Mais um casarão ameaçado em S.J.del-Rei

 


Mais um belo casarão está ameaçado de demolição em São João del-Rei, para dar lugar, provavelmente, a mais um caixote. Não está na parte antiga da cidade, mas na avenida Leite de Castro, e é de meados do século XX. Por isso não é fácil protegê-lo usando as leis que protegem o patrimônio histórico. Mas o caso expõe a contrariedade de interesses entre o coletivo e o privado, entre a sociedade e os proprietários de imóveis.

A volta do São João del-Pueblo

Como o leitor pode notar, fazem três anos que o último artigo foi publicado neste blog. 

Eu parei ainda antes, há cinco anos. São dois motivos principais. Primeiro, as redes sociais mataram os blogs. Esse meu último artigo, com cinco anos de idade, ainda tem somente 139 leituras. É desanimador escrever para pouca gente. Segundo, as crises das organizações políticas, que criam um vácuo - qual será o ganho organizativo do esforço militante, se as organizações estão inoperantes ou pior, operando para o lado errado?

Contudo, esse é o espaço ideal para certos debates sobre a cidade, e para o primeiro problema tentaremos uma solução.

O segundo problema não podemos resolver. Está além da alçada dos pacatos comunistas de São João del-Rei.

DOUTRINAS, MARXISMOS, CENSURAS E O ESTRANHO AUTORITARISMO

 Wlamir Silva, professor e historiador


O deputado Carlos Bolsonaro comparou professores doutrinadores” a traficantes de drogas.[1] Muita gente se indignou e com boa dose de razão, mas com exagero, como observaremos ao final deste texto. Muitos dos indignados apõem o fato de serem professores. Também o somos, há 37 anos, 7 anos no ensino básico (nas 8 séries da época, mais pré-vestibular e uma escola técnica) e 30 no ensino superior. Se não desprezássemos a expressão, diríamos possuir “lugar de fala”.

O Sr. Bolsonaro fala em “doutrinação marxista”. E sobre este argumento é preciso lembrar duas coisas. A primeira é a de que nos meus anos de formação em História e por muito tempo na vida acadêmica ser marxista era um peso de chumbo, com epítetos desrespeitosos e ameaças de ostracismo, o que não se devia a uma “(extrema-)direita” acadêmica, mas a uma onda pós-moderna, irracionalista e despolitizante. A segunda é a de que conheci e vi professores que – se não chamo de “doutrinadores”, sem rejeição maior que ao “lugar de fala” – apresentavam graves problemas éticos e intelectuais, que seriam, sim, passíveis de críticas e ações. Panfletários, é como os chamo, com o benefício de jungir epistemologia e ética, aí inseparáveis.

Ultimamente, observa-se um fenômeno grotesco. Se o Marxismo antes era atacado em suas premissas epistemológicas e políticas, agora ele sofre a corrosão de cupins intelectuais que o exaurem de sua capacidade crítica e o transformam numa atração de circo. Reduzindo o patrimônio crítico do pensamento materialista-dialético a binarismos infantis de “ricos versus pobres”, a racialismos, feminismos e a uma miríade de identitarismo chorosos. Numa imagem: a academia resta coalhada de “marxistas genéricos”, simbólicos ou “culturais”. Não foi a “(extrema-)direita” que o fez. Antes o seu ascenso se deve ao sequestro da crítica marxista – incluso o duro contencioso da crise do socialismo – por um condomínio pós-moderno e sentimentalista. Ao fundo, acima e além, o grande capital corporativo vai “pondo fichas” de forma pragmática “à direita e à esquerda”, mas o “cordão umbilical” com o pós-modernismo cosmopolita-identitário é mais sólido...

Uma dimensão essencial da degenerescência pós-moderna, a forma mais acabada de seu irracionalismo, é a preeminência da linguagem. Afastada a ambição de apreender o mundo e transformá-lo, resta a linguagem. A linguagem sem “referente do real”, mero “efeito do real”, gerou um “giro linguístico”, um deslocamento lógico em direção à linguagem. A teoria social, a teoria da História, foram substituídas pela análise linguística. Tal giro se reflete também no campo da política, com uma hipervalorização do discurso no seio do real, um hipersimbolismo. Isso, somado ao supracitado binarismo simplório, levou à excessiva valorização do papel da linguagem: a linguagem faz tudo, cria realidades! Assim, o debate político é um jogo linguístico e – o real existe, mas é incognoscível – e o controle da linguagem é essencial. A dimensão do controle, por sua vez, emerge do fantasioso enfrentamento “cósmico” entre “o bem e o mal”, contra uma conspiratória “(extrema-)direita”. Na forma do Politicamente Correto, ou seja, do ideal de linguagem asséptica, fortemente assentada no capital corporativo e na medida para a inércia “democrática” das “instituições intermediárias”, por aqui dos tribunais superiores.

Assim, a indignação com as falas primárias de Carlos Bolsonaro exagera por cinco razões: 1) assumir o exagero da importância da linguagem; 2) substituir questões complexas por um binarismo fantasioso; 3) obnubilar as questões reais com o binômio linguístico-maniqueísta; e 4) se deixar seduzir pelo controle que se lhe oferece pelo status quo corporativo; 5) enganar-se pela coerção da censura e cassação que se incrusta no aparato estatal (e permanecerá). Em síntese, um encanto pela trama autoritária.

A contraprova do exagero é dada pelo próprio Estado, quando o ministro da justiça Flávio Dino encarrega a Polícia Federal de analisar discurso do referido deputado. Não de investigar quaisquer ações ou agir em função de uma flagrante transgressão. A análise da linguagem se tornar função policial, para fins de censura e cassação política, é uma manifestação quase caricatural do que aqui observamos.[2] Um ato falho autoritário de laivos tragicômicos.

 



[1] https://g1.globo.com/politica/blog/andreia-sadi/post/2023/07/10/eduardo-bolsonaro-compara-professor-a-traficante-de-drogas-em-evento-pro-armas-no-brasilia.ghtml

[2] Dino determina que PF analise discursos de evento com Eduardo Bolsonaro... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2023/07/10/dino-determina-que-pf-analise-discursos-de-evento-com-eduardo-bolsonaro.htm?cmpid=copiaecola




MARIONETES

 Wlamir Silva, professor e historiador


Em fins de 2019 uma foto em que uma bandeira Mapuche está encarapitada no alto de um monumento entulhado de gente, acima das bandeiras chilenas foi saudada por aqui. O significado era o da inversão de bandeiras em vários sentidos. A identidades negra, indígena, feminista e LGBT acima da nacional como resposta à direita conservadora chilena, à herança pinochetista. Dois anos depois a população chilena derrotava de forma acachapante a proposta de constituição feita pela nova constituinte com representações das novas identidades, já sob um governo de esquerda que se debatia com problemas mais sublunares. Nesta semana, a eleição de um conselho para (re)elaborar a nova constituição chilena se findou com uma vitória da direita, segundo a grande mídia, da “ultradireita”.


Foto atribuída à fotógrafa chilena Susana Hidalgo

O que significa exatamente que uma imprensa conservadora se anime a usar com tanta liberalidade adjetivações como “extrema” e “ultra” para grupos políticos de direita? E não falamos só do Chile, aliás, tais adjetivos têm servido para designar coisas diversas e momentos diversos. A adjetivação maior, já com pretensões de substantivo substancialíssimo, é a “onda de direita”. Denominações que reúnem muitíssima gente, dos que defendem quase tudo do ponto de vista do viés liberal que, em geral, subjaz a estes movimentos conservadores. O que explica isso é o foco sobre uma pauta de costumes, em formato identitário e com pretensões “revolucionárias”, que aqui quer dizer impacto sobre a sociedade como um todo e um antagonismo agressivo: negros versus brancos, indígenas versus brancos, mulheres versus homens, LGBTs versus versus heteros-cis etc.

O identitarismo sidera a grande mídia porque não envolve a crítica do status quo, o enfrentamento da realidade como totalidade, divide a sociedade em nichos e destrói as perspectivas universais, de transformação radical ou reforma substancial. Mas isso não nasce na mídia, ou no “mundo da arte” e nas universidades – embora ali encontre muita simpatia identitária... –, mesmo nas ONGs “caça-níqueis”. Nasce e é cevado no mundo maleável do grande capital corporativo, que financia e adota tais pautas. Por fim, soma-se às hostes identitárias uma esquerda melancólica que busca ali a saída, ou um atalho, para a perda de Norte utópico, entre o constrangimento de aderir ao status quo e a falta charme de cuidar de questões prosaicas. O simbolismo negro-indígena-femino-LGBT-decolonial é a revolução “em cápsulas” que resgata o glamour.


Foto da posse de Lula, chamada por alguns de "a cara do Brasil"

Não é de estranhar que este bálsamo feito sob medida para camuflar conservadorismos corporativos e melancolias de esquerda se torne o mote para a confluência com reacionarismos mais sutis, em especial por meio do Estado. Aí o identitarismo fornece uma justificativa chique, civilizatória mesmo, para a consolidação da ordem flexível do Capital. Para o qual contribuem jornalistas algo obtusos e ávidos por carreira e dinheiro; acadêmicos ansiosos também por carreira, reconhecimento e... carguinhos; e políticos sequiosos de poder. Daí o ridículo das imagens dos Mapuche no topo, das cômicas fotos com a “cara do Brasil” e os cursos de “educar com o cu”... Alguns dizem: a direita agradece! Quase acertam... A direita que se ri é a maleável, flexível, que puxa os cordões das marionetes identitárias que vagueiam por universidades, estúdios e palácios...

Evento da Universidade Federal da Bahia

A CAÇA ELITISTA E AUTORITÁRIA AOS “IMBECIS”

 Wlamir Silva é professor e historiador

Já faz uns sete anos que Umberto Eco (1932-2016) vociferou contra as redes sociais e os imbecis. Exatamente, dizendo que “as redes sociais deram direito de fala a uma legião de imbecis”.[1] Há três dias, o Sr. Alexandre Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal repetiu a sentença, sem citar o italiano, repetiu a sentença: “As plataformas e a internet deram voz aos imbecis”.[2] Quando era ministro indicado pelo dito golpista Michel Temer, Moraes era chamado de plagiário pela “esquerda lulista”, então não surpreende que não cite. E definitivamente não importa.



Mussolini, Eco e Moraes

Sempre deploramos a diatribe do Sr. Eco. Antes dos corcoveios miméticos do Sr. Moraes, menos de um ano depois do italiano, outro careca tratava do tema, também “babando”: “sempre teremos 999 pessoas odiando para cada pessoa que pensa, osso às vezes me dá ódio”.[3] Curiosamente, o segundo careca, que atende por nome de Karnal, cairia em desgraça por aparecer em fotos com o “golpista” Sérgio Moro, fazendo o caminho inverso ao de Moraes. Novamente não importa, mas sim o fato de que os reptos contra os “imbecis” são incensados pela “esquerda lulista” nos dois momentos. O ad hominem é um “bônus”, o que possui significado é o amor pelo elitismo, pela ideia de que apenas alguns merecem ter o direito à fala.

Mapeados e localizados os imbecis, cabe aos ungidos pela ciência, cultura e civilização a higiene das ideias, opiniões e... falas. Higiene sociopolítica que vai desde a ambulatorial “checagem de fatos”, até os antibióticos; a quimioradioterapia das exclusões das redes e “desmonetização”; até a cirurgia, a extirpação do mal pela prisão. É claro que a sentença importa, são dramas pessoais – ainda que, como disse o humorista Dave Chapelle, "tirar o meio de vida de alguém é a mesma coisa que matar" –, mas o principal, o vício de origem, é o mesmo: gente ungida com o poder de negar a fala, a expressão, aos que ela considera imbecis.

Mas a higiene intelectual esconde um segredo. E o nosso segundo careca, o Sr. Karnal, o expôs, meio que inadvertidamente – é... nossos campeões da razão não são lá essas coisas... –, pois, SEMPRE haverá um mísero milésimo de pensantes nas sociedades. Um careca predecessor dos citados, seu “Duce”, consciente ou inconscientemente, Benito Mussolini, já invectivava, na Doutrina do Fascismo, “o século da Democracia, o século do número, o século das maiorias e das quantidades”, que seria o século XIX, a “forma de democracia que equaliza uma nação com uma maioria, diminuindo-a ao nível do maior número”.[4] Modernamente, Mussolini “atualizava”, ainda que em bases coletivistas e identitárias, o horror ao “despotismo do número” do liberal doutrinário François Guizot.

O “número” que já se delineava no século das maiorias se adensou no século XX. Socialistas e comunistas viram nele a matéria-prima da transformação radical da sociedade, em que pese desvios autoritários, vanguardismos e afins. Um intelectual do estofo de Antonio Gramsci (1891-1937), que morreu jovem praticamente na cela fascista, elaborou um diagnóstico e um prognóstico de enfrentamento das novas condições que criaram, inclusive, o Fascismo. O pensador italiano dissecou a complexa sociedade contemporânea, as relações entre as condições materiais e o pensamento, entre o individual e o coletivo, das disputas pelo senso comum. Para Gramsci, “todos os homens são filósofos”, e achar o contrário era preconceito.[5] Não há estigma de imbecis quando se pensa assim. É ironicamente revelador que o “filósofo da direita” Olavo de Carvalho, tenha descrito Gramsci como o “profeta da imbecilidade, o guia de imbecis”.[6] Gramsci não tinha horror ao homem comum, ao senso comum e não via ou imaginava atalhos ao convencimento, ao consenso.


Antonio Gramsci

O segredo de polichinelo é este: o horror ao povo, o medo do povo. Fenômeno que combina num turbilhão o apego ao status quo e a confissão de impotência do convencimento. Dizemos num turbilhão porque aí se confundem os agentes, muitas vezes aparentes radicais são, principalmente, manipuladores de hegemonias confortavelmente assentadas... E o velho elitismo se (con)funde com o recauchutado identitarismo, a preservação das estruturas oligopólicas de mídia e da ordem garantida pelas “conversas de bastidores em salas enfumaçadas”[7], como sonham e defendem cientistas políticos que fazem muito, e intelectualmente pastichado, sucesso entre os nossos “guardiães da democracia”. E nunca é demais lembrar que nossas salas enfumaçadas são particularmente fétidas...

Umberto Eco proferiu uma conferência, que virou um livrinho, sobre um “Fascismo eterno”[8], cujo conteúdo se transformou em uma cartilha nas redes sociais. Inteiramente desprovida de substância histórica, a cartilha ignora o povo, as massas. O Fascismo deixa de ser um movimento de massas – o verdadeiro enigma de sua existência –, para ser um apanhado de maus bofes, e apenas um deles basta caracterizar coisas muitíssimo distintas do Fascismo. Subjaz ali, novamente, o nosso segredo de polichinelo, o Fascismo é um horror eterno – portanto, anterior à sua realidade histórica, a Mussolini e Hitler – de inomináveis massas ignorantes, eternamente ignorantes. Eco de Mussolini, ou Guizot, com o desprezo pelo homem comum que os une. Aliás, como se o Fascismo e o Nazismo não tivessem seus intelectuais, desde o arqueológico Nietzsche – e seu horror à carneirada –; Giovanni Gentile, provável (co)autor do aqui citado Doutrina do Fascismo; e do festejado Martin Heidegger, aquele para quem a filosofia, ou o pensamento, é privilégio de poucos...

Para nós, ressalta-se o Sr. Alexandre Moraes, prova viva do elo entre o elitismo de Umberto Eco e Leandro Karnal, que dá materialidade ao horror aos imbecis com sua inquisição às redes sociais. Prisões, exclusões e “desmonetizações” contra os difusores de “fake news” e os que atentam “contra a democracia”, e o fazem por palavras, manifestações. Inquéritos, prisões e exclusões ilegais, originadas em inquérito com vício de origem e com base num conceito inexistente e num paradoxo: pois, “fake news” inexiste em Lei e é garantida constitucionalmente a livre expressão.

Paira o horror às massas, ao homem comum, à livre manifestação. Os imbecis não devem se manifestar, a sua manifestação é um risco para a democracia. Como diz o Sr. Moraes, nas redes sociais “qualquer um se diz especialista”. E para os exterminadores dos imbecis é de uma facilidade cristalina quem são os capacitados para distinguir a verdade das “fake news”, os capazes dos incapazes, os defensores da democracia dos falantes contra ela. Hoje, por aqui, são os togados, amanhã poderão ser os parlamentares, depois de amanhã um chefe do Executivo. Tornada institucional a caça aos imbecis, o inferno é o limite.

 

 



[1] Redes sociais deram voz a legião de imbecis, diz Umberto Eco. Portal Terra, 11 de junho de 2015. https://www.terra.com.br/noticias/educacao/redes-sociais-deram-voz-a-legiao-de-imbecis-diz-umberto-eco,6fc187c948a383255d784b70cab16129m6t0RCRD.html>.

[2] 'Internet deu voz aos imbecis', diz Alexandre de Moraes em evento na Bahia. Rádio Itatiaia, 14 de maio.

< https://www.itatiaia.com.br/noticia/internet-deu-voz-aos-imbecis-diz-alexandre-de-moraes-em-evento-na-bahia>.
Ver também a análise de Bruna Frascolla. Gutenberg deu voz a uma legião de imbecis. Gazeta do Povo, 16 de maio de 2022. <https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/bruna-frascolla/gutenberg-deu-voz-a-uma-legiao-de-imbecis/amp/>.

[3] “Sempre Teremos 999 Pessoas Odiando Para Cada Pessoa Que Pensa. Isso Às Vezes Me Dá Ódio”. Portal Geledés, 4 de maio de 2016. https://www.geledes.org.br/sempre-teremos-999-pessoas-odiando-para-cada-pessoa-que-pensa-isso-as-vezes-me-da-odio/>.

[4] Benito Mussolini. A doutrina do Fascismo. Lebooks.com.br, pp. 5 e 25.

[5] O filósofo Roland Corbisier utilizou-se da citação de Gramsci em contraponto a Heidegger – em epígrafes –, que, citando Nietzsche, afirmava que a filosofia era um “saber [...] raro. Só os grandes pensadores o possuem. Roland Corbisier. Introdução à filosofia – Tomo I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983, p. 11.

[6] Lincoln Secco. “Gramscismo” o fantasma que apavora a ultra-direita. Blog da Boitempo, 16 de maio de 2019. <https://outraspalavras.net/outrasmidias/gramscismo-o-fantasma-que-apavora-a-ultra-direita/>. Há uma leitura simplória que converge “esquerda” e “direita” de um Gramsci excessivamente instrumental, quase um marqueteiro ou propugnador de um método de manipulação de massas.

[7] Steven Levitsky & Daniel Ziblatt. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018,

http://dagobah.com.br/wp-content/uploads/2019/02/Como-as-Democracias-Morrem-Steven-Levitsky.pdf

[8] Umberto Eco. O Fascismo Eterno. Rio de Janeiro: Editora Record, 2018.


O surgimento do Verde e Amarelo na história do Brasil

 


Circula há muito tempo no Brasil a versão de que as cores verde e amarelo, da bandeira, seriam as cores de duas casas reais, os Orléans e os Bragança. Trata-se de uma tentativa de adivinhar o pensamento de dois gênios – Jean-Baptist Debret e José Bonifácio. Enquanto historiografia, é lamentável, uma explicação simplória, limitada ao pensamento de grandes personagens.

 O verde e o amarelo não são as cores nacionais brasileiras porque Debret e José Bonifácio escolheram, nem é possível adivinhar o que eles realmente pensavam, se escolheram pelos mesmos motivos, se só tinham um motivo para cada cor, e nem nada disso interessa.

 O verde e o amarelo se tornaram as cores nacionais porque foram repetidamente usadas pelo Partido Brasileiro. Os defensores das casas Bragança e Orléans usavam outras cores, de novo, a despeito do que pensassem Debret e José Bonifácio.

 O Partido Português, defensor da unidade do Brasil com Portugal sob a coroa dos Bragança, usou o azul e branco enquanto essas foram as cores portuguesas, e com a volta do absolutismo de D. João VI, mudaram as cores portuguesas para verde e vermelho, e no Brasil os inimigos da independência passaram a usar verde e vermelho.

 O povo brasileiro adotou com facilidade o verde e o amarelo porque foi fácil usar a vegetação para fazer enfeites com essas cores. Em Minas Gerais foi comum usar o tabaco para fazer o amarelo.

 No dia 7 de setembro de 1822 uma frase atribuída a D. Pedro I é tomada por metafórica, mas ela foi bem literal – Quando percebeu que teria que escolher entre obedecer Lisboa ou ao Partido Brasileiro, e decidiu-se pela independência, ele teria dito “laços fora”. Estava ordenando aos membros da comitiva que jogassem no chão as fitinhas azuis e brancas que simbolizavam Portugal.

 Desde 1822 até 1831, o verde e o amarelo disputaram as ruas com as cores portuguesas. Cada vez que se sentia ameaçada a independência, os seus defensores estimulavam o uso do “laço nacional” – os homens usavam quase sempre nas lapelas ou nos chapéus, e as mulheres no pescoço ou como pulseiras, fitinhas verdes e amarelas.

 Consolidada de independência política, o verde e o amarelo estiveram presentes em todas as lutas do povo, nos momentos bons e nos ruis. Não existiu grande revolta que não levantasse as cores verde e amarelo.

 É verdade que essas cores foram usadas em massacres no Paraguai, mas também é verdade que foram usadas contra os nazistas na Europa. É verdade que se sujaram nos navios negreiros, mas também foram usadas pelos abolicionistas. Foram usadas pelos golpistas de 1964, mas também foram usadas tanto pelas Diretas Já quanto pelos diversos movimentos de resistência à ditadura.

 Desde 1831 várias bandeiras habitaram o coração do Partido Português – a lusa, a inglesa, a francesa, e atualmente a estadunidense. Mas como até eles sabem o quanto é indecente essa fidelidade a chefes estrangeiros, passaram a tentar roubar as cores brasileiras. Trata-se do único traço de nacionalismo dessa gente. São defensores de doar tudo que é nacional aos seus amores estrangeiros, sob os nomes de “privatização”, “abertura econômica”, “investimento estrangeiro” etc.

 O domínio da burguesia estrangeira sobre o povo do Brasil é tamanho que grande parte desse povo, mesmo sendo hostil ao Partido Português, não se torna decididamente Brasileiro. Aí estão as manifestações contra Bolsonaro, e alguns dos seus organizadores nitidamente não têm nenhum apego à bandeira brasileira. São defensores de justiça social, de direitos humanos, alguns se acham até socialistas, mas não entendem que nada disso se faz sem liberdade das nações umas perante as outras. Esses não-brasileiros se acham internacionalistas, mas querem uma Internacional sem nações... Extinguir as nações é genocídio. Seria necessário extinguir línguas, tradições, receitas culinárias, músicas, culturas inteiras. Internacionalismo não é extinguir as nações, é uni-las e deixar que se fundam se e quando isso acontecer. É defender é autodeterminação de cada uma delas, ou seja, é defender a independência de cada nação, a começar pela nossa, que não está livre.

 No futuro podemos conquistar a sociedade sem fronteiras, em que as nações não sejam mais que curiosidades regionais, quando não existirem mais classes e Estado, o que Marx chamava de comunismo. Hoje, porém, o socialismo só é possível onde existe pátria livre. Sem pátria, não existe socialismo, no presente.

 Ademais, sem pátria, não existe sentido na coisa pública. O patrimônio público só tem sentido se esse “público” existir no pensamento das pessoas, ou seja, se existir, para elas, uma pátria. Atualmente, o bem comum exige uma pátria livre.

 Ao invés de atacar as cores nacionais, que está no coração do povo, o que devemos fazer usar as cores nacionais para levar a esse povo o apego a coisas realmente importantes para a nação. Devemos tornar o povo realmente nacionalista, explicando detalhada e pacientemente os interesses nacionais em seus vários aspectos.

 Ao invés de fazer com o Partido Português uma guerra de símbolos, em que ele usa só a nossa bandeira, consolidada e amada pelo povo, e nós usamos enorme diversidade de bandeiras, o que é em si uma derrota dos brasileiros para os estrangeiros, o que devemos fazer é discutir com eles quem é mesmo nacionalista. Se eles roubam as cores brasileiras, que detestam, é porque precisam. Portanto, denunciar que as políticas deles são de traição à pátria os destrói.

 O crescimento do número de bandeiras brasileiras nas manifestações contra Bolsonaro significa, para quem assiste, que mais povo brasileiro de verdade está participando. Se só existem bandeiras partidárias, as pessoas avaliam que só estão presentes os militantes, que portanto estariam isolados. A exclusividade de bandeiras partidárias também gera desconfiança sobre intenções eleitoreiras e proselitistas. Ademais, confirma as mentiras dos bolsonaristas, que assim, com ajuda dos muito “inteligentes” inimigos da bandeira do Brasil, conseguem manter a imagem que querem manter.

 Quando o laço nacional se espalhar pelos mastros das bandeiras vermelhas, laços vermelhos começarão a se espalhar pelos mastros de bandeiras do Brasil.

Cuba e as eleições diretas de chefes de governo

 

O mundo todo voltou suas atenções para as manifestações da direita de Cuba, que eram previsíveis por três fatores. Primeiro, Raul Castro se afastou da direção do Partido, e portanto é normal que a direita promovesse uma ofensiva para testar os novos dirigentes. Segundo, os EUA têm um novo presidente, que naturalmente está testando novas táticas contra Cuba. Terceiro, a crise econômica mundial, que está afetando vários países. Nos mesmos dias em que aconteceram manifestações em Cuba, sem mortes, na África do Sul aconteceram manifestações com mais de 70 mortes, e ninguém noticiou. É uma confissão do fracasso do capitalismo – em um país capitalista distúrbios, violência policial, mortes, são esperadas, não são notícia. Em Cuba meia dúzia de direitistas viram sensação.

 Contudo, toda vez que a direita mostra as patas em Cuba vem à tona um assunto que precisamos debater – as eleições diretas. A direita diz que Cuba não é uma democracia, e o principal argumento deles é que os chefes de governo não são eleitos diretamente. Este é, certamente, o mais forte argumento da direita, o que se pode aferir pelo fato dele rachar a esquerda. Parte da esquerda, sobretudo trotskistas e socialdemocratas, também chamam Cuba de ditadura, e usam o mesmo argumento.

 Mesmo os comunistas fogem desse debate! Os socialdemocratas e trotskistas estão confessamente ao lado das eleições diretas de chefes de governo, mas mesmo os comunistas se esquivam. Não querem ficar isolados, então aceitam uma mentira, ou convivem com ela, ou a questionam somente com um palavreado que só os iniciados entendem. Ao invés de criticarem as eleições diretas, criticam a “democracia burguesa”, e sem apontar soluções. Outra forma de fuga é lembrar somente das eleições direitas que existem em Cuba, que são as parlamentares, e não responder à questão – por que os chefes de executivos também não são eleitos diretamente? É trabalho comunista, talvez o principal, responder a essa questão. Sem isso, não se está lutando pelo poder do proletariado.

 Os socialdemocratas fazem um pouco pior, porque eles desculpam as eleições diretas. Se elas não representam a vontade popular seria porque falta uma “democracia econômica, cultural etc.”. Em outras palavras, os problemas sociais, tornando o povo ignorante e miserável, é que impediriam as eleições diretas de funcionarem bem.

 Para ajudar a entender o assunto é mister apresentar a seguinte experiência, que pode ser reproduzida por qualquer professor que dê aulas para uma turma de eleitores de direita. Era uma turma de adultos fazendo supletivo, todos eleitores de um prefeito clientelista, corrupto, que finge falar errado, cujos próprios cabos eleitorais dizem que “rouba mas faz”. Isso foi conferido com uma eleição direta, secreta, e eram mesmo 90% eleitores do prefeito reeleito, ou seja, conhecido na prática. O que o prefeito que eles sempre elegem faz é asfaltar ruas e clientelismo de todo tipo (dizem que tem relações com a fábrica de asfalto). Foram colocados em grupos, como naturalmente se faz trabalhos em sala, e cada grupo foi instruído a fazer a lista das cinco coisas que priorizariam se fossem o prefeito. Fiquei esperando “asfalto”, “obras”, “festas”, mas todos os grupos colocaram em primeiro lugar “saúde”, em segundo “educação”, e em terceiro disputaram “empregos” e “segurança”. Só em um grupo, em quinto lugar, apareceu “obras”...

 Fiquei surpreso porque acreditei no sofisma das eleições, ou seja, acreditei que podia conhecer as opiniões das pessoas se soubesse em quem elas tinham votado. Acreditei na representatividade das eleições, e estava redondamente errado. Depois, observando algumas estatísticas, percebi que as informações desse experimento eram só confirmações do que pesquisas mais amplas já tinham encontrado. Que povo não quer saúde, educação, empregos e segurança? Se o povo mandasse diretamente como na experiência, escolheria “saúde”, “educação” etc., mas como elege os mandatários – “asfalto”.

 Os alunos também ficaram sem respostas, porque eles também, naturalmente, acreditam no sofisma eleitoral, e assumiram a “culpa”, dizendo que não sabiam votar.

 Não existe saber votar. Em países muito mais cultos o fracasso é o mesmo. Nas Universidades Federais as eleições de reitor são igualmente vergonhosas, desde as baixarias pré-eleitorais, passando pelas baixarias eleitorais, até os resultados. Para que eleger pessoas resultasse em democracia uma das muitas coisas necessárias seria que os eleitores sempre votassem pensando nos projetos dos candidatos, pois só então estariam decidindo o que querem – saúde ou asfalto? Mas é claro que não acontece assim, a escolha é entre pessoas. Existe uma coisa na qual os humanos são realmente muito ruins – é em escolher pessoas. Erram na escolha de amigos, parceiros sexuais, empregados, e nesse último caso mesmo profissionais treinados cometem erros. Grandes empresas, cheias de profissionais de nível superior treinados em contratação, não acertam em 100% das contratações.

 Pessoas são boas para decidir coisas, mas péssimas para escolher pessoas. Escolher outra pessoa é um exercício de adivinhação. As pessoas se enganam sobre os próprios filhos. Se somos ruins para escolher até amigos, como se pode imaginar que o povo despolitizado não seja enganado por políticos profissionais? Quanto maior a eleição, mais o candidato é um personagem, criado por marqueteiros. Equipes de psicólogos não acertam 100% da contratação de gente semianalfabeta, e querem que gente semianalfabeta não se deixe enganar por raposas da política?

 Eleições diretas são só um sofisma, uma mentira bem contada, que funciona assim – o poder é (deveria ser) do povo; o povo elegeu fulano; portanto o poder de fulano é o poder do povo... É aí que está a mentira. O poder da pessoa eleita é da pessoa eleita, não é de fato dos eleitores. Nunca foi! Nenhum país em que o povo elege seus chefes de governo diretamente é de fato governado pelo povo, e na maioria das vezes são governados contra o povo. É hora de reconhecer isso, porque só desse reconhecimento pode sair a solução.

 É o dinheiro que vence as eleições diretas. São os poderes financeiros que têm seus desejos representados. As eleições são só uma forma inteligente de legitimar esse poder. Em outras palavras, eleições diretas de chefes de governo e poder da burguesia são uma coisa só. Quem defende eleições diretas de chefes de governo está defendendo o capitalismo, a destruição ambiental, a corrupção e o fracasso da humanidade.

 Se responder com obviedades fosse suficiente, bastaria lembrar ao leitor da realidade do próprio Brasil, onde o povo não manda em nada, não só não manda na União e nos estados, mas não manda em nem um só município dentre os mais de 5 mil. Porém, infelizmente, não basta. A história humana é também a história dos enganos humanos, e das longas lutas para superá-los. Foram milênios acreditando em reis divinos ou cujo poder era divino, por mais reis completamente imbecis ou criminosos que tenham existido... E eleição direta ser democracia é uma mentira muito mais bem contada.

 A história desmente completamente que eleições direitas representem poder popular, em todos os países, o tempo todo. Contudo, observemos alguns exemplos importantes ou contundentes. Poucos prestam atenção, mas foram as eleições diretas que deram o golpe mortal na União Soviética. Ainda existia URSS quando foram eleitos diretamente Boris Yeltsin e presidentes de cada um dos países que compunham a União. Eleitos, com o poder que eleições conferem a um só indivíduo, eles tomaram o poder em seus países, destruindo o socialismo e implantando regimes autoritários, corruptos e ineficientes. Meses antes, em plebiscito, o povo soviético tinha decidido manter a União e o socialismo, mas como elegeram diretamente seus chefes de governo, estes não cumpriram o desejo do povo. Ou seja, muito claramente o poder do povo soviético acabou de vez exatamente quando esse povo pode eleger presidentes.

 O caso recente do Equador merece também atenção por ser escandaloso. Lênin Moreno foi eleito pela esquerda, traiu abertamente seus eleitores e iniciou contra eles tremenda repressão. A Venezuela devia prestar atenção nisso – o maior perigo que a Revolução enfrenta na Venezuela são exatamente as eleições presidenciais. Uma só vitória da direita e as duas décadas de Revolução seriam jogadas no lixo em poucos meses... Se querem manter a Revolução e fazê-la avançar deviam adotar aspectos do modelo político cubano. A Rússia corre o mesmo risco, por mais poderosa que seja, como já experimentou com Yeltsin.

 Os casos apontados indicam um dos piores defeitos da eleição direta de chefes de governo. Exatamente por serem eleitos eles ficam muito fortes, se arrogam poder e as pessoas realmente reconhecem que eles têm esse poder. Tornam-se perigosos para a sociedade. Ou seja, quanto mais alto o posto, ou seja, quanto maior o número de eleitores, não só o dinheiro tem mais influência como maior é o poder concentrado no eleito. Um presidente eleito, em um único ano, pode destruir o que um país construiu em vinte anos.

 Depor um governante que não teve o voto popular é fácil para qualquer parlamento, ou para a justiça, mas no caso de um presidente eleito é uma anormalidade, um processo conflituoso, tenso, às vezes violento. É errado eleger diretamente os chefes de governo.

 O problema das críticas às eleições diretas é que quase sempre elas terminam sem propor nada de melhor, ou nenhum aprimoramento. A observação dos fenômenos que descrevi acima e mais uma vasta experiência humana apontam aprimoramentos até óbvios.

 1 - Se as eleições diretas concentram muito poder em uma só pessoa, o óbvio é fazer muitas eleições pequenas, ao invés de poucas grandes. Eleger um monte de gente sem muito poder pessoal, cujo poder só possa se manifestar em conjunto, enquanto parlamento. Os outros postos, como Primeiro Ministro, seriam preenchidos de forma parlamentarista. É fácil notar que não só os países socialistas, Cuba, China, Vietnã etc., mas também os de maior sucesso entre os capitalistas, como Alemanha, Suécia etc., são parlamentaristas. Os socialistas normalmente são mais parlamentaristas ainda, porque o são completamente – em Cuba, por exemplo, o parlamento indica não só o chefe do governo, mas todos os seus membros, e também indica os postos mais elevados do judiciário. E o parlamento não é atrapalhado pelas irresponsabilidades de nenhum indivíduo empoderado pelo voto popular. Só o parlamento é empoderado pelo voto popular! E assim se responde porque Cuba não tem eleições diretas para chefe de governo – porque assim é mais democrático.

 2 - Se humanos não são muito eficientes para escolher pessoas, o óbvio é fazer, como fazem com amigos, namorados e empregados – o povo precisa do poder de demitir seus empregados. Essa foi talvez a mais revolucionária das bandeiras praticadas pela Comuna de Paris. Depois foi incorporada pelos Soviets. Existe em Cuba e na China. Existe em vários estados dos Estados Unidos. Existe em alguns locais da Europa. O parlamentarismo já faz isso com os primeiros ministros, mas esses exemplos citados são casos em que os próprios eleitores podem depor os parlamentares.

 Existem dezenas de organizações no Brasil que se pretendem comunistas, pretendem lutar pelo poder do proletariado, contra o capitalismo, mas não discutem o formato do Estado. Defendem conceitos, palavras bonitas, “poder popular”, “ditadura do proletariado”, “República dos trabalhadores”, “democracia socialista”, “democracia participativa” etc., mas não explicam como seria o formato do Estado. A desculpa, bem mentirosa e sem vergonha, é que isso seria assunto para depois da Revolução, como se revoluções fizessem outra coisa além do que já se debatia antes delas... Combater o poder do capital é combater determinadas formas de governo, é combater eleições diretas de chefes de governo, é combater mandatos que não podem ser revogados, é combater eleições em circuncisões eleitorais muito grandes etc. Ou será que acreditam que não haverá eleições depois da Revolução? Se determinadas regras eleitorais serão boas para depois de uma Revolução, por que não seriam boas para serem propostas desde já?

 

O PROBLEMA É O NORMAL

 Wlamir Silva é professor e historiador

Æ

Os mais novos temas da nossa diligente oposição memética são o, “vestível”, 500 MIL MORTES NÃO É NORMAL e um videozinho comparando o estilo de vários ex-presidentes diante de tragédias. O primeiro na chave “fúnebre” do “genocídio”, o segundo no já bem conhecido apego à tal “liturgia do cargo”, agravado com o tom fúnebre pandêmico.



Meio milhão de mortes não é normal, a pandemia não é normal... E já dissemos inúmeras vezes que parte de nossos problemas de enfrentamento dela se deve ao governo federal. Nos repetimos: “troca de ministros, falta de coordenação, falta de agilidade na contratação de vacinas, mensagens truncadas no que diz respeito às orientações sanitárias etc.”. Mas sabemos que não basta, é preciso ver o atual governante como um demônio, um assassino genocida. Isso não fazemos, por honestidade, concepção de luta política e percepção da realidade.

Mas o mote de que vivemos politicamente algo anormal traz em si um apelo, uma esperança de volta à normalidade, e o videozinho de declarações sobre tragédias – bem diversas, diga-se – aponta para o respeitável perfil dos guardiães da normalidade. E aí a porca torce o rabo... Durante a pandemia chamaram a nossa atenção algumas notícias. E vão abaixo os links, não há “fake news”, nem mistérios, são públicas e publicadas, basta não estar obnubilado por certas urgências políticas e a crença teórico-político-moral de que vale tudo – exagerar, esconder e mentir mesmo – para atingir o objetivo. O objetivo da normalidade, bem entendido.

Durante a pandemia descobrimos que um mero auxílio de R$ 600 bastou para diminuir a pobreza extrema à sua menor taxa em 40 anos! Quatro décadas de normalidade... E ainda que este auxílio franciscano chegou a impactar na compra de eletrodomésticos! O que a longa normalidade não permitia a muitos... Descobrimos ainda que 46 milhões de brasileiros pobres invisíveis aos olhos do governo, sem registros até para receber auxílio...[1] Normalidade informal ou informalidade normal? E soubemos também que as escolas no país são muito importantes para... a alimentação básica! Normal...



Se o afastamento social é, e era, importante para conter a pandemia, precisamos conversar sobre os reflexos do citado no parágrafo anterior... Quem sente um alívio da miséria por um auxílio não vai ficar em casa, vai batalhar mais uns trocados para respirar mais um pouquinho. Quem está no “meio da tabela” da pobreza – mesmo que tolos e malandros os chamem de “classe média” – não pode perder o pouquinho que tem vivendo de auxílio. E as condições de vida – moradia, acesso à saúde, acesso à comunicação e lazer eletrônicos, meios de viajar com segurança etc. – da imensa maioria da população não permite, ou permitiu o isolamento desejado, material e psicologicamente. A isto some-se as condições de saneamento e urbanismo das metrópoles, onde se concentra a população brasileira. Qual o impacto disso em nossos números de infecção e mortes?

Nada desta normalidade foi criado em dois anos, nada dela se deve à política da pandemia. E, vamos lá para a nossa tão significativa “liturgia do cargo”: nada se resolveu pelo estilo respeitoso dos discursos presidenciais, ou de quaisquer dos nossos líderes políticos legislativos, ou de nossos empoados juízes superiores... Sarney era amabilíssimo, uma estrela em pêsames; FHC um lorde de tweed e cotoveleiras de couro verbais; Lula um sertanejo sentimental, e malandro o bastante... Nenhum deles foi acusado de planejar quedas de avião e tragédias cotidianas, é honesto dizer... Mas tal elegância não resolveu nada do nosso, agora, festejado normal.

É que o normal é fruto de décadas de desindustrialização, atraso tecnológico, inadequação tributária, inércia política – falo do nosso sistema representativo, mas isso é questão invisível em nossa política –, clientelismo, fisiologismo, engessamento do Estado etc. E o populacho, o brasileiro comum, o brasileiro médio – que a maior parte da oposição memética enxovalha periodicamente, sabe, ou pelo menos intui tudo isto. Sabe também que a conversa “civilizada” convive muito bem com a normalidade que os infelicita... O povo, e faz muito bem, caga solenemente para frases algo toscas, e sabe muito bem que muito luto, no mais das vezes, esconde rega-bofes elegantes.

Bolsonaro vai reverter o nosso normal? Não, podemos afiançar. Mas não o criou ou mesmo teve tempo para piorá-lo tanto como nos querem fazer crer nossos oposicionistas meméticos do #EleNão, do “genocídio” e demonizações várias. E, infelizmente, lideranças políticas que ao menos esboçaram uma crítica a este normal naturalizado – como Ciro Gomes e Marina Silva, assim como um considerável espectro capaz desta crítica – acham-se obrigados à oposição de viés infantilizado. Fato que carreia forças para a candidatura de Lula, que não foi especialmente responsável pelo nosso normal, mas que se destacou por duas “importantes” contribuições: 1) a ideia de que governos à esquerda são inócuos ao normal; 2) a mistificação deste normal.[2]

Dissemos que abordamos assim a conjuntura política, e repelimos a memética, por concepção de luta política. Expliquemos: não há atalhos para melhores dias no país, muito menos para um melhor horizonte. Dito isto, não há esperança em mistificar. Não há caminho se não o do convencimento de amplas massas trabalhadoras. E aí, como dizia Gramsci: a verdade é sempre revolucionária.

 

 



[1] Ver Faixa de pobreza é a menos em 40 anos no Brasil. Agência Brasil. 29.7.2020. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-07/taxa-de-extrema-pobreza-e-menor-em-40-anos-no-brasil; Auxílio turbinou venda de alimentos e eletrodomésticos. Terra. 10.9.2020. https://www.terra.com.br/noticias/coronavirus/auxilio-turbinou-venda-de-alimentos-e-eletrodomesticos,2597680d33962ef3df37f275031a79a6k5e1vstg.html; Auxílio emergencial de R$ 600 revela 46 milhões de brasileiros invisíveis aos olhos do governo. Globo.com. 26.4.2020. https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2020/04/26/auxilio-emergencial-de-r-600-revela-42-milhoes-de-brasileiros-invisiveis-aos-olhos-do-governo.ghtml; Pandemia do coronavírus pode levar fome a quem depende da merenda escolar. DW. 24.3.2020. https://www.dw.com/pt-br/pandemia-do-coronav%C3%ADrus-pode-levar-fome-a-quem-depende-da-merenda-escolar/a-52900622

[2] A recente popularidade do Liberalismo na sociedade brasileira, em especial junto aos subalternos, com impacto político-eleitoral recente, se deve, em boa parte, ao fato de que o viés mistificador foi, por mais de uma década, “de esquerda”. Ver Percepção e valores políticos nas periferias de São Paulo. São Paulo: Fundação Perseu, 2017. https://fpabramo.org.br/wp-content/uploads/2017/03/Pesquisa-Periferia-FPA-040420172.pdf







COMO BOLSONARO SE TORNOU UM MAQUIAVEL?

 Wlamir Silva é professor e historiador

Em entrevista ao Globo há uns três dias, o cientista político Marcos Nobre diz que "Bolsonaro não está enfraquecido, como acredita parte da oposição".[1] E tem razão, ao menos na medida que muitos imaginam.

Ele aponta algo que destacamos faz tempo: o contingente que avalia "que o governo é regular", que é uma massa que não "compra" a figura demoníaca que se crê ter sido construída por certa oposição. Ele tem razão em dizer que "essas pessoas podem voltar se não encontrarem uma candidatura alternativa".

Somaríamos a isto os quase 50% de gente que não se anima a votar em ninguém, na pesquisa espontânea, mostrados em pesquisas e vistas no crescente absenteísmo de eleição para eleição. De fato, mesmo entre os que hoje têm o governo como “ruim ou péssimo” não necessariamente avaliam isso pelos motivos imaginados pela oposição.


Acerta também Nobre ao lembrar que a pandemia vai se extinguir e de que existe um cenário de algum crescimento da economia, e que isso deve melhorar a percepção sobre o governo. Para além, é preciso juntar que a memória popular não reconhece o "paraíso" que se quer fazer do período pré-Bolsonaro, ou embarca no discurso hiperbólico de assassino e genocida, de crimes diários e exegese de frases. Porque se isto fosse verdade a rejeição a ele seria muitíssimo maior, afinal, quem acharia "regular" um assassino genocida?

Não é má análise de Nobre que “Bolsonaro está forte o suficiente para ir ao segundo turno e fraco o suficiente para mostrar a seu eleitorado que ele luta permanentemente contra o sistema”. O que é fantasiosa é a atribuição deste resultado a uma "encenação dele parecer que está fraco, que está lutando contra o sistema". Tal fantasia é figura fácil na oposição: ora Bolsonaro é um imbecil, ora é um gênio maquiavélico. A suposta encenação é fruto do segundo polo desta esquizofrenia “de esquerda”.

A fantasia serve bem a um outro devaneio: o de que é eficaz e demolidora a estratégia hiperbólica das atribuições de fascismos, golpismos e intenções assassinas e genocidas por uma oposição “de esquerda”. Quimera que se alimenta de uma leitura equivocada da percepção popular dos defeitos e problemas do atual governo. Nobre, como tantos outros, é incapaz de trabalhar com conceitos que superem a artificial divisão da sociedade entre “esquerda” e “direita”, limitando-se a alertar de que “[v]ocê tem pessoas da direita não bolsonarista”.

É este erro de fundo de análise, e assim de estratégia política, que ainda sonha com impeachment ou, pior, com afastamentos baseados em contorcionismos inconstitucionais. Que leva a sério um picadeiro liderado por Renan Calheiros e companhia. Mas, sobretudo, que vê os milhões de brasileiros como peões do binarismo político insuportável. Ao invés de encará-los como o que são: um povo desconfiadíssimo, justamente, da classe política, da grande mídia e de hordas de “apontadores de dedo”, de donos da verdade, de arautos do Apocalipse. Numa reedição do desastroso #EleNão.

A hegemonia da oposição pelos arautos do Apocalipse, como se refere Nobre, “a possibilidade de catástrofe”, exige frentes improváveis e termina em Lula, invariavelmente. O Apocalipse eclipsa mais uma vez qualquer possibilidade – de fato necessidade – de política a médio e longo prazos. De roldão, a única candidatura em vista que ensaia uma crítica à nossa duradoura e contínua crise econômico-social-política e esboça um projeto nacional, a de Ciro Gomes, que se pretende matar na concepção.

É por isso que Bolsonaro se torna este improvável Maquiavel, capaz de calcular o tanto que deve parecer fraco... Esta avaliação estrambótica se impõe frente à incapacidade de autocrítica da estratégia política desastrada...


[1] ‘Faz parte da encenação de Bolsonaro parecer que está fraco’, diz o cientista social Marcos Nobre. O Globo. 10/06/2021. https://oglobo.globo.com/


 Wlamir Silva é professor e historiador

💭

BOLSONARO VENCEU O BIG BROTHER BRASIL?

O Big Brother Brasil (BBB) é uma bobagem. O bom de dizer isso é que se pode obter tal opinião num amplo espectro “político-ideológico”. É como os “ratinhos na caixinha”[1] das experiências com cobaias. O mais duro que se pode dizer dele é sua artificialidade, o oximóron da artificialidade do “reality”.

Às vésperas do final do BBB 2021, um artigo se refere a uma das participantes do “reality” como “parecendo” uma “tropa bolsonarista”.[2] Aí estamos no mundo real, mais do que alguns imaginam, mais do que gostaríamos. E não porque denuncia a moça, não porque expõe um suposto comportamento político e social, mas por mostrar um aporte ideológico.

Tal “análise” se torna mais interessante devido à vitória da “bolsonarista” Julliete, com o número expressivo de 90,1% dos 633 milhões de votos do público.[3] O que numa avaliação superficial pode ser considerado como uma vitória popular de um discurso “bolsonarista”, de “extrema-direita”. O que se teria dado, supostamente, com a paulatina eliminação de discursos “à esquerda”.


E por que Julliete teria feito uso de “estratégias similares [às da] da extrema direita”? O que caracterizaria tais estratégias? E por que elas foram vitoriosas numa amostra de voto popular que, ainda que enviesada, é de magnitude inegável? E que se considere que tal viés reúne gente “menos politizada”, o que, arriscamos, é muito socialmente representativo.

SEM NOÇÃO OU HEGEMÔNICA?

Curiosamente, a “análise” que ocupou espaço em veículo de mídia importante – UOL/Folha de São Paulo – é contraditória. Tal estratégia é “considerada pela audiência como ‘sem noção’ e [...] invasiva [...] como assédio”, ao mesmo tempo que de “presença hegemônica na opinião pública”.[4] É algo curioso, mas não surpreendente, como veremos.




Segundo os “analistas”, frases de Julliete “pareciam ter vindo diretamente do gabinete do ódio”, expressão cunhada para designar uma influência “radical” à direita e propagadora de “fake news” no governo Bolsonaro.[5] Trata-se de um rol de frases tidas como homofóbicas, transfóbicas, racistas e violentas:

“Você acha legal esse estereótipo? Eu não quero que você seja visto como bicha escandalosa” “Racismo não tem cor!”; “Eu gosto de pessoas sensíveis, eu gosto de pessoas divertidas, eu gosto de pessoas negras também”; “cala a boca travesti sem noção”; “eu quase que bati em você, sem querer, mas com muita vontade de acertar”.

O mal-estar é o de como a personagem preconceituosa e violenta, “assumidamente autoritária[...]” se tornou “a nova namoradinha do Brasil”. E a explicação prévia é a de que isto se deve a que “no Brasil isso é uma vantagem. [Já que] [c]onforme [o] Datafolha, o índice de apoio a posições autoritárias é de 8.10, numa escala de 0 a 10”.

Não é, definitivamente, uma questão de avaliar cada frase de Julliete. Poder-se-ia fazê-lo. Afinal, alertar do risco do estereótipo é discriminar? E só pessoas “de cor” serem passíveis de racismo é verdade inquestionável e baliza para designar alguém como de “extrema-direita”? E isso vindo de uma pessoa que sofria por ser nordestina? E dizer que gosta de “pessoas negras também” é racista, isso num ambiente em que um dos “jogadores” tinha proposto de saída uma aliança de negros contra brancos? E o “cala a boca travesti sem noção”, dirigido a uma mulher, no calor de uma discussão, é um manifesto?

E os inaceitáveis ataques de Julliete ao estereótipo sagrado se deveriam a “mitadas”, como a de apontar que quem “acolheu Lucas” – o “jogador” negro que havia proposto a unidade de negros contra brancos – “[f]oi a loirinha do olho azul que as pessoas querem enquadrar como privilegiada [...], foi a branquinha que tem cara de dondoca”. E do deslocamento do preconceito para outro grupo, dizendo que “[q]uando as vulnerabilidades de Lucas apareceram aqui, as pessoas mais machucadas aqui [referindo-se as [sic] participantes negros da casa] pum nele!!”.

Não é de estranhar que se atribua à Julliete “a luta pelo direito de pegar Covid-19”, pela frase “você quer se colocar em risco, é um direito seu”. Uma “pérola” que teria lhe valido o apelido de “Jairliette”, nas redes.  Ou que se atribua a ela ter “chutado o pé fraturado de alguém, [...] pedido desculpas rindo e anunciado [que] “o manco está bem e me perdoou”, e numa curiosa inversão, pedir se informasse se Bolsonaro teria feito algo parecido com tal “monstruosidade”.




E, para fazer o “espelho” do “bolsonarismo”, não podia faltar a referência às “fake news”. E, como a homenagear o tópico, falseia-se até o, já controverso, conceito. Visto que a atribuição é infundada. Difícil aqui evitar a citação in totum: “Na primeira festa, Juliette perguntou a Acrebiano se ele achava que ela falava alto. Ele respondeu: ‘Pode ser sincero? Você fala, sim’. Ela então declarou: ‘Sim, mas eu vou parar, acho falta de educação quem fala alto’. Logo em seguida, ela falou com Caio: ‘Seu amigo falou que eu falo alto e sou mal-educada’”. Como se uma fala desmentisse a outra... A conclusão “teórica” é também impagável: “Tendo muito a ensinar a Steve Bannon, cada desinformação da casa é acompanhada por uma rede de intensa capilaridade na internet que dissemina, distorce e cria fatos que beneficiam a narrativa da liderança de direita”.

A referência a Steve Bannon extrapola o julgamento da personagem a uma rede (social) de intrigas. Na qual versões distorcidas de falas e ações de outros “jogadores” seriam uma espécie de teoria da conspiração altamente sofisticada. Um “incendiar a internet com mentiras”, um “efeito manada”. Ou “para os sobreviventes de 2018 [houve mortos de 2018?], a ‘mamadeiradepirocação’”. Teoria da conspiração que inclui o apoio das “elites econômicas”, o que se depreende da frase “Eu frequento lugares da alta sociedade em São Paulo, Rio, Brasília.” De fato, uma “mamadeiradepirocação” bem alimentada, cevada com “informações” de equipes insinuadas como financiadas e interesse de marcas, do que resta a velha dúvida da propaganda de biscoito: Julliete “vende” por seu protagonismo ou tem protagonismo por ser “vendida”? Isso porque “[a] nova namoradinha do Brasil é tudo o que as empresas querem: a cara de dondoca e a empatia sempre performada em um belo sorriso”.

PARADIGMAS

Uma aproximação mais objetiva, para além de um interminável e labiríntico confronto de falas, atos e versões, é a da construção narrativa dos “analistas” do “bolsonarismo”. A oposição entre Julliete e Lumena aparece, então, como um confronto paradigmático entre a verdade e a mentira, a estratégia e a identidade. E a exclusão de Lumena, cerca de dois meses antes da final, a afirmação da “agressividade do racismo” e “um silenciamento”! O que se complementa com a identificação de “[o]utra bandeira comum à extrema direita”, “a luta contra o estereótipo do branco privilegiado”. Ou seja, um estigma pespegado a partir da defesa de um estereótipo... Ou com Fiuk, seu adversário na final, desde o início até mesmo acusado de artificialidade treinada em versões politicamente corretas.[6]

Despreza-se quaisquer outras contradições dos participantes, que povoaram as redes sociais. Como o perfil “problemático” dos participantes negros, ou a agressividade de Karol Conká, evidente até pelos prejuízos sofridos.[7] Algo tão evidente que suscitou uma polêmica sobre o perfil “problemático” dos participantes militantes “de esquerda”, negros e feministas. Tão evidente que até suscitou uma acusação de um plano com o objetivo de desacreditar o movimento negro.[8] Tal desprezo pelo óbvio se explica pela naturalização do discurso militante como intrínseca e previamente correto. E idêntico. A perspectiva identitária obnubila as contradições dos que possuem “lugar de fala” e reconhece na homogeneidade, ainda que simplória, como sinceridade. A verdade está em ser idêntico.

RAZÕES DA VITÓRIA

 E qual seria a chave para entender como Julliete atravessou olímpica a guerra de “lacrações” do BBB.[9] A crer na versão exposta no artigo, e presente nas redes, é uma sintonia entre a opinião pública, ou uma amostragem importante dela, e opiniões de “extrema-direita”, violentas, preconceituosas, odiosas.

O pensamento identitário vê no “negativo” do bem absoluto o seu exato inverso: o mal absoluto. O pensamento identitário se caracteriza pelo desinteresse para com a realidade social fatual, trabalhar com símbolos e breviários ideológicos simplórios, “dando as costas aos conteúdos concretos do sistema antropossocial”. Pressupõe uma epistemologia essencialista, pela qual as coisas se resumem a um “conjunto determinado de características fixas [e se] [p]erde de vista o movimento do real, o permanente estado de processo”. Capta pois a realidade “como fantasia, ilusão, mito e metafísica anti-histórica”.[10] Incapaz de apreender o real em movimento, de reconhecer ou ter um horizonte de mudança. Uma perspectiva incapaz “de formular um interesse comum”.[11]

A LINGUAGEM LINEAR NÃO COMPREENDE A REALIDADE DIALÉTICA

É que o que os bravos “analistas” interpretam como o "caos como método", “uma tática com um comportamento errático e confuso”, o “caos”, é lido pelas pessoas comuns, o “brasileiro médio”, como o cotidiano da vida social. O humor, a ironia e o jogo relativamente errático dos diálogos cotidianos não são vistos – ao arrepio dos ordenamentos prescritivos – como contravenção, crime ou “maquiavelismo”, o “[s]ou muito palhaça, pode ser que eu fale uma besteira ou magoe alguém com a minha ironia”, de Julliete é perfeitamente compreensível na experiência social popular.[12]

A “ambiguidade” de Julliete, que é buscada na avaliação de um “jornalista” sensacionalista, é nada mais, ou menos, que da natureza das relações humanas cotidianas. Citar Hegel sobre outro filósofo a propósito disto, como fazem os “analistas” é de uma pobreza intelectual profunda, um verniz que só faz evidenciar a rata. Um perfume intelectual que não esconde a profunda incapacidade de lidar com o real contraditório e tenso.

Pontuar a demolição da personagem com depoimentos de outros participantes pode parecer algo diverso do pastiche intelectual de citar uma cientista política ou Hegel, mas não é. As acusações de ser “chata” e, principalmente, a cobrança de Fiuk de que fosse “mais transparente, mais sincera”, e a acusação de trabalhar com ironia, são a mesma coisa. O manejo “intelectual” rasteiro e a delimitação opiniática são faces da mesma ideia prévia de prescrição ideológica, política, comportamental e de linguagem.

OPTOFOBIA

Os autores do repto contra a Juliette bolsonarista acusam, previamente, os disso discordarem de “optofobia”, o que seria o medo de abrir os olhos. Como adiantamos, não é estranho que se diga que os “sem noção” e os “hegemônicos” são o mesmo. Trata-se de uma percepção do povo. Mas é pior, embebida na superstição identitária, tal concepção não considera a possibilidade de convencimento. O voto no BBB, ou o voto em geral, é um decalque do reacionarismo popular, além disso manipulado pelos fios invisíveis de uma teoria da conspiração.

Numa comparação cômica de Julliete com o ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro, diz-se que “Juliette acrescenta que não é tão autoritária assim, pois, caso alguém tenha um argumento que ela considere bom, está disposta a aceitar”. Não há argumentos, não há nuances, não há debate possível. A justiça e a bondade exalam de cores, gêneros e sexualidades e de seus “lugares de fala”. O autoritarismo e a maldade, por conseguinte, também. E a linguagem é binária, simplória, e é dividida entre o correto e o incorreto, entre o que pode ou não ser dito.

O BBB não tem importância. O que tem importância é esta incapacidade de aceitar a complexidade da experiência social e da linguagem que se manifesta de forma ridícula num entretenimento um tanto tosco. Cegueira pouca é bobagem. E os 90,1% dos votos em Juliette, contra 4,62% do cartilhesco Fiuk têm o seu significado.[13]

 



[1] Ratinhos na caixinha. https://www.facebook.com/wlamir.silva.9/posts/3753424011407745

[2]Jairo Malta e Isabelle Strobel. Por que Juliette do BBB parece a tropa de choque bolsonarista. Folha de São Paulo. 4.mai.2021. https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2021/05/por-que-juliette-do-bbb-parece-a-tropa-de-choque-bolsonarista.shtml, acessado em 4 de maio de 2021.

[3] Os votos podem ser multiplicados por máquinas, ou IPs, não sendo exatamente o número de pessoas.

[4] Na ocasião da publicação já era claro que a moça era “favorita do jogo”, confirmado largamente.

[5] O que é o “gabinete do ódio”, que virou alvo da CPMI das Fake News. Gazeta do Povo. 06/12/2019. https://www.gazetadopovo.com.br/republica/gabinete-do-odio-alvo-cpmi-fake-news/ 

[6] Historiadoras falam de aulas que deram para Fiuk: "Está distorcendo"... Universa UOL. 30.1.2021.

https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/01/30/fiuk-bbb.htm?cmpid=copiaecola, acessado em 5 de maio de 2021.

[7] Ver BBB 21: Karol Conká acumula prejuízos e perde contratos. Terra. 11.2.2021.

https://www.terra.com.br/diversao/tv/reality-shows/bbb-21-karol-conka-acumula-prejuizos-e-perde-contratos,0a36fecaa0bae8882af6dfcd1ec2e43acsn0589l.html, acessado em 5 de maio de 2021.

[8] Ver BBB 21: 'Esquerda criou palco, ganhou espelho e não gostou do que viu', diz filósofo sobre o reality. BBC News Brasil. 11.22021, e BBB21: a escolha do casting negro “problemático” não foi por acaso. Mundo Negro. 5.2.2021.

https://mundonegro.inf.br/bbb21-e-a-estrategia-para-negros-influencers/

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56014519

Acessados em 5 de maio de 2021.

[9] O artigo aqui citado reúne uma tendência nas redes, ver BBB21: Web enxerga transfobia em fala de Juliette. Observatório G. s/d. https://observatoriog.bol.uol.com.br/noticias/bbb21-web-enxerga-transfobia-em-fala-de-juliette, acessado em 5 de maio de 2021.

[10] Pedro Gómez García. Las desilusiones de la “identidad’. La etnia como seudoconcepto. In: Pedro Gómez García (org.). As ilusões da identidade. Madrid: Frónesis, 2000.

[11] Eric Hobsbawm. A política da identidade e a esquerda. In: Bruno Peixe Dias e José Neves (Coord.). A política dos muitos. Lisboa: Tinta da China, 2010.

[12] É elucidativo que se diga que a “autodescrição [...] poderia ser atribuída ao humorista Danilo Gentili, sem maiores explicações, o que denota uma configuração de campos dada por óbvia.

[13] No BBB 2019 venceu Paula Von Sperling, loura de olhos verdes que foi acusada de racismo durante o programa. No de 2020, Martha Assis, negra que se manifestou contra o racismo. Juliette é branca, mas nordestina. Ao que parece, o que move os votantes não são as cores, ou preconceitos, mas o discurso identitário obtuso, e a “ambiguidade” de Juliette convenceu mais, e muito, que a “sinceridade identitária”.