quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Um fanatismo impede a liberdade !

Com desagradável frequência recebemos notícias bizarras de homens assassinando mulheres desarmadas e aos poucos começamos a receber também notícias de mulheres assassinando homens desarmados, pelo mesmo motivo inventado por senhores de escravos há coisa de cinco mil anos.

Essas covardias nojentas são uma afronta à liberdade das mulheres e de todos nós. São a forma como os animais incapazes de expressarem tal coisa em palavras opinam a favor da escravidão. Tais crimes devem ser punidos com dez vezes mais rigor do que têm sido até agora, mas também devem ser combatidos pela raiz, ou mais exatamente, devem parar de serem estimulados, como hoje o são pelos meios de comunicação de massas.

A escravidão se multiplicou há uns cinco mil anos, e chegou a seu auge há pouco menos de dois mil anos. Antes de se escravizar homens adultos, os primeiros escravos foram crianças, mulheres e idosos. Desde então, a história da opressão sobre as mulheres se confunde com a opressão sobre toda a humanidade. Contudo, encontramos semelhantes nossos, australopitecos, vivendo na África há cerca de dois milhões de anos! E mesmo se levarmos em conta somente nossa espécie, homo sapiens sapiens, devemos contar no mínimo cem mil anos, e no máximo quatrocentos mil, a se levar em conta recentes descobertas na Palestina. O enterro mais antigo registrado tem oitenta mil anos, as flautas mais antigas têm trinta mil anos, que é uma idade semelhante à das pinturas “realistas” de animais no fundo de cavernas, de forma que a escravidão, incluindo a das mulheres, é coisa recente, pois tem só cinco mil anos.

No auge da escravidão, quando Roma já tinha sido novamente reduzida à monarquia sob o nome de Império, a lei romana definia o Famulus como o conjunto da propriedade de um Pater, ou seja, os escravos, as mulheres e as crianças, sobre os quais o Pater tinha o poder de vida e de morte. Como era de se esperar, tal poder dos Pater era compensado pelo poder do Imperador de vida e de morte sobre todos os romanos...

Na idade média européia, quando o aspecto principal da dominação era ideológico, exercido pela Igreja Católica Romana, assim era também mantida a dominação sobre as mulheres, pois a Inquisição levou dezenas ou até centenas de milhares à morte nas torturas, no garrote e na fogueira, sob a acusação de bruxaria. Sabemos, contudo, dando uma simples corrida de olhos pelos documentos que restaram, que a verdadeira bruxaria era simplesmente a mulher viver sozinha, ou ser influente, ou ser viúva, ou ser lésbica, ou adultera, ou muito bonita, ou gostar muito de gatos, em uma palavra, não estar dentro da uniformização, em outra palavra, ser livre.

Somente nas tribos, ou seja, nos povos que nós historiadores chamamos de neolíticos, que ainda estão na idade da pedra, que não têm Estado, nem classes, mas mesmo assim não em todas as tribos, a liberdade se manteve. Sim, o preço que eles pagaram para manter essa liberdade, sem terem opção de escolha, claro, foi permanecerem neolíticos. E o preço que nós pagamos para multiplicar nosso poder sobre a natureza, para multiplicar nossas forças produtivas, foi certamente a liberdade, e também não sabíamos que isso aconteceria.

Nossa sorte é que tudo produz o seu contrário, a sua própria destruição, mesmo a escravidão. A liberdade das mulheres e de toda a humanidade é uma possibilidade da era industrial. Basta observar que onde chega a indústria, seja o país que for, inicia-se a libertação das mulheres. Nem antes, nem depois, mas sim junto com a indústria e com o movimento operário. No Brasil, portanto, foi no século XX que as mulheres puderam tomar as rédeas das próprias vidas, foi quando desapareceram dos tribunais as defesas alegando Crime de Honra em favor de maridos assassinos de esposas e ou de seus supostos amantes, e quando as mulheres puderam pedir divórcio, direito que antes era exclusivamente dos homens. No século XIX, embora existissem no Brasil mulheres livres, na quase totalidade dos casos ainda valia a lei romana, ou seja, um pai de família na prática podia (e era comum) manter “sua” mulher trancada, bater nela e obrigá-la a trabalhar, ou seja, no geral as mulheres eram escravas.

Se pesquisarmos os países em que as mulheres são mais livres, notaremos que são mais industrializados, e ao contrário, os países em que as mulheres são ainda hoje escravas são pouco ou nada industrializados. No Oriente Médio os países mais industrializados são Israel e o Irã, o primeiro é uma base militar dos EUA e de fato segue os hábitos desse país, no segundo as mulheres lutam pelos seus direitos nas ruas, ou seja, vive-se um movimento de libertação aguerrido, o maior do Oriente Médio.

Contudo, a indústria também espalhou pelo mundo o capitalismo, e assim como esse modo de produção oprime toda a humanidade, oprime as mulheres, em um processo complementar, tão complementar que uma coisa parece não ser possível sem a outra! Marx constatou a incrível capacidade do capitalismo de transformar tudo em mercadoria, de colocar tudo no mercado, de dar preço para tudo, de colocar tudo em negociação, inclusive as pessoas... Eis ai a tragédia de nosso tempo! Se mantém por esse caminho invertido a escravidão de mulheres e homens, no mercado, e a máquina de guerra cultural estadunidense, assim como suas dezenas de imitadoras, reforçam de todas as formas possíveis a idéia de propriedade sobre seres humanos.

Trata-se do amor-mercadoria, um amor que se traduz no verbo ter, ter exclusividade, paranóia que só pode resultar em ter controle, de forma que estamos, no século XXI, de volta às manias dos bárbaros que há uns cinco mil anos começaram com isso. Porém, que diferença nos motivos..., pois os bárbaros a princípio queriam ser donos de mulheres para garantir a paternidade dos filhos, enquanto hoje se estimula a propriedade por si mesma, por status. São milhares de filmes, desenhos animados, clips etc., em que o que se decide é quem vai ser exclusivamente de quem, e por isso se bate e se mata! Ter, observem o verbo, uma esposa ou similar se tornou, por força hoje dessa propaganda, algo a se mostrar como um troféu, e como todos sabem chegamos ao absurdo, do qual no futuro darão muitas gargalhadas, em que homens homossexuais se dão ao trabalho de desfilarem também com esposas, mesmo sem gostar delas, que é o exemplo mais bizarro da mercantilização das pessoas, pois do amor-mercadoria, nesse caso, só sobra a mercadoria. Nesse exemplo, o homossexual é escravo da sociedade e por isso tem que adquirir uma mulher. Uma escravidão reforçando a outra.

Por que tanta pressão? Para que essa propaganda incessante do casamento? Por que é que se faz uma campanha abusiva para que todos “tenham” alguém? Ora, lembremo-nos de Roma, onde a escravidão acabou destruindo a República e criando os sanguinários imperadores, ou seja, a envergonhada volta da monarquia. Não podem existir algemas mais fortes do que as pessoas que se ama feitas reféns! Fazer as pessoas se comprometerem a serem propriedades umas das outras e depois fazer delas as únicas responsáveis pelos seus filhos tem sido um mecanismo eficiente para aquietar dezenas de gerações. O trabalhador não pode enfrentar seus exploradores com a mesma decisão, com a mesma ousadia, se tiver atrás de si uma família para alimentar. É só por isso, só pela docilidade dos trabalhadores, ou seja, para manter uma escravidão, que se faz tão forte campanha por outra escravidão. Por se deixarem convencer a “ter” outra pessoa, coisa obviamente cruel, as pessoas perdem a própria liberdade, o que é justo, mas devia ser desestimulado.

Os crimes bárbaros que repetidamente aparecem nos jornais, e deve-se saber que só noticiam os crimes das áreas que cobrem ou os mais bárbaros, são um sub-produto desse conservadorismo capitalista – as pessoas de cabeça mais fraca, burras, realmente chegam a acreditar que são donas ou que deveriam ser donas de outras a ponto de apelarem para a violência. Depois de um bombardeio de centenas de filmes, acabam convencidas de que só podem ser felizes se “tiverem” uma pessoa conforme o modelo estabelecido por Hollywood. Caem então no desespero e destroem diversas vidas, pois junto com a vítima sofrem os parentes e amigos, e como é notório, se estraga também a vida do assassino e seus familiares.

Precisamos combater essa situação por dois caminhos. Primeiro, devem existir punições de verdade para assassinatos, o que não acontece no Brasil, e a motivação ser machista devia ser um agravante maior do que simplesmente “motivo banal”. Segundo, deve ser feita a denúncia da propaganda machista incutida em quase todos os filmes e desenhos animados, e deve ser feita a propaganda da liberdade sexual com mais vigor. Sem a completa liberdade sexual não será possível superar o capitalismo.

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