terça-feira, 24 de março de 2009

Artigo censurado na UFSJ

De que lado você quebra o ovo? Ou a Universidade laica em risco

Em As viagens de Gulliver (1726), Swift narra as guerras entre os reinos de Liliput e Blefuscu, cujo motivo era: como quebrar um ovo quente, pela parte mais fina ou mais grossa da casca? Ele satirizava as guerras religiosas que, nos séculos XVI e XVII, opuseram católicos e calvinistas na Europa, causando um milhão de mortos, por divergências de dogmas e ritos. As guerras religiosas, como a Inquisição moderna, com um saldo de milhares de mortos e torturados e requintes de crueldade, nasceram da confusão entre Estado e religião. Hoje, a promiscuidade entre religião e Estado é um ingrediente de conflitos que são gerados pelo fundamentalismo estadunidense e, a sua nêmesis, o islâmico, vendidos como “um choque de civilizações”.
Caminhando pelo Campus Tancredo Neves vemos uma capela católica em funcionamento e, no carnaval, um concorrido encontro religioso. Assuntando, descobrimos que, em 2006, o CTAN abrigou a Mocidade Presbiteriana e que na capela são realizados encontros da Renovação Carismática. Essas atividades não estão no site da UFSJ, o que configura uma intransparência e sugere que podem ser correntes. Atos religiosos em instituições públicas são anti-republicanos e antidemocráticos, pois ferem o princípio do Estado laico, no qual essas são opções de caráter pessoal e privado. Na educação essa prática é mais grave, pois a religião implica a revelação e o dogma, e o conhecimento exige a plena liberdade de crítica e questionamento. A história nos remete ao filósofo e astrônomo Giordano Bruno e ao médico e anatomista Miguel de Servet, queimados, respectivamente, pela Inquisição Católica e pelos calvinistas.
Para quem a intolerância é coisa do passado e dispensa cuidados, recordamos uma declaração do atual Papa, então cardeal, em 1990, declarando que o “julgamento contra Galileu foi razoável e justo”. A lembrança foi feita pelos docentes da Universidade de Roma La Sapienza, repelindo o convite do reitor para que o Papa lá discursasse. Nesse início de milênio vemos a imiscuição religiosa junto ao Estado e à ciência nas polêmicas das células-tronco; nas ações de prevenção (o Estado pode ou não divulgar a “camisinha”) e tratamento de doenças (religiões que negam o uso de vacinas ou transfusão sangüínea) e no direito à eutanásia em casos irreversíveis (Eluana Englaro na Itália); na introdução do ensino religioso em escolas públicas (imposto pelos evangélicos “garotinhos”) e do dogma criacionista nas aulas de ciência; e no combate à união civil de homossexuais.
Alguns dirão que o nosso povo, em especial o de São João del-Rei, é católico. Outros, que ninguém liga para isso. Ou ainda: no Brasil não há conflitos religiosos! Pode ser. Mas não devemos entender que esses conflitos não existem e que não podem aprofundar-se, num mundo globalizado e prenhe desses conflitos ditos “culturais”. Mas, sobretudo, não cabe ao Estado e à Universidade Pública chancelar quaisquer hegemonias religiosas e a dominação e os constrangimentos por ela gerados.
A Universidade Pública deve ser o espaço no qual cristãos, católicos protestantes ou ortodoxos, muçulmanos, judeus, camdomblecistas, umbandistas, budistas, hinduístas, materialistas, agnósticos e outros exerçam a sua crítica no campo da ciência e da cultura, sem constrangimentos, privilégios ou tráfico de influências. Nela não importa de que lado você quebre o seu ovo quente, ou que não os consuma, pois isso não implicará nenhuma discriminação.

Wlamir Silva
Professor do Curso de História

Censurado:
Este artigo foi enviado, em 26 de fevereiro de 2009, para publicação na tradicional seção Opinião do Jornal da Universidade da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Não houve resposta da mensagem eletrônica que o encaminhou e na edição de 20 de março de 2009 o Jornal da Universidade saiu sem a seção Opinião, ironicamente, na capa do jornal a chamada era “50 anos de jornalismo”.
Essa censura, que como toda boa censura pretende ser velada, já se mostrou quanto a artigo sobre a tentativa de imposição de cotas raciais na Universidade e em relação a fatos evidentemente significativos na vida da UFSJ, como a ocupação da reitoria pelos estudantes e a greve dos alunos no Campus de Divinópolis.
Impossível não lembrar do ditador de plantão Emílio Garrastazu Médici, no auge da repressão pós-64, que se dizia feliz porque “no noticiário da TV Globo o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz. É como tomar um calmante após um dia de trabalho”.
Quanto ao assunto tratado, nada mudou, antes piorou. Na UFSJ foram realizadas missas católicas e um culto evangélico (esse com chamada no portal da Universidade) pelo início do semestre letivo. O triste episódio do aborto da menina de nove anos estuprada pelo padrasto evidenciou a pressão, com o a excomunhão e ameaças legais, sobre funcionários públicos, mostrando o destempero de uma autoridade eclesiática, sob um Vaticano vacilante. Em visita à África o Papa atacou as políticas públicas de distribuição de preservativos e caracterizou as religiões autóctones, origens das religiões afro-brasileiras, como bruxaria a ser combatida pelos católicos.

Um comentário:

Sammer Siman disse...

Lamentável ver as práticas anti-democráticas perdurarem, mesmo depois de tantas denúncias por parte da comunidade acadêmica.

Certamente os atuais "donos do poder" da UFSJ ficarão eternamente com a noção da apropriação da "coisa pública", sem mesmo refletir o mínimo necessário, ou seja, o próprio nome que representa UNIVERSIDADE, que por si só já traz explícita a noção de diversidade...

Neste caso e em tantos outros, só em tese...

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