segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Sobre as reformas econômicas anunciadas em Cuba

A imprensa capitalista está festejando as reformas micro-econômicas realizadas em Cuba, e ironizando a afirmação do comandante Raul Castro, de que o socialismo continua inabalável na pequena ilha desconhecida. É necessário aproveitarmos esse momento para debatermos um assunto fundamental sobre nossa concepção sobre a sociedade que queremos construir no Brasil.

As reformas foram aprovadas pelo parlamento cubano, 703 deputados eleitos sem partido e sem dinheiro, em voto secreto. Eles não recebem salários, nem têm assessores. Se reúnem três semanas por semestre e decidem tudo sobre tudo na ilha, depois voltam para suas cidades para trabalhar igual todo mundo. Quer dizer, segundo eles nem todo mundo, e eis o motivo de uma das reformar - os cubanos falam muito que Cuba é o único lugar no mundo em que se pode viver sem trabalhar, deixando claro que eles não conhecem bem os brasileiros. Eles então resolveram cortar certas ajudas estatais a pessoas aptas a trabalhar e que não o fazem. Outra reforma é permitir ainda mais pequenos negócios, como bares, salões etc.

Pergunto aos camaradas, o que essas duas medidas têm de capitalista? Devemos tolerar e estimular a vagabundagem? Acho que a Revolução Cubana pulou de um extremo ao outro, e agora pode encontrar o caminho do meio. No princípio chegou a se difundir o lema "quem não trabalha não come", obviamente aplicado somente às pessoas aptas a trabalhar, mas que mesmo assim era um exagero. Depois se adotou um paternalismo extremo, igualitarista, garantindo tudo a todos, sem nenhuma exigência de trabalho, como se as forçar produtivas de qualquer país do mundo já permitissem tal luxo. Devemos observar com cuidado, pois em poucas décadas deveremos tratar dos mesmos assuntos, e evitar exageros - infelizmente não é possível nem obrigar todo mundo a trabalhar, nem dar tudo a todos sem cobrar trabalho em troca. Isso não tem nada haver com capitalismo e socialismo, São só obviedades, a primeira política a segunda matemática.

Sobre os pequenos negócios, devemos nos perguntar - eles são acaso perigosos para qualquer regime que seja? Então o perigo para o socialismo cubano virá dos donos de botequins, das cabeleireiras e das vendedoras de roupas? E eu que na minha inocência pensava que o socialismo só poderia ser derrotado pelos corruptos de dentro da máquina do Estado? Ora, que disparate! Acreditar que o socialismo está acabando porque as pessoas podem ter seus pequenos negócios, que é o mesmo que acreditar que para construir no Brasil uma sociedade melhor temos que fechar os pequenos negócios!!?? Só se for para preservar a saúde dos donos desses negócios, que são obviamente masoquistas. Não existe outro motivo plausível.

São na verdade trabalhadores sofridos, que normalmente trabalham muito mais horas que a massa dos empregados. Em suas horas de descanso, estão preocupados sempre, pois pequenos negócios são sempre inseguros. Eles colocam suas economias na pequena prisão que constroem para si mesmos e 80% acabam falindo. Devem ser reprimidos mais do que se reprimem sozinhos? Então um cubano tem um sonho de ter um bar. Minha vontade é dizer que sonha com isso porque é um idiota, mas vou dizer que é porque assistiu na TV. Deve ser impedido? Para que? Deve ser jogado no colo do inimigo estrangeiro porque tem o sonho inocente de abrir uma birosca qualquer?

E no Brasil? Devemos deixar que os pequenos comerciantes, prestadores de serviço etc. continuem grudados aos seus carrascos capitalistas com medo de nós? Os capitalistas espalham aos quatro ventos que somos inimigos desses coitados, enquanto Marx nos ensinou a ter dó deles. Os capitalistas espalham tanto essa mentira que convencem até mesmo pretensos comunistas carentes de estudos. Só um completo asno pode acreditar que essa massa de arraias miúdas desunidas até a extinção deve ser tratada como inimiga. Eles são o que são, e devem ser tratados como todos que não são o núcleo capitalista, como alvos de nossa política de aliança e neutralização. A história do PCB mostra, diga-se para encerrar, que dentre eles surgem bons comunistas, alguns dos quais deram suas vidas na luta pela liberdade e a democracia, e pela preservação do Partido.

3 comentários:

Fabiano Sephiroth disse...

Excelente artigo. Meu parabéns.

Concordo que não são pequenos negócios que fazem o capitalismo e sim os grandes. Os pequenos só servem, na maioria dos casos, para o sustento dos donos e não para muito luxo.

Espero que essas mudanças em Cuba façam o país se recuperar melhor que nunca.

um abraço

fabiano.silva.amorim@gmail.com

fabiano-amorim.blogspot.com

mbraida disse...

Com essas reformas, ou micro reformas conforme suas palavras,a primeira colocação:derruba um dos pilares do socialismo: o pleno emprego.Segundo:pela primeira vez o governo cubano está reconhecendo que as pessoas são diferentes umas das outras e que a meritocracia é sim uma das melhores formas de recompensar os trabalhadores e não a teoria que todos devem ser tratados de maneira igualitária.Terceiro:Cuba não tem estrutura para absorver 500 mil trabalhadores na iniciativa privada.O poder aquisitivo cubanos,como todos nós sabemos, é muito baixo para consumir bens de consumo e serviços que serão ofertados para a população.Quarto: a sobrevivência de micro e pequenas empresas em geral é muito baixa.Imagino que pessoas acostumadas a trabalhar como funcionärios públicos, terão mais dificuldades ainda.Portanto,o risco de uma grande parte deles se dar mal é muito grande.E finalmente, muitas empresas começam muito pequenas e se tornam gigantes.Exemplos não faltam

alex 2121 disse...

Se inclui "pilares" demais no socialismo. O capitalismo é tolerado com tudo de ruim, mas do socialismo se exige a perfeição.

O pleno emprego nunca foi "pilar" do socialismo científico, mas sim uma reivindicação justa dos trabalhadores de todo o mundo, o que é diferente, uma coisa é ciência, outra uma justa reivindicação espontânea. Não são opostas, mas não são a mesma coisa.

O igualitarismo não somente não é comunismo, como o comunismo nasceu e cresceu debochando do igualitarismo, que não é justo. Enquanto o trabalho é necessário, não é justo que ganhem o mesmo um cidadão trabalhador e um que é empregado mas simplesmente não trabalha. Isso é desestimulante, desmoralizante, corruptor, não tem nada de comunismo, é um estimulo à vagabundagem.

Existe em Cuba uma demanda pelo crescimento desse mercado de quinquilharias, e na verdade desde a década de 90 muita gente tem largado os empregos públicos para se dedicar ao mercado, embora ainda na ilegalidade. Essas reformas vão legalizar isso.

Essa conversa do poder aquisitivo não tem nada haver. Trata-se de negócios internos, com moeda interna, que o governo é que imprime! Ou seja, isso é conversa dos economistas liberais, cheios de crenças absurdas, fetiches, uma verdadeira religião, cujo profeta foi Smith, e na qual só se pode acreditar pela fé.

Sim, a maioria vai falir, mas é bom que descubram isso sozinhos, porque já contamos para eles há 200 anos, mas eles não acreditam.

O problema não é esse - o problema são os que vão enriquecer! Esses, que se tornarão poderosos. Esses são o perigo.

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