domingo, 3 de abril de 2011

A Confissão do Reitor

O reitor da UFSJ tem tentado influenciar as indicações dos estudantes para o Conselho Universitário, órgão máximo da universidade, de forma a conseguir conselheiros dóceis. Ficou nacionalmente famoso o episódio em que esse mesmo reitor ligou para os Centros Acadêmicos pedindo votos para um estudante contra outro! Foi um sinal claro da força que essas organizações de base alcançaram na UFSJ desde que reformaram o Diretório Central dos Estudantes em 2004, pois em outras cidades os reitores ligam para os chefes partidários, não para os estudantes das entidades de base. Apesar dos telefonemas, os Centros Acadêmicos elegeram e confirmaram por quatro vezes o estudante que o reitor não queria!

Esses Conselhos são abertos a todos os estudantes, e neles têm voto as entidades de base, ou seja, os Centros Acadêmicos de cada curso, de forma que cada curso tem um voto. É portanto um parlamento, mas um parlamento completamente transparentes e aberto à participação. Esse Conselho, que lembra aos historiadores estruturas como os Soviets ou a Comuna de Paris, tem dirigido o DCE há 6 anos. Há seis anos, o DCE não é mais usado como trampolim eleitoral, não é mais usado como comitê partidário, não é mais usado com fonte de recursos financeiros, em uma frase, não é mais parasitado por carreiristas. O movimento universitário está então renascendo, com estudantes de verdade, e fala cada dia mais grosso com a reitoria e com a prefeitura da cidade.

O reitor enfim percebeu que nem com sua influencia pode controlar os conselheiros universitários eleitos e acompanhados pelo Conselho de estudantes, então está propondo uma mudança estatutária, em que os conselheiros deixariam de ser indicados pelo Diretório Central dos Estudantes e passariam a ser eleitos diretamente. Assim ele conseguiria conselheiros dóceis, pois eleições diretas grandes e caras elegem tiriricas, malufs, nivaldos, as câmaras dóceis aos prefeitos, são a consagração do poder financeiro, e não da democracia. Os estudantes mesmo, que participam do Conselho de estudantes, que fazem qualquer movimento estudantil, estarão alijados do Conselho Universitário, privados de voz, terão que negociar sempre com os pés, ocupando a Reitoria sempre que seus “representantes” tiverem votado contra seu desejo.

A eleição direta em uma Universidade é como em uma cidade, é a consagração do poder do dinheiro, dos interesses mais espúrios, da esperteza, é o que pode haver de mais anti-democrático em matéria de democracia, é o pior modelo de democracia, o estadunidense, que os EUA tentam impor ao mundo com guerras. Há 30 anos, quando os presidentes eram indicados pelos generais e as eleições eram controladas, a bandeira de Diretas Já foi útil, mas mesmo assim, hoje, é necessário confessar, foi enganosa. Foi uma grande mentira pregada ao povo pelo PMDB, por Tancredo, por Ulisses e adotada fanaticamente pelo PT desde então, que iguala democracia com eleições diretas. E mentir ao povo é sempre um mal, é sempre contra-revolucionário, é sempre um desserviço.

Existem diversas formas de democracia, e já existiram piores. Na Grécia antiga ficou famosa essa forma de Estado, da qual herdamos o nome, mas era na verdade o poder dos senhores de escravos. Os Demos atenienses eram compostos somente pela minoria de homens livres nascidos de pais e mães atenienses, e assim eram até as mais amplas democracias das cidades gregas, excluíam escravos, mulheres e estrangeiros. Na idade média Veneza foi a cabeça de uma democracia só de nobres, a República do Veneto, e como ela existiram outras. Durante os séculos XIX e XX se aprimoraram as democracias do dinheiro, cujo truque são as eleições diretas, que legitimam o poder da minoria detentora do capital. Por último surgiram democracias das pessoas, diretas e participativas na medida do possível, transparentes, abertas às pessoas e fechadas ao dinheiro, mas que ainda estão se aperfeiçoando. Ou seja, estamos tentando, ainda com resultados defeituosos, pela primeira vez democracias que correspondam ao significado atual da palavra grega – poder do povo – mas já temos certeza que o método não é a grande e cara eleição direta.

Que o reitor tenha feito o favor de confessar que precisa de eleições diretas para ter conselheiros dóceis é outra prova da ineficiência das eleições diretas – o reitor, eleito em eleições diretas, sendo que a última foi em si mais uma prova do que são esses jogos, é muito... hábil e inteligente, de forma a tentar fazer agora o movimento estudantil que não fez quando devia ter feito e confessar para todo o mundo as fraquezas do regime político em que se sustenta. Não é caso único, é a regra. No Brasil todo, se as Universidades Federais não fossem dirigidas por conselhos de professores e estudantes, mas somente pelos seus reitores, já teriam sido superadas pelas particulares.

Um comentário:

Insurgente disse...

O texto contribui muito para entender a situação. O texto discute vários pontos importantes, apresenta uma firme denúncia contra a intervenção da administração da Universidade na organização dos estudantes e faz uma defesa intransigente do nosso modelo. Este modelo é o resultado de muito tempo de discussão e de muitas lutas travadas pelas pessoas que tem uma concepção diferente sobre as organizações da sociedade, é um modelo que afastou vários oportunistas que tomavam conta da entidade representativa dos estudantes por aqui. Articulados pelo reitor esses mesmos oportunistas voltaram. O texto explica bem o funcionamento do modelo, lembra a sua fundamentação em modelos históricos de organização da classe trabalhadora. Mostra bem a questão central dessa proposta da reitoria, que é desmobilizar os estudantes com eleições difusas, financiadas por entidades que buscam (re)aparelhar a entidade representativa dos estudantes e promover os interesses individuais de alguns oportunistas. A principal questão do texto é que o reitor assume que a pior forma de organização dos estudantes são as eleições diretas, que para desmobilizar os estudar é preciso impor esse modelo...

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