse avanço, que no caso brasileiro são sobretudo as Universidades. Como sabemos, na prática, isso implica em derrotar, em Universidade por Universidade do país, o fetiche das eleições diretas. Sabemos que sem fazer isso só se é revolucionário na vontade, pois esse é o trabalho revolucionário necessário agora, e não qualquer outro. O camarada descobrirá que fora dos Partidos Comunistas não encontrará partido nenhum que aceite nem pensar em enfrentar o senso comum, e que nenhuma outra corrente política sequer imagina que existem diversas possibilidades de democracia, e não somente essa falsa do capitalismo. Não é preciso ir muito a direita, no campo social democrata mesmo (PT, PDT, PSB, PCdoB etc.) o camarada encontrará uma hegemonia da democracia capitalista, com destaque para o PT, que já em 1985 não quis votar em Tancredo no Colégio Eleitoral porque não aceitou que as eleições não fossem diretas. No próprio campo socialista, o camarada descobrirá que os partidos trotskistas por vezes se juntam ao PT no Congresso da UNE para pedir, que atraso, eleições diretas!?!?

Os únicos teóricos que escreveram qualquer teoria que corresponda à prática que hoje desenvolvemos foram os marxistas, com destaque para o último livro de Marx, publicado pela Estudos Vermelhos com o título A Comuna de Paris, um dos últimos de Lênin, O Estado e a Revolução, e Gramsci, com seu relatório sobre O Movimento Turinês dos Conselhos de Fábrica. Para ser mais exato, a única teoria que corresponde à nossa prática é a comunista, e a única prática que corresponde à teoria comunista é a nossa. É claro, a maioria dos pretensos comunistas do país ainda nem imagina isso, mas devemos ter paciência, porque o Brasil, camarada, só veio a ter tipografias, livros e jornais produzidos aqui, no século XIX, e o Manifesto Comunista mesmo só circulou em grande tiragem por aqui na década de 60 do século XX. Quero dizer que a ignorância, inimiga absoluta do marxismo, reina ainda em nosso país. Por isso, em toda organização em que chegar, se conseguir fazer avançar a compreensão da política realmente revolucionária, assistirá rachas, divergências, corpo mole, porque mesmo os militantes que pretendem ser comunistas são de fato formados pela Rede Globo, pelas igrejas, escolas, ou seja, pelo Estado capitalista, e portanto têm uma visão capitalista de democracia. Isso não é uma característica do PCB, é uma característica do Brasil.

Contudo, sejamos razoáveis, em Minas Gerais a Juventude Comunista, ano passado mesmo, foi a única força que defendeu o poder das entidades de base no Conselho de Entidades de Base da UEE e nas eleições do DCE-UFMG. O camarada reclama que a célula da UFMG retomou velhas práticas, mas se isenta de responsabilidades nessa questão, como se não fosse o assistente dessa célula no Comitê Municipal de BH. O camarada se esquece que a defesa do poder das entidades de base é uma novidade, e que a célula comunista da UFMG, pequena e composta somente por estudantes-trabalhadores, ou seja, sem tempo para nada, nunca deixou de estar intimamente dividida sobre esse assunto. Esse trabalho que você achou irritante na UFMG é o mesmo que encontrará em todos os lugares. Aliás, quando te conheci você me deu o mesmo trabalho. Quero ver agora, em outra organização, se você conseguirá metade disso no mesmo tempo.

Entramos juntos no PCB, e embora você considere que faz muito tempo, e até o contou em meses para chegar a algumas dezenas, somos novatos, porque para a história 4 anos não valem nada. Ao contrário do que você pensa, o PCB nos permite muito grande e rara liberdade de expressão e política. Somos calouros, e desde que entramos publicamos notas e jornais, criamos blogs, acusamos a maioria de nossos camaradas de esquerdismo, e afirmamos sem nem pensarmos em usar palavras educadas, que somente nós estamos de fato contribuindo para a revolução, porque somente nós temos coragem de apresentar uma alternativa à democracia capitalista. Em que outra organização você julga que terá essa liberdade? Se encontrar, conte ao mundo, porque embora você ainda não saiba disso, será uma descoberta !!!

Você também acusa o Partido de não falar com seu povo, e é uma verdade, mas podemos dar lição sobre isso? Em São João del-Rei descobrimos o caminho revolucionário no movimento universitário, somente, mas não demos um passo além disso. E nós conseguimos falar com nosso povo? Tivemos oportunidades para isso. Em 2008, fomos nós que escrevemos todo o programa da Frente de Esquerda, e o povo nos entendeu? Em 2010, tivemos um candidato a deputado federal comunista na cidade, e publicamos o que bem entendemos. Conseguimos nos comunicar com o povo? Você já se esqueceu que esse candidato teve mais votos em BH que em São João? E qual organização socialista brasileira consegue dialogar com o povo? Esse problema é do PCB ou da intelectualidade brasileira?

O camarada minimiza a importância do nome Partido Comunista, como se pouca diferença fizesse uma organização se assumir ou não como tal, mas fato é que durante a história os Partidos Comunistas, na maioria das vezes com esse nome, têm sido os únicos defensores coerentes da liberdade, da paz e da verdade ira democracia. As organização que não têm sequer coragem para assumir esse nome, terão coragem para atacar de frente outros mitos burgueses, como as eleições diretas? Aceitarão que a formação de seus quadros seja feita com os livros de Marx e Lênin? Conheço essas organizações indefinidas, elas começam defendendo que não se estude somente Marx e Lênin, mas na verdade elas NUNCA os estudam. No Partido Comunista, podemos reclamar que os camaradas estudam Lênin mas não o compreendem ou não têm coragem de praticar sua política, mas ao menos debatemos tendo como base o nosso teórico. Eu quero ver você defender nossas posições em outra organização, sem a ajuda de Lênin!

Você acha que o PCB nos limita, mas desconhece que fora do Partido Comunista enfrentará uma limitação muito pior, pois o que será sempre perseguido, sempre visto com desconfiança, sempre sabotado, em qualquer outra organização política não-comunista, é o comunismo, incluindo nossos teóricos, ou seja, a coisa que mais precisamos que não seja limitada. E se você acha que o poder das entidades de base não será reconhecido como comunismo pelos nossos adversários, é mesmo muito inocente.

Finalizando por enquanto, concordo que na verdade você continuará militando ao nosso lado, pois sei que continuará revolucionário e que portanto trilharemos o mesmo caminho. A única diferença é que desde essa sua carta voluntarista até que publique uma autocrítica e um pedido de refiliação não terá voz e voto nos fóruns do Partido Comunista.

13 comentários:

Sammer Siman disse...

Camarada,

Temos desde já um ganho histórico com este debate franco e aberto. Nós, que somos grandes amigos; que militamos juntos por sete anos; eu, que tive e tenho você como meu maior professor de política.

No entanto, hoje estamos nos diferenciando na tática, e não refutaremos na contundência dessa diferença. Independente de amizade e afinidades, bateremos aqui neste fronte, como deve ser.

Meu relato de saída descreve o que não quero. Certamente pela minha trajetória militante, de ter sido forjado no seio do poder das entidades de base, consigo ter muita clareza no foco desta bandeira. E falo de FOCO, que é o que não encontrei no PCB. De praticamente todos os espaços do partido que participei, havia sempre a prioridade de discutir o que está longe: A questão do Laos, a crise mundial, como fazer pra tornar a Petrobrás estatal. E o que encontrei na maioria das vezes foi resistência pra discutir a prática nos “micros” espaços. A atuação no sindicato, no CA, no DCE...

Camaradas que estavam aptos pra dar uma opinião sobre o Vietnã, mas pouco se dispunham a mudar a prática no micro.

Não compreendo seu estranhamento quanto ao envio de seu texto no meu anexo. O fiz por entender que ali estava constatado o problema do esquerdismo, que no meu entendimento permeia o grosso da militância do PCB. Se isso lhe causou estranhamento, exponha sua dúvida, diga o que passou na sua mente com este gesto pra que eu possa me posicionar.

Atribui meu ato como pressa e ansiedade. E pra isso parte do pressuposto que o tempo das mudanças é algo sempre demorado, foge do tempo biológico da vida humana. Concordo contigo que tal pressuposto está presente pra quase tudo neste mundo. Mas ele não é uma máxima, não é uma verdade absoluta.

E a própria história nos mostra isso. Quem poderia imaginar, por volta de 1900, que a Rússia sairia de uma condição semi-feudal pra uma potência que polarizaria o mundo em pouco mais de trinta anos? E o que levou a isso sabemos bem, aprendi contigo: A constituição dos Soviets (conselhos populares) ainda em 1902 acelerou o tempo histórico.

De acordo com sua avaliação, agi como uma criança de 12 anos que desistiu do jogo porque não gostava do seu formato. Na minha, agi como um cara de 26 anos que desistiu de tentar convencer a avó de 92 anos de algo que estava cristalizado com ela desde a juventude.

Repito: O PCB hoje está permeado por uma militância dogmática que não está disposta a rever seu método. Logo, o que fiz foi retirar-me deste partido pra buscar por outro espaço que tenha uma militância que esteja surgindo numa nova prática, ainda que esta militância não consiga definir-se ideologicamente com precisão.

Quero muito trabalhar com frentes, que tenham focos definidos e congregrem pessoas das mais diversas colorações partidárias e concepções ideológicas.

Cometes outro equívoco: Parte do pressuposto que buscarei uma organização que já está dada, que irei pros partidos que já existem. Não vejo nenhuma alternativa nestes espaços, o que buscarei é começar algo novo ou com algo que esteja “engatinhando”.

Posso dar com os burros n’água? Sim, sem dúvida. Mas posso também estar tomando a decisão correta, pois vejo a avenida aberta pro surgimento ou fortalecimento de uma organização que deposite a maior parte de suas forças na constituição do poder das entidades de base país afora; que se fundamente teoricamente no socialismo científico, no estudo da realidade brasileira e latino-americana; que consolide uma ação institucional sem “religiosidade”, identificando cada disputa política no seu devido espaço, identificando as correlações de forças pelo que realmente são, o que poderá não estar vinculado homogeneamente a um partido X do Oiapoque ao Chuí, quando o assunto for eleições.

Sammer Siman disse...

E digo: atuar com foco não é segmentar a análise. Toda avaliação só serve se estiver situada na totalidade. A diferença é que, ao invés de fazer encontros sobre Universidade Popular, pra ter que refutar a tese de que não se faz Universidade socialista num país capitalista, faremos encontros sobre o poder das entidades de base, partindo do pressuposto que não teremos Universidade produzindo massa crítica sem democracia.

Camarada, o desafio que me proponho é enorme. Joga por terra sua tese de “imediatismo” porque isso não construiremos do dia pra noite. Se vamos acertar ou errar, só o tempo dirá. Não assumo posições futurologistas como você, que comete a ousadia de dizer, ao seu modo, que voltaremos pro PCB no futuro com o “rabo entre as pernas”.

Acertaria se colocasse isso como uma possibilidade (e se isso acontecer não terei problema algum em colocar “meu rabo entre as pernas”, pois minha vaidade hoje é o suficiente pra eu andar com roupas limpas, não tenho pudor algum em assumir erros), mas erra ao colocar isso como certeza. Você é muito bom em política, mas ninguém é bom o suficiente pra ser tão categórico sobre o futuro.

É importante cobrar minha parte na questão da UFMG. Não assumi isso como um erro, por ter deixado claro a todo momento pro partido e pros camaradas que minha instabilidade profissional não me garantiria em nenhuma cidade do país. No entanto, o que vi depois do resultado da UFMG foi muita hostilidade dos camaradas que encamparam tal proposta em 2010. Talvez possam mudar com relação a isso batendo mais e mais cabeça, fica aí uma missão pra vc e os demais camaradas do PCB que acreditam nesta causa.

Realmente é uma questão que leva tempo, só acredito que o desafio é diferente. Eu sou um bom exemplo de se livrar do senso comum, pois fui fruto dele. Só que agora, creio que o desafio de quem fica no PCB é convencer dessa proposta muitos militantes que acreditam que resolução é bíblia e partido é igreja.

Fico profundamente satisfeito de ver camaradas como você no partidão com esta bandeira hasteada. Buscarei pra que em breve tenhamos mais uma organização capaz de levantar essa bandeira sem pudor. É como diz a musiquinha clichê, “uma mais um é sempre mais que dois”.

Quanto ao PCB não falar como povo, aponto como um diagnóstico e, sobretudo, como um paralelo à questão que denuncio no que se refere ao método. Querer falar hoje de Universidade Popular na Universidade assim como se fala de fim do senado no país. E sim, nisso crescemos juntos (não digo que erramos), apanhamos muito com isso e não conseguimos conversar com o povo hoje.

Isso será uma busca pra mim em outra organização, sem a ilusão de que alcançaremos isso no curto-prazo. No entanto, como expus acima, há outras variáveis que me fundamenta nesta decisão, ter foco é a principal dela.

Quanto a atribuir minha saída do PCB como uma espécie de fulga do nome PC, foi grotesco, infeliz, errou feio, simplesmente recortou essa questão no meu texto e botou uma “lupa” nela, como se isso fosse uma questão por si só.

Saio do PCB pelos motivos já expostos. O que coloco é que pode ser (e tudo indica) que eu não vá pra uma organização de nome partido comunista, pelo simples fato de que hoje não existe um PC que me atraia e me contemple minimamente no Brasil. Se existisse essa possibilidade, ela certamente seria minha primeira opção.

Ademais, não sabia que o estudo de Lênin era restrito ao ambiente chamado partido comunista. Se assim for, quebrarei essa regra.

Sammer Siman disse...

Sua generalização é muito ruim. Realmente os PC’s foram centrais em muitos momentos do passado, mas não são responsáveis exclusivos por conquistas que trouxeram mais justiça e paz para os povos. Teve uma tal de Cuba que, quando triunfou, era liderada por uma tal movimento 26 de julho, que era diferente de partido comunista, congregava uma ampla massa de analfabetos que sequer sabia o que era comunismo em tese. Inclusive o Sr. Fidel Castro liderou tal movimento sem sequer ter lido uma "bíblia" marxista.

Assim como na Venezuela a massa que sustenta os avanços liderados por Hugo Chavez não está no PC, assim como a organização que sustenta os avanços liderados por Evo Morales segue o MAS (movimento ao socialismo), que também não é PC. Mas aposto contigo que nestas organizações estão inúmeros comunistas.

Ora, camarada, do que estamos falando neste debate? Estamos falando de uma decisão minha de sair do PCB neste momento da história. Em nenhum momento tento antever futuro, o que tenho muito claro pra mim é que quando a luta de classe estiver clarificada no Brasil ou estaremos do mesmo lado (seja numa frente unificada, seja num PC, seja em qualquer coisa) ou alguma coisa estranha terá acontecido a algum de nós dois.

E espero que este horizonte chegue rápido, pois sem unidade não iremos longe. Hoje estamos no meio de um pântano, com tudo confuso, a esquerda em colapso, tudo uma “zona”. Hoje estamos indo para caminhos táticos diferentes com o mesmo propósito, disso não tenho dúvida, queremos acelerar a formação de massa crítica neste país.

Quem está certo e quem está errado? Só o tempo dirá, dentro de alguns anos veremos a procedência da taxação de minha decisão de voluntarista.

O que realmente desejo? É que não haja certo e errado nesta história, que possamos ambos contribuir com a luta do lugar que tivermos, pra que dentro do menor tempo possível estejamos do mesmo lado quando for clareada a luta de classes deste país.

Revistacidadesol disse...

Trazendo uma frase de D. N. Pritt que quem sabe contribua para a discussão:

Em regra, um operário, reconhecendo a necessidade de uma disciplina de classe acima de tudo, consegue aceitar os seus erros e trabalhar em postos secundários quando derrotado numa questão. Mas os intelectuais revolucionários têm mostrado repetidamente em momentos de crise a sua tendência para colocar o seu prestígio pessoal antes de tudo o mais e lutar até ao fim contra os seus adversários políticos, mesmo que para isso tenham de sacrificar os próprios princípios que aceitam verbalmente.

pcbborda disse...

Não sei se o Camarada Sammer sabia,já a algum tempo, e com conhecimento do Alex, está sendo viabilizada uma reunião de representantes da direção estadual do PCB com a base do PCB de São João de Del Rey, para botarmos nossas utopias em sintonia. A presença de Sammer era/é fundamental nessa reunião. Pois não bastam as críticas, as sugestões, se não se exercita o convencimento. A saída do Camarada praticamente ha alguns dias da citada reunião foi algo frustrante. Não no sentido de "obriga-lo" a permanecer na Organização, mas com o objetivo de ouvi-lo e responder aquilo que estivesse/ver ao nosso alcance. Destaco que o PCB está fazendo a sua reconstrução revolucionária, e isso não é uma tarefa fácil. Demanda, tempo, paciencia, perseverança, clarividencia, lealdade e firemeza de objetivos.

Sds ML

Silvio

alex disse...

1 - Realmente, temos enfim um bom debate à moda leninista.

2 - Camarada Lúcio, é verdade! Convivi 8 anos dentro de um Sindicato Metalúrgico e classes existem. Porém, embora os intelectuais, que nem chegam a ser uma classe, ou uma só, sejam assim, são tão indispensáveis quantos os operários. Aliás, bem antes da aliança entre operários e camponeses na Rússia, aconteceu uma aliança entre alguns intelectuais e os operários. Indispensável !

3 - Está marcada essa reunião sobre a qual falou o camarada Sílvio, e a direção estadual da UJC está tentando encontrar uma data para uma reunião aqui. Em resumo, a questão "do método" vai ser discutida até a exaustão e solução por um caminho ou outro. Mas certos camaradas não estarão presentes. Em Minas, já optaram por não estar presentes Rafael Pimenta e Sammer Siman. Este último agora está trabalhando em São Paulo, não poderia vir mesmo, mas em São Paulo também existe Partido Comunista, e um camarada valoroso que deixou nossas fileiras da mesma forma corrida.

4 - Esses camaradas escrevem cartas depois que saem !?!? Isso certamente indica a existência de uma cultura de silêncio reinando no PCB, mas, devo repetir, tenho dito tudo o que quero desde que entrei no Partido, e não tive problema nenhum com isso.

5 - Camarada Sammer, se o plano é criar algo, então é mais difícil ainda. Se o plano é criar frentes, associações, sociedades etc., ÓTIMO !!! Mas você notará que o Partido Comunista continuará lhe sendo necessário. Uma coisa não substitui a outra.

6 - Não tentei prever o futuro, estou falando do presente. Eu sei que você não está pelegando, portanto continuará nas mesmas lutas que nós, e o Partido Comunista continuará atuando com ousadia e independência, e você várias vezes descobrirá que está apontando o caminho certo, o mesmo caminho que você irá seguir, mas você estará, por opção própria, fora dos fóruns partidários que decidirão o que tiver que ser decidido pelo Partido Comunista. Não é uma previsão de futuro, é o presente!

7 - E não, não é uma decisão "sua" somente, você realmente minimizou o nome Partido Comunista, como faixada, porque precisa se desapegar dele. Já tentei várias vezes no passado!!! Sem chances! Toda vez que esse nome é dito, a adrenalina se espalha pelo corpo. Toda vez que uma ditadura pretende se instalar, ela precisa começar por proibir e perseguir o Partido Comunista. Toda vez que uma ditadura não consegue combater eficazmente um Partido Comunista, ela cai. O M26 foi a guerrilha, derrotou o exército de Batista, mas muitos de seus combatentes eram do Partido Comunista, e grande parte do apoio nas cidades era desse Partido, que nos momentos difíceis, como sempre, era o único que ajudava a guerrilha. Nas Revoluções Bolivarianas os comunistas não tem tido mesmo protagonismo, mas isso tem resultado em que ??? Não falta alguma coisa nessas Revoluções ? Tipo... poder das bases ?

Revistacidadesol disse...

Oi, camaradas. Por falar em carta, tb fiz uma a respeito do texto que foi debatido aqui, aproveito para pedir que também seja debatida:

http://revistacidadesol.blogspot.com/2011/03/carta-ao-alex-sobre-o-esquerdismo.html

Sammer Siman disse...

Caro Lúcio, obrigado pelo comentário, só é mais um exemplo do tal misticismo que falo do PCB...este comentário que postou está típico dum romance de Jorge Amado nos seus tempos de realismo fantástico. Ademais, caracterizar o debate que faço como manifestação de “prestígio” deve manter seu sono tranqüilo, continue no mundo encantado que dá menos trabalho mesmo.

Silvio, minha decisão de sair do partido já vinha desde meados de abril, e pelo tanto que coloquei neste debate e por mais outros motivos não relatados não estava disposto a me manter no PCB, pois a sensação que tenho é trata-se de um desafio de uma geração, sendo que, paralelamente a isso, vejo uma avenida aberta pra se construir novas perspectivas com FOCO num prazo bem menor do que o de uma geração.

No entanto, seu “puxão de orelha” me faz reconhecer que a mim não custaria muito sacrifício aguardar tal reunião, debater minha decisão nela, deixar contribuições mais contundentes no partido e sair após disso. Meu sacrifício se resumiria a uma viagem de 500 km de São Paulo a São João, o que não me arrancaria tantos pedaços.

No entanto, nobres camaradas de São João ficarão no partidão, e certamente poderão também ecoar tal debate junto à direção, pois essa é uma insatisfação geral dessa célula. Ademais, deixo como importante contribuição este debate aqui colocado.

Alex, chama bem a atenção quanto a nada ter sido escrito. Desde janeiro venho com essa crise dentro do partido crescendo como uma bola de neve, e nada escrevi publicamente, só deixei tal debate no âmbito da conversa com diversos camaradas. Eis aqui uma autocrítica que faço.

O partido comunista continua tendo papel na luta. O fato dele não me atender hoje, enquanto militante, não o condena a nada, sou um grão de areia numa praia de 88 anos de idas e vindas. No entanto, penso que as reflexões que deixo podem ser de considerável valia pro partido pensar sobre o essencial, ou seja, sobre seu método.

Alex, combinamos assim então: vc fica com sua tese de que o que me move é “desapegar” do nome PC, que eu fico com a minha de que saí porque o PCB está permeado por dogmatismos e misticismos, pq não revê seu método, não dialoga com a base... Daí, ficará pro leitor avaliar a pertinência de cada tese, pois senão vamos ficar nos respondendo aqui pro resto da vida. O que você tentou no passado nem sempre vai contemplar as demandas que surgem pra diferentes indivíduos em outros momentos históricos.

Ademais, parte do pressuposto que estou negando o papel dos PC’s na história. Meus argumentos só tiveram o propósito de resgatar que nem só de PC’s foram feitas as conquistas do povo, logo, não são só os PC’s que são capazes de contribuir nas mudanças. Sabemos bem que toda mudança progressista é feita por um complexo conjunto de forças sociais. E volto a dizer, não nos preocupemos, na oportunidade da luta de classes clarear no nosso país estaremos do mesmo lado, seja num PC, numa frente de massas, ou qualquer outra coisa. Lembro da valorosa camarada Dânia que conheci em Cuba, que disse "a mim não importa nome de nada, o que vale é o conteúdo".

Revistacidadesol disse...

Oi, Sammer, Alex e camaradas.

Se eu estiver errado, Sammer, foi somente um palpite e eu admito minha leviandade e meu despreparo para fazer esse debate.

O fragmento foi tirado desse texto aqui:

http://comunidadestalin.blogspot.com/2011/02/o-julgamento-de-zinoviev.html

Se quiser debatê-lo comigo, estou à disposição.

alex disse...

"Dogmatismo", eu sempre achei essa acusação vazia, falaciosa, uma maneira fácil e difundida de bater no marxismo. Existem mesmo camaradas dogmáticos aos montes no PCB, mas esse ataque serve sempre para combater o marxismo, como na última resposta do camarada Sammer, em que ele se indignou com um parágrafo que simplesmente trata de uma das muitas diferenças entre operários e intelectuais. Segundo o camarada, isso é dogmatismo, ou seja, classes não existem.

Porém, as classes existem, gostem os intelectuais ou não (a maioria não gosta e nega e produz miríades de argumentos), e digo isso não só por estudo como por experiência. Não quero dizer que os operários são revolucionários, não se trata de um economicismo, mas as classes existem e são o conteúdo da política.

Mas noto que o camarada também se indigna com isso, dizendo repetidamente que a experiência e a história não respondem a tudo, pois obviamente o futuro é imprevisível. Ou seja, usa uma obviedade, o futuro é imprevisível, para desvalorizar a experiência e os estudos. E o que é o marxismo, se não a experiência mais ou menos estudada e estruturada das gerações passadas de revolucionários?

E devo acrescentar que o camarada confessou a pressa e a ansiedade que eu apontei, dizendo que vê uma avenida aberta para transformar a sociedade muito mais rápido do que no prazo de uma geração... rsrsrs... Acha que uma geração é muito tempo !!!

Mas esperemos que essa ansiedade toda resulte em muito trabalho revolucionário, que sim, também pode ser feito fora do Partido Comunista. Porém, vou insistir em uma afirmação sobre o presente que você acusará de ser sobre o futuro - Tente não produzir estragos no Partido Comunista, pois é elementar que continuará precisando de seu apoio.

Revistacidadesol disse...

Oi, camaradas.

Sammer: gostaria ainda de fazer uma observação: minha leitura do texto de Alex é exatamente o contrário da sua.

E, se vc realmente leu o q escrevi, pode notar que está escrito que, como Alex está falando a partir de uma experiência recente de derrota nas eleições (e não Lênin, que tinha acabado de conseguir uma bela vitória), isso facilita para que a autoridade com que ele fala seja desacreditada.
E ao anexar o texto dele a um pedido de desfiliação, vc faz justamente isso, lendo o texto como apresentação de derrotas e obstáculos intransponíveis! Vc desautoriza o texto enquanto crítica avançada e saudável da realidade, claro indício de vitalidade teórica e prática do partido. Porque, afinal, só 2 por cento da população brasileira participou de algum partido político. Se a esquerda socialista consegue ao todo um por cento nas eleições, com certeza ela tem ampla representatividade entre essa minoria que já participou de partidos. Ela não existe eleitoralmente, como vc bem conclui, mas isso não quer dizer que não marque presença.

Abs!

Sammer Siman disse...

Lúcio,

Fui contundente ao refutar seu comentário porque ele foi generalista e descolado com as reflexões que coloco, pois não estou sendo movido por prestígio e sim dando contribuições para reflexões de nossa práxis.

Quanto a seu último comentário, fazes um juízo de valor que é inerente à sua percepção, o que é algo completamente legítimo. Só cometes uma nova leviandade ao afirmar que essa foi minha intenção. O que fiz foi anexar um texto que penso que diagnostica com precisão a questão do esquerdismo e ponto final.

Ademais, compreendo também que a grande parte das pessoas tende a assumir uma visão maniqueísta nestas horas. Afinal, o que impera em nosso país é o sectarismo, o divisionismo, onde a grande parte dos militantes vê seu organismo como o melhor para dar respostas. Só digo explicitamente pra vcs aqui que não me pauto por essa lógica, minha decisão de saída não vem com o intuito de “detonar” o partido, pelo contrário, creio profundamente que estou deixando contribuições para que o PCB reflita sua práxis, e isso deixo claro desde minha carta.

O fato de eu não estar mais no PCB não me coloca como inimigo do partido, pois sei muito bem quem são os nossos inimigos. E também sei muito bem construir nas diferenças, fui escolado no poder das entidades de base, onde se faz política com pessoas das mais diversas colorações partidárias e ideológicas. Consigo hoje estar fora da lógica “autofágica” da esquerda, pois hoje um partido de esquerda sempre busca crescer detonando outro.

Alex, se eu falasse de “dogmatismo” sem ilustrar e dar elementos estaria com acusações no vazio. E meu caro, agora mesmo disse que estou trazendo ataques ao marxismo e que estou dizendo que “classes não existe”, como se atacar a leviandade de um comentário fosse sinônimo de “negação das diferenças”. Que preguiça.

Da mesma maneira que distorce ao dizer que meu intuito é desvalorizar as experiências históricas e o estudo. Releia seus comentários e verás que o que fazes é uma maximização da história, como se ela fosse capaz de responder a tudo. Comentários do tipo “eu já tentei, não deu certo”.

Camarada, tenha mais cuidado ao interpretar o que digo. Quando falo do desafio de uma geração estou falando no contexto do PCB, pertinentes aos dogmas e misticimos que atesto neste debate. Daqui a pouco vai me sugerir um psiquiatra, pois certamente está me acusando de esquizofrênico. Em três parágrafos disse que estou negando classes, desvalorizando a história e os estudos e dizes que estou afirmando que sai transformação social em menos de uma geração.

E por fim, o camarada pode ficar tranqüilo que não tentarei produzir estragos no partido comunista, pelo contrário, procurarei sempre contribuir e receber contribuições do partido e de todas as organizações que buscam pela transformação.

Revistacidadesol disse...

Oi, Sammer. Eu sinceramente acho que o PCB precisa discutir essa questão da identidade nacional, mas isso é discussão cultural. Isso é o melhor do seu comentário. Mas note que o CPC era (financiado pela) UNE. Ou seja, se é cultura, precisa de financiamento.

Sugiro que o partido pense numa peça teatral para ilustrar as posições das resoluções de seus congressos.


Fora isso, acho que vc viajou em Cuba, além de viajar para Cuba. Voltou falando em foco, método, quem sabe coubesse aí uma discussão guevarista-foquista-maoísta com o livro do Debray de entremeio. Vc supõe que não tentaram o método do foco, ou seja, de um grupo de revolucionários armados substituindo um partido, em outros países? E que em Cuba, num primeiro momento, a presença de um exército revolucionário substituiu o partido?

Abs!

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