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Ciro Gomes - Recall: A verdadeira esquerda ressurge


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Como historiador não consigo usar os termos “esquerda“ e “direita” de forma oposta ou muito diferente do que eram quando surgiram, na Revolução Francesa, quando os deputados que apoiavam o Rei, os poderes da monarquia, simpáticos ao Antigo Regime, às coisas velhas, os conservadores portanto, sentavam-se à direita do presidente do parlamento, e os que queriam a República, maior participação popular, reduzir os poderes do Rei, transformações políticas, ajuntavam-se à esquerda.

Outra Revolução, a Soviética, deu nova camada de significado a esses conceitos, pois desde então “direita” passou a ser sinônimo de defesa do capitalismo, e “esquerda” de defesa do socialismo. Note-se, porém, que esses novos significados estavam então ligados aos primeiros – A Revolução se chamou Soviética porque o poder foi tomado para os Soviets, ou seja, para a democracia extrema, em que todos podiam participar diretamente das decisões, depor governantes etc.

Desse ponto de vista, há muitos anos o Brasil não tem uma verdadeira esquerda! Em seus 14 anos de governo, ao invés de ampliar a participação popular, o Pt continuou, como desde antes de assumir o governo, a tentar limitá-la! Criou uma Lei de banalização do Terrorismo, que se volta contra os movimentos sociais; Tentou criar um Conselho censor da imprensa; Não distribuiu rádios aos Sindicatos e Universidades, mas continuou distribuindo-os entre políticos corruptos; Continuou tentando eliminar os Sindicatos locais, de base, engolindo-os com sindicatos nacionais ou estaduais que são mais fáceis de aparelhar e impossíveis de controlar pela base; Internamente substituiu a democracia participativa congressual por eleições diretas, ou seja, pela “democracia” do dinheiro; Nos DCEs e Sindicatos é contra substituir a democracia burguesa por formas mais participativas; Quando cria conselhos municipais nas cidades que administra, fazem questão de que a maioria dos membros sejam controlados pelo prefeito. Em resumo, pelo critério da Revolução Francesa o Pt e seus partidos anexos são de direita.

Também a “esquerda” não-petista está longe de ser esquerda pelos padrões da Revolução Francesa. Da boca para fora prega a ampliação da democracia, cada seita dando a isso um nome que lembra as Revoluções Socialistas, como o PCB, que defende o “poder popular”. Mas defendem para um futuro distante, depois da Revolução, e defendem dessa forma vaga, fluida. Morfologicamente “democracia” e “poder popular” são sinônimos, o que então defende o PCB e similares? Defendem que aguardemos a Revolução perfeita, e que até lá nos resignemos ao regime político que temos. Reformá-lo seria inútil ou impossível. Lembram muito as religiões, que pregam a resignação, a impossibilidade de mudar o mundo real, e que se aguarde o Paraíso. O resultado prático, como com nas religiões, é conservador, é de direita.

A última vez que uma esquerda de verdade existiu (com força histórica) no Brasil foi quanto uma imprensa alternativa, cuja folha mais forte era o Pasquim, enfrentou a ditadura e defendeu reformas democráticas. Desde então só tivemos conservadores! Uns pintados de vermelho, outros de azul, uns pedindo voto em nome da justiça social, outros liberalóides, mas ninguém tem proposto reformas democráticas plausíveis, realizáveis.

Nesse contexto surge a candidatura de Ciro Gomes. Surge, porque é nova, apesar dos 37 anos de carreira política sem manchas de Ciro Gomes. Muitos cabos eleitorais de Ciro Gomes estão perdendo tempo buscando provar a coerência de Ciro, porque não são historiadores acostumados ao debate recente sobre biografias. Os biógrafos de até poucos anos atrás tentavam tornar seus biografados “coerentes” em toda a sua vida, e isso sempre exige forçar a barra, esconder ou supervalorizar episódios, porque seres humanos evoluem! Ciro é hoje muito mais preparado, mais bem informado, mais avançado em termos de política econômica do que em sua época de ministro de Itamar, há 20 anos atrás! De fato, tentar provar que qualquer pessoa é a mesma hoje que há 20 anos atrás é duvidar da inteligência dessa pessoa. Se águas passadas não movem moinhos, em política é pior, é perigoso o apego ao passado, pois Eunício de Oliveira e Dilma não são mais guerrilheiros, Lula não é mais sindicalista, Mussolini um dia foi do Partido Socialista Italiano!

Ciro Gomes não propõe o socialismo! Ele não é um proletário, nem representa o proletariado. Ele não propõe o “poder popular” nem nada similar aos soviets. Mas ele defende o recall, ou seja, a revogabilidade dos mandatos. É uma velha bandeira do proletariado revolucionário, a mais interessante da Comuna de Paris, incorporada pelos Soviets, e que a pretensa “esquerda” brasileira, seja ela petista ou não-petista, teme! Não aplica nem aos Sindicatos e DCEs que dirige. Um candidato a presidência da República, forte nas pesquisas, propor o recall é a coisa mais avançada que eu já vi em todas as eleições presidenciais. Para quem tem dúvidas, está na página oficial dele: https://todoscomciro.com/reforma-politica/

Claro que o Brasil precisa de diversas outras reformas políticas, e Ciro não está falando de todas elas, mas ele teve o mérito de propor logo a mais importante, a mais avançada, o que facilita o caminho para todas as outras. É sabido que ele tem ou teve simpatias pelo parlamentarismo, por exemplo, que seria, ao contrário da choradeira ignorante dos petistas, um grande avanço democrático para o Brasil – os parlamentos deixariam de ser a lixeira pública e se tornariam minimamente sérios, porque os eleitores teriam que votar pensando em quem elegeriam para primeiro ministro, ao invés de votar no “candidato da região”, ou no “macaco Simão”.

Pode-se confiar em Ciro? Pode-se confiar em qualquer político? Os políticos importam o discurso que fazem!  Não se pode adivinhar o que as pessoas realmente pensam, muito menos o que pensarão nos anos seguintes, então nosso modelo político pseudo representativo é sempre um exercício de adivinhação (daí a importância do Recall). Por que votar então? Vota-se no discurso, do qual o candidato é somente um vetor. Então se Ciro Gomes tiver 30% dos votos no primeiro turno, pense ele o que ele pensar, estará dito ao mundo que 30% dos eleitores concordam com as propostas dele. Ele queira ou não a revogabilidade dos mandatos no íntimo, na prática 30% dos eleitores terão apoiado publicamente o recall (revogabilidade).

Os pseudomarxistas brasileiros, se chegaram a esse ponto do artigo, devem estar enfurecidos, pois pensam que marxistas não devem se preocupar com reformar a democracia burguesa. Ainda não entenderam o que realmente é o poder, o que realmente é luta de classes! São estranhos “marxistas” que não estudaram as lutas entre patrícios e plebeus em Roma, nem mesmo leram que para Marx o movimento mais revolucionário dos operários ingleses foi o Cartismo, em que os operários só pediam direito ao voto; que deputados ganhassem salários (se não nunca poderiam ter um deputado operário); que os mandatos fossem anuais (similar ao recall) e reivindicações econômicas como jornada de 10 horas diárias. Na verdade, para nossos pseudomarxistas Marx seria um pelego, porque não era utópico, não era blanquista, apoiava (lede Manifesto) qualquer avanço democrático burguês.

Como marxista, notando que a era petista terminou, eu buscava uma saída que acarretasse o mínimo de prejuízos para o proletariado (historicamente os períodos socialdemocratas geram enormes prejuízos na forma de reações da direita). Como a direita brasileira tem um projeto colonial e escravocrata (duas coisas diferentes mas que sempre andaram juntas – é difícil manter colônia um país de pessoas livres, e difícil escravizar pessoas de um país livre), Ciro Gomes já era uma opção pois continua apontando para o progresso, a soberania nacional (da qual os petistas e troskistas nunca foram muito afeitos), o desenvolvimento econômico. Mas com a proposta do Recall Ciro foi além, oferecendo ao povo brasileiro um novo poder, muito maior do que eleger. Na prática, a proposta mais revolucionária que está na mesa!

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Por que o parlamentarismo?

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O novo presidente do PSDb declarou defender o parlamentarismo, no que repetiu uma declaração do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, semanas atrás, quando negou seu apoio à revogabilidade dos mandatos executivos por plebiscito popular. Logo surgiram na internet, em grupos que se autodefinem de esquerda, comentários contrários ao parlamentarismo, encaixando-o em uma narrativa fantástica do golpe parlamentar de 2016. Opera-se assim uma inversão – a “direita” defende o parlamentarismo, e certa “esquerda” defende o presidencialismo, muito embora essa escolha em si seja o inverso do que os termos significavam quando surgiram no século XVIII, pois nada mais parecido com a monarquia que o presidencialismo.

Segundo os “gênios” de nossa tão bem sucedida esquerda o parlamentarismo seria conservador, ou seja, o presidencialismo permitiria mais avanços sociais que o parlamentarismo!?!? Melhor nem comparar o IDH ou outro indicativo social qualquer que se queira dos países parlamentaristas e dos presidencialistas, porque afinal, apesar da vitória parlamentarista ser esmagadora, não existem modelos.

A idéia de nossos incríveis “pensadores” de esquerda é que de posse do poder executivo seria possível promover avanços mesmo sem maioria parlamentar. Parece que 14 anos de governo petista com maioria parlamentar de direita não ensinaram nada a ninguém! Para um presidente fazer qualquer coisa significativa sem maioria parlamentar precisa, ou fechar o parlamento, ou comprá-lo, ou coisa que o valha, ou seja, a opção presidencialista é de fato uma opção autoritária. É a velha ilusão no Salvador da Pátria!

É necessária maioria parlamentar. Mas o presidencialismo não permite bons parlamentos. Os eleitores, exatamente iludidos em busca de um salvador, só votam a sério para os cargos executivos, e para os cargos legislativos votam por critérios não-políticos, como amizade, parentesco, local de moradia, serviços prestados etc.

Nos países parlamentaristas as eleições parlamentares são levadas mais a sério. Vota-se nos deputados pensando em quem será primeiro ministro. Os próprios candidatos expõem mais as fotos dos candidatos a primeiro ministro que as suas. Ou seja, vota-se no parlamento por critérios políticos!

O presidencialismo é corruptor. Para governar o poder executivo precisa de maioria no legislativo, e tem a chave do cofre para conquistar essa maioria, legal ou ilegalmente. É o que se vê em milhares de municípios brasileiros, há décadas! No parlamentarismo é a maioria parlamentar que governa, portanto essa maioria pode até roubar diretamente, mas não existe mais um mecanismo suplementar para não só estimular, mas na verdade obrigar à corrupção. A corrupção dos parlamentos sempre aparece, mas são os poderes executivos os agentes corruptores principais do país, porque precisam ser!


O parlamentarismo não é perfeito, não é o poder do proletariado, não acabará com o poder do capital. Contudo, para nossa realidade política é um grande avanço. Ficamos livres dos salvadores da pátria que existem em cada município, as eleições parlamentares são politizadas, e corrupção dos parlamentos pelos executivos deixa de ser obrigatória. Os petistas, que nunca se preocuparam com avanços na democracia, como demonstraram em seus 14 anos de governo, só se preocupam, como sempre, com o Lula, e serão contrários ao parlamentarismo. Completou-se assim uma incrível inversão – em propostas políticas o Pt está mais à direita que o PSDb! Enquanto os tucanos propõem o parlamentarismo, os petistas propõem que a nação seja salva por um messias, o Barba!

O retorno do esquecido Getúlio Vargas


É o último mês do último ano da gestão petista, e é a primeira vez que sou obrigado a publicar um artigo que a elogia. Por meio da Secretaria de Cultura, que passou quatro anos sob direção do PCdoB e ninguém nem notou, a estátua de Getúlio Vargas foi reinaugurada na Av. Leite de Castro. Ela está sem a carta testamento que tinha no pedestal original, no início da Av. Tancredo Neves, e precisou ser pintada, certamente por ter sofrido danos no período em que ficou abandonada, jogada em um canto. A estátua de Getúlio foi retirada de seu local original pela administração tucana-petista de 2004 a 2008.

A retirada da estátua de Getulio, substituída por (mais) um busto de Tancredo Neves, representou com exatidão o ódio que a direita brasileira tem por Vargas. Getúlio Vargas já reclamava disso em vida, e o atribuía à burrice das classes dominantes brasileiras, que seriam incapazes de compreender que ele as salvou do comunismo. De fato os exploradores mais xucros nunca o perdoaram por criar leis trabalhistas, e a direita ideológica liberal nunca o perdoou por ser nacionalista/estatista (no Brasil atual essas duas coisas são inseparáveis). Getúlio Vargas perseguiu os comunistas e outros oposicionistas, torturou e matou, e além de assassino foi ladrão, mas mesmo assim, por WO, foi até hoje o melhor presidente que tivemos! Os liberais tentam colocar JK na disputa, e os petistas são mais cômicos ainda tentando emplacar o Barba, mas não dão para saída. Os monarquistas, inábeis, tentam elevar a figura de Pedro II, quando se conhecessem melhor a monarquia tentariam com Pedro I, que em 9 anos fez muito mais que seu filho em 49. Fato é que Getúlio assumiu o comando de uma fazenda e a transformou em um país cheio de cidades e indústrias. Foi pouco, foi vacilante, foi corrupto, foi a custa de muito sangue, mas foi o melhor que tivemos até agora. Que a direita brasileira, ao invés de ser getulistas seja anti-getulista é um sintoma do maior problema que temos nesse país – a existência de grandes forças políticas anti-nacionais! Desde a independência somos obrigados a conviver com forças cujo projeto é o domínio estrangeiro.

Essa estátua de Getúlio, que hoje está em frente à mais antiga fábrica da cidade, foi feita com dinheiro de subscrição entre os trabalhadores, e os tucanos não tinham o direito de a retirarem do lugar para colocarem mais um busto do avô do patrão deles, e muito menos de a danificarem, sumindo com a carta testamento. Administração fracassada, depois de um governo de destruição nacional, que desindustrializou o país, multiplicou o desemprego, a violência e a corrupção, não tinham sequer moral para bulir com Getúlio Vargas. Eis a situação moral insustentável das classes dominantes brasileiras – estão abaixo de um ladrão sanguinário.

O retorno da estatua serviu para revelar o esquecimento em que caiu Getúlio Vargas. Quando Getúlio morreu, em 1954, os trabalhadores fizeram grandes manifestações, violentas, no país todo (São João inclusive), matando no ninho o golpe de direita que o levara ao suicídio. Até poucos anos atrás quase todo Sindicato ainda tinha uma foto de Getúlio, e mesmo muitas casas particulares. Atualmente Getúlio está esquecido! Em manifestações faz muito tempo que uma foto dele não aparece. Diante dessa estátua, as pessoas param e perguntam quem é! Uns chutam que é de Antonio Lombello, nome da praça, e cuja placa está perto da estátua, que por sua vez (incompetência até para reinaugurar uma estátua) está sem identificação. Outros chutam que é do construtor da fábrica! Tudo bem que a estátua não se parece tanto assim com o original, mas é impressionante.

Stálin morreu um ano antes, e até hoje na Rússia (que nem é sua pátria natal) e vários outros países as fotos de Stálin ainda aparecem aos montes nas manifestações. Não que Getúlio se compare, mas ao menos a nível nacional ainda devia ser lembrado. Contudo, em partes, foi a política getulista que gerou esse fenômeno. Na medida em que abafou o movimento sindical, enchendo-o de pelegos do Ministério do Trabalho, Getúlio estancou o desenvolvimento político do povo trabalhador, seu amadurecimento enquanto classe. Assim, tanto em 1945 quanto em 1954 ele não teve o apoio dos trabalhadores a não ser tarde demais, no segundo caso só depois de morto.

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Esse desserviço está em vigor até hoje! Embora sem a intervenção direta do Ministério, os Sindicatos estão quase todos mortos, parasitados, dominados por bandidos. Para os trabalhadores os Sindicatos não existem, são como escritórios do governo, como cartórios, e é comum entre eles o termo “dono do sindicato”, referindo-se ao bandido que o controla. O meio para controlar Sindicatos é o mesmo que o capital usa para controlar cidades, países etc. – eleições diretas.
As leis trabalhistas de Getúlio estão desaparecendo, e não se vê resistência, assim como não se viu platéia na reinauguração da estátua, que não foi aproveitada para protestar em defesa dos direitos trabalhistas. O que sustentava os direitos trabalhistas em todo o mundo era a existência da União Soviética. Com a queda da União Soviética os trabalhadores do mundo todo estão perdendo direitos. No Brasil soma-se a inexistência de um verdadeiro movimento sindical, morto por Vargas, e morto novamente pelo parasitismo petista, e uma “esquerda” que nem sequer pisa nas portas de fábricas. Os trabalhadores brasileiros estão órfãos! Há poucos anos, em uma assembléia operária de Barroso, ouvi trabalhadores perguntando se tinham direito a férias e décimo terceiro! Getúlio Vargas, pelo visto, não foi presidente em Barroso! Quem vai lutar para manter direitos que só têm no papel?


Sobre a administração que finda, basta dizer que o prefeito sequer tentou reeleição e que sua candidata ficou em quarto lugar. Na era da internet a única chance que essa administração sempre teve foi a transparência total, e o máximo de democracia direta online, mas como pedir isso do partido que ficou 14 anos no governo e sequer deixou sindicatos, associações comunitárias etc. terem rádios? Não tomou nem uma pequena medida democratizante (em 14 anos), mas criou, banalizando o terrorismo, leis para reprimir os movimentos sociais!?!? Ao invés de democratizar as empresas estatais as entregou para aliados políticos corruptos??? Aliás, partido esse que defende que democracia é esse regime fracassado e semimorto que temos no Brasil, inclusive com voto obrigatório. Bom será se ao fracasso administrativo ainda não se seguirem um monte de processos por corrupção, pois nesse item também o Pt revelou-se um partido de direita.

Alguns significados dos resultados das eleições de 2016 em São João del Rei

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Os significados de uma eleição vão muito além de seus resultados, e na verdade são também resultados até mais importantes do que a eleição em si. Forças que venceram nos votos, as vezes perderam na realidade, apesar de se elegerem, e forças que perderam nos votos, as vezes venceram mais do que se tivessem eleito alguém. Política não é para iniciantes! Por exemplo, uma das grandes vencedoras desse pleito foi Jânia Costa, que ficou em terceiro lugar mas já é um das favoritas para 2020 ou para quando forem as eleições. Já um Aécio Neves (saindo um pouco de São João) nem estava disputando nada diretamente e é um dos maiores perdedores, pois Dória em São Paulo já lançou Alckmin à presidência logo na comemoração da vitória.

No fim das contas o vencedor em São João, Nivaldo, teve somente 22 mil votos, ou seja, só 2 mil a mais do que ele teve quando perdeu há 4 anos, e menos da metade do eleitorado válido. De fato, como 36% foram abstenções, brancos e nulos, Nivaldo não teve nem um terço do eleitorado.  Ele se elegeu somente com sua velha clientela, e com a divisão dos votos entre os demais candidatos. Se São João tivesse segundo turno, ele provavelmente perderia.

Rômulo Viegas teve mais chances do que todos imaginavam, e chegou a 35% dos votos. Se aqui tivesse segundo turno, venceria! De nossa análise no artigo anterior só erramos em imaginar que Jânia tirava votos de Nivaldo, enquanto ela também dividiu os votos anti-nivaldistas. De resto, estávamos certos, e seguindo o que dissemos Rominho teria alguma chance a mais, embora pouca.

O Pt podia ter reduzido a própria humilhação e posado de herói, se na última semana retirasse sua candidatura e apoiasse decididamente Rômulo Viegas. Não seria nada demais para o Pt de São João Del Rei, que em 2000 e 2004 foi linha auxiliar do PSDB, e com Sidinho do Ferrotaco. Porque quem apóia Sidinho não apoiou Rômulo? Devem ter muito ódio de São João Del Rei! Só os votos petistas não virariam o jogo, mas talvez a manobra petista gerasse uma empolgação que convencesse eleitores de Jânia e nulos a votarem contra Nivaldo, e gerasse uma virada. Deveria ser dado um recado claro – Retiramos nossa candidatura porque não temos chance nenhuma, e São João não tem segundo turno. O único que tem condições de vencer Nivaldo é Rômulo Viegas, portanto votaremos nele - Atitude tão nobre poderia ter revertido em mais votos para o legislativo e a derrota petista não teria sido tão absoluta. Mesmo se ainda assim Nivaldo vencesse, o Pt não sairia tão mal, e se conseguisse virar o jogo estaria comemorando apesar da própria derrota! Moralmente, teria superado a derrota. Mas diante da catástrofe óbvia, o que fizeram os “líderes” petistas? Nada! Imobilismo! Choro! Mesmo que os problemas burocráticos se resolvam e o Pt consiga ao menos uma vereadora, tinham 4, a derrota é total. Circula o boato de que o erro burocrático que está impedindo que os votos de Vera do Polivalente sejam contabilizados foi na verdade uma sabotagem interna. Se foi assim esse petista sabotou o partido todo! Típico. É só parar para escutar velhas histórias de antigos petistas para se descobrir que eles sempre se picaram, assim como sempre foram hostis às outras organizações de esquerda.

O PSTU teve somente metade dos votos que teve em 2012, e mesmo tendo a cabeça de chapa só conseguiu puxar para sua chapa de vereadores 80 votos de legenda, em comparação com os 118 da última eleição. A culpa não é dos militantes do PSTU daqui, que militam de Sol a Sol, estão inseridos nos movimentos sociais, têm histórico de luta e são bem quistos pela população em geral. A culpa é da política que vem de Paris, e que para nós é tão distante quanto se viesse de outro planeta. Tendo sofrido um racha recentemente, a direção do PSTU considerou que a melhor forma de sobreviver era se isolando ainda mais! Em todo canto só fecharam aliança com a condição de fazerem exclusivamente seu próprio discurso. Foi o que fizeram aqui, colocando de lado os programas desenvolvidos pela Frente de Esquerda em 2008 e 2012. O PCB, o PSOL e as Brigadas aceitaram como forma de manter a Frente unida, e por considerarem que não era prioritária para eles esse ano a campanha para o executivo. A campanha do PSTU simplesmente levantou mais slogans nacionais, tipo “Fora Temer” e “Fora Todos” do que assuntos municipais, dos quais quase nem falou. Foi o tipo de campanha cujo recado para o eleitor foi – essa campanha não é para valer, é só protesto. Não vote em mim! - Como lado positivo, exatamente ao contrário de 2012, quando os votos dobraram em relação a 2008, a Frente não saiu das eleições despedaçada, com as pessoas não podendo se ver. A eleição não gerou nenhum desgaste político interno. O desgaste de 2012 se deu exatamente debatendo o programa, e recusando as fórmulas enviadas de Paris via Belo Horizonte. Evitamos quase tudo o que parecia extra-terrestre, e isso dobrou a votação, mas os debates em torno de cada item foram duros, magoaram vários camaradas, e depois das eleições a Frente só existia oficialmente.

A eleição do legislativo teve ainda mais votos nulos que as passadas, apesar de ter 3 vezes mais candidatos. O poder financeiro, como sempre, imperou, desde a montagem das chapas até o final. As chapas ligadas aos três candidatos a prefeito mais votados foram também as mais votadas, como também é normal, até porque parte do eleitorado tem como hábito votar nos vereadores da base do prefeito. É curioso que foram eleitos como vereadores os filhos do prefeito e do vice-prefeito! Isso será assunto para quatro anos. Se essa tentativa de criar dinastias políticas resultar em bens para a cidade, ótimo! Dinastias mal conseguem se manter quando são nobres reinando sobre analfabetos, quanto mais essas dinastias eleitorais que as vezes se tenta formar. Não merecem nossa preocupação. Se errarem a mão correm o risco de queimarem os filhos junto com eles, e essa preocupação talvez também faça bem à cidade. O legislativo parece não ter esquerda, não tem representantes além disso de toda uma série de opiniões que são, contudo, fortes na sociedade. Não que ele já tenha representado a população de São João Del Rei em algum momento, mas o divórcio entre representantes e representados é cada vez mais escandaloso. Se Nivaldo só representa um terço do eleitorado, a Câmara representa menos ainda que isso.

O PSOL não pôde lançar candidatos, e o PSTU não fez nenhuma campanha para os seus candidatos, de forma que só podemos falar de uma candidatura da Frente de Esquerda, de Alexandre Marciano, do PCB. Marciano teve 50% mais votos que em 2012, apesar de estar concorrendo com três vezes mais candidatos. Foram 140 votos, que é pouco menos de um quinto do que teve a candidata mais votada do Pt. Deixou para trás mais de 200 concorrentes. Em termos percentuais, subiu de 0,18% para 0,32% do eleitorado válido. Teve um só material, dez mil exemplares de um panfleto A4. O PCB teve ainda 25 votos de legenda, 6 a mais que em 2012.


Agora temos um governo que já nasce com a maioria da população em oposição. O Pt está morto, desmoralizado. O resto da direita não sabe fazer oposição. Esse quadro abre espaço para o crescimento de uma nova esquerda.

ERRATA: A era nivaldista não acabou !

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Em 2012, quando Nivaldo foi derrotado pelo fracasso que nos desadministra, publiquei aqui mesmo um artigo com o título “Frente Socialista dobra votação – Era nivaldista encerrada – Gestão de Helvécio se iniciará sobre a sombra de Daniel Dantas”. Há menos de uma semana das eleições de 2016 podemos afirmar que erramos. A era nivaldista não terminou! Como diz o povo nas ruas, “o trator voltou”. As chances dos demais candidatos sempre foram muito pequenas, e agora são quase nulas, quase.

Quem sempre teve alguma chance foi Rômulo Viegas (PSDB), que seria o provável vencedor se Nivaldo fosse barrado pela justiça. Mas para vencer Nivaldo Rômulo precisaria somar todos os votos anti-nivaldistas. Precisaria, portanto, que Cristina (PT) não tivesse quase voto algum, ou mesmo que retirasse sua candidatura, mas quanto o Pt cobraria por isso? Os votos da Frente de Esquerda não iriam mesmo para Rômulo Viegas, mas antes para os nulos. É mais fácil talvez que a Frente de Esquerda esteja tirando votos de Nivaldo.  Além disso seria necessário que a campanha de Jânia, que tira votos de Nilvado, crescesse. Mesmo assim, talvez Nivaldo tenha mais votos que todos os 4 adversários somados, e nesse caso toda essa matemática eleitoral não vale nada, porque Rômulo poderia conseguir apoio dos outros 3 candidatos e ainda assim perderia. Mas mesmo que por milagre Nivaldo seja derrotado, esse milagre se chamará Jânia, de forma que virá da própria base nivaldista, e não do anti-nivaldismo.

É realmente impressionante que em 4 anos a imagem de Nivaldo, que parecia aposentado, tenha melhorado tanto. O maior cabo eleitoral dele é o atual prefeito, como todos sabem. O fracasso foi total! Tinha a maioria da Câmara dos Vereadores, a qual manteve por quase todo o mandato. Seu partido estava no governo federal, e na metade de seu mandato ganhou o governo estadual. Tinha apoio jurado dos professores da UFSJ. Apesar disso tudo, que nenhum outro prefeito nunca teve antes, é voz pública que foi o pior prefeito que já tivemos, tendo tomado esse título de Sidinho, que de 2004 a 2008 também conseguiu ressuscitar Nivaldo. Basta dizer que o atual prefeito sequer está tentando a reeleição, e que sua vice, que é a candidata petista, está amargando o quarto lugar nas pesquisas.

É simples, os petistas dizem que não tinham dinheiro nem para tapar buracos, e realmente a cidade ficou 4 anos esburacada, mas ao mesmo tempo têm mais de 800 cargos sem concurso na Prefeitura, o que soma mais de 1% da população da cidade! O prefeito chegou a reclamar de falta de dinheiro para pintar faixas, mas todo ano gastam milhares de reais com medalhinhas com as quais se condecoram uns aos outros... Dizem que não têm dinheiro para aumentar salários dos professores e outros que realmente trabalham, mas o orçamento anual da Câmara de Vereadores subiu de 1 milhão e meio para quase 5 milhões!

Agora, no fim do mandato, fizeram algo de decente melhorando a iluminação em alguns pontos, mas as verbas para isso sempre existem, pois pagamos para isso na conta da Cemig. Ou seja, a Prefeitura sempre teve o dinheiro para fazer esse serviço, mas só agora o conseguiu. A escolha da iluminação de leds foi correta, e economizará energia apesar do maior número de postes! Além disso, os postes são corretos do ponto de vista da poluição visual, pois eles dirigem a luz para baixo, ao invés de desperdiçá-la para o céu, confundindo aves a atrapalhando as observações astronômicas.

Contudo, nem se São João virasse a Cidade Luz o fracasso da administração petista seria reversível. E se Nivaldo realmente vencer, ficará pior, porque ele logo no primeiro mês provará que a Prefeitura tem recursos, desmoralizando completamente os petistas. Contudo creio que qualquer um dos 4 opositores que ganhasse conseguiria o mesmo – no primeiro mês mostrar serviço e acabar com as mentiras petistas! E se fosse alguém honesto, como Jordano, da Frente de Esquerda, o Pt ainda sofreria uma auditoria dessa gestão suspeita. Sim, suspeita, porque se faz menos que Nivaldo e o dinheiro some, algo está muito errado.

A Frente de Esquerda passou por dificuldades para se manter unida dessa vez, mas por fim se manteve. A campanha está boa, com grande receptividade por parte dos candidatos comunistas. Os petistas estão escondendo o vermelho e a estrela, mas os comunistas não têm tido problema nenhum com a cor vermelha e a foice e o martelo. O único problema é quando alguém acha que são petistas, mas ai é só explicar. Que os petistas e pseudobistas abram mão dos símbolos soviéticos, achamos mais que justo e honesto, pois eles nunca os mereceram, nunca foram sequer dignos deles. Mais ainda, é mesmo uma condição de paz, dos verdadeiros comunistas para os petistas, que eles parem de sujar nossos símbolos com suas patas! Quem chamava a União Soviética de ditadura, porque usa sua estrela e suas cores? Aproveitem que já estão mesmo passando essa vergonha de esconderem os símbolos e os troquem por alguma coisa que os represente.  E repetimos – fiquem felizes por ser um Nivaldo e não um Jordano na frente nas pesquisas, porque se nós ganhássemos lascaríamos em vocês uma auditoria!

GOLPISMO, “FORA TEMER” E AS CONTRAPRODUCENTES AMARRAS AO LULISMO

Wlamir Silva
Professor e historiador

A insistência da tese do “golpe”, acompanhada das agressões por epítetos de “canalhas” e “golpistas” aos que dela discordam ou, mesmo, aos que negam a ela alguma centralidade, demonstra a pretensão de direção e hegemonia do Lulismo. De fato, trata-se, de viabilizar a sobrevivência e o retorno, sem nenhuma autocrítica, desta força política em processo falimentar.


Slogans substituem o debate e a divulgação de temas graves


Pensar a organização dos trabalhadores em seu conjunto, em perspectiva da resistência em curto prazo e, principalmente, em longo prazo, é ainda mais incompatível com a sombra do discurso do “golpe”. Afinal, o apoio popular ao impeachment esteve, em maio de 2016, em 66%, e a rejeição a ele em 27% (Datafolha). O que aponta para as restrições da associação ao referido discurso.

A rejeição “de todos”, ser percebida em pesquisas de opinião, e a olho nu, e o desejo difuso de eleições gerais (62%, Datafolha, maio de 2016), expõe uma descrença para com o sistema político, ou com a política, que extrapola uma rejeição ao atual governo. O mesmo quadro já se dava com o governo anterior e se mantem, com diferenças inexpressivas, para o atual.

Se a questão premente são os direitos trabalhistas e de aposentadoria em risco, a tese do “golpe” também é um estorvo. A preservação de tais direitos tem peso quase secular no imaginário popular, e é preciso mobilizar este patrimônio ideológico e simbólico. E esta população, em sua imensa maioria, em especial nos segmentos menos remunerados, não rejeita o impeachment.

Além do que, a preservação de direitos se deveu, desde os anos 1950, ao Parlamento,
sensível às pressões do voto popular, mesmo com maiorias conservadoras. Insistir com a pecha de “golpista” ao Congresso e associar tais demandas a um projeto político falido – e que reformou a previdência, foi conivente e tramou a flexibilização trabalhista – é contraproducente.

Eficaz será a construção de pautas unificadas com base nos direitos a serem defendidos, evitando a sua confusão com slogans e palavras de ordem de fins outros. Pressionar o Congresso com listas de votantes nas medidas que retirem direitos no calor da crise. Apelar para o patrimônio destes direitos fortemente assentados no imaginário popular.

A longo prazo, é ainda menos atraente, para uma perspectiva política que se pretenda transformadora, reforçar amarras ao Lulismo. Visto que tal projeto foi pífio no que tange ao desenvolvimento econômico e criação de novos direitos, promoveu a cooptação e a fragilização da organização dos trabalhadores e aderiu e reforçou a política tradicional conservadora.

Em perspectiva histórica, há um longo e pedregoso caminho a percorrer: o de retomar as bases de organização social e política autônomas e o de construir projetos políticos mais claros junto à população. E esta clareza não implica em unidade prévia ou forçada, ou a imposição de uma posição sobre as outras.

Um novo caminho à esquerda deve ser o da abertura de campos de discussão, possibilidades de unidade e alianças mais ou menos amplas. Desde que com base em programas e intenções publicamente estabelecidas, respeito aos militantes e em consonância com uma pedagogia política junto à população.

Afinal, o reconhecimento de sermos, hoje, ínfima minoria, é um ponto de partida necessário para voos maiores. Atalhos sedutores de tomada do poder, irreais pelo vazio de seu pragmatismo ou pela vacuidade de seu espontaneísmo, são apenas desvios que, como vemos, cobram, cedo ou tarde, o seu preço com juros.



O golpe de 1964 e o golpe de 2016

Raramente tenho deixado meus documentos oitocentistas para tratar de assuntos mais recentes, mas como historiador é para mim tão repugnante ver a distorção completa de um evento histórico da importância do golpe de 1964 e da ditadura que se seguiu, que sou obrigado a me dar a esse trabalho.

O Brasil já viveu montes de golpes vitoriosos e fracassados, e nenhum nunca foi igual ao outro. D. Pedro I deu o primeiro, quando fechou a Constituinte em 1823. Foi derrubado por um movimento que seus apoiadores chamaram de golpe. D. Pedro II tomou a coroa três anos mais cedo do que o previsto em um golpe e segundo os monarquistas caiu em outro. Durante seu longo reinado um partido golpeou o outro em seguidas eleições. Para os monarquistas a instalação da República foi um golpe, e para os paulistas a Revolução de 1930 foi outro. Em 1932 os cafeicultores tentaram retomar o poder com um golpe. Em 1837 Getúlio se tornou ditador com um golpe, e em 1945 ele caiu em outro. Ademais, golpes acontecem até em eleições sindicais e estudantis.

De todos os golpes do passado os petistas escolheram exatamente o menos parecido com o atual para fazer essa comparação mentirosa e até criminosa, pois contribuir para aumentar a ignorância do povo (coisa que aliás o Pt sempre fez) é sempre um crime terrível.

Primeiro porque assim se compara o governo petista com o governo de Jango, o que é ofensivo a esse último, que não era corrupto, não traiu a pátria (pelo contrário, limitou a remessa de lucros de empresas multinacionais para o estrangeiro), não traiu os trabalhadores, tentou fazer reforma agrária (o Pt em 14 anos não fez, nem tentou). Isso não fazia de Jango nenhum socialista, nenhum revolucionário, mas muito superior ao Pt, certamente. O Pt cortou direitos trabalhistas, privatizou, multiplicou os lucros dos capitalistas, se corrompeu por completo e durante seus 14 anos deixou centenas de sem terra serem assassinados. Dilma foi pior que Lula e fez menos reforma agrária do que FHC! Que os petistas queiram esconder suas sujeiras é normal, mas que para isso sujem a imagem do Presidente João Goulart é inaceitável.

Segundo, alguns idiotas concluíram que se tivemos um golpe então agora temos um regime de exceção e até uma ditadura! É por essas e outras que muitas vezes tenho afirmado que os petistas são de direita, dado que o nível intelectual deles é o mesmo das pessoas de direita, que há dois meses estavam vendo em algum lugar uma ditadura comunista! O nível do ridículo é o mesmo! Eu podia fazer comparações históricas e perguntar, depois do Golpe da Maioridade seguiu-se uma ditadura? E depois de 1945 etc? Mas essa gente nem sabe que isso foi no Brasil! É elementar que nem sob Dilma nem sob Temer vivemos sequer um regime de exceção, mas só o fracasso mesmo. São governos fracos, de um regime que não consegue canalizar esgoto em metade das ruas do país.
Terceiro, toda a história do golpe de 1964 é diferente. Comecemos pelas Forças Armadas. Elas tinham ajudado Vargas no golpe de 1937 e o derrubaram no golpe de 1945. Em 1954 forçaram Vargas ao suicídio com um golpe. Em 1955 alguns militares planejavam um golpe para não deixar JK tomar posse, e outros militares deram um golpe para garantir a posse! Em 1962 tentaram outro golpe e em 1964, treinados com se vê, conseguiram finalmente segurar o poder por 20 anos. Não é preciso ter boa memória para notar que as Forças Armadas atuais são outras, que não têm a mais mínima prática de golpes.

As Forças Armadas (FFAA) tinham um projeto para o país em 1964, elaborado na Escola Superior de Guerra e sustentado pelo Clube Militar, e atualmente isso não existe. As FFAA tinham um efetivo bem maior, mais disciplinado, e anti-comunista por doutrinação dos padres. Atualmente a tropa é menor e a indisciplina invadiu os quartéis tanto quanto as salas de aula. A fidelidade dos soldados é disputada pelo tráfico nas grandes cidades e mesmo pela consciência dos recrutas, que é outra muito diferente da de 1964. Em 1964 as FFAA tinham o respeito do povo, eram consideradas uma esperança de regeneração para o país. Atualmente, como em Junho, tomam pedradas nos desfiles de 7 de Setembro e sofrem denúncias de corrupção. Em 1964 as FFAA estavam bem mais unidas, e queriam o poder. Hoje os militares nem têm tanta unidade política, nem querem tomar o poder, porque nem têm planos para fazer algo com ele.

Outra enorme diferença são as esquerdas, que em 1964 só existiam nas grandes cidades, e hoje existem espalhadas pelo país inteiro. Se já aconteceu uma forte resistência quando o regime de 1964 se endureceu, a tentativa de instaurar uma forte repressão atualmente geraria uma resistência muitas vezes maior!

Em 1963, quando Brizola visitou BH, foi recebido por uma procissão, liderada por um padre, cuja intenção era tirar o demônio do corpo dele. Essa era a cultura política da época – Brizola, um latifundiário, seria comunista e portanto possuído pelo capeta!

Em 2016 tivemos um golpe, mas foi um daqueles de baixo calão, entre bandidos, como quando um chefão do crime toma o comando de outro chefão. Não é que não mudou nada, pelo contrário, várias coisas podem mudar quando uma quadrilha toma a favela de outra! A direita que estava crescendo na oposição agora está pagando politicamente pelo governo que ajudou a colocar no poder ao sustentar o golpe, e ainda ficou, inteira, com o título de golpista, em benefício exclusivo da ala suicida do PMDB. A direita teria um governo legítimo e ainda limpo de 4 anos, pois venceria em 2018, e trocou isso por um governo interino e sujo que talvez não dure dois anos e meio (e melhor, ajudou o país a se livrar da direita mais inteligente e perigosa, porque enrustida - o Pt e seus aliados). O governo Dilma tinha apoio de parte do povo, de militantes que a defendiam (só porque ela veste vermelho) por piores que fossem os crimes de traição que ela cometesse, enquanto Temer tem uma oposição popular quase absoluta. O resultado é que ela conseguia fazer maldades que ele só ameaça fazer. Se o governo dela foi marcado pelo estelionato, pois ela fez exatamente tudo ao contrário do que prometeu, e tudo o que acusou que os outros fariam, o dele está sendo marcado pelo recuo, pois sem apoio popular recua de cada uma de suas propostas idiotas, que aliás são as mesmas do Pt, e que aliás não foram aprovadas nas urnas, pois para os eleitores o Pt e Temer falaram outras coisas!

Por fim, o discurso petista comparando 2016 a 1964 confunde a defesa do Pt com a defesa da democracia. Vou relevar o mal caratismo, a desonestidade dessa tática. Está difícil defender o Pt, sujo por corrupção, traidor dos trabalhadores e do país, então se convoca as pessoas para defenderem a democracia! Que belos democratas, que assim emporcalham a democracia para defender ladrões! Mas o pior, o crime maior dessa conversa, é que assim além de se proteger uma quadrilha ainda se defende um regime fracassado, autoritário, assassino e que de democracia não tem nada!!! O Pt mesmo é a prova de que o povo não manda em nada por meio eleitoral, pois traiu completamente seus eleitores. Em seus estertores, o petismo é conservador! Quer conservar o regime dos ladrões. Precisamos construir uma democracia de verdade, e os petistas, para defenderem seus ladrões, dificultam esse trabalho blindando uma falsa democracia e confundindo o povo.


O governo Temer é ilegítimo, golpista, seu programa de governo não teve apoio das urnas, os deputados e senadores que o sustentam igualmente não representam nem suas famílias quanto mais o povo. Mas o Fora Temer não é um Volta Dilma. A volta de Dilma, se acontecer, é um preço a pagar pelo Fora Temer, e não seu objetivo. Teria, porém, um único lado bom esse retorno, visto que algumas pessoas não aprenderam o que é o Pt em 14 anos de traição, e precisam de um pouco mais de decepção. É que na vida não existe aprovação automática – quem não aprende tem que sofrer de novo e pronto.

IMPEDIMENTO DARÁ SOBREVIDA AO PT

O impedimento foi a melhor estratégia para a saída de Dilma e dar sobrevida ao PT. Logicamente que os petistas não poderiam ter arquitetado esse plano brilhante sozinhos mas tal artimanha tinha que passar pela imbecilidade da oposição de sigla partidária.

O aumento das passagens e o Conselho Municipal de Transporte

Membros do Conselho de Transporte e origem de suas indicações
Membros do Conselho de Transporte e origem de suas indicações

Uma vereadora petista, defendendo o aumento das passagens de ônibus na pequena São João del Rei para R$ 2,75, disse que o prefeito, outro petista, só fez o que o Conselho de Transporte recomendou. Essa tentativa de inocentar o prefeito, como se vê no gráfico acima, é puro petismo.

Dos 45 membros que tem o Conselho, 18 são indicados como representantes de diferentes secretarias da Prefeitura e do Damae. A empresa, que está circulando sem licitação tem dois representantes, e o Sindicato a ela ligado tem mais dois. A PM e a Polícia Civil são dirigidas pelo governo estadual, Pimentel, também do Pt, cada uma com dois representantes. Por fim, a UFSJ tem dois representantes, e a reitora atual era a vice-reitora do prefeito quando este era reitor. Sendo assim, o Pt e a empresa de ônibus sozinhos têm maioria absoluta no Conselho, com 28 votos, em diferentes tons de azul no gráfico acima.

É um raciocínio comum aos taxistas (dois membros) e motoristas de vans (dois membros) que o aumento das passagens de ônibus permite o aumento dos preços de seus próprios serviços. Que mais pessoas desistam do transporte público me parece um objetivo lógico das Auto Escolas (dois membros).

Os votos normalmente contra aumentos de valores de passagens, representados em tons de verde, são minoria absoluta. Os usuários da área urbana inteira têm 3 representantes, e os da área rural têm 2. O DCE da UFSJ tem 2 e UMES mais 2. Somente 9 votos, entre 45 membros.

Os frequentadores das reuniões do Conselho, que conhecem seus membros, sabem dizer quem são, maioria militantes de que partido (advinhem) etc. É indiscutível que o Conselho foi montado sob completo controle do prefeito. Não é um Conselho representativo da população.

Esse Conselho é um exemplo típico dos vários conselhos que hoje existem em cada município, e um exemplo da política petista. Os Conselhos e o famoso Orçamento Participativo eram peças de propaganda para enganar o eleitorado de esquerda que exige ampliação da democracia. São, ou eram, formas de fingir que se amplia a democracia. O Orçamento Participativo nunca foi realmente um debate de orçamento. Uma porcentagem ínfima das verbas é destinada para pequenas obras e os representantes dos bairros brigam entre si para aprovar obras nos seus próprios bairros e não nos bairros dos outros. Um desserviço, jogando bairro contra bairro, como toda política fraudulenta. Já os Conselhos são todos mais representativos dos governantes que do povo, raramente são eleitos de forma honesta, raramente representam qualquer cidadão. Servem “para inglês ver” e para escudar os prefeitos.

Não existe omelete sem quebrar ovos. Não existe ampliação da democracia nos municípios sem liquidar a maioria dos poderes dos prefeitos e reformar as Câmaras. Não será com paliativos e com teatros que se ampliará a democracia.

As forças políticas de São João del Rei já estão em campo para 2016


Conforme artigo de meses atrás no São João del Pueblo, as eleições municipais de São João del Rei já começaram! Os dois principais candidatos, Rominho e Nivaldo, já estão praticamente em campanha. Agora é a fase de montagem das chapas, das coligações, da preparação logística, em resumo, é talvez o momento em que as eleições realmente se decidem.

PÃO DOCE COM BOLACHA: RELATIVIZANDO O GOLPE NO PASSADO PARA FORJAR O FALSO GOLPE NO PRESENTE

A farsa histórica não agrega consciência


A comparação esdrúxula da crise atual com a conjuntura de 1964 alcançou o paroxismo. Para defendê-la, até mesmo edulcoram-se o golpe e a ditadura impostos em 64! Um “pão doce com bolacha”! O golpe que se desenharia no horizonte é pior! E se requenta uma velha e inusitada ameaça oligárquica! E ainda uma estranha e caricatural luta de classes... Com objetivos políticos menores, arrisca-se a uma farsesca comparação histórica que não contribui para a reflexão da sociedade e, em especial, a classe trabalhadora (1).

Um golpe sem militares, sem Guerra Fria e sem apoio estadunidense, sem IPES ou IBADE, sem articulações com setores empresariais e com os grandes proprietários de terra fincados no ministério da Agricultura... Uma ameaça oligárquica a ser barrada por Ciro Gomes, Renan Calheiros e afins! Uma guinada do capital contra o governo que enriqueceu os bancos, as mineradoras, os agroexportadores e as empreiteiras, tendo com eles não só excelentes relações políticas, mas também promíscuas relações financeiras... Relações cada vez mais evidentes para a população e a classe trabalhadora, e cuja defesa se resume, cada vez mais, ao "todo mundo faz".

De um capitalismo que vai, estruturalmente, muito bem obrigado. Que não tem contradições com políticas compensatórias, recomendadas pelo Banco Mundial, e adora créditos públicos, já teve atos e promessas de flexibilização trabalhista e, apenas, se ressente um pouco da incompetência em infraestrutura...

O delírio micro-coletivo vê até “milícias fascistas” em ação. Um ex-ministro neoliberal, antigo defensor de uma reforma típica do Estado mínimo, vê a democracia ameaçada pelos “liberais” e em risco “os direitos civis e o sufrágio universal”! Outro, defensor da tese embolorada de um liberalismo fora de lugar no Brasil, opõe um suposto “campo popular” aos “os interesses do dinheiro”. Um “filósofo” fala de uma etérea “energia sequestrada” da sociedade em defesa de “um sistema estruturalmente podre e corrupto”.

Delírio que abstrai o desconforto da sociedade para com o governo, em especial para com o estelionato eleitoral realizado por Dilma Rousseff e sua trupe. A rejeição popular para com um Estado incapaz de gestão e planejamento, inchado de assessores inúteis e imerso em esquemas de corrupção. Fatos visíveis a olho nu, até porque se multiplicam e refletem em administrações estaduais, municipais e órgãos públicos, tais como as universidades. Abstraem este incômodo refletido nos 70% de aceitação do impeachment nas pesquisas de opinião. Que esses intelectuais certamente atribuirão à manipulação da mídia, afinal, “campo popular” sem povo, faça-me o favor...

A senhora Marilena Chauí, autora da comparação do golpe de 64 com um “pão doce com bolacha”, diz que o impeachment é a “a ‘cereja no bolo’ da direita”, de uma pauta conservadora no Congresso. Citando a redução da maioridade penal e a lei antiterrorismo. A redução da maioridade penal, um ataque ao “campo popular” que tem apoio de quase 90% da população mais pobre, que não entende nada de si mesma, uma lástima... E uma lei antiterrorismo curiosamente proposta e defendida pelo governo a ser derrubado... Para a senhora Chauí trata-se da “vitória completa do capital na luta de classes”. Com o apoio de “uma classe média [a cômica obsessão da filósofa] ‘proto fascista’ para implantar um governo reacionário”.

O que importa o delírio destas “esquerdas” alavancando o impeachment, ou não, de Dilma Rousseff a um fato transcendental? Certamente muito pouco para o desenrolar do imbróglio institucional. Isso porque eles têm alguma razão: são as oligarquias que o definem. Oligarquias no sentido posto por Robert Michels, ou seja, de grupos que controlam o jogo político em detrimento do seu caráter representativo, não exatamente no sentido dado pelos delirantes. Aliás, já o fazem, sempre o fizeram, e não o deixaram de fazer, "podre e corrupto", nos últimos treze anos. Menos ainda para a representação de interesses dominantes, obviamente bem equacionados no mesmo período.

Virtualmente inútil para o desatamento da crise, em qual sentido que se dê, o delírio, que alude a paranoicos fascismos de ocasião e a paralelos históricos descabidos, apenas contribui para a ridicularização de um patrimônio ideológico já bastante desgastado. Aliás, em boa parte pelos treze anos de Lulismo e seu amálgama de plena conformidade com a ordem do capital, e com suas formas políticas mais grosseiras, e mobilização de elementos simbólicos “de esquerda”. Apelar para “fascismos”, “oligarquias” e “capital” para isso apenas reforça este despolitizante divórcio com a realidade, promovido pelo Lulismo e muito bem recebido pelos setores dominantes e conservadores.

Enquanto isso, um embate de oligarquias políticas busca uma rearrumação de fôlego curto – e o que se esperaria do nível de anomia política ao qual chegamos? – que não mexe com a ordem instituída, para o bem e para o mal. No último movimento, as articulações governistas junto ao Supremo Tribunal Federal barram as ações do presidente da Câmara e dão força ao Senado, onde é mais forte o governo, ao mesmo tempo em que, sintomaticamente, indica o relaxamento de prisões oriundas da Operação Lava-Jato. Como isso repercutirá na opinião pública? Ora, isso não importa, não é mesmo? O “campo popular” somos "nós"...

Pode-se, legitimamente, defender o mandato de Dilma Rousseff. A mobilização delirante de certos argumentos, no entanto, é de fato preocupante. A busca de "fascistas" embaixo das camas, a elaboração de uma "oligarquia" que não existe ou está em todo lugar, e o ficcional embate com o "capital", são invenções despolitizantes. Despolitizantes porque se não são desde já evidentemente delirantes, o serão logo. E, pior, este delírio parece, e mais parecerá, uma jogada maquiavélica.

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1) http://www.viomundo.com.br/politica/para-chaui-golpe-agora-fara-64-parecer-pao-doce-critico-do-pt-arantes-relembra-milicias-fascistas-para-schwarcz-estrategia-da-oposicao-foi-tornar-pais-ingovernavel-nobre-diz-que-brasil-vie-eng.html


Cunha já caiu, Dilma não cairá agora, mas também não terminará o mandato

Como podem notar, não tenho tido tempo para escrever artigos de opinião política, apesar da efervescência do momento, mundial e brasileira. Contudo, dada a gravidade aparente das lutas palacianas em Brasília, sou obrigado a deixar clara minha opinião.

O governo Dilma está fraco, provavelmente não durará até 2018, pois mesmo a saúde da presidente é fraca, e em um tempo de crise o peso sobre ela é maior ainda, torando muito difícil que ela se sustente por mais três anos. Então, mesmo que por milagre ela consiga se sustentar politicamente, por exemplo favorecendo-se da estupidez dos adversários, diversos outros problemas tocaiam esse governo. Fato é que "adoecer" é para ela uma boa estratégia. Na suposição de que ela seja derrubada nesse momento (note-se que agora meses ou até semanas estão fazendo diferença) e contra a vontade, teremos uma crise política, forte divisão do país, tanto regional quanto social, com muitas consequências imprevisíveis, mas algumas óbvias, como forte agravamento da crise econômica (ninguém coloca o capital no mercado em uma sociedade tensa).

O processo de impeachment aberto por Cunha se fragilizou pelo fato de ter sido aberto por ele, e por, claramente, ser resposta ao prosseguimento das investigações sobre ele. Esse processo está comprometido, não tem legitimidade em canto nenhum do mundo, pois os colaboradores do golpe claramente não contam. Porém é provável que muitos dos mesmos argumentos sejam usados em um processo posterior e com legitimidade, depois que Cunha se for, e ele se vai.

Um presidente da Câmara que não pode viajar para o exterior por medo de ser preso pela Interpol é uma piada, insustentável, só ainda não caiu porque o regime está quase tão corrompido quanto ele. Com ele se desmoraliza mais um pouco a "bancada evangélica". Os evangélicos de verdade estão sendo desmoralizados e caluniados pela existência desses deputados ditos evangélicos, maioria de pastores que usaram o dinheiro ganho com serem pastores para se elegerem, campeões de processos por corrupção (as igrejas não são vigiadas e eles portanto não têm treino em fraudes comparável aos empresários, aos parasitas de sindicatos e de entidades estudantis, aos advogados de grandes empresas etc.) e protagonistas de episódios vergonhosos.

A saída de Cunha e de Dilma, provavelmente nessa ordem, não colocará fim na crise política, mesmo porque o discurso de Temer já indica é mais crise. Mesmo que não fosse Temer, e que o vice fosse o mais preparado dos brasileiros, não escaparíamos de mais e mais crise, porque é o regime de 1988 que se foi. No vácuo deixado por ele as forças sociais disputam, e isso é o que vemos como crise política. Não estamos errados, um período de crise é um período de transformações.

O LULISMO VERSUS DILMA

Wlamir Silva
Professor e historiador



A cínica declaração de Lula sobre a perda do grau de investimento pela Standard & Poor’s (S & P), dizendo ser nada o que comemorava como grande conquista em 2008, é mais do que um mero “as uvas estão verdes”. O “momento mágico” de 2008, não obstante o falso descaso de hoje, dá margem à comparação desairosa com o momento atual. E Lula sabe disso. É mais um capítulo do sutil abandono de Dilma Rousseff à própria sorte. Implícita uma comparação entre o seu governo, no qual ele “fez o que quis”, e o de sua criatura, que buscaria agradar a todo custo a agências como a S & P. Não à toa, sublinha que as políticas sociais que realizou foram “responsabilidade do [seu] governo” (1)...

Busca-se o esquecimento de que já em suas primeiras ações de governo, sem falar no acordo prévio da Carta aos Brasileiros, Lula deu continuidade à ortodoxia “macroeconômica”, com Antônio Palocci e Henrique Meirelles.  Os quais deram azo a uma política baseada exatamente no respeito aos fundamentos financeiros que, hoje, Lula demoniza em Levy e Dilma. Fundamentos que não foram contrariados pelas suas políticas sociais compensatórias ou arroubos de investimentos, com as quais não tinham, ou têm, contradições de fundo. A questão é mesmo de conjuntura e, sim, de acúmulos de ineficiência e desestruturação da máquina estatal.

A relação umbilical da crise brasileira com o refreamento da economia chinesa põe em evidência o que já se sabia há muito. O “efeito China”, pelo boom de commodities e pelo consumo facilitado, tinha fundamental papel no “momento mágico” de Lula. Possibilitando políticas sociais, investimentos e consumo popular de bens. Com uma exportação que cresceu 400% em uma década, a “responsabilidade do governo” Lula esteve em não aproveitar a maré favorável para esboçar uma política industrial, em encher o aparelho estatal de uma miríade de “companheiros”, em desprezar o planejamento, ser incapaz de alavancar a infraestrutura, em aderir e justificar velhas práticas clientelistas e, por fim, em patrocinar um esquema de corrupção que assumiu e “organizou” as práticas tradicionais, em favor de uma máquina política e do enriquecimento pessoal.

Buscando se afastar de Dilma Rousseff, Lula alimenta a tese de que tudo ia bem... Até agora. Dilma é criatura de Lula, o seu projeto com ela era o de uma mediocridade que não o ofuscasse, e fosse capaz de um governo medíocre que propiciasse o seu retorno para alterações de rumo. O resultado catastrófico alterou os planos. É preciso afastar-se da criatura, uma tarefa difícil. É interessante considerar neste contexto o artigo publicado na Folha de São Paulo pelo cientista político André Singer. Singer, ao que parece, retoma ali, informalmente, o posto de porta-voz de Lula (2). Logo em seu primeiro parágrafo, Singer pontua o atual governo como “desesperadamente carente de orientação”, e já vaticina que o rebaixamento pela S & P "inaugura o que pode ser um dos últimos capítulos do segundo mandato de Dilma Rousseff(3).

Não é contraditório que pela voz mais sofisticada do porta-voz o rebaixamento da S & P volte a ter significado e que se questionam suas “reações tópicas”. Os arroubos “radicais” de Lula são o que são... Mas Singer e seus confrades devem saber o que significa iniciar um artigo em veículo de imprensa nacional com o vaticínio do impeachment grafado em seu primeiro parágrafo...  Frente a isso de pouco vale a menção, de passagem, a um “plano golpista”. À Lula, Singer insinua que Dilma cede a “pressões imediatas” no campo econômico, com “cortes urgentes e medidas administrativas de contenção”, pondo em risco “as conquistas sociais do período lulista”. À Lula, porque põe os impasses do governo sob o signo das escolhas pessoais de rumo... Como se vê, nem é tão sutil a secção entre a “Era Lula” e o governo de Dilma Rousseff, a serviço de um paulatino descolamento político visando 2018.

A Dilma Rousseff é atribuído um desnecessário e, portanto, escolhido, “ajuste fiscal draconiano e assassino” cujo resultado é a recessão. Uma recessão veio antes, e seus efeito já se faziam ver antes do fim das eleições presidenciais, mesmo antes do mero “anúncio” do ajuste fiscal, como se sabe. Mas vale tudo para descolar a crise da Era Lula, que passa a se opor ao caos escolhido e fabricado apenas pela senhora Rousseff. Mas Singer desloca a questão para o que ele chama de “vácuo político”. Um parágrafo é emblemático da tese a ser desfiada. Por ele, para fugir ao impeachment

“Dilma precisaria sair da encalacrada em que começou a se meter no dia seguinte à reeleição, quando, ao contrário de tudo o que prometera, foi buscar no mercado financeiro alguém para comandar o Ministério da Fazenda. Isolada do conjunto da burguesia, aconselhada por Lula desde 2012 a tirar Guido Mantega, com a Operação Lava Jato desmontando os partidos, na iminência de ter Eduardo Cunha no comando da Câmara dos Deputados, a recém-reeleita deu o passo fatal”

Parágrafo emblemático porque, também à Lula, junta alhos e bugalhos, meias-verdades e reticências para desenhar duas balizas: a primeira, de que com Lula não haveria a crise, a segunda de que Dilma já deu o “passo fatal”... Nele Dilma é responsável por buscar no mercado financeiro seu ministério da Fazenda, como se não fosse do mercado financeiro Henrique Meirelles, sugerido por Lula. Dilma se isola do conjunto da burguesia, da qual, imagina-se Lula é liderança. Lula já recomendara a saída de Mantega, como se fosse aquele um representante do mercado financeiro, não é mesmo? Ainda no parágrafo citado, e que merece destaque, afirma-se que “a Operação Lava Jato [estaria] desmontando os partidos”... Nada mais lulista que associar, pela negativa, o esquema de corrupção cevado como apanágio da vida partidária. A saudável vida partidária que não impedia os grandes e sólidos avanços sociais dos “anos Lula”, posto em risco apenas por convenientes espantalhos como o citado Eduardo Cunha...

Singer termina com um diagnóstico tão sombrio como enigmático. Sombrio, pois já adianta que Dilma Rousseff não terá “o tempo político” para encabeçar uma resistência ao Impeachment. Enigmático porque preconiza “Do ponto de vista de classe, um pacto de ruptura com esse círculo vicioso [que] seria possível e permitiria diminuir as perdas de todos”. Um pacto de classe que elide as classes envolvidas – “o conjunto da burguesia”? – e permitiria a felicidade de todos... Ora, o Lulismo que se construiu sobre a despolitização de classe, pela cooptação de setores pobres via políticas compensatórias e desmobilização de movimentos sindicais e sociais por verbas estatais e cargos no Estado, propõe um “pacto de classe” que atenderia a todos! Seria a reedição da “virtuosa” relação do governo Lula com o grande agronegócio, as mineradoras, o capital financeiro e as empreiteiras? Mas isso seria possível, sem “ajuste fiscal draconiano e assassino”, fora da maré montante do “efeito China” e com o acúmulo de pendências de uma administração incapaz e corrupta?

Lula mescla em público a defesa protocolar do governo com a evidente intenção de afastar-se de Dilma Rousseff. Privadamente ou a grupos específicos, se dissocia cada vez mais da “presidenta”. Critica-a por impor ajustes, quando fala a trabalhadores. Por não fazê-lo, quando se dirige a empresários. E por não impedir o que considera uma perseguição política das operações de investigação da corrupção, quando fala a certos empresários, políticos e “companheiros” mais próximos. Afasta-se também do PT, ao qual imputa os vícios de só querer empregos e de não ir às ruas como antes. Ante a evidência dos milhões, expostos, e não negados, pela Lava-Jato, conclama que os militantes vendam estrelinhas... Procura pôr-se acima do partido e mantê-lo como base anódina. Utiliza-se dele para, na prática, enfraquecer o governo, culpabilizando Dilma Rousseff por meio das críticas ao ajuste fiscal em supostas manifestações contra o impeachment.

O que dizer do artigo do (ex)Porta-Voz que se inicia e termina com Impeachment ? Que o entremeia com a escolha “fatal” da presidente? Que vaticina sua incapacidade e sua queda? O plano de Lula de: assistir ao impeachment e guardá-lo como fato político a ser útil daqui a três anos, esquecidos os 90% de rejeição de hoje; deixar o PMDB de Temer purgar o ônus da crise e, se possível, associá-la ao PSDB, sobretudo daqui a três anos, pelo referido uso do impeachment; afastar-se de Dilma Rousseff, sua criatura, e retornar como salvador da pátria, esquecido ou não percebido sua responsabilidade nas fragilidades da economia e na despolitização social.

Será Lula bem sucedido? É pouco provável, mas não impossível. Do ponto de vista das classes dominantes e dos setores políticos conservadores dependerá de sua capacidade de forjar quadros para um projeto político e de nação a seu talante. Se não o fizerem, talvez a “hegemonia invertida” propiciada por Lula ainda seja útil. À esquerda, dependerá de até quando e onde se tolerará o mito Lula, e qual a sua capacidade de investir em um projeto político baseado na organização social e política dos trabalhadores. Mas talvez o patrimônio de Lula já tenha se esgotado.


2 Foi porta-voz e secretário de Imprensa da Presidência no governo Lula.

3 André Singer. O tempo foge. Folha de São Paulo, 12 de setembro de 2015.

Minas Educadora?

Nas últimas eleições, assistimos a mudança do governo estadual e a classe dos professores imaginou mudança nos rumos da educação de Minas Gerais. No entanto, a mudança de governo não resultou numa alteração de princípio para uma mudança de fato.

Está na hora de Dilma sair à francesa

Uma das coisas que distingue um estadista é saber a hora e jeito certo de se retirar do comando do Estado. Como um general que não sabe recuar é um desastre para o exército, uma presidente que não sabe renunciar pode ser uma desgraça não só para o Estado, mas para a sociedade como um todo. Grandes chefes de Estado já se destacaram pela forma como deixaram seus governos, assim felicitando seus povos, evitando grandes tragédias, como Jango alegou que fez, ou ao menos salvando a própria reputação, como Feijó. Alguns ganharam mais poderes ao renunciar, como César Augusto.

Para que ficar na presidência fazendo exatamente o contrário do que prometeu que faria? Para que ficar na presidência para fazer o oposto do que interessa à base social que a elegeu? Um sacrifício tem que ter motivos! Ficar na presidência, com o risco de ser enxotada, só valeria a pena para fazer uma política decente, popular, nacionalista, socialista. Não faz sentido para o Pt e para Dilma ficar na presidência para se desgastar.

Todo o mandato petista desde 2002 foi desmoralizador, mas os governos Dilma têm sido especialmente destruidores da reputação petista. A continuidade do mandato Dilma promete acabar de enxovalhar o nome dessa primeira mulher presidente do Brasil e do Pt. Pior que isso, estando o país fortemente polarizado, uma falsa polarização, diga-se de passagem, e sendo o Congresso atual o pior que já se teve nesse país, e de longe o mais irresponsável, há o risco de uma crise institucional, dado que a popularidade de Dilma está abaixo de 10%, por culpa dela mesma.

Agora é fácil perceber que o Brasil se livrou de um enorme perigo ao conseguir eleger Dilma e não Aécio. Se Aécio tivesse ganho estaria tomando medidas semelhantes às atuais, a economia estaria igualmente em queda, e pareceria ao povo que a culpa era dele e da saída do Pt. Os movimentos sociais, que poupam o governo petista, cresceriam contra Aécio, que também é marcado por denúncias de corrupção. Em resumo, o Pt ficaria como herói, os tempos petistas como tempos de bonança, e o Pt voltariam em 2018 com muito mais força, e o país estaria nas mãos de uma tremenda quadrilha por muitos anos.

Mas quem venceu as eleições foi o Pt, e assim ele perdeu. O Pt não consegue ganhar o apoio da parte da população que ele realmente beneficia, e está cuspindo na cara de seus próprios eleitores e de sua própria base social. A direita, cujo programa o Pt está cumprindo, continua cada dia mais histérica contra o Pt, que para ela representa o povo trabalhador. O capital criou o Pt, o nutriu, o sustentou e o mantém para isso. Os lucros das grandes empresas, dos bancos, e principalmente, dos acionistas da dívida pública, ou seja, do governo, estão na Lua. Os verdadeiros capitalistas (não os bobos anti-comunistas de internet) gostariam que a era petista se eternizasse. Mas os verdadeiros capitalistas são uma massa ínfima da população, que por vezes não consegue, ou não pode, dizer tudo o que sabe para a massa de burgueses e pequeno-burgueses, que se guiam pela ideologia liberal ou pela fascista. Sustentar o Pt, portanto, mesmo para o capital, se tornou impossível. Para a massa de burgueses e pequeno-burgueses o governo petista tem significa salários um pouco mais altos.

Já os trabalhadores estão vendo esses salários serem reduzidos pela inflação, e não há coisa que mais afete a popularidade de um governo. O povo trabalhador está aprendendo que o Pt é seu inimigo, daí o apoio baixíssimo da presidente, que vai tornando seu mandato insustentável.

Ela deve escolher – é preferível sair por conta própria por algum motivo de saúde ou cair? É preferível para ela e para o Pt que Michel Temer fique na presidência ou que ele caia junto e que aconteçam novas eleições em três meses? Imaginem então se a queda for depois de 2016 e o presidente ficar sendo Eduardo Cunha!?! Mesmo que Dilma não caia. É melhor enfrentar as eleições de 2018 depois de alguns anos de presidência peemedebista ou depois de quatro anos sangrando?

Uma saída à francesa de Dilma acabaria imediatamente com a crise política e com o risco de crise institucional. Colocaria o PMDb, que há 30 anos (des)governa esse país a partir das sombras, em evidência, para que vire o alvo e tome as pedradas das quais vem se esquivando. Acabaria com a falsa polarização Pt-PSDb e daí com a carreira de Aécio Neves, que depois de derrotado em Minas Gerais e no Rio de Janeiro só se sustenta como nome anti-Pt.

Os movimentos sociais, desde 2002 divididos e fracos, voltariam a se unir contra o governo PMDb. Por mais traidor e corrupto que o Pt seja, ainda existem nos movimentos sociais quem tenha esperanças ou mais exatamente, que tenha medo de que as coisas piorem com a volta das velhas quadrilhas. Mas com a renúncia de Dilma essa vacilação desapareceria imediatamente. Assim os trabalhadores teriam alguma chance de minimizar seus prejuízos, enquanto com Dilma eles estão divididos e daí sendo massacrados.

O VETO DO DIREITO À APOSENTADORIA: O LULISMO FOCALIZADO CONTRA O TRABALHO




A presidente da República vetou a virtual extinção do fator previdenciário. O ministro da Previdência veio a público às vésperas da decisão de Dilma Rousseff com as já conhecidas previsões catastróficas, as mesmas repetidas pelos governos desde pelo menos meados dos anos 1980... Carlos Gabas, no entanto, se superou, arriscando previsões para daqui a 45 anos[1].

Em um debate no programa Entre aspas, do canal pago GloboNews[2], dois economistas de posições diferentes, Eduardo Fagnani (UNICAMP) e Eduardo Zylberstajn (USP), concordam com o fato de que a Previdência Social não é deficitária. O que causa déficit é a cobertura de aposentadorias sem contribuição estabelecidas a partir da Constituição de 1988.

No que discordam Fagnani e Zylberstajn? O segundo afirma que, de uma forma ou de outra a cobertura vem dos impostos, mesmo não sendo de responsabilidade dos trabalhadores que contribuem. O problema é evidente: é do trabalho, não do lucro que deve vir a cobertura de formas de exploração do trabalho incompatíveis com o estabelecido na Constituição, como observa Fagnani.

Mas queremos chamar a atenção para um aspecto peculiar da questão. O da relação entre o discurso oficial de que passamos por mais de uma década de grandes avanços econômicos e sociais e o catastrofismo da Cassandra da Previdência. Então daqui a 45 anos o impacto de aposentadorias não cobertas por contribuições se manterá inalterado?

Em especial chama a atenção que o enorme salto das commodities – de 400% na década passada – nada tenha servido para alterar o quadro previdenciário rural. E que as migrações para as cidades também não o tenham feito. Mais que isso, a Cassandra previdenciária trabalha com o dado de que o quadro não mudará nos próximos 45 anos...

Um detalhe no programa Entre aspas é o comentário de Zylberstajn, um defensor do veto, de que o gasto da Previdência é dez vezes maior que o do Bolsa Família. Para Zylberstajn o Bolsa Família é, como política focalizada, mais eficaz. De fato, ele opõe a “mania de exigir direitos” à única possibilidade de “justiça social”, ou seja, a minoração da miséria.

Os milhões, bilhões e trilhões – 400 bilhões em 2016, 3,2 trilhões em 2060 como gastos da Previdência – são um velho estratagema do discurso conservador. As previsões catastróficas do ministro, e repercutidas por “especialistas”, ameaçando com a falência da Previdência, se encaixam nesta “tradição”.

Mas, além da identidade da prática política, devemos destacar que não, para além da propaganda oficial e eleitoreira, houve desenvolvimento que tivesse alterado o quadro de desequilíbrio entre as aposentadorias com e sem contribuição nos últimos 13 anos. Pior, não há perspectiva no horizonte de que isso aconteça nos próximos 45 anos! Uma farsa "(neo)desenvolvimentista", na qual se perdeu a onda das commodities e do "efeito China" na inércia e na desastrada incompetência governamental...

O que salta aos olhos, afinal, é a identidade do governo e do Lulismo com a fórmula neoliberal das políticas focalizadas. Escolha fortemente ancorada na naturalização de uma economia baseada em commodities, desindustrializada, sem dinamismo tecnológico e financeirizada. Na qual vemos médias salariais baixíssimas e o trabalho não é o parâmetro de justiça social. 

Neste quadro, sem as edulcoradas propagandas oficiais, as aposentadorias minimamente justas – lembrando que não se tocara no teto de R$ 4.663,75 – não podem mesmo ser prioridade. Uma vez naturalizada a desigualdade inalterada (não confundir com a diminuição da miséria absoluta) não podem estar mesmo no horizonte.

Até porque a justa aposentadoria é vista direito devido, oriundo do trabalho, e não como benesse governamental, a ser trocada por votos ao sabor de ameaças de sua extinção, tão ao gosto do Lulismo... A Bolsa-família é barata, esconde o quadro de intensa desigualdade mantida e ampliada e amortece os incômodos trabalhadores: mania de direitos, não!




[1] http://g1 globo.com/economia/noticia/2015/06/dilma-nao-decidiu-se-veta-mudanca-no-fator-previdenciario-diz-ministro.html
[2] http://globotv globo.com globo-news/entre-aspas/v/entre-aspas-convidados-debatem-o-fim-do-fator-previdenciario-e-o-impasse-na-previdencia/4258029/ . A versão integras em http://globosatplay globo.com/globonews/v/4258080/