Prefeitura enfrenta pressão interna contra tarifa zero

 


Antes mesmo da posse, o atual prefeito, do PL, anunciou a tarifa zero. Os protestos da parte ideológica de sua própria base foram imediatos. Estão contrariados com a única medida significativa tomada por essa administração para o trânsito. O trânsito de São João del-Rei só piora, enquanto existem soluções baratas para melhorá-lo.

Por que parte da base do prefeito é contra? Primeiro vieram as mentiras segundo as quais a tarifa zero seria economicamente inviável, ou que faria faltar dinheiro em outras áreas. Depois vieram as críticas que não têm nada a ver com o assunto e as preconceituosas, como brigas entre passageiros e o caso de um maluco que defecou no ônibus. Se um pneu furar, aparecem postagens dos mesmos de sempre culpando a tarifa zero.

Mas todos sabemos que a oposição à tarifa zero é ideológica. Primeiro, porque é uma bandeira de setores da esquerda, e foi até defendida pela atual vereadora do PT, Cassi, em sua campanha. Segundo, pelo mesmo motivo que tem gente que não gosta do bolsa-família. Existe uma coisa em que algumas pessoas de direita entendem o capitalismo e concordam intuitivamente com Marx - O capitalismo é movido pela miséria, ou mais precisamente, pelo medo da miséria, que foi o que substituiu o chicote. Muitos confessam – são contra a bolsa família porque geraria vagabundagem. É uma mentira. R$ 600,00 para quem tem crianças pequenas não pagam nem o leite. Mas é verdade que qualquer melhoria de vida afrouxa a escravidão. É isso que capitalistas (ou “miseristas”?) não perdoam na tarifa zero. O crime de melhorar a vida dos escravos. Querem escravos submissos, e aprenderam que os conseguem a partir da miséria.

Para o trânsito caótico, a tarifa zero não mudou nada, porque zerar a tarifa é uma coisa, e aumentar o número de ônibus em circulação é outra. Para retirar um número significativo de carros e motos de circulação não basta que o transporte coletivo seja gratuito. Ele tem que ser bem melhor do que é. São necessários mais veículos e mais linhas.

Uma das piores coisas em uma cidade grande, que nem somos, é o caos e a lentidão do trânsito. Horas perdidas por dia, são anos de vida perdidos, dentro de alguma caixa de metal, estragando a saúde. É ridículo e incompetência suprema que existam engarrafamentos em São João del-Rei, com menos de 100 mil habitantes. Para piorar, vários sinais de trânsito estão estragados, e alguns ficam fechados por vários minutos. Os acidentes têm se multiplicado ano após ano.

E a preocupação escravista é acabar com a tarifa zero? Eles propõem uma taxa simbólica. Não faria tanta diferença, e nenhum comunista pode reclamar, porque a verdade é que vários países socialistas, como Cuba, cobram uma taxa simbólica. Mas há uma diferença. Em Cuba basta colocar uma caixinha e as pessoas colocam o dinheiro, até fazendo-o passar de uma pessoa por outra até chegar na caixa. No Brasil, dada a desigualdade social e a cultura criminosa hollywoodiana, as caixinhas atrairiam ladrões e todo dia seria necessário parar os ônibus e chamar a polícia para fazer BOs. Então, para cobrar uma taxa simbólica, será necessário retornar com os cobradores. Ora, um dos segredos da tarifa zero aplicada em São João del-Rei foi a redução de custos que resultou da extinção dos cobradores. O crescimento do número de veículos por aplicativos derrubou o número de passageiros, e a tarifa zero foi uma saída, extinguindo os trocadores e substituindo as passagens em decadência numérica por uma quantia fixa paga pela Prefeitura, que por sua vez tomou uma das bandeiras da esquerda e agradou o eleitorado.

Outra proposta para o trânsito de São João é o anel rodoviário. O anel rodoviário vai melhorar o trânsito, mas não vai resolver. Os problemas de trânsito de São João são bem maiores que os veículos que estão de passagem.

Há alguns anos comenta-se sobre um novo terminal rodoviário que estaria sendo construído perto do trevo do Elói. Se for verdade, o atual terminal rodoviário serviria muito bem como estação central do transporte coletivo urbano, pois está mesmo em uma posição central atualmente. Todas as linhas partiriam dele para os extremos da cidade, melhorando a logística do transporte coletivo, o que provavelmente reduziria seus custos e permitiria abrir novas linhas ou novos horários.

Ainda sobre o transporte coletivo, o melhor que poderia ser feito é a licitação por linhas, e não de tudo para uma empresa só. É fazer como em BH, onde a prefeitura tem a BHTrans, que faz licitação de linha por linha. Só que é muito melhor para São João del-Rei, porque BH, antes disso, já fazia seu transporte com suas próprias empresas. Em São João a licitação de todo o transporte para uma única empresa significa a exclusão de todos os pequenos empresários, donos de ônibus e vãs da própria cidade. Fica tudo com uma empresa de fora. Na licitação linha por linha quase todas as linhas, ou todas, ficariam com empresas locais, que compram peças e combustível aqui, que levam seus veículos para mecânicos aqui, que gastam seus lucros aqui. Já uma grande empresa, além de comprar e consertar tudo fora, sempre vai ser oposta às melhorias. Por exemplo, se a Prefeitura paga uma quantia fixa para a empresa, é claro que a mesma não vai querer aumentar o número de veículos e ou de linhas, porque o objetivo de uma empresa é reduzir custos. Se fossem pequenos empresários não teriam tanto poder sobre a prefeitura, e como são em grande número, representam uma grande oferta, o que significa que aceitariam preços menores.

Mas o melhor mesmo para o transporte em São João del-Rei seria uma ciclovia passando debaixo das pontes no leito do córrego do Lenheiro. Seria provavelmente a mais eficiente ciclovia do Brasil em uma cidade do porte de São João del-Rei. Todas as objeções a essa ciclovia são absurdas. Primeiro, o fato da área ser de alagamento. O córrego enche poucos dias por ano. No mundo todo ciclovias são feitas em áreas de alagamento, que é o motivo pelo qual essas áreas não foram ocupadas por casas no passado. É coisa da idade da pedra realizar obras que resistem a áreas de alagamento. Segundo, o fato de existirem esgotos abaixo do gramado. Toda a parte central de São João, abaixo das ruas, tem esgotos. Por essa (i)lógica teríamos que parar de transitar em todas as ruas. Terceiro, a proteção do patrimônio histórico. Da grama? Ou a ideia é que não se possa passar abaixo das pontes? Se não pode passar embaixo, porque até caminhões passam por cima? Então que não se passe também por cima.

Não se trata de uma grande obra. O correto é só fazer as rampas de acesso, cada uma, uma obra. Fazer um tipo de calçamento é inútil e ficaria feio. As bicicletas mesmo vão fazendo seus caminhos na grama. Depois, se for o caso, é possível calçar exatamente esses locais já escolhidos espontaneamente pelos ciclistas, de uma forma que resista à cheias. Tentar fazer um caminho antes dos ciclistas usarem a ciclovia resultaria em dois caminhos, pois os ciclistas mesmo assim fariam seus próprios caminhos na grama. Em um trecho ou outro seriam necessárias melhorias. Umas duas pontes no trajeto são baixas demais, e os ciclistas terão que sair e retornar à ciclovia. Problemas que se resolveriam com o tempo, um a um.

Além de melhorar muito o trânsito, pois seria uma ciclovia desde o Tejuco até o fim da Leite de Castro, e depois poderia ser ampliada subindo o córrego Água Limpa, melhoraria a saúde em geral. O ar ficaria menos poluído, e pedalar é muito mais saudável que ficar assentado em uma caixa de metal. Qualidade de vida é isso, poder ir e voltar de bike sem disputar espaço com os carros e motos.

Para o turismo seria ótimo. Os turistas adorariam, e teriam mais no que gastar, pois teriam que alugar as bicicletas. Também seria uma propaganda turística, até porque uma ciclovia desse tamanho atrairia a mídia. A grande imprensa “brasileira” é toda de direita, e procura sempre desesperadamente por políticos afiliados à direita que façam coisas divulgáveis, decentes. Quando, entre 5.600 municípios, mais de 80% administrados pela direita, encontra um político de direita que sirva, essa mídia o endeusa. Ou seja, se esse prefeito fizer essa ciclovia, ela será divulgada nacionalmente.

Em resumo, a direita poderia deixar de lado suas obsessões escravocratas e, se quisesse, ter sucesso em melhorar o trânsito de São João del-Rei, gerando grande melhoria na qualidade de vida, quase sem custos.

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