Wlamir Silva
Professor e historiador
Uma barbaridade cometida por três imbecis prendendo um jovem marginal
num poste com uma corrente de bicicleta é mote para mais uma torrente de
tolices acerca do país.
Na nossa impagável Câmara de deputados
"debatem" a senhora Benedita da Silva, que vê senzala em tudo e divide a
sociedade em pobres e classe média, e o imbecil de plantão Bolsonaro,
que faz a apologia da violência privada e trata tudo na base do "ou
lincha ou leva pra casa".
Nas redes sociais - reflexo das ruas,
quando saberemos? - a barbárie do "bandido bom é bandido morto" é
contraposta pelo idílico mantra em defesa do "preto pobre", com direito a
ameaças de exclusão para quem não concordar...
Logo somos,
como um todo, um "país racista". Fato corroborado pelo pinçar de
declarações infelizes de alguns idiotas. Perdidos entre 200 milhões de
brasileiro e 37 milhões de frequentadores da rede.
Pobres e
pretos são identificados nas duas leituras canhestras da questão social
brasileira. Afinal, como já mostrou a cancioneira popular, o amor e ódio
se irmanam na fogueira das paixões...
Os pobres e pretos da
deputada Benedita são os mesmos da "gentalha" do deputado Bolsonaro.
Todos os bandidos são pobres, todos os pobres são bandidos.
Como se, na evidente realidade social que produz o crime em grande
escala, "pobres" não fizessem a opção pela honestidade e o trabalho, e
não fossem eles as maiores vítimas dos que optam pela criminalidade.
Como se os trabalhadores que sofrem nas ruas escuras e vielas, ou na
direção de seus carros populares comprados a duras penas, não fossem a
maior parte dos que ouvem o desesperador "perdeu, playboy".
Como se não fossem trabalhadores e seus filhos as vítimas do terror das
transbordantes cracolândias e seus zombies (capricho na grafia inglesa
para fugir da possível confusão com o Zumbi dos Palmares).
As
bárbaras hordas de justiceiros - reais ou imaginárias - são igualadas a
qualquer reação a marginais. Qualquer tentativa de autodefesa e
indignação classifica os indivíduos como pré-linchadores e pitboys...
Aliás, quem seriam os plutocratas num mercadinho de Copacabana às três
da tarde?
Na matéria abaixo, uma pequena confusão num mercado,
terminada sem agressões ao taludo menor de 17 anos, é vista como um
fenômeno sociológico - a "lógica do esculacho", por favor, não riam.
O terrível "esculacho" foi exemplificado - restrito? - a alguns
xingamentos, com destaque para o do pitboy, com o monstruoso "“Vai
trabalhar, vagabundo!”. Frase que está, fácil, no repertório dos
trabalhadores brasileiros.
Ao contrário, a agressão efetiva foi
feita pelo menor, "visivelmente drogado" - creio que isso deveria ser
uma atenuante... - ao segurança que o deteve, com uma pedra. Esta pedra
era só defensiva?
Honestamente, não me eximo de agredir um
assaltante que perceba que possa me agredir. Nem me deixaria roubar em
respeito à sua pobreza - aliás, sempre relativa.
Pobreza
relativa porque apesar dos muitos jovens da mesma origem social
delinquírem, a enorme maioria não o faz. E nem sempre os que o fazem são
aqueles que vivem sob as piores condições, sob o duro tacão do capital.
Aos que trabalham devemos a luta por melhores condições para tal, assim
como de educação, saúde, transporte. Ao que delinquem a assistência
social e a repressão policial em padrões civilizados.
Porque,
repito, é a massa trabalhadora que sofre mais de perto e cruamente com a
barbárie da "escória", do "refugo", que só quer "se beneficiar às
expensas da nação laboriosa", como dizia Karl Marx...
O elogio
foucaultiano ao marginal joga a classe trabalhadora nos braços dos
bolsonaros, ainda que amaine a culpa de alguns da classe média. A
distinção entre eles e a classe trabalhadora para além da farsa "ricos x
pobres", fugindo aos simbolismos fáceis e midiáticos, é revolucionária.
http://oglobo.globo.com/rio/adolescente-tenta-roubar-comida-quase-linchado-em-copacabana-11505969

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